Meio Ambiente (água, ar e solo)

Novo marco legal incentiva uso adequado de lodos residuais

Marcelo Furtado
11 de fevereiro de 2021
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    Química e Derivados - Secador de lodo da Pieralisi consumirá biogás produzido na ETE de Bauru-SP ©QD Foto: Divulgação

    Secador de lodo da Pieralisi consumirá biogás produzido na ETE de Bauru-SP

    O novo marco regulatório do saneamento, sancionado em julho com a promessa de finalmente acelerar o processo de universalização dos serviços de água, esgoto e de resíduos sólidos do país, tem potencial para gerar benefícios a outras demandas ambientais adormecidas. Uma delas é a de tratamento e disposição de lodos de estações de tratamento de esgotos públicos e de efluentes industriais.

    A expectativa de empresas com tecnologia e equipamentos direcionados a esse mercado é a de que o novo cenário incentive o uso de soluções mais ambientalmente corretas para os lodos, com foco principal em recuperação energética e reaproveitamento do lodo tratado como biofertilizante. Isso porque a nova regulação do saneamento prevê maiores exigências para o correto manejo dos resíduos, o que deve encarecer a destinação em aterros – opção hoje mais utilizada para esses passivos – e incentivar outras soluções.

    Uma tendência que deve ser incentivada e viabilizada com o novo marco legal é a recuperação energética dos resíduos, incluindo os lodos das estações. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren), Yuri Shimtke, a nova regulação estabelece que todas as concessões em saneamento precisam passar por licitação, aberta a empresas públicas e privadas, para prazos de concessão de 30 anos. De acordo com ele, esse prazo longo tornará viável a estruturação de unidades de recuperação energética por meio de modelos de project finance, pelos quais o financiamento tem como garantia o fluxo de caixa dos projetos.

    Para completar os benefícios do marco do saneamento, diz Schimtke, será possível usar a tarifa de água como garantia para os empréstimos, facilitando ainda mais as estruturações financeiras, por exemplo, de usinas de biogás com biodigestão de lodo, de waste-to-energy (incineração com geração de energia), de unidades de gaseificação, de preparação de combustíveis derivados de resíduos (CDR) para fornos de cimento ou para gerar vapor. “Todas estas tecnologias atendem demandas também de lodos de estações de tratamento”, disse. Ainda segundo o dirigente, outro ponto importante é o ordenamento na nova lei do saneamento que permite a constituição de consórcios de cidades para gerir os serviços, o que abrirá a possibilidade, por conta dos ganhos de escala, de se construir grandes centrais de tratamento.

    Química e Derivados - Estela: custo de colocar lodo em aterros tende a aumentar ©QD Foto: Divulgação

    Estela: custo de colocar lodo em aterros tende a aumentar

    Custo dos aterros – Com­partilha dessa visão sobre as novas perspectivas a presidente do Sindicato Nacional das Indústrias de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam), da Abimaq, Estela Testa. Segundo ela, haverá uma tendência de aumento de custos para disposição de lodos municipais e industriais em aterros, já que o marco do saneamento impõe metas para as cidades montarem planos de gerenciamento de resíduos, o que significa maior cuidado e gastos com as operações. “Esse novo custo dos aterros vai ser repassado para os geradores de resíduos, o que favorece outras soluções”, disse.

    A própria empresa dirigida pela presidente do Sindesam, a Pieralisi, que fornece sistemas de desidratação e secagem de lodo, já percebe o aquecimento dessa demanda. Além das cotações terem aumentado, segundo Testa, um sistema completo da empresa passará a ser empregado em 2021 em nova estação de tratamento de esgotos do DAE de Bauru-SP. O sistema, além da desidratação com decantadores, contempla um secador da Pieralisi que usará como combustível o biogás captado de digestor anaeróbico. O propósito é utilizar o lodo seco como biofertilizante.

    O potencial para adotar soluções desse tipo, com foco na recuperação energética, é muito grande. Em um levantamento da Abren, a estimativa é a de que atualmente sejam gerados em torno de 4,3 milhões de toneladas por ano de resíduos sólidos oriundos da base seca do processo de tratamento de esgoto. Com a perspectiva de novos projetos por conta do novo marco legal, em poucos anos esse volume subiria para 9 milhões de toneladas, deduz o levantamento da associação.

    Para Schmitke, se seguir as tendências dos países desenvolvidos, os lodos gerados no Brasil deixarão progressivamente de ser enviados para os aterros. Mas ele, ao contrário da presidente do Sindesam, acha que os lodos secos não devem ser empregados como biofertilizantes, como diz estar ocorrendo na Europa. Isso por conta dos riscos envolvidos com o alto nível de metais pesados e de contaminações por disruptores endógenos, principalmente derivados de medicações e hormônios presentes no esgoto e que permanecem nos lodos. Segundo Schmitke, na Alemanha, por exemplo, do total aproximado de 1,8 milhão de t/ano de lodo base seca, em torno de 65% são destruídos termicamente, sendo mais de 50% como substitutos de combustíveis fósseis.

    Para o Brasil, na visão do presidente da Abren, o potencial maior também é para recuperação energética, mas com tecnologias que preparam o lodo para seu aproveitamento, por conta do baixo teor calorífico da base seca, alta carga de material mineral (cerca de 40%) e alta umidade, que demanda processos de desidratação e secagem. Uma tendência aí seria o uso dos lodos na geração de energia elétrica ou térmica utilizando processos de gaseificação em leito fluidizado.

    Essa constituição do lodo requer a sua transformação em combustíveis derivados de resíduos (CDR), que é feita no Brasil em unidades de blendagem, que o misturam com outros resíduos para atender as especificações de fornos de cimento, que os utilizam no coprocessamento. O potencial apenas com lodos, segundo o levantamento da Abren, seria para substituir mais de 700 mil t/ano de petcoque, combustível fóssil das cimenteiras, e 1,7 milhão de toneladas de carvão mineral nas centrais térmicas de eletricidade, o correspondente a 1,4 mil GWh por ano.



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