Perspectivas 2011 – Distribuição – Clientes em atividade garantem expansão de negócios, mas governo precisa fazer ajustes

química e derivados, perspectivas 2011, distribuição de produtos químicosUm ano de recuperação. Assim 2010 ficará gravado na memória dos distribuidores de produtos químicos do Brasil. A Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim) estima para o ano um crescimento entre 12% e 15% no faturamento bruto do setor. Como em 2009 a distribuição registrou queda de vendas – US$ 4,76 bilhões, contra os US$ 5,24 bilhões de 2008 –, a associação espera que 2010 tenha sido encerrado com faturamento anual bem próximo do valor obtido há dois anos.

“Voltamos a 2008”, resumiu Rubens Torres Medrano, presidente da Associquim e do Sincoquim, o sindicato estadual da categoria comercial. Mas a análise do dirigente setorial é menos alvissareira. “Talvez 2010 tenha gerado resultados piores que 2009”, comentou. A explicação está ligada ao ambiente de negócios no início de cada exercício e ao comportamento da taxa cambial.

Como a crise econômica global eclodiu em setembro de 2008, todas as empresas industriais e comerciais iniciaram 2009 com estoques praticamente zerados. Com os bons resultados da economia brasileira e os sinais de recuperação em alguns países desenvolvidos, houve ameaça de restrição de oferta de vários produtos químicos, motivando os comerciantes a construir estoques protetivos para o início de 2010. No entanto, com a manutenção dos baixos preços internacionais e com a alta do real perante o dólar, esses estoques acabaram sendo vendidos com margens muito estreitas. “Com o câmbio de 2010, as vendas de produtos que seguem os preços internacionais dolarizados, como os químicos, renderam menos reais, que é a moeda com a qual pagamos nossos custos”, explicou.

Medrano também compara a atividade comercial com a evolução da indústria química nacional que, com dados preliminares da Abiquim, apresentou aumento de 7,5% nas vendas internas entre 2009 e 2010. “Estamos acompanhando o crescimento da cadeia produtiva, mas fomos obrigados a aumentar a importação de vários produtos cuja produção nacional é insuficiente para suprir a demanda”, comentou. A mesma Abiquim tem ressaltado nos últimos anos a taxa de crescimento pífia da indústria química local. Isso indica que os distribuidores devem se preparar para buscar mais fontes de suprimento no mercado internacional.

Isso, no entanto, não é muito interessante para a rede de distribuição. O estudo da Associquim intitulado Perfil do Setor de Distribuição de Produtos Químicos e Petroquímicos 2009 mostra que quase 74% do valor de vendas do comércio setorial se refere a itens produzidos no Brasil. “Importação muito grande é um risco para a distribuição química, considerando o comprometimento de capital de giro, o risco cambial, custos logísticos e a concorrência”, salientou Medrano. Ele observa que, cada vez mais, os distribuidores estão sendo usados como canal de vendas pela indústria química mundial.

Na parte operacional das importações, o grande gargalo continua sendo o Porto de Santos-SP, o maior do país. É um porto congestionado, com altos custos e baixa eficiência, especialmente por conta do baixo calado, que obriga os cargueiros a trafegar com meia carga para não encalhar. “Estão dragando o canal para aumentar a profundidade, mas esse trabalho precisa ser contínuo”, afirmou. Segundo o dirigente setorial, depois de liberadas as mercadorias em Santos, a etapa seguinte é tranquila, uma vez que as bases dos distribuidores estão sendo usadas abaixo de sua capacidade nominal.

Santos, embora complicado, ainda é a melhor opção, pois está mais perto dos compradores de produtos químicos. Segundo Medrano, Itajaí-SC tem sido usado por alguns distribuidores para cargas embaladas (não opera com granéis químicos). “Eles oferecem uma vantagem tributária, mas a Secretaria da Fazenda paulista não a admite e impõe uma alíquota complementar, manobras típicas da guerra fiscal entre estados, uma atitude que precisa ser revista com urgência, no escopo de uma reforma tributária nacional”, comentou.

A taxa cambial, com o real valorizado, estimula as importações. Mas não só ela. “O Brasil é competitivo até a porta das fábricas, depois fica tudo mais caro com impostos e custos diversos”, avaliou. Para ele, o ideal seria reduzir drasticamente o chamado custo Brasil, aumentando a produtividade e reduzindo custos em todos os níveis e setores. “Sem o gerenciamento adequado dos gastos públicos não haverá reforma tributária e os juros continuarão a ser os mais altos do mundo”, explicou. Aliás, a taxa primária da economia nacional foi elevada em 0,5% em janeiro, na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do novo governo federal, ampliando a distância do país como o detentor das mais altas taxas de juros reais do mundo (estamos em 5,5% ao ano). Isso atrai investimentos financeiros, fortalecendo mais o real, para desgosto da produção nacional.

O peso dos tributos também assusta. Levantamento da Associquim estimou a carga tributária incidente na ordem de 25% do faturamento bruto da distribuição química nacional em 2009. Os salários (diretos e indiretos), por exemplo, não passaram de 4,11%.

