Óleos: Óleos amazônicos conquistam o mundo

Indústria oleoquímica trabalha a todo vapor para atender interesse mundial por essências da floresta brasileira

Química e Derivados: Óleos: oleo_abre. ©QDA irresistível tendência dos mercados cosmético e farmacêutico de utilizar matérias-primas de origem natural, especialmente vegetal, está desenvolvendo aceleradamente a produção de óleos amazônicos. Sementes de andiroba e cupuaçu e polpa de murumuru e buriti estão, por exemplo, gerando renda para comunidades nativas e alimentando indústrias nacionais e multinacionais que apostam no filão natural. Por enquanto, a maior demanda parece ser do exterior.

O negócio dos óleos amazônicos é novo, relativamente pequeno, mas suficiente para despertar o interesse de quatro empresas: Beraca, Chemyunion, Cognis e Croda. Como quem cuida de um tesouro recém-descoberto, as empresas coincidentemente não revelam certos números das operações e afirmam se preocupar com a preservação do meio ambiente.

A Beraca Ingredients, empresa 100% nacional, é pioneira nesse ramo. Já em 1995 começou a produzir óleos amazônicos e, em 2003, adquiriu a Brasmazon – Indústria de Oleoginosas e Produtos da Amazônia, empresa com 26 funcionários que faz o processamento do óleo cru na cidade de Ananindeua, no Pará. O refino dos óleos cabe à unidade de Santa Bárbara d’ Oeste, no Estado de São Paulo.

A logística da operação é complexa e exige a utilização de barcos. Cerca de 2.800 famílias estão engajadas no programa de coleta de sementes. A operação se estende por cinco Estados: o maior volume é obtido no Pará (a Ilha de Marajó é ponto de referência), mas compreende também o Amazonas, Acre, Rondônia e Amapá. A empresa ensina os seus fornecedores a colher e a ensacar as sementes. “Eles devem colher só as sementes que caem das árvores. Ensinamos os cuidados para manter a árvore em pé”, relata a diretora técnica, Maria Inês Bloise.

Após vários anos de pesquisas e desenvolvimento, a Brasmazon conseguiu apresentar mais de 200 espécies que podem ser utilizadas para diversos fins industriais. De acordo com o site da empresa, é a “maior indústria de matérias-primas da Amazônia.”

Segundo Maria Inês, a Beraca prepara nove tipos de óleos, com urucum, andiroba, castanha-do-pará, copaíba, cupuaçu, maracujá, ucuuba, murumuru e buriti. Ela conta que o negócio surgiu porque se detectou que o mercado internacional estava receptivo a esses produtos naturais. Maior escala de produção é dedicada aos óleos de andiroba, copaíba, cupuaçu e castanha-do- pará. “Atualmente, exportamos 70% da produção para indústrias farmacêuticas e de cosméticos de 47 países”, relata. Os clientes estão espalhados pela Europa, Estados Unidos, Ásia, Austrália e América Latina. “A demanda é crescente, significativa”, afirma a diretora, sem entrar em detalhes. Os produtos são comercializados com apresentações em pó, gel ou óleo.

Química e Derivados: Óleos: Gonçalves exporta a13 países e usa fornecimento sustentando. ©QD Foto - Cuca Jorge
Gonçalves exporta a13 países e usa fornecimento sustentando.

Ingleses investem – A inglesa Croda, tradicional fabricante de especialidades químicas, que fatura 300 milhões de libras esterlinas/ano em 32 países (cerca de US$ 20 milhões anuais são gerados no Brasil) e possui 3 mil funcionários em todo o mundo, criou a Crodamazon, em 2001 em Manaus, e já produz óleos de andiroba, babaçu, buriti, castanha-do-pará, cupuaçu, maracujá, murumuru e pequi. Esta unidade esmaga os frutos e fabrica óleos exóticos empregando seis funcionários. A pesquisa de características e usos dos óleos é feita em Campinas, na unidade da Croda do Brasil. O Brasil, aliás, possui um dos cinco centros de pesquisa e desenvolvimento do grupo. Os outros estão instalados na Inglaterra, Estados Unidos, França e Japão. “Este negócio ainda está em construção

Fazemos uma aposta a longo prazo. Não há dados de mercado e nem estudos sobre potencial”, resguarda-se Sérgio Gonçalves, gerente de marketing institucional da Croda do Brasil. Ele admite que é boa a aceitação das novas matérias-primas, mas “ainda vai levar tempo para o mercado atingir o ponto de maturação.” A busca do consumo de matérias-primas naturais é um fato e a política empresarial para o meio ambiente é bem vista pelo público. Mas o que estimula mesmo a demanda são as vantagens técnicas, a comprovação de eficácia das matérias-primas.

