O futuro da mão-de-obra na indústria química – ABEQ

Química e Derivados - ABEQ Cristalização: separação, purificação e complexidade

Química e Derivados - O futuro da mão-de-obra na indústria química diante do desafio da inovação ©QD Foto: iStockPhoto

O futuro da mão-de-obra na indústria química diante do desafio da inovação

Olá, pessoal. Vivemos em um mundo que muda muito, muito rápido. É a tal modernidade líquida do Zygmunt Bauman. Quando pensamos em formação profissional, as dúvidas são angustiantes. Dando aula para jovens de 20 e pouquíssimos anos na UFSCar, frequentemente me questiono quanto aos meus métodos de ensino e ao conteúdo que transmito. Em casa, diante de um menino de oito anos e outro de três, as dúvidas não são menores. Externar tais dúvidas de modo inteligível é quase dolorido, mas vou tentar.

Parece-me claro que a indústria química, não só no Brasil, se ressente da formação da mão-de-obra disponível. A Chemical Engineering Magazine de Julho de 2019 publicou artigo que discute as razões para a escassez de mão-de-obra qualificada na indústria química norte-america (Rentschler e Shahani, 2019). Segundo os autores, as razões passam pelo desprestígio da carreira técnica em comparação a cargos administrativos; a ‘sobretaxação’ dos profissionais experientes – estes, vistos pelas empresas como muito caros, são dispensados e os jovens profissionais acabam se desenvolvendo sem mentoria; e a ausência de um sistema estruturado e impessoal de conservação de informação técnica nas empresas. No mesmo mês, na edição 603 desta revista, a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), em sua coluna, aponta que “O setor produtivo tem encontrado dificuldades em recrutar colaboradores qualificados para atuar em áreas que exigem conhecimento técnico…. Portanto, cresce a demanda por uma formação técnica sólida…”

As instituições de ensino, do seu modo, esforçam-se para mudar. O mesmo artigo da QD menciona a publicação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de engenharia em abril deste ano. Li a DCN, e tive o privilégio de assistir recentemente uma palestra do Prof. Dr. Vanderli Fava de Oliveira, que há anos milita bravamente pelo ensino em engenharia, com forte atuação na presidência da Abenge (Associação Brasileira de Educação em Engenharia). A Abenge e o Prof. Vanderli tiveram destacada atuação na elaboração das novas DCN que, sem dúvida alguma, vão na direção correta. Contudo, e aqui peço desculpas pelo meu cinismo, acho que o maior mérito da nova DCN é obrigar, por força de lei, os cursos de engenharia a atualizar seus projetos pedagógicos em prazo de até três anos.

Contudo, talvez as mudanças que efetivamente têm ocorrido nos cursos de engenharia química não sejam na direção que espera a indústria. Varma e Grossmann (2014) discutiram a evolução dos cursos de engenharia química nos EUA, destacando a emergência da biotecnologia e da nanotecnologia nas grades curriculares, o que, segundo eles, havia causado um descompasso entre a academia e a indústria. Os departamentos de engenharia química, incentivados por políticas de financiamento governamental, passaram a contratar pesquisadores com expertise nas áreas de nanotecnologia e biotecnologia que, por sua vez, não publicam suas pesquisas nas principais revistas de engenharia química (AIChE Journal, Chemical Engineering Science, e Industrial Engineering Chemistry Research), mas em revistas de ciências básicas com alto fator de impacto, como Science e Nature. Cada vez menos professores e estudantes voltam suas pesquisas para as áreas de Operações Unitárias, tidas pelas indústrias como as áreas mais importantes. Segundo esses
autores:

Em resposta às tendências recentes da pesquisa acadêmica em direção à engenharia biológica e nanotecnologia, várias empresas manifestaram preocupação com a incompatibilidade com a indústria, que continua a ser amplamente dominada pelas indústrias de petróleo, petroquímica e química. A Dow Chemical Co., uma das maiores empregadoras de engenheiros químicos, foi a mais proativa nesse sentido, estabelecendo um programa de financiamento à pesquisa por um período de 10 anos (anualmente US$ 25 milhões nos Estados Unidos e US$ 10 milhões no exterior). Sua principal motivação tem sido promover pesquisas em áreas relevantes para a indústria química e consideradas como chave por eles.

Os mesmos autores ainda relataram a diminuição do número de cursos de engenharia química no Japão e na Holanda, o que seria também devido ao desprestígio da engenharia química tradicional.

O desprestígio acadêmico da engenharia química nos EUA é, de fato, ainda dissonante da sociedade. Segundo o Data USA, existem 59 mil engenheiros químicos nos EUA que têm idade média de 40,4 anos e ganham, na média, US$ 106,8 mil por ano, ou o equivalente a cerca de R$ 10 mil por mês no Brasil, usando o índice Big Mac como paridade de poder de compra. Detalhe incômodo: homens têm salário médio anual de US$ 110,7 mil e mulheres US$ 91,5 mil. Prevê-se um crescimento líquido, além da substituição de aposentados, de 7,4% deste contigente em 10 anos, ou mais 4.000 engenheiros. A maioria dos profissionais trabalha na produção de químicos industriais (19 mil pessoas), produtos medicinais e farmacêuticos (14 mil pessoas) e refino de petróleo (5.800 pessoas). Este último setor é o que paga melhor, cerca de US$ 150 mil anuais.