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Medrano: Brasil é competitivo só até a porta das fábricas

Riscos e oportunidades – Os primeiros meses de 2011 devem ser dedicados a ajustar a economia nacional pela nova administração federal. “O governo Dilma precisa controlar o custeio do setor público, que acumula um déficit enorme, capaz de colocar em risco a estabilidade econômica”, afirmou Medrano. Fora isso, ele não espera mudanças muito drásticas em relação ao governo anterior.

A elevação dos juros e as restrições impostas ao crédito aos consumidores em dezembro, especialmente nos veículos automotores, parecem ter sido absorvidas sem maiores dificuldades. A construção civil mantém o ritmo de lançamentos imobiliários, sustentando a atividade econômica. “2011 deve ser melhor que 2010”, prognosticou.

No aspecto regional, a Associquim identifica um aumento significativo da demanda química nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. “Muitos players passaram a atuar nesses mercados, geralmente atraídos por seus clientes oriundos de outras regiões, como empresas calçadistas e automobilísticas, ou mesmo por contratos internacionais de suprimento”, comentou. “Vamos ver como ficará a situação por lá nos próximos anos com tanta concorrência.”

Esse deslocamento de mercado traz de volta o debate sobre a necessidade de abrir bases regionais de distribuição. “Os custos de manter bases pelo país são muito elevados e os aspectos regulatórios são complexos, exigindo atenção redobrada”, aconselhou. As decisões devem ser tomadas com foco na rentabilidade das operações, segundo os critérios de cada distribuidor.

A Associquim contratou a consultoria Maxiquim para conduzir um estudo sobre a imagem da distribuição química pela óptica do setor produtivo (clientes e fornecedores). “Com esse estudo, esperamos obter novas indicações de marketing, identificando pontos fortes e fracos da distribuição, necessários para manter um processo de melhoria contínua setorial”, explicou Medrano.

O dirigente considera que todas as entidades setoriais precisam se fortalecer por meio da oferta de mais e melhores serviços aos seus associados. Da parte da Associquim, o programa Distribuição Responsável foi aprimorado em 2010, com a uniformização dos códigos e práticas do Brasil com os do Canadá e dos Estados Unidos. “Agora, qualquer produtor desses países encontrará no Brasil distribuidores com o mesmo nível de qualidade de serviços, facilitando novos acordos comerciais e reforçando o compromisso setorial com a sustentabilidade”, afirmou.

A Associquim está atenta aos reflexos da nova política nacional de resíduos sólidos, lançada em 2010, preparando-se para prestar novos serviços aos associados, também por meio de parcerias com os fabricantes (via Fiesp) para compartilhar os riscos. “Pneus, baterias e lâmpadas já possuem regulamentação que obriga os fabricantes a receber e destinar corretamente os produtos usados, mas isso ainda não foi definido para os químicos”, comentou Medrano. Para os distribuidores, ele acredita que a responsabilidade adicional dirá respeito ao gerenciamento das embalagens usadas, de forma semelhante ao que é feito com os defensivos agrícolas.

“Podemos avançar nas linhas de logística reversa dessas embalagens ou até adotar um novo modelo, privilegiando os contenedores tipo IBC (intermediate bulk container), mas tudo isso terá um custo. Quem pagará?”, indagou. A associação reforçou sua representação no setor legislativo para acompanhar os debates.

No âmbito internacional, Medrano recomenda observar a evolução da distribuição química chinesa. “A associação chinesa ingressou como membro permanente do Conselho Internacional de Associações de Comércio Químico (ICCTA) em 2010 e iniciou o programa Social Responsibility, adequado às normas do conselho”, informou o dirigente que presidiu a entidade mundial por dois anos, período encerrado em maio passado. A China ainda não conta com uma distribuição química perfeitamente estabelecida, mas se esforça para tanto. Segundo Medrano, os chineses têm um mercado interno pujante e é crescente a preocupação com os cuidados ambientais e sociais, inclusive contra o trabalho escravo ou em más condições de higiene e segurança. “Os produtos químicos de lá estão melhorando rapidamente de qualidade, muitos participam até do programa europeu Reach”, comentou.

Mais perto do Brasil, os Estados Unidos ainda lutam para superar os efeitos da crise de 2008. “Os bancos americanos estão lotados de dólares para emprestar, mas faltam bons projetos, que são mais fáceis de encontrar nos países em desenvolvimento, os Brics”, informou. A oferta de recursos é ampla nos países desenvolvidos, porém com a mesma dificuldade. Os efeitos da crise somados ao fortalecimento do real aproximaram os custos de produção do Brasil aos dos países desenvolvidos, principalmente em relação à mão de obra. “Os americanos recuperaram competitividade, tanto que exportam 7% da sua produção de automóveis e ainda têm a oportunidade de aproveitar o gás natural barato de descoberta recente (shale gas)”, afirmou.

Esse cenário motivou algumas grandes empresas internacionais de distribuição a sondar empresários brasileiros para aquisições. “Houve consultas, mas os negócios não se concretizaram porque os preços oferecidos ficaram muito aquém das expectativas”, explicou Medrano. As ofertas recebidas pelos distribuidores locais ficaram em torno de um múltiplo de cinco vezes o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), uma queda brutal quando comparado aos múltiplos de 11 vezes praticados antes da crise. A distribuição nacional esperava ofertas de, pelo menos, sete vezes o Ebitda, segundo distribuidores que foram sondados (e auditados) por interessados que se dispunham a pagar múltiplos entre cinco e 5,5.

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