Papel e Celulose

Empresas do setor assumem novo perfil, promovem  reorganização de ativos e passam a orientar suas ações pelo desempenho de mercado, buscando rentabilidade

A indústria de celulose e papel opera discreta, porém profunda, reformulação de perfil e de procedimento estratégico, conduzida de forma harmônica em todo o mundo.

Pressões ambientais, concentração de empresas e atualização tecnológica são constantes em qualquer latitude e longitude, válidas para qualquer ramo de atividade.

Na de celulose e papel, porém, a grande mudança consiste na busca pela rentabilidade, substituindo a antiga prioridade de conquista de participação de mercado.

“As crises recentes deram disciplina ao setor, que agora prefere vender 80% da produção de celulose a US$ 600 por tonelada a vender 100% a US$ 300”, disse Carlos Lira Aguiar, presidente da Aracruz Celulose.

“No passado as empresas lutavam para manter-se à plena carga e garantir o market share”, comentou Boris Tabacof, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e também da Cia. Suzano.

“Hoje, só se produz a quantidade correspondente aos pedidos em carteira, sem formar estoques, que são a arma dos compradores para baixar preços.”

A política de investimentos em novas capacidades produtivas acompanhou esse mote. Na fase anterior, segundo Tabacof, o setor investia quando tinha sobra de dinheiro, gerando excedentes que provocavam baixa de preços por períodos longos.

“O investimento do setor acompanha a evolução global da demanda”, comentou.

Química e Derivados: Papel: tabela02.Um caso típico da antiga forma de atuar é a indústria de celulose da Indonésia.

“Eles têm quase o tamanho do setor no Brasil e ergueram as fábricas nos últimos dez anos, gerando forte desequilíbrio mundial”, criticou Carlos Lira Aguiar, da Aracruz.

Aquele país enfrenta dificuldades financeiras e políticas, enquanto sua produção de celulose, partindo da acácia, apresenta dívidas da ordem de US$ 15 bilhões. “O custo de produção deles é baixo, mas as dívidas pesam demais.”

O mercado de celulose registra queda de demanda de 8% entre outubro de 2000 e 2001, fato configurador de recessão.

Os principais mercados, Japão, Estados Unidos e Europa, reduziram suas compras por fatores diversos.

Como conseqüência direta, o preço da celulose despencou de mais de US$ 600/t para aproximadamente US$ 380/t.

Aguiar espera recuperação de demanda e preços a partir de junho ou julho de 2002, absorvendo a entrada em operação de novos projetos industriais.

Tabacof revela expectativa menos animadora. O quadro complexo de circunstâncias negativas soma a crise de energia local com a bancarrota argentina, a guerra no Afeganistão e até os efeitos negativos da disputa pela sucessão presidencial brasileira. “Até meados de 2003, tudo isso deve estar resolvido, o problema é atravessar incólume o ano de 2002”, disse.

Revisão brasileira – Nas terras brasileiras, o motor das reestruturações foi a decisão da Cia. Vale do Rio Doce de retirar-se do negócio papel e celulose para enfocar exclusivamente os minérios e a siderurgia.

Com isso, abriu-se caminho para reagrupar o setor. Na Cenibra, os 51% de capital ordinário em poder da Vale foram alienados em agosto ao sócio japonês, detentor de 49%, tornando-se controlador integral.

Os orientais garantiram celulose para a indústria papeleira do país de origem, exercendo direito de preferência contra o consórcio formado (e já dissolvido) entre Aracruz e Votorantim Celulose e Papel (VCP).

A Vale já vendera, em fevereiro, os 40,7% do capital votante da BahiaSul Celulose para a acionista Suzano, que ficou com mais de 90% de participação ordinária, complementada pelo BNDES.

Com isso, segundo Tabacof, o grupo Suzano pôde buscar a integração de suas operações, valendo-se de sinergias internas. Para tanto, deixou a participação na Igarás, produtora de papelão ondulado, em favor da Klabin.

