Novo marco legal incentiva uso adequado de lodos residuais

Soluções – As perspectivas de uso das tecnologias mais avançadas ainda devem ser testadas diante da realidade do mercado de optar normalmente pela opção mais barata, que seria a destinação em aterros. Mas a tendência é de redução de custos, na medida em que as soluções começam a ser empregadas.

Os ganhos de escala devem fazer tecnologias ainda praticamente inéditas no país começarem a ser empregadas, caso por exemplo da gaseificação em leito fluidizado. E, do mesmo modo, a maior demanda promete aumentar o uso de soluções já utilizadas, como o coprocessamento de resíduos em fornos de cimento, que dosa nos blends de resíduos, entre outros tipos de rejeitos, o lodo de estações de tratamento de efluentes e esgotos.

Uma solução com potencial está sendo ofertada no Brasil pela empresa Ember Lion, de Curitiba-PR, que nacionalizou a tecnologia de reator de leito fluidizado com areia da suíça Raschka, utilizada em mais de cem plantas da Europa e Ásia para gaseificar principalmente lodos de ETEs.

O equipamento conta com câmara cilíndrica dividida em camadas, onde ocorre a reação. A primeira delas, na parte inferior, conta com o leito fluidizado, com areia incandescente, na qual o ar de combustão faz os rejeitos serem misturados com o leito. Nesta região, o excesso de ar é controlado de modo que as reações não sejam completas e que a temperatura seja inferior a 700ºC, para provocar a gaseificação, o que resulta na volatilização dos orgânicos, restando apenas o material inerte no leito. O lodo então é consumido e volatilizado e os detritos inorgânicos (5% a 10% do total) são eliminados na recirculação da areia.

Os voláteis seguem para a parte superior da câmara, para a combustão, com temperatura controlada pela injeção de ar e de água que circula em cavidades. Daí, os gases de combustão e as cinzas volantes sobem para a zona de pós-combustão, onde permanecem por no mínimo dois segundos para garantir a combustão completa, antes de saírem a uma temperatura média de 1.000ºC, para serem queimados em caldeira para gerar vapor, que poderá ser utilizado ou em processo industrial ou em turbina para gerar eletricidade.

Segundo o diretor da Ember Lion, Reges Dias, o reator em leito fluidizado foi projetado para operar com resíduos de baixa capacidade energética, lodos industriais e de tratamento de esgoto. A empresa é fruto de parceria com os suíços e a Biocal, fabricante nacional de caldeiras e responsável pela nacionalização de 95% dos componentes do sistema. Embora ainda não tenha fechado contrato, Dias revela que há projetos em maturação com grande possibilidade de serem fechados em breve. O ideal, afirma, é implantar o sistema para grandes escalas, para tratar de 80 t a 100 t por dia de lodo.



Coprocessamento – Uma alternativa para a destruição de resíduos já utilizada há duas décadas no Brasil com potencial para aumentar sua participação no mercado de lodos é o coprocessamento em fornos de cimento.

Por essa solução, vários tipos de resíduos, como borras oleosas, lodos, materiais contaminados, pneus, e mais recentemente até resíduos sólidos urbanos, são misturados em blends por empresas especializadas para atingir as especificações de granulometria e poder calorífico e assim substituir o coque de petróleo como combustível em fornos de clínquer. Da mesma forma, resíduos com possibilidade de substituir as matérias-primas do cimento (cal, alumina, sílica e ferro) são também coprocessados, como lama de siderurgia, refratários usados, areia de fundição, gesso ou cinzas.

No Brasil, no último dado disponível da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), foram coprocessadas 1,2 milhão de t de resíduos (2018). Embora o lodo não tenha sozinho o poder calorífico necessário para entrar nos fornos como combustível, ele faz parte dos blends, principalmente os de origem industrial, que elevam o poder calorífico para pelo menos 4,5 mil kcal/kg. Já os lodos de estações de tratamento de esgoto podem vir a ser interessantes caso seja feita a secagem para remover o alto teor de umidade e se o transporte for facilitado pela proximidade entre fornos e ETEs.

A Renova, empresa especializada na preparação de resíduos para as cimenteiras, tem utilizado em seus blends (formulados com resíduos de mais de 1,5 mil clientes) lodos de estações de tratamento de efluentes industriais. Segundo seu diretor de operações, Christiano Baccin, do total entregue para fornos de cimento no ano passado, 80 mil toneladas de CDRs, por volta de 10% eram lodos industriais. Neste ano, a previsão é de que o volume chegue a 90 mil t, com mesmo percentual de lodos.

Segundo Baccin, os lodos, mesmo depois de desidratados pelas indústrias, vêm com umidade. Para atender os limites das cimenteiras de teor de líquidos, geralmente de 20%, o procedimento é misturar com vários outros tipos de resíduos mais secos, como materiais triturados e contaminados, até chegar aos parâmetros físico-químicos exigidos por cada um dos 15 fornos de cimento para os quais a Renova destina os CDRs.

As únicas restrições ocorrem com lodos galvânicos, por conta do teor de metais, prejudiciais aos fornos, e também com lodos resultantes de processos industriais com alto teor de cloro, também indesejados nos fornos de clínquer. Neste último caso, observa Baccin, houve até clientes que fizeram mudanças em seus processos para permitir a destinação de seus lodos com essa tecnologia. Foi o caso de uma indústria calçadista do Sul do país, que mudou a tinta de base cloro por outra de base polímero sintético para permitir a destinação do seu lodo no coprocessamento.

Esse caso no setor calçadista, para o diretor, ilustra a mudança que deve ocorrer com mais frequência nos próximos anos. Para ele, isso se deve a motivações ambientais e de custo. Ao se fazer uma análise de longo prazo, comparando a destinação em aterro, com custo de monitoramento e manutenção durante 20 anos, e ainda da responsabilidade do gerador depois do encerramento da vida útil, Baccin revela que muitos clientes acabam optando pelo coprocessamento, que destrói o passivo, evitando qualquer risco de responsabilização futura.

Com matriz em Arujá-SP, a Renova conta com unidades de blendagem em Farroupilha-RS e Ijaci-MG. A empresa tem acordos com as cimenteiras Intercement, Votorantim, Holcim Lafarge, Itambé, Supremo e Cimento Nacional. Esse portfólio permite que sejam feitos blends para 15 fornos, de Belo Horizonte até o Rio Grande do Sul. Segundo Baccin, está nos planos expandir a operação para o Nordeste.

A tendência de aumento da participação do coprocessamento de resíduos em forno de cimento, aliás, recebeu o reforço recente de uma nova resolução Conama (499), publicada em 6 de outubro e que revogou uma antiga, a 264/1999. Em vigor, a nova resolução moderniza a atividade, permitindo que mais tipos de resíduos sejam destruídos. O destaque ficou por conta da regulação referente ao coprocessamento de resíduos sólidos urbanos, ou seja, a permissão por normas bem definidas de se utilizar CDRs com lixo urbano nos fornos, que começa a ocorrer em alguns projetos no Brasil.

Além disso, a nova resolução deu permissão para que os fornos das cimenteiras recebam medicamentos, materiais vencidos ou fora de especificação. Também foram liberados resíduos de saúde que tenham passado por autoclavagem ou descontaminação biológica. Outras modernizações são referentes a monitoramento de emissões e redução dos limites de emissão de material particulado e inclusão de limites para dioxinas e furanos, SOx e NOx. Com a novidade, a atividade fica disciplinada para todo o país, seguindo o que alguns estados, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, já fazem há alguns anos por terem legislações próprias.

Página anterior 1 2 3Próxima página

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios