Papel e Celulose – Alta competitividade faz produto nacional ganhar espaço na crise

Química e Derivados, Papel e Celulose

Em momentos críticos, como o atual, é comum ouvir que a crise é uma oportunidade. Muitas vezes, essa afirmação não parte da análise fria dos fatos, surge na boca de líderes empresariais com o objetivo de animar seus pares e incentivar seus comandados a ir à luta. Mas na indústria brasileira de celulose há fortes indícios de que, de fato, a crise global detonada no segundo semestre de 2008 possa gerar boas oportunidades para os produtores instalados no país conquistarem novos espaços no mercado internacional.

Desde o início da crise, o consumo de celulose nos principais mercados da Europa e América do Norte caiu de 12% a 25%. Os preços da commodity também caíram. Em julho de 2008, a tonelada de celulose era comercializada na Europa por US$ 840,00. Em julho deste ano, a tonelada saiu por US$ 400,00. A queda nos valores, evidentemente, é ruim para todos os produtores. Mas é pior para quem é menos eficiente. Várias fábricas, principalmente no norte europeu e nos Estados Unidos, foram fechadas em definitivo nos últimos meses, retirando do mercado a oferta anual de mais de 5 milhões de toneladas de celulose. “A crise está varrendo do mercado linhas de produção obsoletas. Os fabricantes brasileiros são produtivos e bastante competitivos, estão sofrendo com a redução em suas margens de lucro, mas possuem o custo de produção mais baixo do mundo e podem sair da crise com uma participação no mercado internacional maior do que tinham antes”, diz Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa).

A produção brasileira de celulose chegou a 12,8 milhões de toneladas em 2008, após um crescimento de 6,7% em relação ao ano anterior. O total elevou o Brasil ao posto de quarto maior produtor mundial da commodity, ultrapassando tradicionais concorrentes, como a Suécia e a Finlândia, ambos com produções superiores a 12 milhões de t/ano. No ano passado, as exportações de celulose brasileira superaram 7 milhões de toneladas, gerando um faturamento de US$ 3,9 bilhões. Numa conta incluindo as exportações de papel, que somaram 1,98 milhão de toneladas, o setor gerou exportações de US$ 5,8 bilhões e um saldo comercial de US$ 4,1 bilhões, respondendo por 16% do saldo da balança comercial brasileira no ano.

No primeiro trimestre de 2009, uma nova fábrica entrou em operação. A Votorantim Celulose e Papel (VCP) inaugurou uma unidade capaz de produzir 1,3 milhão de t/ano de celulose em Três Lagoas-MS, sendo que 20% da produção tem como destino o mercado interno, principalmente para abastecer a nova unidade de papel da International Paper, na mesma cidade, e os outros 80% da produção serão exportados.

Mesmo com esse acréscimo de capacidade, a produção brasileira de celulose recuou 4% em volume e 17% em receita no primeiro semestre do ano, em relação ao mesmo período de 2008. Fato que demonstra o impacto da crise sobre o setor também no país. Na análise de Carvalhaes, porém, as fábricas brasileiras já estão recuperando o terreno perdido. Um fator importante dessa recuperação é o crescimento de 27% das vendas brasileiras para a China nos cinco primeiros meses do ano. A retomada das encomendas já anima produtores locais, que haviam realizado paradas voluntárias após o início da crise, a resgatar suas atividades. Um exemplo é a Bahia Pulp, que reativou uma linha com capacidade para 115 mil t/ano, que havia sido interrompida em novembro do ano passado. “Nossa expectativa em relação ao volume de produção em 2009 é de obter um empate técnico em relação aos resultados de 2008, o que seria uma ótima performance diante do cenário internacional. Mas, em receita, devemos ter uma queda; de quanto, ainda é prematuro para dizer”, afirma a presidente da Bracelpa.

Química e Derivados, Destino das exportações brasileiras de celulose em 2008, Papel e Celulose
Destino das exportações brasileiras de celulose em 2008. Clique para ampliar.