Aliás, o grupo Suzano já anunciou reestruturação de negócios, dando origem a duas áreas independentes: a primeira voltada para celulose e papel e a segunda, para petroquímicos.

Química e Derivados: Papel: tabela03.Por sua vez, a VCP adquiriu, em outubro, os 28% de participação votante da italiana Mondi na Aracruz, unindo-se aos grupos Lorentzen (28%), Safra (28%) e BNDES (12,5%). Maior produtora individual de celulose do mundo, a empresa capixaba assumiu, em julho, 45% de participação na Veracel, aliando-se aos grupos Stora Enso (45%) e Odebrecht (10%).

O projeto industrial da Veracel sofreu adiamentos, devendo receber decisão definitiva durante 2002.

Caso se opte pelo investimento em capacidade produtiva de celulose, deve ainda demorar mais três anos para o início das operações.

Enquanto isso, de 2002 a 2004, a Aracruz já se comprometeu a comprar a madeira produzida pela parte florestal do projeto (em estágio adiantado), conseguindo fonte segura de matéria-prima para sua linha C, para mais de 700 mil t/ano de celulose branqueada pelo processo ECF (isento de cloro elementar). Com isso, a Aracruz passará de 1,3 milhão para mais de 2 milhões de t/ano de celulose.

O grupo Klabin, um dos mais tradicionais no setor no País, decidiu concentrar-se nas áreas de papel kraft e materiais para embalagem, deixando a parceira com a Kimberly na área sanitária e anunciando para daqui a dois anos a sua retirada da produção de papel de imprensa.

Da parte das companhias estrangeiras, Tabacof destacou a compra da Champion pela gigante International Paper, assumindo posição destacada no mercado brasileiro, onde não atuava.

Prossegue rapidamente, no exterior, a concentração de empresas no setor. “Em curto prazo teremos apenas 3 ou 4 grandes compradores de celulose na Europa e outro tanto nos EUA”, resumiu Tabacof.

Para os exportadores de celulose a conseqüência é imediata: as negociações ficarão ainda mais duras.

A concentração de empresas se alastra por toda a cadeia produtiva.

“O processo é mais rápido nos Estados Unidos as empresas têm lastro em bolsa e exigem resultados mais rápidos”, comentou Carlos Lira Aguiar, da Aracruz.

Com isso, também os fornecedores de equipamentos para o setor foram reduzidos a dois, enquanto os compradores de celulose para papel higiênico, por exemplo, foram concentrados em cinco grandes.

“Tenho um cliente que quer comprar 40% da minha produção”, disse Aguiar. “Só vou atendê-lo a partir da ampliação.”

Esses movimentos devem ser repetidos no Brasil, no qual devem restar no máximo quatro grandes produtores de celulose “com escala suficiente para atuar no mercado global”, segundo Aguiar.

A Aracruz enfatiza a vocação natural de ser fornecedor independente de celulose, descartando investimentos próprios na fabricação de papel.

“Papel é melhor para quem está próximo do mercado consumidor, além disso a demanda por celulose cresce de 5% a 7% ao ano”, explicou.

Mas os fabricantes nacionais de celulose têm duas vantagens significativas sobre seus concorrentes.

A mais conhecida consiste no aproveitamento das fibras curtas do eucalipto, árvore de crescimento rápido, ofertando a matéria-prima de menor custo no mundo.

A outra vantagem é o desempenho ambiental. A maioria das fábricas brasileiras é de origem recente, tendo nascido ou se adaptado rapidamente às mais exigentes normas internacionais.

“Os produtores estrangeiros são mais antigos e ainda precisam remodelar suas instalações”, disse Tabacof.

“Qualquer grande fábrica brasileira de celulose atende a todos os requisitos da futura regulamentação ambiental norte-americana”, atestou Aguiar. Reestruturado e competitivo, o setor pode ser alvo de nova rodada de investimentos.

