Oleoquímica – Faltam materiais graxos no país para desenvolver produção competitiva

Embora seja um dos maiores produtores de plantas oleaginosas e de sebo animal do mundo, o Brasil tem dificuldades para expandir sua produção oleoquímica. E, dependendo da espécie vegetal, verifica-se uma retração da oferta local, ainda que o uso de derivados de fontes naturais renováveis em substituição aos sintéticos – derivados do petróleo – esteja cada vez mais disseminado e prestigiado em todo o planeta, com forte apelo ambiental.

Química e Derivados, Incentivos oficiais podem garantir suprimento futuro dos óleos de palma e palmiste
Incentivos oficiais podem garantir suprimento futuro dos óleos de palma e palmiste

A industrialização local de sebo e óleos vegetais paga o preço dos erros de política cambial e da condução macroeconômica cometidos nos últimos doze anos. O incentivo ao consumo de bens pela população foi estimulado e anabolizado pela oferta de crédito barato, porém esses incentivos não chegaram ao setor industrial. Para evitar aumentos de preços, o real foi mantido valorizado por anos a fio, compondo um quadro risonho para importações de intermediários e produtos finais, a ponto de destroçar a produção nacional.

Ao mesmo tempo, os custos de produção subiram, desde a origem da cadeia produtiva, ainda nas fazendas, em especial no tocante à mão-de-obra. No caso da mamona, uma barbeiragem da Petrobras, incentivada pelo governo federal em 2010, minou a oferta dessa oleaginosa para a indústria química, direcionando-a para a fabricação de biodiesel, porém a um custo estratosférico, além de encontrar limitações técnicas. O estrago estava feito, e as importações de óleo de mamona e seus derivados da Índia dispararam, assim como a compra de bagas colhidas no Paraguai.

Há boas notícias no setor. A Oxiteno instalou, em 2009, e opera a única fracionadora de óleos vegetais de grande porte da América Latina, unidade que abastece a própria empresa com os ácidos graxos necessários à produção de álcoois graxos, estes muito requisitados para a fabricação de produtos de limpeza, solventes e cosméticos. Os álcoois, produzidos pela sequência de esterificação e hidrogenação, substituem os similares sintéticos. Essa fábrica, instalada em Camaçari-BA, processa óleo de palmiste (PKO), em sua maior parte importado do Sudeste Asiático.

Química e Derivados, Aboissa: avanço do biodiesel depende da produção da palma
Aboissa: avanço do biodiesel depende da produção da palma

Atento ao uso crescente de derivados do ácido láurico, insumo típico do óleo de palmiste, o governo brasileiro começou, em 2010, a incentivar – mediante o Programa de Produção Sustentável de Óleo de Palma no Brasil – o plantio em larga escala da palma (ou dendê) em uma faixa de terra que se estende de Belém-PA a Manaus-AM.

“É a área mais adequada do mundo para essa planta e foram identificados 31 milhões de hectares de terras degradadas, mas aptas para o cultivo, isso equivale à área cultivada de onze Malásias”, comentou Munir Aboissa, trader e consultor da área de óleos e gorduras.

Ele citou a existência de benefícios oficiais e a atração de grandes players – a Vale e a ADM, por exemplo, estão na lista – interessados nessa produção.

O esforço é justificado: atualmente o Brasil importa quase o dobro da quantidade de óleo de palma e palmiste que produz. A Indonésia é o maior produtor mundial, seguido pela Malásia, esta detentora de ampla produção oleoquímica.

“Somando a produção das duas, chega-se a 93% da oferta de óleo de palma do mundo”, comentou Aboissa.

Ele explicou que a produção nacional de óleo de soja, próxima de 8 milhões de t/ano, das quais a metade tem uso alimentício e o restante é dividido entre biodiesel e oleoquímica, é insuficiente para os planos oficiais de adotar em escala nacional a mistura B-10 (diesel com 10% de biodiesel) e, assim, reduzir a importação desse derivado de petróleo. “Isso comprometeria a oferta de óleos vegetais no país”, alertou. Daí a opção pela palma, cuja produção de óleo por hectare chega a 4 mil kg (em plantações com dez anos, em cultivos acima de 15 anos, pode-se chegar a 6 mil kg/ha/ano), o dobro da obtida com a soja.