Produtividade – Elizabeth de Carvalhaes avalia que o mercado mundial de celulose emerge muito mais seletivo da crise. “A competição está intensa e ficará dolorosa, cada US$ 0,50 fará diferença”, diz a executiva. E é na competitividade que reside a oportunidade e o desafio aos produtores brasileiros. A oportunidade se dá pelo fato de a indústria brasileira, depois de trinta anos contínuos de investimento em pesquisa e desenvolvimento, principalmente em genética e manejo florestal, ser a mais eficiente do mundo na produção de celulose de fibra curta, proveniente do eucalipto, utilizada principalmente na produção de papéis finos, como guardanapos, papel toalha, papel higiênico e papéis para imprimir e escrever. Atualmente, as plantações de eucalipto produzem uma média anual de 41 m³ de madeira por hectare no Brasil, enquanto outros grandes produtores de celulose de eucalipto, como Chile e Uruguai, produzem 25 m³ por hectare; a África do Sul produz 20 m³; Portugal e Espanha, 12 m³ e 10 m³ respectivamente. Além disso, em menos de sete anos a árvore brasileira está pronta para o corte, enquanto nesses países a média varia de dez a quinze anos.

O custo da celulose de eucalipto é, no mínimo, 20% inferior ao da celulose de pinus (fibra longa), utilizada para a produção de papéis mais resistentes. A diferença está fazendo com que a celulose de eucalipto ganhe espaço sobre a de pinus, sendo utilizada até mesmo em blendas e em papéis nos quais só se usavam fibras longas. A produtividade das florestas de pinus é muito menor. Em países como os EUA, é de 10 m³ por ha/ano e no Canadá, de 7 m³, e essas árvores demoram mais de 35 anos para chegar ao ponto de corte. Enquanto no Brasil são necessários cerca de 100 mil ha para alimentar a produção de um milhão de toneladas de celulose, nos países da Península Ibérica ocupam-se 300 mil ha e na Escandinávia, 720 mil ha. Outra vantagem da produção brasileira é o fato de que toda a madeira utilizada é proveniente de áreas de plantio certificadas, portanto não promove desmatamento, o que gera uma maior receptividade nos mercados internacionais.

A madeira representa aproximadamente 40% do custo de produção da celulose, portanto, é decisivo ser eficiente na obtenção deste insumo. Mas o processo fabril também deve ser competitivo. E o Brasil também está bem posicionado neste item. Vail Manfredi, diretor-técnico da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), relata que as unidades fabris brasileiras de celulose encontram-se entre as mais eficientes do mundo e são o estado da arte quando se trata de recuperação de energia. Praticamente todos os processos produtivos locais são autossuficientes no insumo, e em recuperação química, atingindo, neste caso, um índice na casa dos 90%.

US$ 20 bilhões – Mas produtividade, como lembra Elizabeth de Carvalhaes, é apenas um item da competitividade. Outros tópicos igualmente importantes são a infraestrutura logística, a carga tributária, principalmente os impostos que incidem sobre os investimentos, que chegam a 17% do total investido, e as negociações internacionais, que podem facilitar ou emperrar a inserção global da produção brasileira. Uma negociação importante, relata a executiva, é a ambiental. O setor é credor em créditos de carbono graças à sua base florestal, mas faltam acordos políticos que ajudem a transformar esse ativo em uma vantagem comercial. “A indústria brasileira de papel e celulose já fez, e bem, seu dever de casa, mas é preciso que o país, como um todo, seja competitivo para ganharmos espaço no mundo”, declara a executiva.

Química e Derivados, Elizabeth de Carvalhaes, Presidente da Bracelpa, Papel e Celulose
Elizabeth de Carvalhaes: Brasil ainda precisa superar gargalos estruturais

O desafio dos produtores brasileiros de celulose é justamente superar os gargalos estruturais do país e investir para ganhar escala produtiva. A meta declarada da indústria brasileira de celulose é alcançar o posto de 3ª maior produtora mundial, superando a China, que, em 2007, produziu 19 milhões de toneladas de celulose, e encostando no Canadá, responsável pela produção de 22,3 milhões de toneladas anuais. O maior produtor, os Estados Unidos, está muito distante. Em 2007, os americanos produziram 53,4 milhões de toneladas de celulose. Para alcançar o terceiro posto, a indústria brasileira de celulose e papel, informa Elizabeth de Carvalhaes, projeta investimentos de US$ 20 bilhões até 2016, o que elevará, se cumprido o programa, a produção brasileira para algo entre 22 e 23 milhões de t/ano de celulose.