Segundo Gonçalves, a empresa faz um grande esforço para desenvolver novos mercados de consumo. O trabalho dá resultados: desde 2002, a Crodamazon exporta para 13 países. Europa, Estados Unidos e América Central já transformam os óleos amazônicos em produtos cosméticos e farmacêuticos.

Consciente da importância da responsabilidade social, a empresa dá prioridade de compra às comunidades que utilizam seus recursos de forma sustentada. Só as comunidades cadastradas tornam-se fornecedoras. Atualmente, estão envolvidas no projeto 19 famílias da comunidade de Presidente Figueiredo, situada a 200 quilômetros de Manaus. A empresa orienta o manejo e presta assistência tecnológica e ambiental. Conscientiza a população para que 30% dos frutos não sejam colhidos, mantendo, assim, os frutos na alimentação das pessoas e dos animais da região.

Assim como no caso da Beraca, este é um exemplo de atividade ecologicamente correta, de desenvolvimento sustentado. A cadeia de custódia da Croda está em processo de certificação. A viabilidade econômica das matérias-primas garante, por outro lado, a melhoria da qualidade de vida de contingentes da população local. Até há alguns anos, os frutos exóticos só tinham uso cativo.

Química e Derivados: Óleos: Souza utiliza o trabalho de 500 nativos para colher sementes. ©QD Foto - Cuca Jorge
Souza utiliza o trabalho de 500 nativos para colher sementes.

Pesquisa ajuda – Estratégia diferente da Croda é adotada pela brasileira Chemyunion Química, com sede em Sorocaba-SP. A empresa contratou os serviços de um consultor especializado, o professor Daniel Barreira, da Unicamp, e compra o óleo bruto não diretamente dos nativos, mas de líderes da região. “Nós não aparecemos para a comunidade”, explica a farmacêutica Cristiane Rodrigues da Silva, diretora de marketing técnico. A Chemyunion adquire as matérias-primas em cinco comunidades: Acre, Amazonas, Pará, Piauí e Bahia. Só no Piauí, há umas 500 famílias participando do projeto. O produto final é elaborado em Sorocaba.

Segundo Silva, a empresa começou a comercializar os óleos em 1998 e hoje está elaborando buriti, andiroba, babaçu, castanha-do-pará, cupuaçu e pequi e também prepara seleção de manteigas por prensagem fria de palmeiras da amazônia, um produto de eficácia comprovada para a hidratação da pele. Pesquisas da Chemyunion também comprovaram a eficácia do óleo de buriti para a redução do eritema na pele por irradiação solar.

A diretoria científica desenvolve pesquisas contínuas para identificar características e medir eficácia dos produtos da região, empregando 12 pessoas.

“Buscamos, através de pesquisas, desenvolver ativos para serem utilizados na área de cosmético, tanto para aplicação em pele como em cabelo”, afirma Marcelo Golino, diretor-presidente da empresa. Nada menos do que 15% do quadro de pessoal da Chemyunion está ligado à pesquisa e desenvolvimento de produto.

Na avaliação de Silva, o mercado de consumo dos óleos amazônicos está em ascensão. “A eficácia comprovada dos produtos e o apelo ecológico têm impulsionado as vendas. O grande diferencial é provar que o produto funciona”, afirma. Ela acredita, contudo, que as “grandes possibilidades” estão no mercado internacional. A demanda ainda é pequena no mercado interno. A Chemyunion exporta para os Estados Unidos e países da Europa desde 2001. As vendas externas representam quase 100% dos negócios com óleos da empresa. Por outro lado, isso corresponde a aproximadamente 4% a 5% do seu faturamento total.

Química e Derivados: Óleos: Golino - pesquisa para ampliar o uso dos óleos em cosméticos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Golino – pesquisa para ampliar o uso dos óleos em cosméticos.

À Cognis, a maior oleoquímica do mundo, o fenômeno não passou inadvertido. Em 1999, a multinacional alemã entrou no segmento de óleos amazônicos e hoje industrializa seis tipos em sua fábrica de Jacareí-SP: castanha-do-pará, andiroba, manteiga de cupuaçu, murumuru, copaíba e pequi. Também elabora produtos derivados, hidrofilizados de andiroba, cupuaçu e castanha.