Química e Derivados: Papel: tabela04. Por enquanto, apenas a Aracruz e a VCP tocam projetos de novas linhas produtivas, com investimentos respectivos de US$ 830 milhões e US$ 530 milhões, ambas contando com financiamentos parciais do BNDES, segundo Angela Regina Pires Macedo, gerente-executiva da área de setores produtivos do BNDES.

“Desde outubro, o BNDES mudou sua estrutura de relacionamento com o mercado, buscando mais eficiência para os clientes”, comentou a executiva.

O novo modelo de atuação substituiu as antigas áreas de projetos por formas específicas de atendimento para cada tipo de cliente.

“Agora é o banco que procura formar pacotes de produtos e serviços completos para melhor atender o usuário”, disse. Existem outros projetos para ampliação e modernização de unidades.

Como o setor de celulose é forte exportador, ele pode ser considerado prioritário para o banco. De 1995 para até setembro de 2001, o banco já destinou R$ 3,2 bilhões para o segmento.

No ano passado todo, os desembolsos do BNDES para o setor somaram R$ 322 milhões, enquanto de janeiro a setembro deste ano já chegam a R$ 811 milhões.

Segundo Angela, os produtores de celulose do Brasil devem investir quase US$ 1,6 bilhão em florestas, modernizações industriais e novas instalações durante os próximos três anos.

O montante para a produção papeleira é estimado por ela em US$ 630 milhões. “Seria interessante que surgissem mais projetos, principalmente na área de papel”, afirmou.

Tabacof ressalta ser a disponibilidade de capital o calcanhar-de-aquiles do setor. Trata-se de indústria de capital intensivo, com maturação lenta.

“Esse é o verdadeiro gargalo do setor, mais que os impostos elevados”, explicou.

Ele defendeu maior atuação do BNDES no financiamento de projetos e pediu a volta do sistema antigo de participação direta do banco no capital das companhias.

“Não é possível crescer só com dívidas”, afirmou. O presidente da Bracelpa observou que o setor pode angariar capital de risco nas bolsas internacionais, operações já feitas com alguma habitualidade.

“Isso exige cada vez mais transparência, governança corporativa e desenvolvimento tecnológico”, comentou.

O presidente da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) e consultor Celso Foelkel salientou a recente mudança do perfil de investidores no setor.

Química e Derivados: Papel: Foelkel - setor precisa ver o consumidor dentro da cadeia de valor.
Foelkel – setor precisa ver o consumidor dentro da cadeia de valor.

“Hoje é a sociedade em geral que participa do capital das empresas, por meio dos fundos de investimento e de pensão”, argumentou.

A grande vantagem brasileira está na área florestal, a mais eficiente do mundo. “Mas não se pode ficar só nisso, as áreas industrial e administrativa também precisam evoluir”, disse.

Papéis sanitários – Com mercado estimado em 600 mil t/ano, o segmento de papel sanitário apresentou crescimento modesto nos últimos dois anos, refletindo o magro desempenho do PIB nacional.

“O consumo de papel higiênico está ligado à evolução da renda per capita e aos investimentos em saneamento básico e em educação”, afirmou Rui Haidar, presidente da Santher.

Apesar das deficiências estruturais, as vendas do segmento cresceram 6% entre janeiro e setembro deste ano.

Haidar afirma ser pulverizado o parque produtor desses papéis tissue, contando com 48 empresas. Porém duas delas respondem por 38% dos negócios e doze companhias detêm 43% das vendas.

“As pequenas e médias empresas aumentaram participação e o segmento se manteve competitivo”, comentou.

O crescimento do mercado informal pode justificar essa afirmação, pois o principal problema relatado pelo executivo é carga tributária, contando com 12% de IPI e 18% de ICMS.

“O papel higiênico é produto essencial, está na cesta básica oficial, deveria receber isenção fiscal”, criticou.

Durante 2001, a indústria espera contar com mais 130 mil t/ano de capacidade produtiva nova.