As notícias sobre alguns desses investimentos programados, porém, não foram animadoras nos últimos meses. A Aracruz, empresa que enfrentou problemas financeiros em decorrência de operações com derivativos para proteção cambial e teve seu controle acionário adquirido pela VCP, anunciou a suspensão temporária da construção de uma nova unidade em Guaíba-RS, onde estavam projetados investimentos de US$ 1,8 bilhão na construção de uma fábrica para 1,35 milhão de t/ano. Os projetos de uma nova unidade da empresa em Minas Gerais também foram congelados. O mesmo destino teve o projeto de expansão da Veracel, na Bahia, onde a Aracruz é sócia da sueco-finlandesa Stora Enso: foi adiado por pelo menos um ano. Inicialmente, a programação da Veracel II previa uma capacidade de 1,4 milhão de t/ano para entrar em operação em 2012. A Stora Enso, por sua vez, também engatou a marcha lenta em seus planos de uma nova unidade no Rio Grande do Sul. Outra empresa que optou pela cautela foi a VCP, que projeta uma nova unidade com capacidade de 1,3 milhão de t/ano próxima ao município de Pelotas-RS. O projeto consumiria investimentos de US$ 1,3 bilhão e estava previsto para entrar em operação em 2011, mas agora espera um sinal verde para o início dos trabalhos. “São investimentos que foram prorrogados, não cancelados, e deverão estar concluídos até 2016”, pondera Elizabeth de Carvalhaes.

Os últimos meses, porém, não foram marcados apenas por más notícias em relação aos investimentos. Em julho, a Suzano Papel e Celulose anunciou que investirá US$ 6 bilhões na construção de três novas fábricas de celulose no Nordeste e na modernização de plantas já em operação. Com o investimento, a empresa pretende aumentar sua capacidade de produção de celulose, atualmente de 1,7 milhão de toneladas, para 6 milhões de toneladas anuais até 2018. Os investimentos contemplam uma fábrica no Maranhão, que deverá ser inaugurada em 2013, e outra no Piauí, prevista para 2014, cada uma para 1,3 milhão de t/ano, além de uma terceira unidade, de mesma capacidade, em local ainda não definido, mas que deve ser em um dos dois estados. O investimento também contempla a expansão de 400 mil t/ano da unidade de Mucuri-BA. Para acelerar a entrada em operação da unidade maranhense, a Suzano anunciou uma parceria com a mineradora Vale, que será responsável pelo fornecimento de madeira para a nova unidade e também pelos serviços de logística. Para tanto, a Vale anunciou que investirá R$ 150 milhões na compra de cinco locomotivas e 260 vagões ferroviários. A Suzano também adquiriu da Vale uma área florestal no Maranhão de 84,7 mil hectares por R$ 235 milhões.

China – Segundo a direção da Suzano, os investimentos em meio à crise internacional se justificam pela elevada demanda chinesa por celulose. Apenas no primeiro semestre de 2009, as importações da China aumentaram 60% em relação a igual período de 2008. Na Suzano, as vendas para a China, que representavam 25% das exportações da empresa há um ano, já respondem por 50% dos negócios no exterior. A rapidez do crescimento da demanda chinesa impressiona. No início dos anos 80, o consumo anual de papel na China era de 5 kg por habitante. Em 2007, o consumo chinês já havia superado a marca de 50 kg por habitante ao ano, posicionando o país como o segundo maior consumidor mundial. Mas se é na China onde está o dinamismo de demanda, o que faz Elizabeth de Carvalhaes crer que o Brasil suplantará justamente este país no posto de terceiro maior produtor mundial de celulose? “A produção chinesa de celulose não é tão qualificada tecnologicamente como a brasileira. Além disso, eles não possuem muita terra com qualidade disponível para o plantio de árvores e o clima lá é mais frio, o que retarda o ciclo produtivo das florestas. Na China praticamente não há florestas plantadas para uso industrial, há o corte de florestas naturais, que levam mais de vinte anos para chegar novamente ao ponto adequado ao corte”, explica a presidente da Bracelpa.

Biorrefinarias – Alberto Mori, presidente da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), e o diretor-técnico Vail Manfredi são mais cautelosos em relação às possibilidades do Brasil ocupar a terceira posição mundial no mercado de celulose. “O Brasil possui vantagens estratégicas no setor, mas nossos concorrentes não estão parados. Até porque a celulose representa uma parcela significativa do PIB de países como a Finlândia e a Suécia, e os governos e as empresas desses países estão investindo muito em desenvolvimento tecnológico”, informa Alberto Mori. As iniciativas para ganhar competitividade na produção de celulose são inúmeras no mundo. A própria China, relata o executivo, tem desenvolvido o plantio de eucalipto no sul do país e em áreas periféricas ao deserto de Gobi. Assim como os Estados Unidos, que investem em melhoria genética em eucaliptos para obter resultados satisfatórios em plantações em regiões frias e também em regiões semiáridas. Outra área de desenvolvimento está relacionada à maior obtenção de fibras por metro cúbico de madeira.