Caso venha a ser bem conduzido o projeto, ele representará uma oferta adicional de óleos de palma e de palmiste com possível aproveitamento pela oleoquímica local. O óleo de palma é extraído do mesocarpo do fruto, enquanto o palmiste é obtido pelo esmagamento da amêndoa (endocarpo). O PKO é muito requisitado por conter grande concentração de ácidos láurico (C12, tipicamente, 50%) e mirístico (C14, 15%), além de apresentar uma ampla distribuição de cadeias de caprílico (C8, 4%), cáprico (C10, 5%), palmítico (C16, 7%) e oleico (C18 com uma insaturação, 15%). O óleo de palma, por sua vez, é rico em palmítico (42%) e oleico (41%), com a presença notável de linoleico (C18, com duas insaturações, 10%).

O ácido láurico é indicado para a elaboração de tensoativos usados nos setores cosmético e de domissanitários, por exemplo, do lauril-éter sulfato de sódio (LESS). O palmítico dá origem ao álcool cetílico, após a adequado processamento.

O óleo de soja é rico em linoleico (53%) e oleico (28%), com apenas 8% de palmítico. As insaturações tornam essas cadeias carbônicas mais sujeitas à oxidação e à degradação térmica. Mas isso não impede que seja utilizado em uma faixa ampla de aplicações, até mesmo nos lubrificantes.

Química e Derivados, Agostini: C12 hidroxilado dá vantagens para óleo de mamona
Agostini: C12 hidroxilado dá vantagens para óleo de mamona

“Sabendo lidar com as cadeias carbônicas, os derivados de soja servem até para formular lubrificantes para condições de extrema pressão”, comentou Gerson Agostini, gerente técnico da Miracema-Nuodex, indústria química instalada em Campinas-SP que iniciou suas operações há 60 anos com derivados de óleo de babaçu para aditivar lubrificantes.

“A hidrogenação parcial do linoleico controla a quantidade das insaturações”, explicou. No entanto, ele comentou que a presença dessas duplas ligações pode ser desejável, porque elas tornam o óleo mais fluido, com mais lubricidade.

A soja é a melhor alternativa de suprimento, pois o Brasil é um dos maiores produtores mundiais.

“A mineração, por exemplo, consome altos volumes de lubrificantes; se o óleo for caro ou raro não será possível atender esse cliente”, observou.

Daí a importância de conhecer as alternativas químicas para modificar as moléculas disponíveis e com baixo custo.

Agostini informa que o óleo vegetal de composição mais próxima do óleo de palmiste é o óleo de coco de babaçu que, aliás, é muito conhecido no Brasil.

“Já fazíamos muita coisa com óleo de babaçu, porém, está cada vez mais difícil encontrá-lo no mercado, por falta de mão-de-obra para coletar e quebrar a casca dura dos frutos”, lamentou.

Com preços altos e disponibilidade baixa, o babaçu perdeu espaço para o PKO, com suprimento farto e garantido pelas amplas plantações asiáticas. A produção local de óleos de palma e palmiste – esta equivalente a um quinze avos daquela, aproximadamente – ainda é pequena e quase sempre encontra mercado comprador ávido na indústria de alimentos.

Como o programa de incentivos ao cultivo nacional de palma começou em 2010, espera-se para os próximos anos (2016-2018) o início de um período de incremento significativo da oferta desses óleos. A produção da palma começa aos quatros anos do plantio, porém este só pode ser feito em larga escala quando exista a disponibilidade de mudas, etapa que consumiu os primeiros dois a três anos do projeto. A vida útil de uma plantação de palma chega a 25 anos, em média.

Produção variada – A cadeia de produção oleoquímica apresenta múltiplas variações. A etapa inicial contempla a obtenção dos ácidos graxos com base em triglicerídeos de origem animal ou vegetal, mediante cisão e destilação, sem isolar as cadeias carbônicas por fracionamento. “Existe mercado para esse tipo de produto, mas são operações de alto volume e margem muito baixa”, considerou Agostini.

Ele explicou que essas operações são feitas pela Miracema, mas os ácidos graxos obtidos alimentam as linhas de produção a jusante, nas quais passarão por outras operações, como esterificação, amidação, aminação, epoxidização, polimerização, entre outras. “Essa é uma oleoquímica mais avançada, que nós fazemos porque contamos com um parque industrial diversificado, apto a promover todas essas reações com eficiência.”

