Perspectivas Projetos Químicos e Petroquímicos: Demanda Firme Exige Investir na Química

Projetos químicos e petroquímicos iniciam o milênio com ambiente econômico favorável a novos projetos, inclusive para abater déficit da balança comercial

A aurora do terceiro milênio da era cristã encontra a indústria química brasileira esperançosa quanto ao aumento de vendas e de rentabilidade, quadro propício para a realização de investimentos produtivos no País.

A imagem do navio singrando águas calmas com vento em popa ilustra a perspectiva geral dos vários segmentos da área. No entanto, alguns fatores negativos se insinuam, complicado o exercício da adivinhação.

A proposta inicial deste trabalho pretendia delinear os horizontes da indústria química durante os próximos mil anos, tarefa reconhecida impossível pela inexistência de bola de cristal com tão longo alcance.

Fixou-se um horizonte mais factível de dez anos, aliviando alguns dos entrevistados por conceder-lhes indulgência plena por decurso de prazo. “Daqui a dez anos ninguém vai se lembrar do que eu falei”, confidenciou um deles.

Dez anos pode ser considerado prazo razoável para amortizar um grande investimento petroquímico, mas para o ofício árduo da consultoria moderna, situada mais próxima da ciência que da vulgar cartomancia, representa a eternidade.

Mesmo considerando apenas os próximos 24 meses já se torna difícil traçar com segurança o rumo dos negócios. Basta verificar as atuais condicionantes citadas por todos: o comportamento dos preços do petróleo, os humores da recessão norte-americana e o quadro eleitoral brasileiro para 2002.

Indústria Química: O ponto de partida é o ano 2000, no qual a indústria química brasileira faturou US$ 42,3 bilhões, tendo importado US$ 10,6 bilhões e exportado US$ 4 bilhões.

Os números foram apresentados pela Abiquim, cujos levantamentos estatísticos mostram que o setor ocupou, em média, 88% da capacidade instalada durante o ano. O volume de investimentos programados na atividade soma US$ 9,1 bilhões entre 2001 e 2005, perfazendo a média anual de US$ 1,8 bilhão.

“É muito pouco para atender às necessidades do mercado brasileiro, pois já estamos operando no limite”, avaliou o presidente da entidade, Carlos Mariani Bittencourt.

Ambiente econômico

A previsão do início de 2001 para o crescimento do PIB supera o índice de 4,1% alcançado em 2000, segundo o Ipea, e pode até ser surpreendente, se mantido o ritmo de negócios do início de ano.

Química e Derivados: Perspectiva: Unger - pouso suave dos EUA não afetam ambiente brasileiro.
Unger – pouso suave dos EUA não afetam ambiente brasileiro.

“O governo acertou a moeda em 1999, meio sem querer, e já iniciou processo de redução de juros, estimu­lando a atividade produtiva”, comentou o consultor Thomas Unger.

“Em linhas gerais o ambiente é favorável para investimentos em vários setores.”

“O desenvolvimento econômico do Brasil provoca aumento na demanda por produtos químicos, em especial das resinas plásticas”, concorda o consultor Lauro Moreira, representante da consultoria internacional Parpinelli Tecnon para o Brasil.

Além das boas opor­tunidades de investimentos em vários ramos, como o de alimentos e tratamento de água, ele salienta o efeito multi­plicador de empregos para profissionais qualificados na área química, importante fator de transferência tecnológica.

Química e Derivados: Perspectiva: Moreira - oferta mundial de nafta será confortável até 2005.
Moreira – oferta mundial de nafta será confortável até 2005

“Além disso, o Brasil se livrou do fantasma da variação cambial, ao contrário da Argentina”, comentou.

Mesmo imune às flutuações cam­biais, os brasileiros acompanham com apreensão as manobras dos Estados Unidos para conseguir o chamado “pouso suave” da economia. Já se emitem sinais de desaquecimento da atividade produtiva na América do Norte, provocando a redução dos juros primários pelo Federal Reserve. Embora o governo americano tenha nova tripu­lação, o manche do Fed continua nas mãos cautelosas de Alan Greenspan.

Resta saber se a equipe do republicano George W. Bush manterá a tradição partidária de reduzir ao mínimo sua atuação no ambiente de negócios, ao contrário dos democratas, usualmente intervencionistas. Qualquer “barbei­ragem” nos próximos meses provocará “aterrissagem forçada” da economia americana, deprimindo os negócios em escala mundial, inaugurando período de crise.

“Durante os próximos dois anos a recessão americana será o fator deter­minante para investimentos no mundo”, disse Unger. Apesar disso, se houver um enfraquecimento do dólar frente ao euro, os efeitos nas exportações brasileiras podem ser positivos.