De acordo com informações do gerente de marketing, Evandro Souza, a unidade fabril recebe os óleos brutos, para filtrá-los e purificá-los. Ele calcula que pelo menos 500 nativos, dispersos pelos Estados do Amazonas, Pará, Acre e Amapá, mas reunidos em cooperativas ou comunidades organizadas, colhem as sementes e as prensam. “Nós interferimos nessa cadeia, controlando a qualidade e o sistema de produção, que é sustentável”, acrescenta.

Diferente das demais empresas, cerca de 90% da produção da Cognis Brasil é comercializada no mercado interno, onde a Natura figura como “grande cliente”. Com a linha Ekos, composta de mais de 50 produtos, a Natura é um exemplo de empresa de cosméticos em sintonia com a tendência.

Os 10% restantes da produção da Cognis vão para a América do Sul e Europa (Itália e Alemanha, principalmente). Souza diz que os mercados externos ainda estão num “estágio inicial”. Ele também acredita que as perspectivas são de evolução nas vendas dos óleos, com taxas de crescimento acima da média do mercado de cosméticos.

Como “o elemento `fantasia´ (apelo ecológico) é importante, mas o fator decisivo nas vendas é a eficácia do produto”, a Cognis, na mesma trilha da concorrência, investe continuamente na pesquisa das propriedades dos frutos amazônicos. Dez deles já foram analisados. A empresa diz ser a líder em “qualidade e quantidade” de vendas no mercado brasileiro.

“O segmento de óleos amazônicos está começando a crescer bastante”, testemunha Rogério Mancini, gerente de vendas da Volp Ind. e Com. Ltda., distribuidora de matérias-primas para a indústria de cosméticos.

Química e Derivados: Óleos: Mancini - andiroba ajuda a combater a celuite. ©QD Foto - Cuca Jorge
Mancini – andiroba ajuda a combater a celuite.

A aliança de produto natural e reconhecidas ações benéficas é um forte argumento de venda. Um estudo francês já identificou, por exemplo, que a andiroba ajuda a combater a celulite. Mancini aposta que os óleos amazônicos têm perspectiva otimista, com aplicações interessantes em cosméticos.

Com a maior e a mais exuberante floresta tropical da Terra (3,6 milhões de km2), e com 20% da água doce do planeta, a região amazônica abriga uma das mais ricas variedades de espécies animais e vegetais. A floresta representa 23% da biodiversidade global e, segundo a Conservation International, contém 70% de todas as espécies de fauna e flora presentes em florestas tropicais de todo o mundo. A preservação e o uso sustentável de patrimônio natural dessa envergadura é do interesse do Brasil e da humanidade.

Por enquanto, considera-se que o mercado brasileiro utiliza pouco dessas riquezas naturais. A Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex) informa que o país exporta produtos da Amazônia para diversas nações do mundo, utilizados principalmente por indústrias farmacêuticas e de cosméticos. Empresas inglesas, francesas, alemãs e japonesas “descobriram” a Amazônia e estão importando óleos vegetais. Quem conhece a região, divulga a Apex, sabe que ela é um verdadeiro tesouro de essências. E que lentamente começa a ser explorado pela indústria nacional.

Conheça as principais oleoginosas

Andiroba (Carapas guianensis): repelente de insetos, antisséptico, cicatrizante, antiinflamatório. Bom para a pele seca, principalmente das pernas e pés. A árvore é grande, de até 30 metros de altura.

Babaçu (Orbignia martiana): emoliente. Utilizado na fabricação de sabonetes e produtos para cabelos ressecados, quebradiços e sem elasticidade. É apontado como uma das palmeiras mais lindas do país.

Buriti (Mauritia vinifera): tem ação antioxidante. Rico em caroteno. Efeito comprovado no combate à tensão e à deformação dos cabelos danificados por tintura. É uma palmeira de grande porte.

Castanha-do-pará (Bertholletia excelsa): utilizado em produtos pós-barba, repositores faciais e produtos antiidade (hidratantes, limpeza e maquiagem). Aumenta a hidratação cutânea e diminui a perda transepidérmica de água. Previne o aparecimento de estrias. Emoliente, condicionador. A árvore é frondosa, com 30 a 50 metros de altura.

Copaíba (copaífera langsdorffii): cicatrizante de feridas e úlceras. Antiinflamatório. Poderoso antisséptico. Conhecida como “árvore milagrosa”, atinge 36 metros de altura. O óleo é obtido por incisão no tronco.