A matéria-prima mais usada pela companhia é a borra de refino de óleo de soja. Como explicou Agostini, o óleo de soja sempre sofre alguma cisão natural, seja pelo efeito da temperatura, pelo contato eventual com água ou pela ação de micro-organismos. Isso libera ácidos graxos, cuja presença fica evidenciada pelo aparecimento de acidez. O refino promove a saponificação parcial desses ácidos graxos livres, removendo-os do óleo. Esse resíduo – a borra – poderia ser destilado para a remoção dos insaponificáveis e dos compostos pesados, originando ácidos graxos mistos. “Não fazemos isso imediatamente, pois a borra também contém uma quantidade relevante de óleo, que precisa ser cindido e separado da glicerina antes da destilação”, afirmou.

Atualmente, a Miracema transfere para produtores de óleo de soja a tecnologia necessária para o processamento inicial da borra, comprando deles os ácidos graxos na forma bruta. “Isso reduziu o custo de transporte e reduz a entrada de glicerina na fábrica”, afirmou.

Agostini salienta que o fracionamento de ácidos graxos não é economicamente interessante, pelo menos no momento. “Os custos de operação de uma unidade de fracionamento são elevados e os volumes envolvidos são muito pequenos; ainda que os preços de venda sejam mais altos, a conta não fecha”, avaliou.

Os ácidos graxos isolados pelo fracionamento são consumidos para a elaboração de ingredientes cosméticos e farmacêutico, entre outros. “Os cosméticos usam muito os ésteres, mas o volume é pequeno, enquanto os fluidos de perfuração para petróleo, por exemplo, também consomem ésteres, porém em altos volumes, são negócios completamente diferentes”, apontou.

Além da soja, a Miracema processa outros produtos de origem vegetal, a exemplo de arroz, algodão, linhaça e outros. “Nesses casos, recebemos o óleo bruto e fazemos todo o processo industrial, mas geralmente só operamos com eles sob encomenda evitando carregar estoques de giro lento”, explicou. Agostini comentou que existe um tamanho mínimo de lote para ser processado economicamente. “Há casos que requerem ácidos graxos com cadeias de 20 a 22 carbonos que são encontradas apenas no óleo de peixes de águas frias, fora do Brasil”, comentou.

Química e Derivados, Perfis das cadeias graxas de alguns óleos e gorduras
Perfis das cadeias graxas de alguns óleos e gorduras

Mamona

Com óleo dotado de características especiais e muito adequado para a oleoquímica, mediante a qual pode oferecer até poliamida, o aproveitamento da mamona sofre com os estímulos dados ao biodiesel no país. “Nos anos 1970, o Brasil produzia mais mamona do que a Índia, hoje a produção de lá é vinte vezes maior que a nossa”, lamentou Ricardo Arpassy, responsável pela divisão de equipamentos especiais da Aboissa, com larga experiência com óleos vegetais e oleoquímica.

O cultivo da mamona cedeu espaço para outros e estrangulou a cadeia de processamento químico, fato explicado em grande parte pela baixa remuneração recebida pelos produtores rurais, que acabaram preferindo outros cultivos ao longo dos últimos cinquenta anos. “A produção mundial de grãos de mamona chega a 1,5 milhão de t/ano, sendo a oferta brasileira de 50 mil t/ano, mas o país produzia 500 mil t/ano de grãos de mamona nos anos 70”, apontou Andrés Morales, diretor industrial da A.Azevedo Indústria e Comércio de Óleos. A empresa iniciou suas atividades em 1965 exatamente com o esmagamento da mamona para a obtenção de óleo. “Hoje produzimos 20 derivados de óleo de mamona, além de vários outros produtos de outras origens”, afirmou.

Morales avalia que o mercado de oleoquímicos no Brasil não está se desenvolvendo há alguns anos. “Estamos crescendo aproveitando os espaços deixados por empresas que saíram do ramo, porém em escala bem menor”, afirmou. Antes da recente desvalorização do real, a moeda nacional permaneceu “forte” durante muito tempo, favorecendo as importações de derivados e prejudicando a indústria local. “Com o câmbio atual já foi possível realizar algumas exportações até mesmo de derivados de mamona”, disse.