O pior dos mundos seria a combinação de recessão ameri­cana profunda combinada com crise local de liquidez, como aconteceu em agosto de 1998.

“A situação brasileira já melhorou muito, mas ainda há compro­missos da ordem de US$ 55 bilhões a saldar”, avaliou. “Se houver o soft landing (pouso suave), não haverá nenhum problema.”

O desenvolvimento econômico do País é vital para o setor químico. Segundo Unger, a elasticidade média química e petroquímica é de 2,5 vezes o cresci­mento do PIB. Para cada ponto percen­tual de incremento no PIB, a atividade química nacional cresce 2,5 pontos.

“Se houver forte recessão nos EUA, a demanda por produtos químicos e petroquímicos do Oriente vai cair, derrubando o preço internacional da nafta e também o desses produtos”, comentou Moreira.

O excesso de oferta pode ser perigoso para mercados pouco prote­gidos como o brasileiro.
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Superada satisfatoriamente a reces­são dos EUA, em 2002 a variável política interna ganha a prioridade nas avaliações de projetos de investimentos.

“Caso um partido totalmente contrário à orientação econômica atual vença a eleição presi­dencial, o que considero improvável, poderia haver retração de inves­ti­mentos”, comentou Unger.

Química e Derivados: Perspectiva: Guedes Coelho - condensados naturais podem atender aumento da demanda por olefinas.
Guedes Coelho – condensados naturais podem atender aumento da demanda por olefinas.

“O Brasil já é reconhecido como politicamente estável, faltando conso­lidar a economia e melhorar a distribuição de renda”, afirmou Armando Guedes Coelho, diretor da área química do grupo Suzano.

“A China, por exem­plo, ainda tem muito a fazer na área política.” Para ele, a sucessão presidencial poderá gerar alguma turbulência de curta duração, de baixo impacto sobre planos empresariais de longo prazo.

A maior preocupação de Coelho consiste no crônico déficit comercial do Brasil, para o qual o setor químico concorreu com US$ 6,6 bilhões no ano passado, segundo estatísticas da Abi­quim. “Talvez seja preciso limitar a abertura comercial, por meio de cotas ou de adicionais alfandegários”, disse.

A preocupação se justifica pelo fato de o País ser bom produtor, até exportador de commodities, mas importador de especialidades. “Mesmo que as condições para investimento sejam favoráveis, não haveria como fazer esses produtos no País, por falta de tecnologia disponível”, lamentou.

Commo­dities Petroquímicas

Restringindo a análise às commo­dities petroquímicas, Coelho vê amplas possibilidades de desenvolvimento para o Brasil, bastando garantir o acesso a matérias-primas com volume e preços razoáveis. “Poucos países têm mercado interno e estabilidade política como o Brasil”, disse, citando o México como semelhante, este com a vantagem de ser exportador de petróleo e próximo dos EUA.

“O Brasil não tem vantagens reais para justificar investimentos pesados em petroquímica”, afirma Thomas Unger.

A baixa disponibilidade de gás natural próxima dos centros produtores e de nafta encarece as operações. Nem os investimentos declarados para o aumen­to da produção nacional de petróleo nos próximos anos podem melhorar a situação.

“A elasticidade de consumo de petroquímicos é bem maior que a de gasolina, portanto, mesmo com a sonhada auto-suficiência o Brasil continuará a importar nafta”, afirmou, desaconselhando investir em novas centrais com carga líquida.

“Isso só seria viável se fosse feito acordo com algum grande produtor mundial de nafta, garantindo o suprimento a preço ade­quado”, comentou, mencionando a sobra de nafta em poder da Repsol/YPF na Argentina.

Além do problema de suprimento, Unger considera inevitável a desnacio­nalização do setor, mesmo nas commo­dities. “Petroquímica é atividade globali­zada, as empresas precisam integrar produções feitas em vários lugares do mundo para suportar a alternância típica de fases de alta e de baixa rentabilidade”, explicou.

Mesmo em âmbito interna­cional, a concentração de produtores já é notória, levando ao aparecimento de conglomerados gigantescos, a exemplo de Exxon/Mobil, Dow/Union Carbide, Basf/Montell, Total/Fina e outros.

Ambiente Petroquímico

Pivô do eterno conflito tripartite entre governo, centrais petroquímicas e a Petrobrás, a nafta é negociada no Brasil com base nas cotações de Roterdã (ARA), parâmetro estipulado após longa negociação. Em todo o mundo, essa fração do proces­samento de petróleo tem como uso alternativo a adição à gasolina auto­motiva, considerado muito rentável.

