Perspectivas 2011 – Ambiente – Setor de engenharia ambiental inicia o ano confiante e com agenda lotada de projetos

química e derivados, ambiente, perspectivas 2011O mercado da chamada “indústria verde” está empolgadíssimo com 2011. E isso não tomando por base meros exercícios de futurologia, mas motivos palpáveis que já fazem o setor de engenharia e serviços ambientais, logo nos primeiros dias do ano, sentir um ambiente de negócios bastante animado. “Este janeiro, depois de muitos anos, foi o primeiro em que não conseguimos dar férias aos funcionários, tamanha a demanda de propostas e as obras em andamento”, disse Giovanna Galante, superintendente da Essencis Soluções Ambientais e também presidente da Associação Brasileira das Empresas de Consultoria e Engenharia Ambiental (Aesas), que congrega importantes empresas da área.

Na sua visão, que segundo ela é compartilhada com os demais associados da Aesas, 2011 deve ser um ano atípico, seguindo uma trajetória iniciada em meados do segundo semestre de 2010. “Uma grande demanda represada na indústria está estourando agora. Eles postergaram o quanto puderam, mas agora começam a desengavetar os projetos”, disse Giovanna.

Para a presidente da Aesas, a retomada teve o primeiro incentivo vindo da recuperação de caixa na indústria, que passou cerca de dois anos sob o impacto da crise mundial. Mas teve grande influência também a intensificação na fiscalização em 2010, que embora ainda não seja a ideal pelo menos serviu para “acordar” e acelerar alguns infratores a fazer algo em seus sítios contaminados. “A Cetesb foi mais atuante”, disse. Isso sem falar que nacionalmente há agora uma resolução Conama (13577) que regulamenta a gestão de áreas contaminadas.

Reocupação – Por trás da retomada de fôlego dos clientes interessados em usar os serviços das consultorias e empresas da área, porém, está algo determinante não só para a confiança renovada para 2011 como para o amadurecimento futuro do setor. Trata-se da tendência de reocupação e uso de áreas contaminadas, responsável muitas vezes pela viabilização econômica das obras de remediação de solos e águas subterrâneas. Em resumo, é a situação na qual o proprietário de uma área contaminada encontra um comprador para o terreno, o que se dá apenas depois da descontaminação do local.

Esse fenômeno vem ocorrendo com frequência, principalmente em São Paulo, onde há vários dos chamados brownfields (regiões bairros com indústrias desativadas e contaminadas), que passam a ser ocupadas por empreendimentos imobiliários e, em certos locais, por novas indústrias ou centrais logísticas. “Mais do que a fiscalização, que no Brasil ainda é muito desaparelhada, esse se revela o verdadeiro motor da remediação de solos”, afirmou Giovanna.

O interesse econômico de pessoas comprando e vendendo terrenos tem peso bem maior do que qualquer tipo de idealismo ambientalista. Além do mais, para um país como o Brasil, que não conta com um fundo público para arcar com os altos valores de um projeto de remediação, trata-se de uma saída importante para solucionar esse grave problema ambiental (apenas no estado de São Paulo estima-se que existam cerca de 5 mil áreas contaminadas). Só para se ter uma ideia, nos Estados Unidos por volta de 80% das remediações são feitas com verba do Superfund, fundo criado há anos com dinheiro proveniente de multas ambientais. Sem recurso parecido com o norte-americano, fica difícil esperar no Brasil grande movimentação na área sem a participação ativa do setor privado.

Um exemplo dessas operações ocorre agora em uma obra no Porto de Santos, cujo consórcio faz parte a Essencis e com liderança da Construtora Andrade Gutierrez e da Brasil Terminal Portuário (BTP). Trata-se da recuperação de uma área de 342 mil metros quadrados que durante cinquenta anos serviu como depósito de lixo da Companhia das Docas do Estado de São Paulo (Codesp). A remediação visa a criar um novo terminal portuário no congestionado porto paulista.

