Novo Marco do Saneamento faz crescer a demanda por Máquinas

Meio Ambiente - Venda de equipamentos para saneamento dispara

A promulgação do novo marco regulatório do saneamento, a Lei 14.026, de 15 de julho de 2020, com sua meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033 tornada mais viável com a criação de um ambiente seguro para investimentos privados, promete causar um impacto bastante positivo sobre os fornecedores de equipamentos e materiais para saneamento.

Com o déficit bem conhecido de 35 milhões habitantes sem acesso à rede de água e se 100 milhões sem esgotamento sanitário, a estimativa de recente estudo da KPMG e da associação que representa as concessionárias privadas de saneamento, a Abcon, é a de que sejam necessários R$ 753 bilhões em investimentos para atingir as metas do marco (99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033).

Desse total, segundo o estudo, R$ 255 bilhões seriam referentes à recuperação da depreciação das redes existentes.

Os restantes R$ 498 bilhões seriam para investimentos novos de expansão da rede.

E é aí que os prováveis benefícios para os fabricantes de equipamentos e materiais começam a impressionar, de acordo com o estudo.

Em média, 60% do total previsto se destinará a compra de máquinas e 40% a obras civis.

Do total para máquinas e equipamentos, cerca de 70% são para investimentos em redes e adutoras, sendo R$ 199,5 bilhões para rede coletora de esgoto, R$ 46,5 bilhões para rede de abastecimento de água, R$ 41,6 bilhões para adutoras de água e R$ 47,6 bilhões para coletores tronco.

ETAs e ETEs – Estações de Tratamento de Água e Esgotos

Para estações de tratamento, a fatia no bolo é de cerca de 20%, com potencial de investimento de R$ 56,5 bilhões para as de esgotos (ETE) e de R$ 24,3 bilhões para as de água (ETA).

As ligações de esgoto demandariam mais R$ 29,6 bilhões, as de água mais R$ 11,7 bilhões, estações elevatórias de esgoto R$ 1,1 bilhão, tanques sépticos mais R$ 18,9 bilhões, reservatórios mais R$ 9,6 bilhões e postos artesianos, R$ 2,3 bilhões.

Todos esses investimentos bilionários – que para boa parte dos empreendedores da área sinalizam sair realmente do papel – devem trazer um impacto sobre a indústria de máquinas e equipamentos superior a R$ 42 bilhões, segundo o estudo Abcon/KPMG, e com a geração de quase 130 mil empregos.

Na construção civil, o impacto será ainda maior: R$ 424 bilhões na produção do setor, com a geração de quase 6 milhões de empregos no período da universalização.

Novo Marco Legal do Saneamento Sinais positivos

Embora 2020 tenha sido impactado pela pandemia, o cenário de investimentos já dá sinais positivos desde o ano passado por conta de privatizações, concessões de serviços à iniciativa privada, parcerias público-privadas e também por conta da retomada de aportes por companhias estaduais.

Para a presidente do Sindicato Nacional das Indústrias de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam), Estela Testa, a expectativa é de crescimento da ordem de 30% em 2021.

Segundo ela, com a atuação do BNDES na estruturação de privatizações e a consolidação das novas regras do setor, principalmente a que determina as licitações públicas no lugar dos chamados contratos de programa (acordos sem licitação entre municípios e companhias estaduais), a tendência é de forte crescimento nos próximos anos.

Os 98 associados do Sindesam faturaram, em média, R$ 200 milhões em 2019, segundo Estela.

Reforça a confiança no futuro o fato de a participação privada nas concessões dos serviços ter forte tendência de aumento.

Para Estela, além de trazer mais investimentos, os operadores privados costumam ser mais abertos (e menos demorados para contratar) para novas tecnologias, que vão desde a automação do tratamento e métodos não-destrutivos até novos sistemas de tratamento, como ultrafiltração e secadores térmicos de lodo para diminuir o passivo encaminhado para os aterros sanitários.

A presidente do Sindesam cita o exemplo da Pieralisi, empresa dirigida por ela, para mostrar o estado de ânimo do setor.

Novo Marco Legal do Saneamento: Para atender novos pedidos e cotações, hoje a fabricante de decanters centrífugos e secadores térmicos de lodo está contratando pessoal e ocupando a ociosidade de até 20% que há alguns anos existia na capacidade produtiva da unidade de Louveira-SP.