Química e Derivados: Perspectiva: Alencar - OPP é vendedora na Bahia e observadora no Sul.
Alencar – OPP é vendedora na Bahia e observadora no Sul.

“Enquanto o uso petroquímico competir com a gasolina não há como competir”, afirmou Alexandrino Alencar, diretor de marketing da OPP (grupo Odebrecht).

Os avanços no desenvolvimento de combustíveis alternativos alimentam a esperança da cadeia petroquímica de voltar aos tempos nos quais a nafta era abundante e barata.

Citando estudo da Parpinelli Tecnon, Lauro Moreira espera que o preço da nafta caia proporcionalmente mais que o do petróleo cru a partir do segundo ou do terceiro trimestre deste ano.

“A oferta mundial de nafta deve ser confortável pelo menos até 2005”, afirmou. O período seguinte ainda é incerto, depen­dente da evolução da demanda, do uso de gás natural e de cargas alternativas, como os condensados pesados. A expectativa para a média de preços do petróleo é de ficar na faixa de US$ 23 a US$ 25 por barril.

O consultor considera útil para a Petrobrás contar com um referencial internacional de preços, como o ARA. Outros padrões seriam ainda piores: as cotações do Golfo do México seguem as tendências da gaso­lina americana, enquanto o Mopag está atrelado às economias asiáticas. “O ideal seria contar com fórmulas diferentes para a nafta importada e para a nacional, verificando quando ela é obtida de petróleo importado ou local e a que distância da central petroquímica compradora”, comentou.

Química e Derivados: Perspectiva: Roriz - preço ARA da nafta inibe exportação de resinas.
Roriz – preço ARA da nafta inibe exportação de resinas.

“O parâmetro ARA não é adequado para permitir a exportação de resinas”, criticou o diretor comercial da Polibrasil, José Ricardo Roriz Coelho.

Para ele, investimentos petroquímicos só têm sentido se parte da produção puder ser exportada de forma competitiva.

No caso brasileiro, os mercados naturais se encontram na América do Sul, África e Ásia. Apesar do custo, a Polibrasil está construindo nova fábrica de polipro­pileno no pólo petro­químico paulista, para 300 mil t/ano, em substituição à vetusta unidade existente, datada da década de 70, capaz de operar a 120 mil t/ano.

Com a nova planta em operação, a partir de setembro de 2002, a velha será desativada. A ampliação de capacidade foi possível graças ao maior suprimento de pro­peno da PqU e por ter sido contratado o fornecimento de propeno de refinaria junto à Petrobrás. “A nova unidade permitirá fazer produtos mais avançados com custos meno­res”, disse Roriz.

Atualmente, a vedete das matérias-primas do setor é o gás natural.

No Brasil, os grupos Suzano e Unipar, associados à Petrobrás, pretendem inaugurar até 2004 um cracker de etano (fração do gás obtido na Bacia de Campos-RJ) para alimentar a produção de 540 mil t/ano de polietilenos e permitir o adicional de 60 mil t/ano de polipropileno na região de Duque de Caxias-RJ.

Em Corumbá-MS, o grupo Odebrecht inicia estudos para montar um cracker a partir de frações separadas do gás natural boliviano que já está sendo transportado pelo gasoduto Bolívia-Brasil.

Enquanto isso, na Argentina, a Dow concluiu projeto de investimento de mais de US$ 1 bilhão para aproveitar o gás natural rico em etano da província de Neuquén para a ampliação da produção de polietilenos em Bahia Blanca.

A Companhia Mega, formada em associação com a YPF (38%) e Petrobrás (34%), ocupou-se da construção do gasoduto de 600 km entre as localidades. Já em Bahia Blanca, o gás natural é fracionado, com o etano enviado à Petroquímica Bahía Blanca (63% Dow, 27% YPF e 10% Itochu) para a produção de eteno em fornalhas recentemente ampliadas e acrescidas de nova unidade para aproxi­madamente 400 mil t/ano da olefina.

O destino do material foi complementar o suprimento às antigas unidades de polietileno compradas na privatização da Polisur (agora, 70% Dow e 30% Repsol/YPF), as quais foram ampliadas. Além destas, a Dow construiu unidade nova, para 270 mil t/ano de polietileno linear de baixa densidade, das famílias Dowlex e Elite (metalocênica). Ao todo, Bahia Blanca pode produzir 700 mil t/ano de eteno e 600 mil t/ano de polietilenos.

“No mundo todo os investimentos petroquímicos estão contidos, a ponto de o projeto de Bahia Blanca ser considerado um dos maiores em andamento”, comentou Lauro Moreira. De forma genérica, a América do Norte apresenta equilíbrio entre gás natural e nafta como cargas petroquímicas.