O maior avanço em curso, porém, está relacionado ao conceito de uso da matéria-prima. Como relata Vail Manfredi, hoje a madeira é utilizada em serrarias, na produção de celulose ou queimada em caldeiras, gerando vapor para a produção de eletricidade. O novo conceito que está surgindo privilegia também o uso da lignina. Biorrefinarias estão sendo montadas para produzir, por exemplo, álcool e bioplásticos. Plantas piloto com essa finalidade já estão em operação na Escandinávia e nos Estados Unidos e, como prevê Manfredi, em uma década a tecnologia deverá estar disponível para produção em escala comercial. Com o desenvolvimento de biorrefinarias, a celulose passa a ser um dos subprodutos da madeira, mudando o desenho do processo produtivo atual. As fábricas concebidas com base neste novo conceito deverão apresentar vantagens competitivas significativas. Mas, como dizem Mori e Manfredi, as indústrias brasileiras de celulose e a academia brasileira estão atentas e acompanhando de perto esses desenvolvimentos tecnológicos em curso. “Não vamos ficar para trás”, afirma Mori.

Química e Derivados, O avanço da evolução brasileira, Papel e Celulose
O avanço da produção brasileira. Clique para ampliar.

 

[box_light]

Real valorizado tira competitividade do papel brasileiro

A indústria brasileira de papel encerrou 2008 com uma produção de 9,1 milhões de toneladas, total 1,6% superior ao ano anterior. As exportações, porém, caíram 1,2%, limitando-se a 1,98 milhão de toneladas, enquanto as importações cresceram 21,1%, chegando a 1,33 milhão de toneladas. Nos cinco primeiros meses de 2009, as vendas dos fabricantes locais no mercado interno caíram 10% em relação ao mesmo período do ano passado e as importações recuaram 31% em volume e 26% em valor. Já as exportações ficaram 18% menores. Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Bracelpa, relata que as quedas nas vendas no mercado interno ocorreram em consequência de um excesso de estoque existente no início do ano, tanto nas indústrias quanto no atacado. “Mas o ajuste desses estoques já foi feito e a produção tende a se recuperar no segundo semestre”, diz a executiva.
A valorização do real perante o dólar, porém, pode facilitar as importações de papel no segundo semestre. Alberto Mori, presidente da ABTCP relata que na linha de papéis especiais, como o papel cuchê, papel-moeda, papéis fórmicos e papéis para filtros, por exemplo, a presença de produtores europeus no mercado local está se intensificando significativamente. Outra preocupação no setor é a entrada de papéis de forma ilegal no Brasil. Como relata Carvalhaes, a importação de papel para uso editorial (jornais e revistas) é imune de impostos. A falta de fiscalização, porém, tem permitido que esse papel imune seja vendido para outros fins, concorrendo de forma desleal com a produção local que é tributada.

Química e Derivados, Alberto Mori, Presidente da ABTCP, Papel e Celulose
Alberto Mori: competidores globais estão investindo em novas tecnologias

No mercado externo, a valorização do real tem dificultado a atuação dos produtores brasileiros de papel, que estão sofrendo uma concorrência cada vez maior de produtores chineses em mercados vizinhos. A América Latina é o destino de 61% das exportações brasileiras de papel. Segundo Alberto Mori, uma série de fatores limita a competitividade brasileira no exterior. O primeiro é que o baixo consumo brasileiro, de 42 kg per capita ao ano – bem inferior ao registrado nos Estados Unidos, Japão e na maioria dos países europeus, entre 200 e 300 kg per capita – não gera escala produtiva que viabilize grandes investimentos. Outro ponto negativo é a alta taxação sobre os investimentos. “Investir em uma máquina de papel no Brasil custa de 20% a 30% mais que na Europa ou nos Estados Unidos”, diz o executivo. Além disso, a logística para exportar papel é desfavorável no país, tanto pelas más condições de infraestrutura, como também pela dificuldade inerente ao negócio, que exige cargas muito fracionadas, de acordo com cada item produzido e cada destino. Em compensação, o Brasil conta com a vantagem de ter um papel obtido de florestas certificadas, o que pode se tornar um ótimo apelo de marketing no exterior. “Sem dúvida, é um fator de competitividade que pode ser trabalhado a nosso favor”, diz Mori.

[/box_light]

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.