Química e Derivados Nº 500: Registro dos avanços da indústria

Corria o ano de 1965. Victor Civita, presidente da Editora Abril, famosa pelo sucesso das “revistinhas” Pato Donald e Mickey, diversificava os produtos de sua empresa. Em paralelo ao lançamento de títulos até hoje em ótima posição no mercado, como Claudia e Quatro Rodas, ele revelava entusiasmo por veículos segmentados. Por isso, havia criado o Grupo Técnico. Os primeiros títulos lançados pela divisão foram Transporte Moderno e Máquinas & Metais.

Um terceiro fruto chegou ao mercado em agosto daquele ano. Era uma revista com nome para lá de estranho para os leitores acostumados com os gibis da editora: Química & Derivados. Uma frase presente no editorial do número zero, assinado por Civita, resumia a intenção do produto: “Todas as suas páginas têm um só objetivo: servir ao leitor.” Em novembro entrava no mercado o número um da publicação.

Este mês, Química & Derivados chega à sua edição de número 500. Ela permaneceu sob o comando da Abril até 1976, quando passou a ser produzida pela Editora QD. Ao longo dessas quatro décadas e meia, milhares de entrevistas se realizaram. Jornalistas permaneceram durante incontáveis horas na frente de seus teclados, sejam eles das antigas máquinas de escrever ou de computadores. Tudo em nome da produção de textos de qualidade sobre todos os segmentos de mercado ligados ao setor.

A preocupação em diversificar os temas ficou clara desde a capa do número zero. Ela destacava três matérias: as características principais dos corantes disponíveis para a indústria têxtil; os cuidados necessários para a operação de injeção de plásticos; e os modelos de misturadores oferecidos pelo mercado na época. De lá para cá, a revista tem noticiado os fatos relevantes das empresas envolvidas nessa indústria, como as de petróleo e petroquímica, caldeiraria, tintas, cosméticos, fertilizantes, óleos e sabões e papéis e celulose, entre outras.

Alguns temas, na década de sessenta inimagináveis mesmo para os visionários da ciência e tecnologia da época, ganharam espaço em suas páginas com o passar do tempo. Podemos falar, por exemplo, dos biocombustíveis, da nanotecnologia ou da descoberta das reservas de petróleo nas camadas do pré-sal. Aspectos de relevância social, como saúde, segurança e meio ambiente, passaram a ser pré-requisitos da atividade química. Da mesma forma, ganharam espaço reportagens ligadas à qualidade de produtos e processos. Tecnologia à parte, a revista acompanha de perto as dificuldades vividas pelos representantes do comércio de produtos químicos, atormentados pela instabilidade da economia brasileira nas últimas décadas.

Enciclopédia – A formação da primeira equipe da Química & Derivados começou de forma prosaica. Um anúncio publicado em um domingo de 1965 entre os classificados de emprego no jornal O Estado de S. Paulo oferecia vaga a um engenheiro químico afeito aos segredos do jornalismo. Os interessados deviam mandar cartas manuscritas, revelando suas experiências pessoais e o salário requerido.

Entre os pretendentes, um candidato de nome pouco comum. Telésforo Gnudi era formado em engenharia na Escola Politécnica da USP e em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero. Contava com passagem em várias indústrias e talento na elaboração de textos comprovado pela qualidade das apostilas que escreveu para os cursos da Politécnica, onde exerceu o cargo de professor. Difícil achar alguém melhor preparado para a função. O cargo era o de diretor de redação.

Revista Química e Derivados n° 563

Os primeiros números apresentaram artigos sobre dados técnicos de produção ausentes nos manuais da época. O objetivo era publicar uma espécie de enciclopédia de química em língua portuguesa, com qualidade capaz de competir com as similares de língua inglesa, alemã e espanhola. A revista obteve excelente receptividade por parte da indústria nacional e chegou a fazer sucesso além das fronteiras. Suas edições foram solicitadas pela biblioteca de Nova York.

No segundo semestre de 1966, Gnudi ficou sabendo da facilidade dada aos engenheiros químicos interessados em obter visto para trabalhar nos Estados Unidos. O país do Tio Sam estava à procura de talentos da área. O fato gerou no diretor de redação a vontade de mudar de ares. O desejo foi insuflado por um boato. Diziam que o governo militar iria proibir a saída do Brasil de profissionais diplomados a partir de janeiro de 1967. A proibição não veio, mas no dia 31 de dezembro de 1966 Gnudi deixava o Brasil com destino à América do Norte. A redação da revista começou o ano de 1967 com novo comando.