Na Europa, o mercado para o gás natural está voltado predominantemente para a geração de energia. Já o Oriente Distante, de Cingapura ao Japão, assentou sua produção nas cargas líquidas, abastecendo-se usualmente no Oriente Médio.

O caso brasileiro revela peculiaridades.

Armando Guedes Coelho, da Suzano, acredita na maior oferta de nafta e de fluxos de refino com uso petro­químico a partir dos projetos anunciados para a exploração de petróleo no País. No entanto, ele admite que a geração de carga líquida convencional não será suficiente para suprir as necessidades locais.

O maior aproveitamento do gás natural da Bacia de Campos-RJ pode ser fonte complementar de etano, que também poderia ser retirado do gás fornecido pela Bolívia, embora com mais dificuldade. “O gás boliviano é seco, quase todo formado por metano”, afirmou. Infelizmente, o Brasil nunca desenvolveu em larga escala a química a partir do metano, até pela falta do insumo no passado.

Segundo Coelho, há uma alternativa ainda pouco men­cionada para sustentar a petro­química nacional: os conden­sados naturais leves, uma fonte interessante para pro­peno, por exemplo, além de reforçar a produção de óleo diesel.

“A Petrobrás tem estu­dos que mostram indí­cios de condensados leves na Bacia de Santos, mas essa pesquisa era muito cara e foi abandonada”, comentou o executivo, cujo currículo inclui um período como presidente da estatal.

Ele explicou que os poços dessa bacia geográfica estão localizados sob lâminas d’água bem menores do que os da Bacia de Campos. Mas são poços de perfuração muito profunda, com risco elevado de perdas. “Seria preciso conceder algum tipo de vanta­gem financeira para que as empre­sas se interessassem em correr o risco, como incentivos fiscais”, comentou, mencio­nando expressão adotada como anátema pela equipe econômica do governo federal.

Visão global: O mercado internacional aguarda novos lances da política chinesa para a petroquímica.

“Vai demorar um pouco, mas a China desequilibrará o mercado mundial do setor”, avaliou Unger. Maior compradora de produtos e dona do maior potencial consumidor do mundo, esse país desenvolve progra­ma gradual de desenvolvimento econô­mico.

Um entrave é a carência de recursos naturais importantes, que garroteiam o processo de modernização. “Eles precisam primeiro equacionar os problemas de água e energia para depois atacar os demais”, aduziu.

Na opinião do consultor, a alternativa mais viável para a China consiste em desenvolver parcerias com países ao redor do Mar Cáspio, grandes produtores de petróleo que já estiveram sob influência da antiga União Soviética.

Gasodutos e oleodutos poderiam levar para o território chinês a matéria-prima, a custos razoáveis. Os projetos atualmente desenvolvidos compreendem joint ventures entre o governo daquele país com empresas internacionais, mas se limitam a unidades de porte pequeno em face das necessidades locais. “Pode ser um sinal que essas fábricas foram feitas apenas para treinar mão-de-obra e absorver tecnologia para projetos futuros”, comentou o consultor. Com ou sem parceiros internacionais, se a China se dedicar à produção petroquímica, o fluxo de comércio para lá tende a ser desviado para outras regiões.

O peso do mercado chinês é considerável. A partir de dados da Parpinelli Tecnon, Lauro Moreira estima em 9,6 milhões de toneladas as importações das principais resinas plásticas no ano passado (polietilenos, polipropileno, PVC, PS e ABS). Isso corresponde, por exemplo, a quase três vezes a produção brasileira de termoplásticos no mesmo período.

Na outra ponta da corda, os maiores produtores de petróleo do planeta, localizados no Oriente Médio, hoje exportadores de matérias-primas, elabo­ram projetos para produzir artigos de maior valor, em especial as resinas commodities. “O mercado-alvo deles é a Europa”, comentou Unger, ressaltando as vantagens de custos desses países.

Citando estudos da Parpinelli Tecnon feitos para dezoito produtos petro­químicos relevantes, Lauro Moreira identifica forte apetite dos produtores de petróleo pelos downstreams.

A capaci­dade produtiva de eteno, por exemplo, era de 6,8 milhões de t/ano, em 2000, e deve crescer para 10,2 milhões, em 2005, e 12,1 milhões, em 2010. A Arábia Saudita lidera a produção (66%) e os investimentos regionais, por meio da agência setorial vinculada ao Ministério da Indústria e Eletricidade, denominada Saudi Basic Industries Corporation, mas conhecida pela sigla Sabic. Quatro grandes companhias mundiais desenvol­vem grandes projetos em parceria com a Sabic no campo petroquímico: Exxon, Mobil, Shell e Mitsubishi. Na região, apenas a Arábia Saudita, Irã e Egito apresentam produção diversificada, enquanto os demais se limitam às olefinas, com ênfase nos derivados de eteno.