Em 2010, o governo federal decidiu usar a Petrobras para tocar um projeto de produção de biodiesel que resultasse em amplo benefício econômico para os agricultores do Nordeste. A mamona atenderia a esses benefícios. Por isso, a estatal comprou a safra de mamona daquele ano e do seguinte a um preço muito maior do que era então praticado pelo mercado e os produtores passaram a reter os grãos para aguardar a oferta dos compradores da estatal. “Assim, a produção do biodiesel enxugou a oferta de óleo de mamona nacional para fins mais nobres”, explicou Morales.

O curioso é que o óleo de mamona não dá um biodiesel tão bom quanto o de soja ou de sebo. “O éster metílico de mamona é viscoso e muito polar, isso se traduz em possibilidade de aderência à câmara de combustão dos motores”, comentou Gerson Agostini.

Ao mesmo tempo, ele explicou, o óleo de mamona tem amplo uso na fabricação de graxas lubrificantes. “90% das graxas usadas em lubrificação levam óleo de mamona”, afirmou. A preferência por esse óleo é explicada pela presença de uma hidroxila ligada ao 12º carbono do ácido ricinoleico (C18, com 87% de participação típica nesse óleo). “Fazemos um excelente sabão de lítio de ácido hidróxi-esteárico, que vem da mamona”, comentou. Os derivados de mamona podem ser processados por diferentes métodos, inclusive por polimerização. A Miracema produz o ácido graxo destilado de óleo e mamona desidratado, produto requisitado por grandes clientes.

A ligação da hidroxila ao C12 do óleo é tão importante quer justifica mudar a sequência tradicional do processamento da indústria graxa. “Não fazendo a cisão do óleo de mamona exatamente para não perdermos essa ligação valiosa”, afirmou Agostini. A desidratação desse óleo leva ao aparecimento de outras duas insaturações, aumentando a sua reatividade. O óleo desidratado, por exemplo, é procurado por fabricantes de tintas pelo alto poder secativo.

O Brasil ainda não jogou a toalha no caso dos ricinoquímicos. Arpassy comenta que já houve projetos de incentivo ao cultivo nos anos 1990, alguns deles resultaram em equipamentos para mecanização da colheita que poderiam ser retomados. “A mamona pode ser colhida com maquinário, como a soja, diferente da palma, que exige mais mão-de-obra”, comentou.

Some-se a isso o fato de existir disponibilidade de sementes de alta produtividade no Brasil e no exterior. “O Instituto Agronômico de Campinas desenvolveu variedades interessantes de mamona, mas Israel e a França contam com opções de cultivares melhorados”, disse. Para ele, o Brasil tem um grande potencial para retomar um papel relevante nesse mercado. “Caso os produtores de soja do Mato Grosso usassem a mamona como cultura de rotação – e essa é uma alternativa viável tecnicamente – haveria uma oferta expressiva de óleo adicional de alta qualidade”, afirmou.

Biodiesel x oleoquímica

Há quem considere a produção de biodiesel como um processo oleoquímico, uma vez que ele se caracteriza pela formação de um éster originado de matérias-primas graxas. Porém, como o éster formado é queimado em em motores, sem dar origem a derivados, há quem prefira deixar  o biodiesel fora desse grupo.

Mais importante que discutir o enquadramento dos produtos é verificar o impacto na cadeia oleoquímica completa. O biodiesel até agora reduziu a disponibilidade de matérias-primas graxas para a fabricação de sabões e derivados olequímicos. Porém, no futuro, caso se comprove rentável aos produtores rurais, o combustível poderá incentivar investimentos fortes na produção de oleaginosas, como está sendo feito no caso da palma ou dendê, abastecendo as usinas químicas. “O biodiesel foi bom para a cadeia de produção da soja, pois ampliou a escala de industrialização do setor”, ponderou Morales, da A.Azevedo.

Química e Derivados, Coral: oleoquímica perdeu matérias-primas para biodiesel
Coral: oleoquímica perdeu matérias-primas para biodiesel

“O aparecimento do biodiesel desequilibrou o mercado graxo no Brasil e ameaça a oleoquímica local”, apontou Antonio Carlos Coral, gerente de suprimentos da Miracema. Ele estima que 80% do biodiesel fabricado no país tenha a soja como principal insumo, com o sebo animal respondendo por 12% e os demais 8% divididos em outros materiais.

