Petroquímica: Previsão de bons negócios

Perspectivas 2010: Ano começa animado, com previsão de bons negócios e anúncio de consolidação setorial

O agregado da indústria química (incluindo setores correlacionados, como tintas, cos­méticos, fertilizantes e ou­tros) começa 2010 em situação diametralmente oposta da que estava no início de 2009.

Naquele momento, o horizonte divisado era tenebroso.

A crise mundial ainda ceifava suas vítimas, indo muito além do setor financeiro.

Para piorar, 2008 havia sido um ano de vendas e preços excepcionais, pelo menos até setembro.

Dessa forma, era sabido que 2009 seria um ano de resultados negativos.

A situação atual é muito mais animadora.

Os resultados de 2009 foram ruins em todo o mundo, como se previu. Mas o ano terminou com sinais de recuperação de negócios em várias regiões geográficas. No caso brasileiro, a queda não foi das mais acentuadas.

O agregado químico registrou vendas de R$ 206,7 bilhões, 7% abaixo do recorde de R$ 222,3 bilhões alcançado em 2008. Em dólares, o faturamento de US$ 103,3 bilhões ficou 15,5% abaixo do ano anterior. A diferença entre os percentuais é explicada pela valorização do real em relação ao dólar.

Os números precisam de um polimento. O faturamento cadente foi mais influenciado no Brasil pela baixa nos preços mundiais dos produtos químicos. Em volumes, a queda foi menos dramática. Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) mostram que as vendas de produtos químicos para uso industrial (o setor químico propriamente dito) caíram de R$ 112,3 bilhões em 2008 para R$ 96,6, em 2009, um tombo de 14%. Em dólares, a queda foi de 21,1%, de US$ 61,2 bilhões para US$ 48,3 bilhões.

Porém, no período, a produção nacional cresceu 2,9%, embora seja importante salientar que 2008 foi marcado pela parada geral de manutenção das três centrais petroquímicas brasileiras. Alguns segmentos consumidores, como o de cosméticos e o farmacêutico, tiveram aumento de vendas e de volumes entregues.

Marcos De Marchi, presidente da Rhodia América Latina e coordenador da comissão de economia da Abiquim, considerou que “2009 foi um 2008 de cabeça para baixo”. O primeiro trimestre de 2009 foi ruim, marcado pelo clima de crise internacional e pela desova de estoques nas cadeias produtivas, derrubando os indicadores de vendas químicas, tal como aconteceu no último trimestre de 2008.

“A situação foi melhorando aos poucos e os números de setembro já foram melhores que os do mesmo mês em 2008, e outubro de 2009 foi ainda melhor que outubro de 2007”, explicou. O resultado final de 2009, portanto, não ficou muito diferente do de 2008, como afirmou.

As expectativas do setor para 2010 são positivas. “A demanda química no Brasil é puxada por setores econômicos que estão muito bem, o agropecuário, a indústria do petróleo, a de tintas e a de cosméticos”, avaliou Pedro Wongtschowski, primeiro vice-presidente da Abiquim e presidente do grupo Ultra. Isso aponta para um crescimento de consumo de produtos químicos para 2010.

Bernardo Gradin, presidente do conselho diretor da Abiquim e presidente da Braskem, projeta para 2010 um crescimento de consumo nacional de resinas termoplásticas de 6,5%.

Química e Derivados, Bernardo Gradin, presidente do conselho diretor da Abiquim e presidente da Braskem, Petroquímica - Ano começa animado, com previsão de bons negócios e anúncio de consolidação setorial
Gradin propõe pacto para fortalecer toda a cadeia produtiva

“O setor químico brasileiro terá um bom ano pelas medidas anticíclicas adotadas pelo governo federal e pela inércia dos investimentos recentes”, considerou.

O panorama internacional, porém, é menos nítido.

“A China e a Índia querem crescer e aumentar suas produções, mas os Estados Unidos ainda estão em crise, o que é um problema sério”, explicou. Maior mercado mundial, avaliado em US$ 9 trilhões, os EUA consomem o triplo da soma de todos os países emergentes, a sigla BRIC. Sem o mercado americano, os preços devem continuar baixos. Segundo Gradin, espera-se que os EUA ainda fiquem mais dois ou três anos em baixa.

