O enfraquecimento da indústria química brasileira: ABEQ

Enfraquecimento afeta toda a economia

Olá, leitoras e leitores.

O Brasil está entre os três maiores produtores e exportadores de gêneros agropecuários do mundo, junto com Estados Unidos e Rússia.

Ao contrário do restante da economia nacional, a agricultura e a pecuária nacionais aumentaram muito sua produtividade nos últimos anos, produzindo cada vez mais com menos recursos.

Faria todo o sentido se desenvolvêssemos cadeias produtivas complexas ao redor desses setores, produzindo internamente insumos, defensivos, fertilizantes, maquinário.

Contudo, vemos a pujança da agropecuária brasileira chacoalhando em função de fatores externos que poderiam ser amortecidos se tivéssemos, por exemplo, uma indústria química mais robusta.

A (não) produção nacional de fertilizantes é o exemplo mais gritante.

Já mencionei algumas vezes neste espaço nossa inexplicável baixa produção de ureia, mas vamos recapitular.

A produção de amônia e ureia no Brasil se consolidou nas décadas de 1970 e 80, a partir da Petrobras (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, Fafen) e de outros produtores de fertilizantes (Fosfértil, Ultrafértil, associações da Petrobras com a então Companhia Vale do Rio Doce, CVRD, na época estatal).

As fábricas foram mudando de mãos, mas, resumidamente, tínhamos as duas Fafen em Camaçari-BA e Laranjeiras-SE, que eram da Petrobras, foram fechadas e recentemente arrendadas para a Unigel e reabertas.

As duas fábricas produzem amônia a partir do gás natural.

No Paraná, a empresa que veio a se tornar a Araucária Nitrogenados S.A. foi inaugurada em 1982 como Ultrafértil (Petrobras Fertilizantes, Petrofértil).

Em 1993, foi vendida à Bunge e, em 2010, para a então Vale Fertilizantes. Em 2013, voltou para a Petrobras.

A fábrica produz amônia a partir de resíduo asfáltico (!), o que significa que os custos de produção devem ser proibitivos desde aquela privatização de 1993.

A fábrica foi fechada definitivamente em 2020, depois de uma tentativa frustrada de venda para a russa Acron.

A fábrica de amônia de Cubatão-SP tem histórico similar – Petrobras, CVRD, Ultrafértil, Vale Fertilizantes, Mosaic. A amônia de Cubatão é usada na produção de fosfatos nitrogenados.

Ainda, como obras do finado PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), a Petrobras iniciou obras de Fafen em Uberaba-MG e Três Lagoas-MS para produzir amônia e ureia a partir do gás natural boliviano.

No dia 4 de fevereiro último, a ministra da Agricultura anunciou a compra da fábrica de Três Lagoas pela russa Acron, mas a Petrobrás não havia ainda confirmado a notícia (Paraguassu e Samora, 2021).

Na prática, o Brasil tem duas fábricas de ureia em funcionamento, que não atendem toda a demanda interna, e têm dificuldade em praticar preços competitivos já que o gás natural no Brasil é vendido por preços muito maiores do que nos EUA ou na Europa.

A cereja do bolo fica por conta do fato de o Brasil reinjetar 43% do gás natural que produz.

É isso mesmo, de cada 100 m³ de gás natural que extraímos, 43 m³ são devolvidos aos poços.

Parte da razão para isso é técnica – aumentar a produção de óleo associado ao gás –, mas a razão principal é comercial.

O Brasil tem 9.400 km de gasodutos, enquanto que a Argentina (!!) tem 16.000 km, os EUA têm 497 mil km e a Europa 200 mil km.

Como resultado, sai mais “barato” importar gás natural liquefeito do que produzi-lo internamente (Rocha, 2020).

O “barato” aqui é relativo: em janeiro do ano passado o preço do gás natural no Brasil era de US$ 6,84/MMBtu (Rocha, 2021), enquanto que o preço nos EUA era US$ 2,67/MMBtu. Não há REIQ que dê jeito.

O preço do gás natural afeta toda indústria, mas, considerando só os fertilizantes, há hoje a possibilidade de faltar ureia, o que é duplamente trágico. Texto de Márcia De Chiara e José Maria Tomazela n’O Estado de São Paulo de 16 de outubro do ano passado dá números sobre a nossa dependência de fertilizantes importados – “de janeiro a julho [de 2021], das 23,8 milhões de toneladas de fertilizantes entregues aos agricultores, 20 milhões de toneladas foram de produtos importados e 3,8 milhões de toneladas produzidas nacionalmente, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda)” – e aponta o risco de desabastecimento – “com risco de não conseguir entregar o produto pelas restrições na disponibilidade de fertilizantes no mercado internacional, em algumas regiões, contratos já firmados estão sendo cancelados”.