Com mais de 30 anos de experiência na atividade, Coral salienta que a companhia processava quantidades maiores de sebo e óleo de aves há 10-15 anos. “A oleoquímica não goza dos mesmos subsídios e incentivos oferecidos ao biodiesel, não consegue disputar com ele as matérias-primas e, por isso, procura sucedâneos.”

Como informou Coral, antigamente, a oleoquímica disputava materiais graxos com as saboarias, em condições menos agressivas. Ele salientou que a produção agrícola é sazonal, enquanto a demanda industrial por oleoquímicos ocorre durante todo o ano. “Isso implica a formação de estoques na empresa, que pressionam o capital de giro, ou seja, custam muito caro, embora possam ficar até mais em conta do que pagar o preço na entressafra”, comentou. Ou a produtora oleoquímica carrega estoques ou procura materiais alternativos, como o óleo de fritura usado. “Além disso, como a logística brasileira é ruim, os fretes no período da safra agrícola ficam mais caros, chegando a representar entre 8% e 9% do custo de produção”, apontou.

Nessas condições, somado o custo Brasil, o resultado é a desindustrialização oleoquímica. “Compensa trazer óleo de palma e derivados do outro lado do mundo para cá, por exemplo, e o mesmo acontece com a mamona”, disse. No caso da mamona, o governo federal sobretaxou o óleo bruto importado, que passou a recolher 30% do valor para ingressar no país. O resultado foi o aumento das importações de derivados. “Em 2014, o governo aumentou o imposto também para esses produtos”, informou. “Mas o problema é que falta óleo para suprir a demanda local”.

Além a disputa por matérias-primas, o crescimento da produção de biodiesel também era visto com receio de que viesse a derrubar os preços da glicerina. “Isso acabou não acontecendo porque os químicos perceberam que haveria um aumento de oferta e passaram a alterar suas rotas de produção para incluir a glicerina, que pode dar origem a biocidas, ésteres, polímeros e tensoativos, entre outros”, explicou Agostini. A Miracema produz o poliglicerol, que utiliza em formulações para a indústria de petróleo, por exemplo.

O resultado é a atual instabilidade de oferta de glicerina no mercado nacional. “Nem sempre há produto disponível na fonte e a qualidade varia muito, exigindo precaução”, disse. A glicerina bruta de biodiesel, por exemplo, carrega sais formados no processo, que precisam ser removidos antes para evitar a corrosão dos equipamentos.

“Além do maior uso industrial, os chineses compram quantidades enormes de glicerina e ajudam a enxugar o mercado”, comentou Coral.

Felipe Camargo, especialista de soapstock e ácidos graxos da Aboissa Óleos Vegetais, confirma a atuação compradora chinesa no caso da glicerina, mas informa que essa participação está em queda. “Embora ainda seja o principal destino de exportação da glicerina brasileira, a China está comprando em 2014 entre 40% e 60% do volume que comprou em 2013”, comentou. Com isso, o preço da glicerina de biodiesel caiu de R$ 4 para R$ 1,50 por kg.

A Aboissa representa e desenvolve negócios para a Pacific Oleochemicals, empresa malaia que já pertenceu ao grupo holandês AkzoNobel. A Pacific possui linha completa de derivados de palma e palmiste, incluindo fracionamento dos ácidos graxos.

“O sebo animal é a gordura mais barata que há no Brasil, principalmente pelo fato de não poder ser aproveitada em alimentos, por lei”, comentou Munir Aboissa. Para a produção de oleoquímicos, a segunda melhor escolha, em termos econômicos, é o óleo de palma importado e, em seguida, a soja. “Há tecnologia disponível no país para a produção de oleoquímicos, mas falta competitividade”, avaliou. Ele citou o caso da Malásia, cuja capacidade instalada oleoquímica é várias vezes superior à do Brasil, além de os asiáticos contarem com mão de obra de custo inferior. “A Europa ainda mantém alguma produção oleoquímica, apesar da concorrência asiática”, observou.