De leitor a editor – O novo comandante da redação era leitor e pequeno anunciante da revista. Sua contratação se deu de forma curiosa. Formado em Química pela USP, Mário Ernesto Humberg era proprietário de uma pequena indústria química localizada na Zona Leste de São Paulo, fabricante de estabilizantes de PVC e de sais de flúor. A economia brasileira vivia período de recessão, motivada pela tentativa do governo federal de combater a inflação. Na época, ele via com tristeza a aparição constante do nome de seus clientes em notícias de falências e concordatas.

Humberg era leitor da Química & Derivados desde o número inicial. Na época, recebeu algumas visitas de Ebert Unger Ramos, diretor-comercial da publicação, cuja missão era convencê-lo a anunciar. As dificuldades geradas pela crise convenceram o empresário a arriscar. Mesmo em dificuldades financeiras, assinou a autorização para três veiculações publicitárias do menor tamanho possível. Dessa forma, de leitor passou a anunciante.

Revista Química e Derivados nº 578 ©QD

O primeiro anúncio ainda não havia sido publicado nas páginas da revista, e a situação da empresa de Humberg piorou. Sem dinheiro, começou a desativar o negócio. Ele se desligou dos sócios e dispensou funcionários. Quando buscava revender matérias-primas e equipamentos, veio a primeira veiculação. Com ela, um bom pedido de estabilizantes. Ele liquidou estoques e sozinho fabricou a quantidade adicional.

A encomenda não mudou sua decisão. A intenção de fechar a fábrica foi mantida e Humberg ligou para Ramos na tentativa de cancelar os outros dois anúncios. A resposta foi surpreendente. O representante da revista o convidou para ser diretor de redação de Química & Derivados. Depois de algumas conversas com a direção da Abril, o acerto foi concluído. Ele foi contratado em outubro de 1966.

O novo comandante gostava da revista, mas a achava demasiadamente teórica. Ele sentia falta de informações voltadas para o mundo dos negócios, linha editorial adotada por publicações internacionais, como a Chemical Week e a ECN European Chemical News. Resolveu alterar o perfil do noticiário. A inovação começou em maio de 1967, com uma edição totalmente dedicada ao promissor setor de plásticos. A melhora das vendas de espaço publicitário nos números seguintes provou o acerto das mudanças.

Em julho de 1967, outra novidade. A ideia levou a assinatura do diretor das revistas técnicas, Renato Rovegno, com apoio das equipes editoriais e comerciais. A partir daquela edição, foi lançado um caderno especial sobre economia e negócios, que passou a ser encartado nas três revistas do grupo, Transporte Moderno, Máquinas & Metais e Química e Derivados. Esse encarte se chamava Exame e hoje é revista de grande sucesso editorial da Abril.

Após dois anos e meio ocupando o cargo de diretor de redação, Humberg fecha a edição de agosto de 1969 e é transferido para a diretoria comercial da revista. No seu lugar ficou o engenheiro Ernesto Klotzer, ocupante do cargo pelo curto período de seis meses. Sua saída coincide com a extinção do cargo de diretor de redação.

Emanoel Fairbanks, contratado por Humberg no final de 1967 como redator-estagiário, fica com o cargo de redator-principal. Ele tinha o diploma de farmacêutico pela USP, é pós-graduado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas e em mecanismos de reações químicas, também pela USP. Antes de entrar na revista atuou por nove anos e meio na Johnson & Johnson e por dois anos na Anderson Clayton. Hoje, Fairbanks é sócio e diretor editorial da Editora QD.

Em 1971, outra novidade. A então promissora indústria do plástico passou a ser tema do quarto título ligado ao Grupo Técnico da Abril, a Plásticos e Borracha. Os plásticos, antes, eram tratados com regularidade na Química & Derivados. Dizia o editorial do número um da nova revista que sua missão era a de se transformar em ponte entre fabricantes de matérias-primas, transformadores e fornecedores de equipamentos, no intercâmbio de interesses comuns.

Sob nova direção – Em 1976, a Editora Abril resolveu desativar seu Grupo Técnico. Com títulos de grandes tiragens em sua carteira, a empresa não queria mais publicar tiragens pequenas e de resultado econômico tímido, quando comparado com as demais publicações da casa. Cerca de quarenta jornalistas das técnicas foram dispensados. As últimas edições saíram no mês de julho.

