Perspectivas 2011 – Couro – Taxação a calçados chineses reanima curtumes nacionais

química e derivados, perspectivas 2011, couroO ano começa com expectativa positiva para a indústria coureiro-calçadista e projeção de crescimento de 10% acima do PIB nacional. Essa é a avaliação da diretoria da Associação das Indústrias de Curtume do Sul (Aicsul). Segundo o novo presidente executivo da entidade, Moacir Berger, o principal gargalo da indústria era a avalanche de importações de couro e plásticos como materiais substitutos da China em condições de dumping explícito. A recuperação do setor deixa em alerta, no sentido positivo, a indústria química, que certamente se beneficiará do aumento da demanda pelo processamento do couro.

Como o governo federal ao longo de 2010 passou a tributar os calçados provenientes do extremo oriente houve uma significativa recuperação. “A taxação dos produtos chineses foi bem-vinda”, elogia Berger. O presidente executivo da Aicsul denuncia que existe ainda alguma importação usando outros países como entreposto. Mesmo assim, está confiante no crescimento setorial de 10% acima do PIB nacional, em 2011.

De acordo com Berger, as exportações já vinham crescendo ao longo de 2010 e essa é uma excelente sinalização do que virá neste novo período. Para ele, o setor de calçados e artefatos irá recuperar as margens anteriores a 2007, quando o país passou a exportar muito wet blue, o couro de baixo valor agregado, derrubando os negócios da cadeia produtiva do couro. O presidente executivo apregoa que agora é o momento de o setor restaurar também a sua rentabilidade, apesar da valorização do real. “O ideal seria o dólar a dois reais, mas cada empresa tem seu custo. Seria um sonho. É o número excelente para trabalhar”, enfatiza o líder empresarial.

A confiança em 2011 se afirma em cima dos números de 2010. De janeiro até novembro do ano passado, o Brasil embarcou 129,5 milhões de pares de calçados contra 114,9 milhões no mesmo período de 2009, perfazendo um acréscimo de 12,7%. Em faturamento, o resultado foi de US$ 1,4 bilhão em onze meses – alta de 9,8%. Os dados foram tabulados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, com base nos números fornecidos pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Nesses onze meses de franca recuperação de um setor que passou quatro anos voando baixo, os Estados Unidos se mantiveram como os principais compradores em volume: 27,7 milhões de pares. Em valores, os norte-americanos compraram US$ 318,2 milhões em calçados fabricados no Brasil. Haviam comprado 25,1 milhões de pares em 2009, embora em dinheiro tenham deixado mais dólares aqui no ano retrasado, US$ 320,8 milhões.

Em termos de faturamento, o segundo comprador mais importante é o Reino Unido, responsável por divisas da ordem de US$ 167 milhões, provenientes da compra de 6,8 milhões de pares. Em igual período de 2009, foram adquiridos 6,5 milhões de pares, que resultaram em faturamento de US$ 163 milhões.

O tema ambiental também foi tratado. Berger recordou que deixou a entidade, há 21 anos, ainda como empresário do setor, num momento em que os curtumes eram considerados os grandes poluidores do mundo, mas também se esperava que um dia eles lançariam água limpa em um rio poluído, o que segundo ele está acontecendo atualmente.

Berger assumiu a presidência executiva da Aicsul em 3 de janeiro em lugar de Francisco Gomes, que deverá presidir o conselho da entidade a partir de abril. A escolha de contratar um dirigente de alto escalão faz parte da estratégia de profissionalização da entidade.

Químicos confiantes – O presidente da Associação Brasileira dos Químicos e Técnicos da Indústria do Couro (Abqtic), Roberto Kamelman, reafirma sua confiança no crescimento do setor e da demanda para químicos e técnicos do couro nos próximos anos. “Eu não sou cético quanto ao futuro da profissão de técnico químico em couro. Temos o maior rebanho bovino comercial do mundo, excelentes profissionais, centros de capacitação e pesquisa, e tecnologia de ponta para processar nossa matéria-prima dentro de padrões internacionais de qualidade”, reforça Kamelman. E continua: “Não podemos confundir dificuldades conjunturais, muitas delas oriundas de uma crise econômica sem precedentes no mundo, com as eventuais dificuldades estruturais que nosso setor e o país ainda devem superar”, esclareceu o dirigente da Abqtic.

O presidente salienta que, com a crise econômica mundial de 2008, a exportação caiu perto de 50% quando comparada com os US$ 2,2 bilhões de 2007, mas ainda assim o valor exportado é muito significativo, tendo um peso importante na balança comercial do país. E vem se recuperando ano a ano com a economia mundial.

Kamelman salienta que o técnico cuida de todas as etapas de produção do couro, desde a preservação do couro cru até a expedição do produto acabado. As responsabilidades dos químicos de curtumes vão muito além dos processos, envolvendo ainda o desenvolvimento de artigos compatíveis com as tendências de moda, adequando a produção às exigências ambientais e de custos, não sendo raros os casos de químicos de curtume que assumem funções gerenciais e de marketing. “Acho também importante deixar claro que, apesar do couro wet blue ser um produto de menor valor agregado do que o acabado, não é correto afirmar que seja um produto de baixa tecnologia. Os cuidados com as primeiras etapas de fabricação do couro determinam sua qualidade final”, pontifica o especialista.

Além disso, Kamelman avalia que a exportação de wet blue é um fato de origem antiga e não afeta as exportações de couros acabados. “O Brasil nunca exportou percentual significativamente maior de couro acabado do que em 2007, o recorde de nossa indústria”, enfatizou. Ele afirma ter sido mal interpretado em entrevista publicada na edição QD-501 (agosto de 2010), na qual teria se manifestado de forma diversa. “O título daquela reportagem [Wet blue tira emprego de químicos] teve impacto, mas não corresponde à realidade, pois não se pode tirar o que não existe ou existiu”, refutou. “O que seria possível argumentar ou concluir é que, caso as condições de mercado permitissem que o Brasil exportasse uma porcentagem expressivamente maior de couro acabado, surgiriam novas oportunidades de emprego.” (N. do E.: foi exatamente esse o sentido do título).

Naquela entrevista, também se mencionou de forma crítica a “exportação” de profissionais qualificados para países concorrentes. “Sobre a migração de químicos de curtume brasileiros a outros países, isso demonstra mais a grande capacidade dos técnicos formados no Brasil do que a falta de oportunidades por aqui. Assim como químicos de couro brasileiros encontram oportunidades de trabalho fora, estrangeiros acham oportunidades aqui. Eu, como profissional da área, estrangeiro radicado no Brasil há trinta anos, achei nesta terra bendita a oportunidade para minha realização pessoal e profissional e sou prova viva disso”, salientou.

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