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O futuro da mão-de-obra na indústria química – ABEQ

Quimica e Derivados
7 de novembro de 2019
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    O desprestígio acadêmico da engenharia química nos EUA é, de fato, ainda dissonante da sociedade. Segundo o Data USA, existem 59 mil engenheiros químicos nos EUA que têm idade média de 40,4 anos e ganham, na média, US$ 106,8 mil por ano, ou o equivalente a cerca de R$ 10 mil por mês no Brasil, usando o índice Big Mac como paridade de poder de compra. Detalhe incômodo: homens têm salário médio anual de US$ 110,7 mil e mulheres US$ 91,5 mil. Prevê-se um crescimento líquido, além da substituição de aposentados, de 7,4% deste contigente em 10 anos, ou mais 4.000 engenheiros. A maioria dos profissionais trabalha na produção de químicos industriais (19 mil pessoas), produtos medicinais e farmacêuticos (14 mil pessoas) e refino de petróleo (5.800 pessoas). Este último setor é o que paga melhor, cerca de US$ 150 mil anuais.

    No Brasil, não temos números tão precisos. O Relatório de Síntese de Área do Inep para Engenharia Química de 2017 reportou que, naquele ano, eram 6.920 concluintes do curso, que tinham em média 25,2 anos. Desses, 42,4% eram homens e 57,6% eram mulheres. Não consegui levantar o número engenheiros químicos formados no Brasil, atuando ou não na profissão, mas segundo o IBGE, o subsetor de fabricação de produtos químicos empregava 260.583 pessoas em 2016 com salário médio mensal de R$ 5.302,94 (valores da época). Esses números englobam não só engenheiros, mas todos os profissionais da indústria.

    Por sua vez, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimou em 2014 que 58% dos engenheiros formados no Brasil, ou 680 mil pessoas, não atuam na área de formação.

    Podemos concluir que formamos cerca de 7.000 engenheiros químicos por ano no Brasil. Destes, 3.000 irão trabalhar na indústria química. Um trabalho do Ipea (Albuquerque et al., 2019) estima que a demanda por engenheiros químicos no Brasil se estabilizará em cerca de 4.800 profissionais por ano. Os números são da mesma ordem de grandeza. É possível considerar que o Brasil está em condições de atender a demanda por engenheiros de sua indústria química. Mas, o que a indústria demandará de seus profissionais?

    O vale da morte da Inovação

    Inovação é palavra da moda. Todos querem inovar. As empresas que não inovarem estão fadadas a desaparecer. Todos nós já lemos ou ouvimos isso mais de uma vez. Mesmo as novas DCN dos cursos de engenharia, às quais me referi acima, têm em seu artigo 4º: “O curso de graduação em Engenharia deve proporcionar aos seus egressos, ao longo da formação, as seguintes competências gerais: (…) VIII – aprender de forma autônoma e lidar com situações e contextos complexos, atualizando-se em relação aos avanços da ciência, da tecnologia e aos desafios da inovação”

    Alguns autores buscaram entender a dinâmica da inovação tecnológica e chegaram à imagem do vale da morte da inovação (Figura 1).

    Química e Derivados - O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018) ©QD Foto: Divulgação

    O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018)

    Figura 1 O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018)

    A imagem do vale da morte deriva da distribuição dos recursos (Figura 2). A pesquisa básica, que gera papers e patentes, é tradicionalmente apoiada por verbas públicas, e se concentra cada vez mais no estudo dos fenômenos físicos/químicos/biológicos. A pesquisa aplicada que gera produtos é financiada pelas empresas. Contudo, na indústria (química), entre o produto e o fundamento existe o processo. É a pesquisa em processo, e as profissões dedicadas aos processos industriais – como as engenharias – estão no limbo dos recursos, no vale da morte da inovação.

    O dilema, específico da indústria química, passa por definir a sua cara. Produziremos insumos básicos, como derivados de petróleo e insumos de fertilizantes, aproveitando nossos reservas de petróleo e gás natural e nossa mão-de-obra qualificada, ou apenas faremos as formulações finais com matéria-prima importada. Nossas escolas sabem fazer engenheiros de processos, mas não sabem (ainda) fazer engenheiros de produto. De quais engenheiros precisaremos? Espero que dos dois. Mas cabe à sociedade – todos nós – decidir o que quer antes de definir quem vai fazer.

    Química e Derivados - A origem dos recursos para pesquisa. ©QD Foto: Divulgação

    A origem dos recursos para pesquisa.

    Figura 2 A origem dos recursos para pesquisa.



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