Segundo Haidar, isso deve trazer problemas adicionais, pois a ociosidade das linhas existentes já é elevada.

O primeiro semestre de 2001 foi desastroso, redundando em prejuízos para os três maiores fabricantes.

“A celulose é cotada em dólar, mas o cliente paga em reais”, explicou.

A crise de energia atingiu pesadamente esse ramo papeleiro, obrigado a reduzir em 25% o consumo de eletricidade, tendo de recorrer ao mercado atacadista (MAE) para obter suprimento adicional.

Para 2002, a expectativa de Haidar é de crescer de 3% a 5%.

Outra dificuldade do segmento consiste na concentração de negócios das empresas varejistas (supermercados), as maiores compradores das fábricas.

“Apenas cinco redes dominam 42% das vendas ao varejo, exercendo enorme pressão no preço de venda”, afirmou.

E-commerce papeleiro – Durante a 34a. Exposição Industrial e Congresso Técnico de Papel e Celulose, realizados pela Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) de 22 a 25 de outubro, em São Paulo, foi lançado o portal setorial Pakprint (www.pakprint.com.br), com o objetivo de promover a integração eletrônica de fornecedores, fabricantes de celulose e papel, indústrias gráficas e editoras, enfim, toda a cadeia de produção e consumo do setor.

“O portal setorial é uma evolução dos marketplaces independentes, permitindo a adesão do setor a custos competitivos”, afirmou John Walter Freshel, presidente do Pakprint.

Segundo ele, as compras eletrônicas das companhias (e-procurement) haviam migrado para os portais independentes, porém essa forma de atuação naufragou com os maus resultados obtidos no ano 2000 e em 2001.

Com a existência do portal setorial, com potencial para agregar quase mil “lojas virtuais”, será possível montar estrutura logística para auxiliar os negócios da cadeia produtiva, permitindo economia de custos.

“Haverá também uma convergência de plataformas, facilitando a integração”, comentou.

O portal usa o padrão digital Papnet, considerado o melhor em âmbito mundial para as indústrias gráficas e papel.

Valor em cadeia – Coerente com as mudanças ocorridas no setor, a 34a. Exposição e Congresso de Celulose e Papel rompeu a série de itens específicos que, por vezes, monopolizaram as atenções dos visitantes, como aconteceu com as seqüências de branqueamento ECF e TCF no passado.

“Neste ano, a exposição está direcionada a promover a agregação de valor à cadeia produtiva”, disse Celso Foelkel.

É tempo de cada empresa definir as melhores parcerias com entidades acadêmicas, fornecedores e clientes para gerar vantagens competitivas.

Durante a mostra, os expositores destacaram suas competências mundiais de modo a entabular negociações.

Há 34 anos, a ABTCP incentiva o desenvolvimento tecnológico do setor e também facilita o acesso dos membros às informações internacionais, inclusive econômicas e estatísticas, além de promover cursos, palestras e exposições.

“A cada ano, as restrições ambientais ficam mais severas e cresce a responsabilidade social das companhias”, afirmou Foelkel.

Nesse período, o Brasil apresentou salto tecnológico marcante, ao adotar o eucalipto como principal matéria-prima, rompendo paradigmas mundiais.

“Precisamos dar novos saltos tecnológicos”, considerou.

Ao mesmo tempo, o consultor e presidente da exposição salientou a necessidade de estender aos consumidores os focos das atenções.

“O consumidor final deve ser visto dentro da cadeia de valor”, recomendou. A ABTCP enfatiza essa mentalidade.

“A indústria já está se adaptando, deixando de orientar-se pela produção para seguir a necessidade do mercado”, comentou.

Ele atribui à cadeia produtiva o papel de identificar inovações possíveis, inclusive educando a população para perceber as diferenças entre tipos e cores de papéis, de modo a gerar novas demandas. Isso é salientado no livro “Papel: Emoção e História”, lançado durante o encontro setorial.

“O papel é um bem cultural”, finalizou Foelkel.

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