Notícia do The Guardian de 25 de novembro passado vai na mesma linha:

“A escassez global de fertilizantes nitrogenados está levando os preços a níveis recordes, levando os agricultores da América do Norte a adiar as compras e aumentando o risco de uma corrida de primavera [a primavera no hemisfério norte começa em 20 de março] para aplicar o nutriente antes da época de plantio.

Os agricultores aplicam nitrogênio para aumentar os rendimentos de milho, canola e trigo, e custos mais altos de fertilizantes podem se traduzir em preços mais altos de carne e pão.

Os preços mundiais dos alimentos atingiram a maior alta de 10 anos em outubro, de acordo com a agência de alimentos da ONU, liderada por aumentos nas culturas de cereais, como trigo e óleos vegetais.

A ocorrência dos furações Artic, em fevereiro, e Ida, em agosto, no Texas, interromperam a produção de fertilizantes nos EUA.

Então, os preços do gás natural, um insumo fundamental na produção de nitrogênio, dispararam na Europa devido à alta demanda e baixa oferta.

Os preços globais da ureia este mês [novembro de 2021] chegaram a US$ 1.000 a tonelada pela primeira vez, de acordo com a BMO Capital Markets. Rússia e China reduziram as exportações”.

Texto de Raymond Zhong no New York Times, em dezembro, confirma os prognósticos, relatando o desespero dos produtores indianos com a falta de ureia.

A margem de manobra do governo brasileiro para conter os preços praticamente não existe, pois os estoques de grãos são marginais.

A Política de Garantia de Preços Mínimos do Ministério da Agricultura é de 1966.

Quando os preços de mercado (dos grãos) ficavam abaixo do mínimo, o governo comprava os produtos.

Mas faz anos que os preços de mercado dos produtos agrícolas estão acima do mínimo, e o mundo, com exceção da China, abandonou a política de formação de estoques.

Comecei este texto no dia 19 de janeiro de 22 e a notícia econômica do dia era o maior preço do petróleo desde 2014, em boa parte por conta da então iminente invasão da Ucrânia pela Rússia, que pode levar ao boicote pela Europa ao gás natural russo, e a um aumento ainda maior do preço do petróleo, que seria usado pela Europa para produzir energia em substituição ao gás russo.

Ainda, pode haver a diminuição (ou interrupção) da produção europeia de ureia, feita em boa parte com o gás russo.

Termino este texto em 21 de fevereiro, e aquela guerra parece estar em curso, mas não como o mundo imaginava. Há 190 mil soldados russos na fronteira com a Ucrânia, milícias financiadas pela Rússia atuando como separatistas no leste da Ucrânia, drones americanos e russos sobrevoando a região, e ameaças de retaliação de parte a parte.

Em meio a tudo isso, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro esteve na Rússia no dia 16 de fevereiro cumprindo agenda decidida pelo menos dois meses antes.

Ignorando declarações inconvenientes de nosso presidente, destaco que sua agenda incluía o pedido de garantia de fornecimento de ureia pela Rússia, responsável por 20% da ureia consumida no Brasil, e o fornecimento pela empresa russa Rosatom de “reatores nucleares de baixa capacidade em versões terrestres e flutuantes” ao Brasil (Golub, 2021).

Discutimos as possibilidades de tais reatores neste espaço (“Baterias nucleares, carros elétricos e reservas de lítio no Brasil”, QD-622).

Imagine o leitor a tempestade perfeita: aumento do preço do petróleo, que leva ao aumento do diesel para os caminhoneiros, associado ao aumento e/ou falta de ureia, que pode ocasionar uma quebra parcial da safra brasileira (aumentando o preço da comida). A

inflação de 2021 já foi de mais de 10%, e 2022 pode dobrar a aposta.

Será que não deveríamos estar considerando estoques reguladores de fertilizantes?

Se o governo formasse seus estoques reguladores de fertilizantes com produto nacional, a balança comercial e a indústria química seriam também beneficiadas.

Algum incentivo à fábricas nacionais de fertilizantes e uso de insumos nacionais também deveria entrar no radar do (futuro) governo.