Cupuaçu (Sterculia theobrama grandiflorum): hidratante. Com aplicações em produtos solares e produtos pós-depilação. Efeito antiinflamatório comprovado. Diminui a perda transepidérmica de água. A planta pode viver 80 anos e atinge de 20 a 30 metros. O fruto, com 12 a 25 cm de comprimento, pesa de 1,2 a 4 quilos.

Maracujá (Passiflora sp): utilizado em produtos para pele oleosa ou com acne, xampus reequilibrantes, maquiagem para pele oleosa, óleos de banho, pós-depilatórios e pós-barba.

Murumuru (Astrocarium murumuru): hidratante. Utilizado em produtos para o cabelo e sabonetes. A árvore tem um tronco de 2 a 6 metros de altura.

Pequi (Caryocar brasiliense): antioxidante, antiinflamatório, hidratante. Efeito comprovado no combate à tensão e à deformação dos cabelos danificados por tintura química. A árvore, de até 15 m de altura, tem tronco tortuoso de casca áspera e rugosa. Possui flor mal cheirosa, polinizada por morcegos. O fruto, apesar de comestível, é cheio de espinhos.

Ucuuba (Virola sebifera): a manteiga escura é usada para a fabricação de velas. A chama é muito luminosa e o cheiro, agradável. A árvore cresce em regiões alagadas.

Urucum (Bixa orellana): protege a pele dos raios solares e é repelente de insetos. O fruto é de uma árvore de até 10 metros de altura.

Natura vai abrir loja na França

Uma das principais fabricantes brasileiras de cosméticos e de produtos de higiene e perfumaria, a Natura lançou, em 2000, a linha Ekos, com sete famílias de ativos de insumos da biodiversidade. Hoje a empresa trabalha com 15 famílias de ativos, que geram cerca de 70 produtos. Utilizar óleos amazônicos como matérias-primas já se transformou num negócio atraente para a indústria de Cajamar-SP.

“Essa linha já dobrou de tamanho e vem crescendo. É uma oportunidade de negócios importante, que representa uma parte significativa do faturamento da Natura”, testemunha Sonia Tuccuri, gerente de pesquisa e desenvolvimento com biodiversidade, sem, no entanto, citar números.

Química e Derivados: Óleos: A linha Ekos é formada por 15 famílias de ativos naturais. ©QD Foto - Divulgação
A linha Ekos é formada por 15 famílias de ativos naturais.

A linha Ekos é vendida no Brasil e exportada para a Argentina, Chile, Bolívia e Peru. De acordo com Tuccuri, no final deste ano ou no início de 2005 os produtos serão levados também à França, com a inauguração de uma loja.

Esses novos produtos são comercializados com uma proposta inédita. De acordo com Sonia, a idéia básica é a utilização de recursos da biodiversidade para a criação de produtos diferenciados, com qualidade superior, que apóiam projetos de desenvolvimento sustentado. “O consumidor sabe disso. Esses produtos trazem benefícios comprovados cientificamente e adequado manejo ambiental”, acrescenta.

A Natura utiliza óleo de andiroba proveniente da reserva extrativista do Médio Juruá, no Amazonas, para produzir sabonete líquido, xampu, condicionador, óleo trifásico para banho, creme corporal e fluido para massagem. Com manteiga de murumuru se faz sabonetes. Óleo de cupuaçu, de Rondônia, serve para emulsão cremosa para o corpo e sabonete líquido e em barra. Com óleo da castanha-do-Brasil originária da reserva de desenvolvimento sustentado Iratapuru, no Amapá, se prepara xampu, condicionador, creme para cabelo, sabonete em barra e líquido, desodorante corporal e gel cremoso. Odorizador de ambientes são fabricados a partir da copaíba. Com óleo de buriti, sabonete em barra e óleo trifásico. Os óleos amazônicos utilizados pela Natura são refinados pela Cognis.

Sonia Tuccuri não vacila: “A perspectiva para esses produtos é de crescimento. A linha tem um espaço no mercado, como insumo da biodiversidade.” Novos investimentos estão sendo feitos pelo centro de pesquisa e desenvolvimento de produtos, em Cajamar. Empresa 100% brasileira, fundada há 35 anos, a Natura registrou um lucro líquido, no primeiro semestre, de R$ 123,5 milhões (R$ 16,9 milhões em igual período de 2003). Os investimentos em ativo fixo, no período, somaram R$ 22,7 milhões (R$ 12,5 milhões em 2003). Os recursos foram para a construção, principalmente, de um armazém vertical, que aumentará em 120% a capacidade de estocagem de matérias-primas e de produtos acabados.

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