O problema chegou ao sindicato dos jornalistas, presidido por Audálio Dantas. Depois de algumas negociações, a saída mais conveniente foi a de transferir os títulos aos ex-empregados, mediante um leilão de ofertas. A empresa dos Civita estava disposta a negociar uma publicação para cada grupo de interessados e não cederia seu parque gráfico para a impressão dos respectivos exemplares.

A Química & Derivados foi transferida para Fairbanks e Plásticos & Embalagem (a revista havia trocado de nome em 1973) ficaria com Denisard Gerola da Silva Pinto, engenheiro químico e administrador, que entre outros empregos contava em seu currículo com experiência de quatro anos na área comercial da Editora Abril. Como pagamento, os novos empresários cederam algumas páginas de anúncios por edição à ex-editora.

Revista Química e Derivados Nº 551 ©QD

Por motivos econômicos, os novos empresários decidiram ocupar um mesmo prédio como sede. Passaram quase um mês em negociação com a Abril para tentar permissão de fundir as duas revistas em uma só, visto que a Plástico & Embalagem era um desdobramento recente da Química & Derivados, com pouca chance de sobreviver de forma isolada. Roberto Civita, sucessor do pai Victor, aprovou o projeto.

Nascia a Editora QD. A nova era começou repleta de carências. Em suas modestas instalações, a cozinha acomodou a redação. Alguns entrevistados convidados chegaram a sentar na pia de granito para serem ouvidos pelos jornalistas. O único telefone disponível era bastante disputado. Apesar das dificuldades, o número de agosto saiu. Um tanto atrasado, é verdade. Circulou em outubro. Os parcos recursos aplicados pelos sócios garantiram a compra de papel e o custeio gráfico dos primeiros números. A modesta venda de anúncios ajudou a garantir a sobrevivência da aventura até o final daquele ano.

A edição de janeiro/fevereiro de 1977 foi muito importante para a história da QD. O setor de caldeiraria vivia fase propícia de investimentos, graças à construção do polo petroquímico da Bahia e também da área de refino da Petrobras, em Paulínia-SP. Decidiu-se publicar uma edição especial de válvulas, com ricas informações sobre o setor, e a resposta do mercado publicitário foi excelente. Nos meses seguintes, reportagens sobre bombas, tanques, separadores industriais e outros equipamentos ajudaram a consolidar o sucesso do empreendimento.

A preocupação com o conteúdo sempre norteou a direção e funcionários da Editora QD e ajudou muito na consolidação da empresa. Um exemplo se encontra no primeiro número da publicação sob nova direção. A capa anunciava uma entrevista com o então diretor-comercial da Petroquímica União, Michel Hartveld. O encarte de Plásticos & Embalagem trazia entrevista com Dílson Funaro, presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico e também da Trol. Alguns anos depois, Funaro ficaria célebre como um dos mentores do Plano Cruzado.

Em tempo: depois de seis anos de reclamações dos leitores, a revista de plásticos voltou a ser impressa de forma independente em seu número 124, publicado em novembro de 1982. O fato coincidiu com a inauguração do complexo petroquímico Sul e foi marcado pela nova alteração do nome do veículo. Ele passou a ser chamado de Plástico Moderno.

Desenvolvimento – A profunda transformação ocorrida no setor de química nos últimos 45 anos está registrada nas páginas da revista. Para se ter uma ideia do desenvolvimento no período, a indústria química brasileira obteve faturamento líquido de US$ 103,3 bilhões em 2009, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Em 1965, quando Química & Derivados foi lançada, o setor era muito diferente. As atividades eram incipientes, os principais produtos importados.

As refinarias ofereciam algumas matérias-primas, eram fabricados insumos básicos como ácidos e soda, por exemplo. As indústrias Matarazzo, maior grupo empresarial brasileiro da época, Votorantim e Elekeiroz se encontravam entre as brasileiras com atuação com algum destaque no ramo. Pequenas e médias empresas beneficiavam matérias-primas naturais para obter especialidades.

As principais multinacionais do setor estavam presentes no país, fabricando intermediários, resinas e alguns outros produtos em plantas industriais de dimensões acanhadas. A ideia era atender o mercado interno, para lá de protegido por altas alíquotas alfandegárias. O polietileno, por exemplo, era fabricado pela Union Carbide, e o PVC pela Elclor, da Solvay, e pela Geon, da Matarazzo.

