Papel e Celulose

Papel e Celulose – Alta competitividade faz produto nacional ganhar espaço na crise

Domingos Zaparolli
16 de agosto de 2009
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    Produtividade – Elizabeth de Carvalhaes avalia que o mercado mundial de celulose emerge muito mais seletivo da crise. “A competição está intensa e ficará dolorosa, cada US$ 0,50 fará diferença”, diz a executiva. E é na competitividade que reside a oportunidade e o desafio aos produtores brasileiros. A oportunidade se dá pelo fato de a indústria brasileira, depois de trinta anos contínuos de investimento em pesquisa e desenvolvimento, principalmente em genética e manejo florestal, ser a mais eficiente do mundo na produção de celulose de fibra curta, proveniente do eucalipto, utilizada principalmente na produção de papéis finos, como guardanapos, papel toalha, papel higiênico e papéis para imprimir e escrever. Atualmente, as plantações de eucalipto produzem uma média anual de 41 m³ de madeira por hectare no Brasil, enquanto outros grandes produtores de celulose de eucalipto, como Chile e Uruguai, produzem 25 m³ por hectare; a África do Sul produz 20 m³; Portugal e Espanha, 12 m³ e 10 m³ respectivamente. Além disso, em menos de sete anos a árvore brasileira está pronta para o corte, enquanto nesses países a média varia de dez a quinze anos.

    O custo da celulose de eucalipto é, no mínimo, 20% inferior ao da celulose de pinus (fibra longa), utilizada para a produção de papéis mais resistentes. A diferença está fazendo com que a celulose de eucalipto ganhe espaço sobre a de pinus, sendo utilizada até mesmo em blendas e em papéis nos quais só se usavam fibras longas. A produtividade das florestas de pinus é muito menor. Em países como os EUA, é de 10 m³ por ha/ano e no Canadá, de 7 m³, e essas árvores demoram mais de 35 anos para chegar ao ponto de corte. Enquanto no Brasil são necessários cerca de 100 mil ha para alimentar a produção de um milhão de toneladas de celulose, nos países da Península Ibérica ocupam-se 300 mil ha e na Escandinávia, 720 mil ha. Outra vantagem da produção brasileira é o fato de que toda a madeira utilizada é proveniente de áreas de plantio certificadas, portanto não promove desmatamento, o que gera uma maior receptividade nos mercados internacionais.

    A madeira representa aproximadamente 40% do custo de produção da celulose, portanto, é decisivo ser eficiente na obtenção deste insumo. Mas o processo fabril também deve ser competitivo. E o Brasil também está bem posicionado neste item. Vail Manfredi, diretor-técnico da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), relata que as unidades fabris brasileiras de celulose encontram-se entre as mais eficientes do mundo e são o estado da arte quando se trata de recuperação de energia. Praticamente todos os processos produtivos locais são autossuficientes no insumo, e em recuperação química, atingindo, neste caso, um índice na casa dos 90%.

    US$ 20 bilhões – Mas produtividade, como lembra Elizabeth de Carvalhaes, é apenas um item da competitividade. Outros tópicos igualmente importantes são a infraestrutura logística, a carga tributária, principalmente os impostos que incidem sobre os investimentos, que chegam a 17% do total investido, e as negociações internacionais, que podem facilitar ou emperrar a inserção global da produção brasileira. Uma negociação importante, relata a executiva, é a ambiental. O setor é credor em créditos de carbono graças à sua base florestal, mas faltam acordos políticos que ajudem a transformar esse ativo em uma vantagem comercial. “A indústria brasileira de papel e celulose já fez, e bem, seu dever de casa, mas é preciso que o país, como um todo, seja competitivo para ganharmos espaço no mundo”, declara a executiva.

    Química e Derivados, Elizabeth de Carvalhaes, Presidente da Bracelpa, Papel e Celulose

    Elizabeth de Carvalhaes: Brasil ainda precisa superar gargalos estruturais

    O desafio dos produtores brasileiros de celulose é justamente superar os gargalos estruturais do país e investir para ganhar escala produtiva. A meta declarada da indústria brasileira de celulose é alcançar o posto de 3ª maior produtora mundial, superando a China, que, em 2007, produziu 19 milhões de toneladas de celulose, e encostando no Canadá, responsável pela produção de 22,3 milhões de toneladas anuais. O maior produtor, os Estados Unidos, está muito distante. Em 2007, os americanos produziram 53,4 milhões de toneladas de celulose. Para alcançar o terceiro posto, a indústria brasileira de celulose e papel, informa Elizabeth de Carvalhaes, projeta investimentos de US$ 20 bilhões até 2016, o que elevará, se cumprido o programa, a produção brasileira para algo entre 22 e 23 milhões de t/ano de celulose.

    As notícias sobre alguns desses investimentos programados, porém, não foram animadoras nos últimos meses. A Aracruz, empresa que enfrentou problemas financeiros em decorrência de operações com derivativos para proteção cambial e teve seu controle acionário adquirido pela VCP, anunciou a suspensão temporária da construção de uma nova unidade em Guaíba-RS, onde estavam projetados investimentos de US$ 1,8 bilhão na construção de uma fábrica para 1,35 milhão de t/ano. Os projetos de uma nova unidade da empresa em Minas Gerais também foram congelados. O mesmo destino teve o projeto de expansão da Veracel, na Bahia, onde a Aracruz é sócia da sueco-finlandesa Stora Enso: foi adiado por pelo menos um ano. Inicialmente, a programação da Veracel II previa uma capacidade de 1,4 milhão de t/ano para entrar em operação em 2012. A Stora Enso, por sua vez, também engatou a marcha lenta em seus planos de uma nova unidade no Rio Grande do Sul. Outra empresa que optou pela cautela foi a VCP, que projeta uma nova unidade com capacidade de 1,3 milhão de t/ano próxima ao município de Pelotas-RS. O projeto consumiria investimentos de US$ 1,3 bilhão e estava previsto para entrar em operação em 2011, mas agora espera um sinal verde para o início dos trabalhos. “São investimentos que foram prorrogados, não cancelados, e deverão estar concluídos até 2016”, pondera Elizabeth de Carvalhaes.

    Os últimos meses, porém, não foram marcados apenas por más notícias em relação aos investimentos. Em julho, a Suzano Papel e Celulose anunciou que investirá US$ 6 bilhões na construção de três novas fábricas de celulose no Nordeste e na modernização de plantas já em operação. Com o investimento, a empresa pretende aumentar sua capacidade de produção de celulose, atualmente de 1,7 milhão de toneladas, para 6 milhões de toneladas anuais até 2018. Os investimentos contemplam uma fábrica no Maranhão, que deverá ser inaugurada em 2013, e outra no Piauí, prevista para 2014, cada uma para 1,3 milhão de t/ano, além de uma terceira unidade, de mesma capacidade, em local ainda não definido, mas que deve ser em um dos dois estados. O investimento também contempla a expansão de 400 mil t/ano da unidade de Mucuri-BA. Para acelerar a entrada em operação da unidade maranhense, a Suzano anunciou uma parceria com a mineradora Vale, que será responsável pelo fornecimento de madeira para a nova unidade e também pelos serviços de logística. Para tanto, a Vale anunciou que investirá R$ 150 milhões na compra de cinco locomotivas e 260 vagões ferroviários. A Suzano também adquiriu da Vale uma área florestal no Maranhão de 84,7 mil hectares por R$ 235 milhões.



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