Química

Papel e Celulose

Marcelo Fairbanks
6 de outubro de 2001
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    Prossegue rapidamente, no exterior, a concentração de empresas no setor. “Em curto prazo teremos apenas 3 ou 4 grandes compradores de celulose na Europa e outro tanto nos EUA”, resumiu Tabacof. Para os exportadores de celulose a conseqüência é imediata: as negociações ficarão ainda mais duras.

    A concentração de empresas se alastra por toda a cadeia produtiva. “O processo é mais rápido nos Estados Unidos as empresas têm lastro em bolsa e exigem resultados mais rápidos”, comentou Carlos Lira Aguiar, da Aracruz. Com isso, também os fornecedores de equipamentos para o setor foram reduzidos a dois, enquanto os compradores de celulose para papel higiênico, por exemplo, foram concentrados em cinco grandes. “Tenho um cliente que quer comprar 40% da minha produção”, disse Aguiar. “Só vou atendê-lo a partir da ampliação.”

    Esses movimentos devem ser repetidos no Brasil, no qual devem restar no máximo quatro grandes produtores de celulose “com escala suficiente para atuar no mercado global”, segundo Aguiar. A Aracruz enfatiza a vocação natural de ser fornecedor independente de celulose, descartando investimentos próprios na fabricação de papel. “Papel é melhor para quem está próximo do mercado consumidor, além disso a demanda por celulose cresce de 5% a 7% ao ano”, explicou.

    Mas os fabricantes nacionais de celulose têm duas vantagens significativas sobre seus concorrentes. A mais conhecida consiste no aproveitamento das fibras curtas do eucalipto, árvore de crescimento rápido, ofertando a matéria-prima de menor custo no mundo. A outra vantagem é o desempenho ambiental. A maioria das fábricas brasileiras é de origem recente, tendo nascido ou se adaptado rapidamente às mais exigentes normas internacionais. “Os produtores estrangeiros são mais antigos e ainda precisam remodelar suas instalações”, disse Tabacof. “Qualquer grande fábrica brasileira de celulose atende a todos os requisitos da futura regulamentação ambiental norte-americana”, atestou Aguiar. Reestruturado e competitivo, o setor pode ser alvo de nova rodada de investimentos.

    Química e Derivados: Papel: tabela04. Por enquanto, apenas a Aracruz e a VCP tocam projetos de novas linhas produtivas, com investimentos respectivos de US$ 830 milhões e US$ 530 milhões, ambas contando com financiamentos parciais do BNDES, segundo Angela Regina Pires Macedo, gerente-executiva da área de setores produtivos do BNDES. “Desde outubro, o BNDES mudou sua estrutura de relacionamento com o mercado, buscando mais eficiência para os clientes”, comentou a executiva. O novo modelo de atuação substituiu as antigas áreas de projetos por formas específicas de atendimento para cada tipo de cliente. “Agora é o banco que procura formar pacotes de produtos e serviços completos para melhor atender o usuário”, disse. Existem outros projetos para ampliação e modernização de unidades.

    Como o setor de celulose é forte exportador, ele pode ser considerado prioritário para o banco. De 1995 para até setembro de 2001, o banco já destinou R$ 3,2 bilhões para o segmento. No ano passado todo, os desembolsos do BNDES para o setor somaram R$ 322 milhões, enquanto de janeiro a setembro deste ano já chegam a R$ 811 milhões.

    Segundo Angela, os produtores de celulose do Brasil devem investir quase US$ 1,6 bilhão em florestas, modernizações industriais e novas instalações durante os próximos três anos. O montante para a produção papeleira é estimado por ela em US$ 630 milhões. “Seria interessante que surgissem mais projetos, principalmente na área de papel”, afirmou.

    Tabacof ressalta ser a disponibilidade de capital o calcanhar-de-aquiles do setor. Trata-se de indústria de capital intensivo, com maturação lenta. “Esse é o verdadeiro gargalo do setor, mais que os impostos elevados”, explicou. Ele defendeu maior atuação do BNDES no financiamento de projetos e pediu a volta do sistema antigo de participação direta do banco no capital das companhias. “Não é possível crescer só com dívidas”, afirmou. O presidente da Bracelpa observou que o setor pode angariar capital de risco nas bolsas internacionais, operações já feitas com alguma habitualidade. “Isso exige cada vez mais transparência, governança corporativa e desenvolvimento tecnológico”, comentou.

    O presidente da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) e consultor Celso Foelkel salientou a recente mudança do perfil de investidores no setor. “Hoje é a sociedade em geral que participa do capital das empresas, por meio dos fundos de investimento e de pensão”, argumentou. A grande vantagem brasileira está na área florestal, a mais eficiente do mundo. “Mas não se pode ficar só nisso, as áreas industrial e administrativa também precisam evoluir”, disse.

    Papéis sanitários – Com mercado estimado em 600 mil t/ano, o segmento de papel sanitário apresentou crescimento modesto nos últimos dois anos, refletindo o magro desempenho do PIB nacional. “O consumo de papel higiênico está ligado à evolução da renda per capita e aos investimentos em saneamento básico e em educação”, afirmou Rui Haidar, presidente da Santher. Apesar das deficiências estruturais, as vendas do segmento cresceram 6% entre janeiro e setembro deste ano.

    Haidar afirma ser pulverizado o parque produtor desses papéis tissue, contando com 48 empresas. Porém duas delas respondem por 38% dos negócios e doze companhias detêm 43% das vendas. “As pequenas e médias empresas aumentaram participação e o segmento se manteve competitivo”, comentou. O crescimento do mercado informal pode justificar essa afirmação, pois o principal problema relatado pelo executivo é carga tributária, contando com 12% de IPI e 18% de ICMS. “O papel higiênico é produto essencial, está na cesta básica oficial, deveria receber isenção fiscal”, criticou.



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