A indústria de tintas e vernizes talvez fosse a mais significativa do setor químico, dominada por grupos familiares. Ela usava matérias-primas locais, muitas vezes produzidas nas próprias instalações dos fabricantes. A limitada indústria de fertilizantes, os fabricantes de produtos de couro e produtores de matérias-primas para a indústria de cosméticos movimentavam cifras modestas. Em várias regiões do país se produziam ácidos graxos e glicerina obtidos do sebo. O setor de equipamentos e acessórios contava com empresas como Jaraguá, Confab, Nordon, Dedini e outras.

Revista Química e Derivados nº 556

Um fato importante ajudou o desenvolvimento da indústria química. Antes do lançamento da revista, no dia 29 de abril de 1964, foi criado o Grupo Executivo da Indústria Química (Geiquim), cuja missão era aglutinar antigos grupos de trabalho de produtos farmacêuticos e de fertilizantes como embrião de um projeto de amplo desenvolvimento do setor químico. Em fevereiro de 1965, o grupo ganhou condições de coordenar os investimentos setoriais e passou a oferecer benefícios tributários. A edição de outubro de 1968 publicou as primeiras resoluções práticas do Geiquim. Uma curiosidade: a capa da edição contava com a presença do Tio Patinhas, o “pato mais rico do mundo”, como paradigma de investidor de sucesso.

Petróleo e petroquímica – As indústrias do petróleo e petroquímica proporcionaram edições relevantes ao longo desses 500 números. Em 1965, a produção de petróleo estava longe de cobrir as necessidades de consumo interno. A petroquímica tinha participação nula na economia nacional. Um dos projetos do Geiquim resultou na instalação, em 1969, da Petroquímica União (PQU).

Em janeiro de 1969 foi lançada a primeira edição especial sobre o tema. A revista mostrava a revolução no Brasil proporcionada pela instalação da PQU. Como destaque, trazia uma entrevista com o ministro das Minas e Energia, Costa Cavalcanti. Também apresentou perfil completo de tubo ligado ao universo da indústria que estava se instalando no país. A publicação teve edição especial em inglês e durante um bom tempo se tornou a principal referência sobre o setor.

Petróleo e petroquímica mereceram muitas outras capas. Um exemplo: em março de 1975, nasceu o estado do Rio de Janeiro, que passou a incorporar a Guanabara. A Química & Derivados mostrou as consequências positivas dessa decisão. Um dos motivos do otimismo era a inauguração do III polo do país na nova unidade da federação, prevista para aquele ano graças às descobertas de petróleo e gás natural em Campos-RJ.

Em 1978, o assunto era o mercado de exploração de petróleo em alto mar. O tema chamava a atenção dos fabricantes de equipamentos, interessados em produzir plataformas marítimas, sondas, tubulações e outros equipamentos. A edição de junho mostrou as promissoras oportunidades de negócios de uma atividade industrial inédita.

Em 1985, os ventos da economia eram sombrios. O país se encontrava em crise econômica, a inflação era elevada e os índices de crescimento não animavam ninguém. Depois de construir três polos em pouco mais de dez anos, investimentos feitos em nome do abastecimento do mercado interno, a petroquímica encerrava a fase dos grandes projetos. Em junho, a revista destacava os planos da época do setor. Eles se voltaram para ações complementares ligadas às áreas de especialidades e química fina.

O processo de privatização atingiu diversas atividades econômicas no Brasil no final do século passado. Podemos citar os segmentos da telefonia e de distribuição de energia elétrica, por exemplo. O mesmo começou a ocorrer com o setor petroquímico, com a venda da Copesul. Na edição de outubro de 1990, a reportagem de capa focalizava a saída de cena do governo em busca de maior eficiência na gestão das empresas ligadas à fabricação de derivados de petróleo.

Os anos correram e vários outros acontecimentos afetaram o setor. Hoje, a oficialização, no início de 2010, do acordo de compra da Quattor pela Braskem foi um acontecimento marcante. A Braskem se tornou o grande nome do setor por aqui e a 11ª empresa petroquímica do mundo. Levantamento da consultoria MaxiQuim aponta que a empresa tem capacidade de produção de quatro milhões de toneladas de produtos. Ela é hegemônica no fornecimento de polietileno e polipropileno para o mercado brasileiro.

Na edição passada, de junho de 2010, foi divulgado um plano ambicioso de investimentos da Petrobras para o quinquênio 2010-2014. O montante previsto é de US$ 224 bilhões, dirigidos à exploração das áreas do pós e do pré-sal. O plano autoriza a União a subscrever ações do capital social. A meta é capitalizar a empresa, com o objetivo de arrecadar recursos para tocar os 686 projetos de grande porte previstos para o período.