Esse movimento, diz Estela, se repete em várias outras indústrias, que estão no momento recontratando para se preparar para o novo cenário.

Estela Testa Química e Derivados - Novo marco do saneamento faz crescer a demanda por máquinas ©QD Foto: iStockPhoto
Estela Testa: setor privado investe mais e aceita tecnologia nova

“Hoje estamos vendo até novos competidores entrando no mercado, muitos deles se associando ao Sindesam”, disse.

Se o marco regulatório tende a estimular a participação privada, por conta do ambiente mais competitivo criado e de maior segurança jurídica, a aprovação pelo Senado Federal, em março, da nova lei de licitações deve cooperar para facilitar a contratação por parte das empresa públicas.

O PL 4.253/2020, que aguarda a sanção presidencial, substituirá a Lei 8.666, modificando normas de contratação, tipificando crimes para tornar o processo mais transparente, flexibilizando modelos de contrato e criando novas modalidades de contratação que não sejam as do preço mais baixo, o que muitas vezes engessa as licitações.

Para o diretor da Nordic Water, Gilson Afonso, os impactos do marco regulatório estão ainda no início, porque levam um tempo de amadurecimento. Isso ocorre porque, em uma primeira fase, avalia o executivo, os novos concessionários que assumem cidades, regiões e mesmo companhias estaduais em privatização (caso da Cedae, do RJ, que será leiloada em 30 de abril) concentram os esforços primeiro para fazer as plantas instaladas operarem a contento e para organizar o planejamento.

Segundo ele, as empresas mais comprometidas com o mercado de saneamento a longo prazo passarão, em uma segunda fase que está começando, a fazer o chamado investimento de qualidade, pensando não apenas no capex (custo de investimento) como no opex (custo operacional).

Isso significa que a motivação será não mais o baixo preço das compras de máquinas e equipamentos, mas na eficiência operacional.

Nordic Water, Gilson Afonso Química e Derivados - Novo marco do saneamento faz crescer a demanda por máquinas ©QD Foto: iStockPhoto
Afonso: setor deve olhar para redução do custo operacional

E o cenário, para ele, não contemplará apenas concessionárias privadas, mas companhias estaduais mais profissionalizadas, caso da paulista Sabesp ou da paranaense Sanepar.

“A nova lei de licitações vai mudar muito a forma de contratar das empresas públicas”, disse.

Esse cenário com participação de empresas públicas na modernização do saneamento já ocorreu com o maior fornecimento recente da empresa, para a Sabesp.

Foram oito sistemas de grades mecanizadas para a ETE Barueri, cujas entregas foram finalizadas em abril deste ano.

Com capacidade total para remover 300 t/mês de sólidos, quatro delas para remoção média (15 mm) e quatro finas (6 mm), as grades removem sólidos em suspensão e areia antes do sistema de aeração do tratamento.

Além do fornecimento, a Nordic fechou contrato de manutenção por cinco anos.

Para a mesma Sabesp, a Nordic ganhou contrato para o projeto de despoluição do Rio Pinheiros, em São Paulo, para instalação de seu sistema na URQ (Unidade de Recuperação da Qualidade das Águas) Jaguaré.

A Nordic forneceu o sistema de peneiramento para remoção dos sólidos em suspensão, óleo e graxas e uma segunda etapa para sólidos mais finos com filtros de disco, que preparam o efluente para remoção avançada de DBO.

Já a fase de investimentos com maior participação das novas concessões privadas, segundo Afonso, está em fase de proposta.

Nesse caso, diz, a demanda promete se efetivar em breve, a se guiar pelo grande número de projetos em andamento nas empresas contratadas pelas concessionárias privadas para planejar a engenharia das obras.

Segundo ele, essas empresas de projetos estão até com dificuldade de atender a demanda, tendo em vista que nos últimos anos perderam muita massa crítica por conta das piores fases vividas pelo setor, entre 2014 e 2016.

“O nosso trabalho agora é apresentar as soluções para os projetistas”, disse.

De olho nessa demanda, além disso, Afonso afirma que contratou pessoal em 2020 e hoje conta com três fábricas parceiras para nacionalizar parte dos equipamentos com tecnologia da sueca Nordic Water, de quem ele é sócio no Brasil.

“Já estamos nos preparando há uns dois anos para essa demanda”, disse.