Já as economias do Extremo Oriente ainda mostram os efeitos da crise financeira de 1998, fato responsável pelo adiamento de investimentos em novas capacidades petroquímicas. Espera-se a retomada dos projetos para depois de 2002, quando a ocupação média mundial dos produtores de eteno esteja em patamar elevado, com alta rentabilidade. A Parpinelli Tecnon prevê o pico de preços do setor para 2003.

Situação diferente vive o Japão, país que serviu de paradigma para a adoção do modelo de pólos petroquímicos no Brasil na década de 70. “A atividade petroquímica decresce no Japão, talvez sendo transferida para países vizinhos ou mesmo absorvendo produtos mais em conta feitos no Oriente Médio”, avaliou Thomas Unger.

Percalços locais: O controle acionário da Copene, central petroquímica do maior pólo do hemisfério Sul, não despertou interesse de compradores, tendo sido anulado o leilão ensaiado em dezembro passado.

Na ocasião, apenas o grupo Ultra apresentou proposta de compra, estimada na ordem de US$ 800 milhões, recusada, por não ter atingido o US$ 1,2 bilhão, valor mínimo combinado entre os participantes do bloco vendedor, formado por Odebrecht, Mariani, Suzano e Banco Central (como interventor no grupo Econômico). Foi marcada para março de 2001 nova tentativa de venda em bloco.

“A compra de um dos participantes da petroquímica nacional poderia ser uma porta de entrada para algum grupo mundial ainda ausente”, avalia Thomas Unger.

Para ele, o ambiente de negócios no País é favorável para quem já está aqui instalado, mas é insuficiente para atrair investimentos em projetos totalmente novos por parte de quem ainda não se fixou na região. “Quem já está aqui já pagou a entrada”, disse.

“A Copene não é boa porta de entrada para estrangeiros, porque as relações internas são muito complexas, além dos entraves políticos peculiares”, comentou Coelho. A Suzano aderiu ao bloco vendedor por prazo determinado, que expira no dia 30 de março.

“Daí por diante teremos a possibilidade de vender nossos ativos independentemente dos demais”, explicou. E ainda com vanta­gem extra: se algum dos ex-parceiros da venda em bloco pretender exercer o direito de preferência sobre qualquer dos ativos, deverá fazê-lo em relação ao total ofertado. “Ou leva tudo, ou nada”, informou.

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A parte posta à venda pela Suzano inclui ações da Norquisa (holding controladora da Copene) e da Politeno, produtora de PEAD e PELBD. A unida­de baiana da Polibrasil, associação entre o grupo e a Basell (Basf e Montell), não está a venda. Sob o nome Montell, a companhia internacional dedicava-se apenas ao polipropileno. Depois de unida à Basf, tornou-se ativa também nos polietilenos. Por esse ponto de vista, dominar a Copene não seria má idéia, mas esse plano já foi descartado pela matriz.

A venda isolada da Politeno para algum grande player mundial poderá ser ainda obstada judicialmente pela Ode­brecht. “Nós ainda temos direito de veto sobre a venda dessa empresa e não aceitaremos um concorrente agressivo por lá”, disse Alexandrino Alencar, da OPP.

Fora o pólo baiano, os principais ativos petroquímicos da Suzano são as participações na Petroquímica União e na Rio Polímeros, em conjunto com o grupo Unipar e a Petrobrás. Por isso, a Suzano é vista como o ponto de con­fluên­cia de interesses nessas regiões, que pode culminar com a fusão entre as unidades paulista e fluminense. “Isso é fundamental para o desenvolvimento dos negócios”, explicou Coelho. Em dezembro, a Odebrecht concluiu a operação de retirada do pólo petro­químico de Capuava, em São Paulo, transferindo sua fábrica de PEBD (antiga Poliolefinas, agora denominada União Polietilenos) para a Unipar e compro­metendo-se a vender em bolsa os 12% que possui do capital total desta.

Ao mesmo tempo, a Unipar transfe­riu para a Odebrecht seus 31% de participação na OPP. “Com isso, foi dado um passo adiante na remodelação da central paulista, que ainda tem alguns problemas com minoritários, fruto de um acordo de acionistas que se tornou anacrônico”, disse. O futuro da PqU parece estar mais ligado à parceria Suzano/Unipar. “O grupo Ultra tem um compromisso de venda da sua partici­pação se comprar a Copene”, informou Coelho. Ele também acredita na possibi­lidade de venda das ações da Union Carbide após digerido o processo de fusão com a Dow, por esta possuir projetos de grande envergadura na Argentina e oportunidades melhores no Sul e no Nordeste.