A.Azevedo-Oleos__ItupevaInvestimentos

A A.Azevedo instalou recentemente uma unidade para refino físico de óleos, com a qual retira a acidez indesejada do material. “Os óleos de palma, palmiste e outros viajam metade do mundo em navios e sofrem alterações no percurso que resultam em ácidos graxos livres; essa unidade separa essa acidez e valoriza o óleo”, explicou Andrés Morales. Trata-se de uma coluna de refino, comprada nos Estados Unidos e que encontra grande demanda por serviços.

A empresas também investiu US$ 1,6 milhões na aquisição de uma unidade completa de destilação de ácidos graxos para ser instalada em seu sítio de Itupeva-SP. A compra foi efetivada em abril de 2013 e os equipamentos recebidos um ano depois. Agora a empresa espera o momento certo para iniciar a montagem. “Compramos os equipamentos nos Estados Unidos com recursos próprios, obtidos pela nossa geração de caixa, e esperamos iniciar a operação plena em 2016”, afirmou.

Morales não revela o nome do fabricante dos equipamentos, mas explicou que o óleo cindido entra na unidade que opera com tecnologia de ampliação de área superficial de contato, sob vácuo, facilitando a evaporação. “Ficamos com os ácidos graxos, com os quais podemos fazer muitas coisas ou vendê-los”, informou. O fracionamento dos ácidos graxos é uma das alternativas, embora Morales considere a demanda local muito pequena.

“O mercado oleoquímico nacional é muito reativo, ele precisa ser propositivo”, recomendou. O comportamento da demanda indica possibilidades de negócios, a exemplo do tocoferol, cada vez mais procurado. “As plantas começam a mudar para aumentar a oferta”, comentou.

Morales aponta nichos de mercado que podem ser promissores, como óleos de uva e de amendoim. “Já existem variedades melhoradas de amendoim que dão um óleo com 82% de ácido oleico, a Argentina tem essa opção e o Brasil começa a desenvolver”, afirmou. “Esse óleo serve para alimentação, mas pode servir para a oleoquímica, pois, com essa concentração, nem é preciso fracionar.”

Esteárico agitado

A Baerlocher inaugurou em Americana-SP uma unidade moderna para produzir ácidos graxos de sebo, ácido esteárico e glicerina, dos quais absorve apenas 20% do volume, destinando o adicional para terceiros. A empresa é grande produtora de estearatos metálicos, usados como estabilizantes para PVC.

Antes de contar com a nova instalação, a Baerlocher comprava os ácidos graxos de fornecedores no Brasil e na Argentina. “A entrada da Baerlocher, com alta qualidade e escala, somada ao fato de ser um grande consumidor, balançou o mercado do esteárico nos dois países”, comentou Aboissa. “A Argentina perdeu competitividade”, completou Morales.

A Baerlocher reafirmou sua intenção de investir no aumento de sua produção no país, porém lamenta que o desempenho econômico pífio tenha frustrado as expectativas da companhia nos últimos anos. O principal desafio para a indústria local, segundo a empresa, é garantir o suprimento de matérias-primas a preços competitivos, bem como de energia.

O futuro da oleoquímica está vinculado á capacidade de prover soluções tecnológicas vantajosas economicamente para os clientes. “Não se trata de apenas substituir um insumo de origem petroquímica, buscamos entender o problema do cliente e oferecer a ele uma solução mais eficiente, que resulte em melhor desempenho da produção, por exemplo, acelerando a flotação de minérios”, recomendou Gerson Agostini, da Miracema. A empresa usa seus laboratórios para esses desenvolvimentos, além de contar com parcerias com universidades e centros de pesquisa.

É preciso considerar também que o mundo vive um momento de transição quanto ao preço dos insumos energéticos. Isso fica evidente quando se vê a cotação do petróleo leve caindo de US$ 100 para US$ 80 por barril, com tendência de baixa. O petróleo caro resultava em derivados petroquímicos caros, incentivando a substituição por produtos de origem renovável, além do apelo de sustentabilidade. É bom lembrar que o petróleo barato aposentou a antiga oleoquímica nas primeiras décadas do século passado.

Um Comentário

  1. Muito boa a matéria feita por vocês eu gostaria de se teria como me fornecer as referências utilizadas por vocês, pois estou desenvolvendo pesquisas na area de obtenção de ácidos graxos.

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