A concessão privada cedida pela Codesp à BTP tornou viável um projeto que, na mão apenas do estado, seria quase uma utopia. Isso porque o investimento total para a ampliação do porto chega a R$ 1,2 bilhão. Só para a recuperação do terreno o investimento estimado é de mais de R$ 235 milhões. “Esse projeto serve como modelo de ocupação inteligente de área contaminada e já não é o único. Outros, de menor escala, ocorrem pelo país, sobretudo em São Paulo”, disse.

Infraestrutura – Além da tendência de ocupação do solo descontaminado, outra vertente de negócios que deverá tomar força total em 2011 é a ligada aos investimentos em infraestrutura no Brasil. “O país tem um gap grande na área e há muitas novas obras com demanda obrigatória, em seus licenciamentos ambientais, por investigações e até remediações”, disse Giovanna. Na mesma linha, a dirigente cita as demandas abertas com os dois grandes eventos esportivos, a Copa do Mundo de Futebol e a Olimpíada no Rio, que já começam a puxar muitos projetos, no bojo dos EIA-Rimas (estudos de impacto ambiental) exigidos para as obras.

Exemplos dessa tendência são as várias investigações de solo e águas subterrâneas para as obras de ampliação do Metrô de São Paulo. “Há várias estações e linhas que ficavam embaixo ou na vizinhança de postos de gasolina que deixaram vazar combustíveis no solo”, afirmou Giovanna. As empresas de consultoria e engenharia ambiental trabalham aí não só fazendo o levantamento hidrogeológico como, muitas vezes, na remoção dos contaminantes.

Tanto nas obras de infraestrutura como em outras para reocupação de solo, essas empresas podem (e devem) também auxiliar na conduta posterior à remediação, já na fase de novo uso. “É importante o novo ocupante saber até que ponto ainda há riscos na área anteriormente contaminada”, complementou a presidente da Aesas. Há casos, por exemplo, em que fica vedado o uso do lençol freático da área.

Consolidação – No aspecto estrutural do setor de engenharia e consultoria ambiental, o cenário também promete melhorar. Segundo Giovanna, as boas perspectivas e os negócios de fato começando a ocorrer provocam consolidação entre as empresas do ramo, com a entrada até de pesos-pesados internacionais, como a americana Aecom, que comprou globalmente a ENSR (esta com escritório local). “Acredito que no máximo em cinco anos o setor estará mais amadurecido, com menos empresas amadoras e pequenas, que tradicionalmente prejudicam a imagem de todos”, disse.

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Giovanna: reocupação de solos fomenta os projetos de remediação

A reestruturação do setor deve tornar o mercado mais concentrado em grandes grupos, com atuação diversificada na gestão ambiental e mais profissionalizado. Isso já ocorre em empresas como a Haztec, que incorporou a Estre e com isso ampliou ainda mais o seu portfólio de ofertas de serviço e engenharia ambiental, desde a remediação e investigação de solos, passando pela fabricação e instalação de equipamentos e sistemas de água e efluentes, destinação de resíduos com aterros e incineradores próprios, coprocessamento, entre várias outras tecnologias.

Na mesma linha de verticalização, a Essencis tem planos de ampliar sua já grande oferta. Além da remediação de solos, do incinerador e aterros próprios, da chamada logística reversa e do coprocessamento em fornos de cimento, a ideia, segundo Giovanna, é entrar no mercado de tratamento de água e de tudo o que for necessário para fechar o pacote de gerenciamento ambiental em clientes industriais. “A estratégia é nos tornarmos um competidor no modelo one-stop-shop”, afirmou.

Mas o maior receio com esse crescimento e amadurecimento do setor é a escassez de mão de obra qualificada, uma preocupação que toma conta dos associados da Aesas. “Os profissionais vão ser contratados a peso de ouro”, lamentou Giovanna. Isso porque vale lembrar que o setor de engenharia e gestão ambiental é relativamente novo no Brasil e não há muitos engenheiros, geólogos e técnicos com experiência no mercado. “E para formar um recém-saído da universidade leva no mínimo dois anos”, complementou. E também não custa acrescentar que boa parte deles também é assediada por outros setores em ascensão, como o de petróleo e mineração. Reside aí mais um desafio – que passa pelo déficit educacional brasileiro – com urgência de ser enfrentado, sob o risco de comprometer o crescimento de um setor de comprovada vocação nacional.

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