Coelho aponta o caminho das mu­dan­ças graduais e escalonadas para conferir ao setor petroquímico feições mais competitivas. “Precisamos resolver um problema de cada vez”, comentou. Agora é a vez da Copene. Desfeito o nó de participações cruzadas, os efeitos podem resvalar para o pólo de Triunfo-RS, até agora o de estrutura acionária menos complicada, com capital dividido entre os grupos Odebrecht e Ipiranga.

Na opinião de Coelho, se a Dow ficar de fora da venda da Copene, como já ficou em dezembro, pode ser que a companhia asseste as baterias na direção da Copesul, hipótese descartada por Alencar, mencionando preferências explícitas da Odebrecht sobre a parte da Ipiranga, atualmente em processo de reestruturação para venda.

Mantendo discrição quase absoluta, o grupo Ipiranga remodelou sua estrutura interna, com auxílio de um banco de investimentos internacional que passou a procurar pretensos compra­dores para as áreas de petróleo, petro­química e comercial. Uma das etapas dessa reestruturação eliminou a divisão química do grupo, que estava sob a direção de Eduardo Eugênio Gouvea Vieira.

O empresário assumiu um cargo no Conselho de Administração do grupo, e as empresas antes a ele subordinadas, como a Ipiranga Petroquímica e a Ipiranga Comercial Química, passaram a reportar-se diretamente ao conselho. A saída do diretor Wilson Matsumoto, considerado o principal executivo da área química, abaixo de Gouvea Vieira, em direção à superintendência da PqU, foi interpretada nos bastidores como sinal evidente da intenção do grupo de origem gaúcha de desfazer-se desses negócios.

Matsumoto chega ao comando da PqU para controlar uma crise que provocou a saída de seu antecessor, Edson Eden dos Santos. O estopim foi a reclamação pública feita pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) contra a central paulista, que estaria vendendo solventes sem a devida cautela, permi­tindo a incorporação clandestina à gasolina.

Armando Guedes Coelho, representante do grupo Suzano, que participa do conselho de administração da central por meio da Polibrasil, considera excessivas as críticas da ANP. “A produção de solventes da PqU não chega a 10% da nacional e atende a vários mercados importantes”, comen­tou. “Provavelmente há outras empresas fazendo isso, e não houve críticas semelhantes.”

Comenta-se nos bastidores que Santos teria sido indicado para o posto pela acionista Union Carbide e enfren­taria resistências por parte de outros acionistas que se valeram da oportu­nidade para substituí-lo. Coelho não confirma essa versão, mas entende como normal a rotatividade de quadros nas companhias. “O importante agora é completar as investigações e recuperar a imagem da empresa, injustamente arranhada com o episódio”, disse. A central pretende ampliar de 500 mil para 650 mil t/ano sua capacidade de produ­ção de eteno até 2002, com investimento de US$ 100 milhões.

Ao sair do pólo de Capuava, a Odebrecht confirma o investimento na construção de fábrica para 250 mil t/ano de polipropileno em Paulínia-SP, alimen­tada por propeno de refinaria, projeto que já teria conseguido licença ambiental prévia para construção, com inauguração prevista para meados de 2004. “Somos o maior player petroquímico do País e precisamos ganhar escala”, afirmou Alencar. Segundo ele, na Copene o grupo é vendedor, enquanto observa os acontecimentos envolvendo o grupo Ipiranga, seu sócio na Copesul. Os ativos à venda na Bahia se limitam à partici­pação na central, não envolvendo a unidade de polietilenos, nem a Trikem, produtora de soda, cloro e PVC.

Uma parceria internacional é consi­dera­da desejável pelo diretor, mas só será feita em condições favoráveis para ambos. “Quando o momento for interes­sante os parceiros aparecem”, disse. No ano passado, a empresa vendeu para a Borealis a unidade de compósitos de Itatiba-SP.

Aromáticos em alta: “O problema do Brasil é a excessiva concentração de investimentos nas olefinas, sem diversifi­car a produção”, criticou Lauro Moreira. Por isso, o País exporta benzeno e importa seus derivados (anilinas, esti­reno e outros).

Aliás, para 2001 a previsão de importações químicas indica aumento de 10% sobre 2000. Feliz­mente, o mercado de benzeno está comprador, com cotações em alta pelos próximos anos. Segundo Moreira, a causa é a anunciada reformulação da gasolina norte-americana, que ficará isenta de benzeno, gerando superoferta mundial do aromático. “Atentos ao fato, deixou-se de investir em capacidades adicionais de benzeno, mas a regula­mentação da nova gasolina ainda não foi feita”, explicou. Dessa forma, enquanto o benzeno fizer parte da gasolina dos EUA (no Brasil já foi eliminado há anos), o suprimento mundial ficará apertado, elevando preços.