A descoberta de novas reservas de gás natural em águas rasas na parte americana do Golfo do México conseguiu baixar o preço do insumo para os produtores de olefinas. “Isso evitou que mais crackers e produtores de resinas de lá fechassem, mas a tônica ainda é a de transferir a produção para o Oriente Médio”, comentou Gradin. “Mas ainda não se sabe ao certo qual será o preço desse gás.”

A queda do preço do gás nos EUA motiva o Brasil a agregar valor ao gás brasileiro via indústria química, uma vez que a exportação de gás liquefeito se tornou desinteressante.

Mesmo a petroquímica brasileira ainda deverá amargar um período de baixa em 2010. “O aumento da oferta no Brasil e no exterior, associado ao câmbio ruim, cria um quadro difícil para a produção nacional de resinas”, disse Gradin. Ele comentou que as adições recentes de capacidades produtivas de resinas no Brasil exigem reforçar as exportações, apesar das dificuldades conjunturais.

Reação rápida – O presidente-executivo da entidade, Nelson Pereira dos Reis, comentou que o governo agiu rápido na eclosão da crise, ainda em 2008, e criou o Grupo de Acompanhamento da Crise (GAC), reunindo ministérios e órgãos oficiais com representantes da iniciativa privada, entre eles a Abiquim.

Química e Derivados, Nelson Pereira dos Reis, Petroquímica - Ano começa animado, com previsão de bons negócios e anúncio de consolidação setorial
Reis: falta gás para fazer mais adubos nitrogenados

“A redução do IPI para algumas cadeias produtivas e a ampliação da oferta de crédito para os consumidores nasceram das sugestões do GAC”, afirmou.

Reis comenta que muitos empresários já consideram superada a crise mundial e apostam em um crescimento econômico generalizado em 2010. “Ainda há problemas no ar, como exemplifica a situação de Dubai, um dos emirados árabes que está insolvente”, advertiu.

Ele também criticou a fúria arrecadatória em todos os níveis federativos, mesmo com o objetivo de financiar obras públicas. “A fonte para o desenvolvimento nacional é o investimento industrial e o aumento da competitividade, nunca a arrecadação fiscal”, criticou.

Reis lamentou a falta de uma política de preços adequada para dar uma destinação industrial nobre ao gás natural, hoje visto apenas como fonte de energia.

“O setor químico precisa apenas de cinco milhões de metros cúbicos/dia de gás natural com preço diferenciado e suprimento garantido para impulsionar US$ 3 bilhões em investimentos na produção de fertilizantes nitrogenados, um dos itens de maior peso na nossa pauta de importações”, afirmou Reis.

O setor de fertilizantes obteve em 2009 o pior resultado do agregado químico, com redução de 31,1% do faturamento líquido em dólares (23,8% de queda, em reais). Até o volume das importações foi cortado em 38,1%, ou 63,2% em dólares FOB.

O secretário-executivo da Associação Nacional para a Difusão de Adubos, Eduardo Daher, atribuiu o mau desempenho do setor à queda de preços internacionais dos produtos agrícolas, que levou os produtores a investir menos em nutrientes para seus cultivos e a consumir estoques de fertilizantes. Para 2010, a situação não deve ser muito melhor.

“Precisamos acabar com a guerra fiscal entre estados e melhorar muito a estrutura logística nacional”, afirmou Daher. Ele mencionou que o Brasil é o quarto maior mercado mundial para fertilizantes, porém o porto de Santos, o de maior relevância para o setor, é o 36º no ranking mundial de eficiência. Isso se traduz em custos elevados para os agricultores.

Outro segmento que teve dificuldades em 2009 foi o das fibras têxteis artificiais e sintéticas. A importação de tecidos e itens de vestuário acabados, geralmente da China, com preços irrisórios, justificou a queda de 16% do faturamento líquido dolarizado, para um volume de vendas apenas 2,2% inferior ao de 2008.

Segundo De Marchi, o governo federal deve manter os estímulos ao consumo na ponta, via mecanismos de crédito ao consumidor. Além disso, as indústrias compradoras de insumos químicos devem melhorar sua competitividade global. E também merecem ser protegidas contra importações clandestinas ou mesmo contra o dumping. “O mercado local precisa ser protegido corretamente contra esses abusos”, defendeu.