O Brasil tem reservas de fosfato em Catalão-GO e tecnologia desenvolvida para o seu aproveitamento. Reservas de Carnalita (KClMgCl26H2O) em Sergipe poderiam reduzir nossa dependência do cloreto de potássio (KCl) importado.

O Brasil é maníaco-depressivo, e alguém que leia isso pode pensar que defendo um PAC 3.

Nada mais longe da verdade, mas, como escreveu um inglês famoso, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

Não precisamos, não devemos, aliás, ficar oscilando entre um Estado desenvolvimentista, que tira dinheiro de educação e saúde para entregar a empresários de índole questionável, e um não-Estado, que não oferece proteção alguma à economia nacional (nem à Saúde e à Educação).

A contribuição da agropecuária para a economia é muito ampla.

Dissemina tecnologia avançada pelo interior, apesar da limitação da conexão de internet (e o 5G?), e emprego, por meio dos serviços de apoio à produção agropecuária.

O setor enfrenta duas ameaças: o aumento do protecionismo europeu, que se aproveita da desastrosa condução da política ambiental do governo, e, de novo, a relativa escassez global de fertilizantes que pode comprometer o aumento da produtividade (Ming, 2021).

E não dá para considerar nada na economia brasileira, nem mesmo a indústria química, sem levar em conta a agricultura.

Poderíamos pensar em soluções de curto prazo, ou emergenciais para os problemas da indústria química que afetam o restante da economia, e soluções estruturantes, definitivas, de médio e longo prazo.

Soluções de curto prazo: o famigerado REIQ (regime especial da indústria química) e estoques reguladores de fertilizantes.

Soluções estruturantes: gasodutos, reforma tributária, disseminação do 5G, ensino médio técnico (programação e instrumentação, mas também mecânica, química, eletricista, marcenaria etc.), proteção de reservas ambientais, biorrefinarias baseadas em usinas de cana-de-açúcar e fábricas de celulose, geração distribuída (GD) de energia (e biorrefinaria) baseada em resíduos das criações de porcos e frangos.

Estas últimas propostas implicam em associação da agroindústria com a indústria química. Seria bom para todos.

Referências

De Chiara M, Tomazela JM. Falta de fertilizantes complica plantio e sinaliza mais inflação na mesa em 2022. https://economia.estadao.com.br/noticias/agronegocios,falta-de-fertilizantes-complica-plantio-e-sinaliza-mais-inflacao-na-mesa-em-2022,70003869806. Publicado em 16/10/21. Acessado em 19/01/22.

Golub D. Rússia quer participar da construção de unidades de energia nuclear no Brasil, diz Putin. Russia Beyond, publicado em 17/02/21. Disponível em: https://br.rbth.com/economia/86434-russia-disposta-participar-construcao-novas-unidades-energia-nuclear-brasil

Ming C. Festa agendada no interior. https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,festa-agendada-no-interior,70003921883. Publicado em 09/12/21. Acessado em 19/01/22.

Paraguassu L, Samora R. Russa Acron fecha compra de projeto de fertilizantes da Petrobras em MS, diz ministra. Reuters. Publicado em 04/02/21. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2022/02/04/russa-acron-fecha-compra-de-projeto-de-fertilizantes-da-petrobras-em-ms-diz-ministra.htm

Rocha L. Gás natural reinjetado até agosto corresponde a 43% da produção nacional. Disponível em: https://www.poder360.com.br/economia/gas-natural-reinjetado-ate-agosto-corresponde-a-43-da-producao-nacional/. Publicado em 07/10/20. Acessado em 19/01/22.

Rocha L. Gás natural tem 39% de reajuste; promessa de Guedes fica mais distante. Disponível em: https://www.poder360.com.br/economia/gas-natural-tem-39-de-reajuste-promessa-de-guedes-fica-mais-distante/. Publicado em 01/05/21. Acessado em 19/01/22.

The Guardian. https://www.theguardian.com/environment/2021/nov/25/fertilizer-shortage-north-america-farmers-food-prices. Publicado em 25/11/21. Acessado em 19/01/22.

Zhong.R. This Chemical Is in Short Supply, and the Whole World Feels It. https://www.nytimes.com/2021/12/06/business/urea-fertilizer-food-prices.html. Publicado em 06/12/21. Acessado em 19/01/22.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico
André Bernardo é Engenheiro Químico

O AUTOR

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: abernardo@ ufscar.br

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