“O Brasil é competitivo na produção de aromáticos”, concorda o consultor Thomas Unger. “Mas esses produtos sofrem com deficiências na cadeia de transformação.” O resultado é que, embora tenha insumos químicos baratos, os artigos finais nacionais acabam saindo mais caros que os importados. Como exemplo, ele citou a cadeia têxtil das poliamidas.

Ponto positivo para o setor é o desenvolvimento da cadeia estirênica no Brasil, que permitirá passar da posição de importador de poliestireno (127,6 mil t em 2000) para a de exportador, a partir deste ano. No entanto, o País continuará a importar monômero, apesar dos investimentos da Innova, em Triunfo-RS, e da ampliação da CBE, em Cuba­tão-SP (120 mil para 350 mil t/ano, anunciados para 2002). A situação só será revertida a partir de novos investi­mentos, como a intenção de unidade conjunta anunciada por Dow e Basf, que poderá chegar a 500 mil t/ano do monômero.

Lauro Moreira acredita ser bom momento para investimentos em vários setores de grande consumo de produtos químicos, a exemplo da fabricação de tintas, linhas de higiene pessoal e domissanitários. Ao mesmo tempo, deve aumentar a importação de fármacos e intermediários de síntese, insumos químicos industriais, como polióis para PU, e até fibras sintéticas. “É preciso rediscutir o setor para adequá-lo às necessidades do mercado local e preve­nir desequilíbrios”, disse.

Enquanto o País se especializa em materiais para embalagem, cresce o mercado para aditivos e suplementos minerais para rações animais, ingre­dientes para laticínios e até para trata­mento de água. “Além do consumo de produtos, esses mercados representam campo de trabalho enorme para profis­sio­nais da área química, com possibi­lidade de especialização”, comentou. No quadro geral de investimentos, Moreira salienta a necessidade de avaliar não só o papel das megacompanhias, mas também a presença no Brasil de peque­nas e médias empresas internacionais, que atuam em nichos de mercado bem definidos.

Inorgânica pede atenção: A análise de perspectivas da química inorgânica exige tratamento diferen­ciado.

“Esse ramo depende do compor­tamento dos setores consumidores que, em geral, acompanham a evolução do PIB”, disse Unger, ressalvando as exceções, como a produção de alumínio e de celulose, direcionadas para exporta­ção. Três produtos respondem pela maior parte dos negócios e servem para ilustrar a situação: soda cáustica, ácido sulfúrico e dióxido de titânio.

O pigmento branco encontra no papel e nas tintas suas maiores aplica­ções. “O Brasil tem enormes vantagens para produzir celulose e atua fortemente na exportação”, comentou. A demanda pelo dióxido de titânio varia com a produção dessa indústria, influenciando diretamente o preço.

A soda encontra no beneficiamento de bauxita, para a obtenção de alumínio, sua maior aplicação. O mineral é em grande parte exportado, garantindo a demanda pela soda, que ainda possui vários segmentos consumidores, em menor escala, voltados para o mercado interno, como a indústria têxtil e a de sabões. Grandes consumidores de soda mantêm unidades cativas de geração, enquanto os demais se abastecem de indústrias que a geram como subproduto da obtenção do cloro. “O cloro está atrelado ao comportamento do PVC”, disse.

No caso das linhas de soda e cloro, processos eletrolíticos, o maior proble­ma consiste no custo elevado da eletrici­dade no Brasil. “A única saída é gerar a própria energia, como já fazem os fabricantes de alumínio e algumas petroquímicas”, afirmou Unger.

O ácido sulfúrico, tradicional indica­dor do grau de desenvolvimento de um país, se apresenta muito dependente da fabricação de fertilizantes fosfatados, indústria que precisa investir para ganhar competitividade. “As minas tradicionais de rocha fosfática, em Minas Gerais, apresentam concentração muito baixa de fósforo, perto de 5%”, disse. Em com­pen­sação, em Goiás há jazidas como as de Catalão, onde essa concentração sobe a 30%, mais próxima da encontrada nas grandes jazidas comerciais, como as da Flórida (EUA), com 35%.

Aliás, o ramo dos fertilizantes também sofre com a alta dos preços do petróleo e do gás natural, fontes primá­rias da produção de amônia. Esse problema, aliado à baixa escala dos fabricantes locais impede a maior competitividade internacional do setor. “A produção de nitrogenados depende basicamente do fornecimento de gás barato”, comentou Lauro Moreira.