Pacto nacional – A convergência de interesses e a necessidade de buscar incremento de competitividade para todas as cadeias produtivas ligadas à atividade química motivaram a Abiquim a propor o Pacto Nacional da Indústria Química, apresentado durante o Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq), em dezembro. “Ou o setor segue como está, sob o risco de ataque a uma cadeia de valor frágil, ou fortalece essa cadeia para enfrentar melhor o futuro”, argumentou Bernardo Gradin.

Ele salientou que a indústria química nacional pode chegar ao quinto lugar no ranking mundial aproveitando sua vantagem natural para impulsionar a química verde. Para isso, será preciso superar a diferença de US$ 30 bilhões de faturamento anual do setor no Brasil e na França.

Nas contas da Abiquim, divulgadas por Gradin, considerando a taxa média de expansão anual do PIB de 4%, o setor precisará investir US$ 87 bilhões até 2020 apenas para suprir a evolução da demanda atual. Outros US$ 45 bilhões deveriam ser investidos para substituir importações, perfazendo um total de US$ 120 bilhões, ou seja, o dobro dos investimentos atualmente programados pelo setor.

As matérias-primas para suportar esse crescimento poderão vir do pré-sal, ou de fontes renováveis, verdes, como o álcool e derivados de óleos e gorduras. As atividades da chamada química verde exigiriam US$ 16 bilhões para serem desenvolvidas até 2020. “Isso considerando a previsão conservadora que 10% de toda a petroquímica mundial terá fontes verdes nesse período”, comentou.

Além disso, os investimentos para aproveitar cerca de 20% dos produtos da camada do pré-sal no setor químico chegariam a US$ 32 bilhões até 2020. “Transformar esses projetos em realidade vai exigir a formação de um consenso dentro da cadeia produtiva química, com altos índices de sustentabilidade e competitividade para poder exportar mais, associados aos melhores padrões de gestão empresarial, qualificação profissional e inovação tecnológica”, afirmou.

Com esses investimentos, Gradin estima a criação de três milhões de novos empregos formais, com boa remuneração e qualificação. Também interessa ao país agregar valor à produção crescente de petróleo e gás natural, reduzir a vulnerabilidade externa, alavancar a produção de bens de capital, fortalecer o mercado de capitais no país e melhorar os padrões ambientais.

O pacto proposto se apoia em quatro pilares, exigindo a participação do governo e da sociedade também. O primeiro pilar é formado pela oferta de insumos básicos e de infraestrutura local em quantidade e preços adequados. É preciso contar com suprimento de óleo e gás compatível com os objetivos anunciados, dentro de uma política industrial competitiva. A oferta de eletricidade para a indústria precisa ser garantida e com custos razoáveis, além da alocação de investimentos no campo logístico.

O segundo pilar está ligado ao comércio exterior. O pacto precisa de defesas contra as práticas de concorrência desleal, incluindo os dumpings social e comercial. O monitoramento da taxa cambial se faz necessário, bem como o acompanhamento do superávit comercial, para não destruir a economia interna do país. O terceiro pilar é a geração de tecnologia nacional e de inovações, mediante apoio intensivo às instituições de pesquisa, especialmente nos projetos de química verde.

O quarto pilar é o fortalecimento da cadeia produtiva e envolve: oferecer crédito para a expansão do consumo e da produção, evitar a guerra fiscal entre estados e com outros países, além de desonerar de tributos as cadeias produtivas, proporcionando mais clareza e segurança para os investidores. “Indústria e governo devem iniciar um diálogo intenso sobre esses temas”, salientou.

“A inovação é que antes, nos tempos do Geiquim e do CDI, só o governo fazia os projetos petroquímicos; agora é a indústria que oferece dados e projetos, assume compromissos e aponta as condições para viabilizá-los”, destacou Pedro Wongtschowski. A entidade defende os interesses do setor, mas algumas das propostas são universais, trazendo benefícios para todos os demais setores, como é o caso dos investimentos em logística.

Segundo os dirigentes, o governo federal está formando um grupo de trabalho para montar uma proposta de política industrial, o que seria um momento histórico, comparável à criação do primeiro Plano de Desenvolvimento Econômico(PND).

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