No Brasil, não temos números tão precisos. O Relatório de Síntese de Área do Inep para Engenharia Química de 2017 reportou que, naquele ano, eram 6.920 concluintes do curso, que tinham em média 25,2 anos. Desses, 42,4% eram homens e 57,6% eram mulheres. Não consegui levantar o número engenheiros químicos formados no Brasil, atuando ou não na profissão, mas segundo o IBGE, o subsetor de fabricação de produtos químicos empregava 260.583 pessoas em 2016 com salário médio mensal de R$ 5.302,94 (valores da época). Esses números englobam não só engenheiros, mas todos os profissionais da indústria.

Por sua vez, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimou em 2014 que 58% dos engenheiros formados no Brasil, ou 680 mil pessoas, não atuam na área de formação.

Podemos concluir que formamos cerca de 7.000 engenheiros químicos por ano no Brasil. Destes, 3.000 irão trabalhar na indústria química. Um trabalho do Ipea (Albuquerque et al., 2019) estima que a demanda por engenheiros químicos no Brasil se estabilizará em cerca de 4.800 profissionais por ano. Os números são da mesma ordem de grandeza. É possível considerar que o Brasil está em condições de atender a demanda por engenheiros de sua indústria química. Mas, o que a indústria demandará de seus profissionais?

O vale da morte da Inovação

Inovação é palavra da moda. Todos querem inovar. As empresas que não inovarem estão fadadas a desaparecer. Todos nós já lemos ou ouvimos isso mais de uma vez. Mesmo as novas DCN dos cursos de engenharia, às quais me referi acima, têm em seu artigo 4º: “O curso de graduação em Engenharia deve proporcionar aos seus egressos, ao longo da formação, as seguintes competências gerais: (…) VIII – aprender de forma autônoma e lidar com situações e contextos complexos, atualizando-se em relação aos avanços da ciência, da tecnologia e aos desafios da inovação”

Alguns autores buscaram entender a dinâmica da inovação tecnológica e chegaram à imagem do vale da morte da inovação (Figura 1).

Química e Derivados - O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018) ©QD Foto: Divulgação
O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018)

Figura 1 O “Vale da Morte” da inovação. Adaptado de Ford (2018)

A imagem do vale da morte deriva da distribuição dos recursos (Figura 2). A pesquisa básica, que gera papers e patentes, é tradicionalmente apoiada por verbas públicas, e se concentra cada vez mais no estudo dos fenômenos físicos/químicos/biológicos. A pesquisa aplicada que gera produtos é financiada pelas empresas. Contudo, na indústria (química), entre o produto e o fundamento existe o processo. É a pesquisa em processo, e as profissões dedicadas aos processos industriais – como as engenharias – estão no limbo dos recursos, no vale da morte da inovação.

O dilema, específico da indústria química, passa por definir a sua cara. Produziremos insumos básicos, como derivados de petróleo e insumos de fertilizantes, aproveitando nossos reservas de petróleo e gás natural e nossa mão-de-obra qualificada, ou apenas faremos as formulações finais com matéria-prima importada. Nossas escolas sabem fazer engenheiros de processos, mas não sabem (ainda) fazer engenheiros de produto. De quais engenheiros precisaremos? Espero que dos dois. Mas cabe à sociedade – todos nós – decidir o que quer antes de definir quem vai fazer.

Química e Derivados - A origem dos recursos para pesquisa. ©QD Foto: Divulgação
A origem dos recursos para pesquisa.

Figura 2 A origem dos recursos para pesquisa.

Referências

Rentschler C, Shahani G. Overcoming the talent dearth. Chemical Engineering Magazine, July, 2019

Varma A, Grossmann IE. Evolving Trends in Chemical Engineering Education. AIChE Journal November 2014 Vol. 60, No. 11, DOI 10.1002/aic.14613.

Albuquerque PHM, Saavedra CAPB, Morais RL, Alves PF, Yaohao P. TEXTO PARA DISCUSSÃO: NA ERA DAS MÁQUINAS, O EMPREGO É DE QUEM? ESTIMAÇÃO DA PROBABILIDADE DE AUTOMAÇÃO DE OCUPAÇÕES NO BRASIL. ISSN 1415-4765. Acessado em 22 de agosto de 2019. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/190329_td_2457.pdf

Ford, G. A Valley of Death in the Innovation Sequence: An Economic Investigation, disponível em: https://phoenix-center.org/FordVoDAEA2008.pdf, acessado em 23 de outubro de 2018.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP ©QD
André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

Texto: André Bernardo

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. E-mail de contato: [email protected]

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