Biocombustíveis – A crise do petróleo de 1973 foi uma das principais responsáveis pelo final do período de crescimento da economia conhecido como “milagre econômico”. O aumento do preço do “ouro negro” e a dependência das importações fizeram o governo criar, no final de 1975, o Programa Nacional do Álcool.

Na edição de janeiro/fevereiro de 1976, os leitores encontraram informações detalhadas sobre o projeto. Uma das metas era economizar US$ 500 milhões por ano em divisas. Em termos de produção, visava a elevar a oferta de álcool de 650 milhões de litros por ano para quase quatro bilhões de litros por ano em 1985.

Química e Derivados, Revista Química e Derivados N° 557 ©QD

O programa, depois de alguns momentos de alta e de baixa, pegou. Com a valorização da defesa do meio ambiente, o combustível renovável ganhou cartaz por ser menos poluente. Em 2003, a Volkswagen lançou o primeiro veículo Flex no mercado brasileiro. Outras montadoras seguiram o exemplo. O carro flex deu um “empurrão” e tanto para o consumo do álcool.

Hoje, essa indústria apresenta números impressionantes. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, na safra 2009/2010, o Brasil produziu 25,7 bilhões de litros de álcool. Ainda de acordo com o ministério, estão previstos investimentos de US$ 33 bilhões no setor até 2012.

Em 2003, começava a ser bastante comentada uma nova alternativa aos derivados de petróleo. Trata-se do éster metílico ou etílico, obtido com a transesterificação entre óleos vegetais e álcool. Entre os simples mortais, o produto ficou conhecido por biodiesel. A edição de abril mostrou um perfil sobre as possibilidades de uso do combustível, na época ainda vistas com reservas por especialistas.

A ideia prosperou. Apesar de ser uma indústria incipiente em relação ao álcool, o biodiesel promete se transformar em outro produto brasileiro de sucesso. Em janeiro de 2010, três anos antes do previsto, todo o diesel comercializado no Brasil para movimentar veículos passou a contar com 5% da versão renovável. Dados do Ministério das Minas e Energia estimam uma capacidade instalada atual de 3,6 bilhões de litros por ano.

Meio ambiente – A defesa do meio ambiente hoje é preocupação obrigatória de todas as empresas envolvidas com o mundo da química. Em 1971, o tema passava despercebido pela grande maioria dos profissionais do ramo. Não para a Química & Derivados. Na edição de novembro foram apontados os problemas gerados pela poluição hídrica. Com o governador paulista Laudo Natel ao lado do título “Um problema de cadeia”, a revista discutia a incômoda presença de espumas no leito dos rios, causadas pelo uso de detergentes não biodegradáveis.

A matéria sugeria a substituição pelos modernos biodegradáveis e chamou a atenção do dr. Rômulo de Almeida, presidente da Clan Consultoria e considerado o “pai da petroquímica baiana, pelos serviços prestados durante a montagem do Polo de Camaçari. Seu entusiasmo redundou na criação da Deten (Detergentes do Nordeste), em maio de 1973.

A partir da década de 90, ficou evidente o aumento de interesse pelo tema. Um marco inicial da nova fase foi a realização da ECO’92, no Rio de Janeiro, evento detalhado na edição de maio daquele ano. No mesmo ano, surgiram dois outros projetos marcantes, informados pela revista. O Brasil foi introduzido no programa internacional de gestão da saúde, segurança e meio ambiente Responsible Care, por iniciativa da Abiquim. Outro marco foi o Projeto Tietê, voltado para reduzir a poluição do famoso rio brasileiro.

Daquele período até hoje, o número de aparições do tema na publicação se multiplicou. Reportagens sobre projetos para redução de resíduos industriais ou purificação da água, entre outros, revelam novas tecnologias de defesa da natureza. Um tema em voga foi destaque da última edição de junho. A Reach (Registration, Evaluation and Authorisation of Chemicals), rigorosa regulamentação europeia para controle de produtos químicos, promete abalar o comércio mundial do ramo nos próximos meses.

Tintas, cosméticos… – Reportagens sobre os mais diversos nichos de mercado da indústria química foram destaques nas páginas da revista. O setor de tintas movimentou no ano passado a bagatela de US$ 6,1 bilhões, de acordo com a Abiquim. Pela sua importância, tem merecido, ao longo dos anos, várias páginas na Química & Derivados. Uma matéria marcante sobre o segmento mereceu a capa da edição de 1972. Na época, o setor demonstrava grande potencial de crescimento e era muito atraente para os investidores de plantão. A revista ofereceu aos leitores valiosas dicas sobre os recursos necessários para montar e colocar em funcionamento uma fábrica de tintas.