De volta à química fina

A importação de especialidades químicas representa grave empecilho para o equilíbrio da balança comercial do setor. Por se tratar de produtos de alto valor, é preciso exportar uma quantidade muito grande das depreciadas commo­dities para compensar a entrada no País de volume pequeno desses insumos. Para piorar, durante a década de 90 muitas linhas produtivas do segmento de química fina foram desativadas no Brasil por razões meramente financeiras, engordando déficits. Dados do Minis­tério do Desenvolvimento, citados por Nelson Brasil de Oliveira, vice-presi­dente da Associação Brasileira de Química Fina (Abifina), comprovam o fato e ainda revelam grande número de projetos de investimento simplesmente engavetados, embora alguns em fase de implantação (vide tabela ao lado).

“Ao longo dos anos 90, a forma abrupta com que foi conduzida a globali­zação da economia brasileira e, depois, a apreciação do real frente ao dólar foram letais para quase 1,5 mil unidades e projetos produtivos no Brasil”, comen­tou Oliveira. Como decorrência, quase um bilhão de dólares deixaram de ser fatu­rados no País, apenas no subseg­mento farmoquímico, substituídos por importações.

Combinado com a definição da nova lei brasileira de patentes, feita entre 1993 e 1995, verificou-se aumento drástico na importação de medicamentos acabados, contra estabilização e redução da importação de fármacos. “O respeito às patentes foi alardeado como essencial para a transferência de tecnologia, mas aconteceu exatamente o contrário, prejudicando a indústria nacional”, afirmou.

“O único trunfo para desenvolver a indústria de química fina é o cérebro”, afirmou o consultor Thomas Unger, ressaltando a importância da pesquisa científica e tecnológica.

A produção de especialidades também se refere a mercado globalizado, mas, diferente do caso das commodities, nesse setor é irrelevante a origem da matéria-prima e a localização das unidades fabris. “O único erro que não pode ser cometido é o de pensar em unidades com alcance meramente local”, informou.

O único projeto significativo na área atualmente em curso no País é desenvol­vido pela Monsanto, visando a produção do herbicida glifosato em Camaçari-BA, investimento estimado em US$ 500 milhões, com o objetivo de atender o mercado local e também o de outros países. “Possivelmente, a localização foi definida por que Camaçari é um dos raros lugares do mundo onde há sobra de ácido cianídrico, um subproduto da produção de acrilonitrila pela Acrinor”, comentou Unger.

Para o consultor, embora a química fina não seja o forte do País, a biotec­nologia representa valiosa oportunidade de crescimento. “O Brasil tem experiên­cia e alta qualidade na pesquisa biotec­no­lógica, em especial na área agrícola”, afirmou. “Pode dar certo.” Para ele, todo país é protecionista de alguma forma, mas isso só é eficiente quando se protegem atividades com reais vantagens competitivas.

Embora seja inegável a dependência de base científica profunda, também é fato que vários produtos de química fina já são sobejamente conhecidos, sem constituir nenhum desafio cerebrino. A produção de alguns antibióticos, por exemplo, era feita no Brasil há dez anos, mas foi descontinuada e transferida para outros países, como se verifica na pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conduzida pela profa. dra. Adelaide Maria de Souza Antunes, intitulado “Gargalos Tecnoló­gicos da Indústria da Química Fina Brasileira”. “Fica evidente que os reais e maiores gargalos para o setor não são tecnológicos, mas econômicos e comer­ciais”, comentou Oliveira.

No tocante aos produtos de ponta, o vice-presidente da Abifina entende ser possível reduzir o gap tecnológico com os centros mais avançados do mundo, por meio de uma bem-articulada e definida política tecnológica, industrial e de comércio exterior. “Não devemos ter medo de falar em política industrial”, disse. A Abifina prepara uma proposta de programa setorial de exportação para apresentar à Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério do Desenvolvimento. “Com algum apoio oficial poderemos modificar radical­mente o panorama existente”, afirmou. Ao mesmo tempo, Oliveira espera que as negociações em torno da criação da Alca (Associação de Livre-Comércio das Américas) não se traduzam em desestímulos à produção nacional.

Um dos fatores adversos à fabricação local consiste na injusta estrutura tributária. “A produção local paga em impostos cerca de 35% do faturamento, contra 5% a 7% nos Estados Unidos, por exemplo”, disse Oliveira. Além disso, embora já reduzidas, as taxas de juros ainda são de duas a três vezes superiores às oferecidas aos concorrentes internacionais.

O consultor Lauro Moreira vê na produção de intermediários para química fina uma boa oportunidade de negócios. “Já existe demanda no Brasil para a fabricação de alguns fármacos e aditivos para química industrial”, comentou.

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