Química e Derivados, Revista Química e Derivados n° 561

Os segmentos nacionais de cosméticos, higiene pessoal e perfumaria se encontram entre os maiores do mundo. No ano passado, de acordo com dados da Abiquim, movimentaram US$ 11,6 bilhões. Ao longo dos anos, os avanços tecnológicos do setor sempre foram motivos de reportagem. Muitas vezes de capa. A edição de abril de 1991, por exemplo, abordou o início da utilização dos lipossomas nas fórmulas dos cosméticos nacionais.

Dados da Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa) registram a produção, no ano passado, de 13,5 milhões de toneladas de celulose e 9,3 milhões de toneladas de papel. Merece destaque o sucesso da tecnologia brasileira de produção de celulose, produto responsável por importante montante de divisas na balança comercial. Em março de 1994, a capa da revista falava sobre o momento positivo vivido por esse segmento e destacava a preocupação dos empresários da área com as novas exigências feitas pelos ambientalistas para reduzir a poluição das linhas de produção.

As indústrias de plásticos, petróleo, tintas, borrachas, eletrônica, farmacêutica, automobilística, têxtil e de cosméticos passaram a utilizar, nos últimos anos, minúsculas partículas capazes de proporcionar características no passado impensáveis aos seus produtos. Surgiu a nanotecnologia, vista por muitos como responsável por nova revolução industrial no século XXI. Em agosto de 2005, o governo federal lançou o Programa Nacional de Nanotecnologia. Em novembro, ampla reportagem apresentou aos leitores detalhes sobre a técnica e os trabalhos feitos por institutos de pesquisa e empresários brasileiros.

Uma palavra sobre os anuários da Editora QD. O mais famoso, o Guia Geral de Produtos Químicos, completa seu trigésimo aniversário em 2010. Ao longo dos anos, transformou-se em fonte de consulta obrigatória para profissionais ligados aos mais diversos ramos do mercado químico. No longínquo mês de julho de 1970, dez anos antes de sua primeira edição, a revista mostrava um esboço de como seria o produto. Nela, os leitores encontraram ampla análise do mercado e uma inédita relação de fornecedores de produtos em ordem alfabética. Também são editados os guias do Laboratório, de Equipamentos e o Anuário Brasileiro do Plástico.

Credibilidade – A independência do trabalho jornalístico é imprescindível para a credibilidade de um veículo de comunicação. A Química & Derivados prima por isso. Uma reportagem feita na edição de junho de 1971 é exemplo dessa determinação. A matéria, assinada por Fairbanks, se chamou “Como Escolher o Filtro Certo” e contou um episódio nada glorioso vivido pelo redator quando trabalhava na Johnson & Johnson.

O fato ocorreu na operação de síntese do Rarical Vitaminas, famosa drágea da época. O produto final tinha a consistência de um barro branco de filtração quase impossível. Para não gastar insignificante quantia na aquisição de uma centrífuga de cesto, o diretor de produção da multinacional intimou sua oficina mecânica a produzir um filtro a vácuo adequado. O Sputinik (nome dado ao equipamento improvisado por sua aparência de “foguete”) não funcionou. Após uma semana de tentativas frustradas, ele foi finalmente substituído por uma centrífuga de cesto, que deu conta da missão com facilidade.

Revista Química e Derivados

A publicação da matéria causou a fúria do pessoal da Johnson’s, que ameaçou cancelar todos os anúncios de todas as revistas da Abril. O problema caiu no colo de Victor Civita. O presidente da editora resolveu promover uma “acareação” entre o redator e representantes dos entrevistados. Fez uma única pergunta aos queixosos. “É verdade ou mentira o que está aqui publicado?”

Representantes da empresa disseram que a questão não era essa, ao que Civita tornou a insistir se o texto era falso ou verdadeiro. A resposta veio de pronto. “É claro que é verdade, pois foi ele quem comandou a síntese”, admitiram os queixosos. Com um semblante irônico, revelando satisfação, Civita arrematou: “Era o que eu precisava saber, pois ele aqui é pago para dizer a verdade.”

O exemplo de coragem continuou a ser imitado. Essa história não para por aqui. Os responsáveis por Química & Derivados prometem lutar para manter a qualidade e a credibilidade da publicação.

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