Mesmo nacionalizando parte dos equipamentos, Afonso afirma que muitos ainda são mais competitivos com importação da matriz, pois são feitos com aço inoxidável, cujo preço aqui está muito alto, e também por conta da pressão cambial.

Os filtros de disco, por exemplo, são importados da Suécia. Já as grades mecanizadas de correntes de aço são fabricadas no Brasil.

Além da venda de equipamentos novos, uma expectativa muito grande é a de retrofit de estações antigas.

Como os sistemas da Nordic são modulares, há facilidade para fazer a ampliação de sistemas de tratamento, o que já tem sido feito em estações anaeróbias, sem necessidade de obras civis.

Além disso, há a possibilidade de troca de sistemas obsoletos de gradeamento por peneiramento.

A Nordic também firmou parceira com a empresa nacional Endeavor para complementar seus sistemas com tecnologias mais convencionais, como por exemplo removedores e adensadores circulares a gravidade e estações compactas de tratamento.

Novo Marco Legal do Saneamento: Tubulações – Um mercado com promessa de se beneficiar muito das novas obras é o de fornecedores de tubulações para as redes e adutoras, para captação e distribuição de água, coleta e movimentação de esgoto.

A demanda futura é tão animadora que há até a preocupação de escassez de oferta.

O receio é principalmente de faltar no mercado resinas importantes para a produção dos tubos, com destaque para o PVC, que precisou ter sua alíquota de importação reduzida no fim do ano passado para cobrir a demanda local.

Uma das principais empresas do ramo, a Amanco Wavin, com ampla linha de tubos de PVC com diâmetros de 50 mm até 1.000 mm, já nota o ambiente mais favorável neste ano.

Mas, segundo o diretor comercial da empresa, Adriano Andrade, o movimento maior foi das empresas públicas, que aceleraram muito as compras e devem até o meio do ano superar as contratações de 2020.

Para completar sua expectativa positiva, porém, Andrade lembra que em breve sairão muitos pedidos provenientes de recentes movimentos de privatização, como a concessão da companhia alagoana Casal, em setembro de 2020, e a PPP de Cariacica-ES, firmada em outubro, além de vários outros municípios que concederam seus serviços para operadores privados ao longo do ano passado.

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Isso não ocorre com muita força ainda, segundo ele, porque as novas concessionárias estão se organizando e não houve tempo para as compras, que devem começar a aparecer até o fim de 2021.

Projetando uma média de investimento total anual triplicada no setor, passando dos atuais R$ 13 bilhões para R$ 39 bilhões até 2033, Andrade afirma que a Amanco Wavin está preparada para atender o mercado, mas com certeza precisará ao longo dos anos ampliar a produção.

Nesse cenário, a expectativa é de dobrar de tamanho e triplicar sua equipe de vendas até 2025. Já neste ano, revela Andrade, a empresa investe mais de R$ 150 milhões para ampliação e modernização do parque fabril.

Atualmente, a Amanco Wavin, controlada pela holding mexicana Orbia (ex-Mexichem), detém de 36% a 38% do mercado brasileiro e opera por meio de oito fábricas.

Segundo Andrade, com a atual capacidade para produção voltada ao mercado de infraestrutura a empresa consegue atender o dobro da demanda atual.

Sua maior unidade, também considerada a maior de tubos e conexões da América Latina, fica em Sumaré-SP, com capacidade superior a 160 mil t/ano.

Além dela, há outras cinco unidades no Brasil: duas em Joinville-SC e uma em Ribeirão das Neves-MG, Anápolis-GO e Suape-PE.

Para 2021, a previsão é de crescimento superior a 30%, depois de ter registrado incremento de 22% em 2020, resultado obtido apesar da pandemia.

Embora não possa dar números mais detalhados, o principal mercado, responsável por quase 70% das vendas, tem sido o predial, do setor de varejo para construção.

A infraestrutura divide o resto da participação das vendas com o mercado de irrigação, com tendência firme de ganhar mais espaço nos próximos anos, segundo Andrade.

Uma estratégia da Amanco Wavin para apoiar seu crescimento, e que se acelerou a partir de 2016 até torná-la líder do mercado nacional, de acordo com o diretor, é a comercialização dos tubos de PVC biorientado, Biax, uma tecnologia que permite a operação em pressões maiores e que utiliza menos resina na produção.

Para uso principalmente em tubulação para bombeamento de água (captação e adução), esses tubos concorrem com o ferro fundido e já contam com homologação em todas as empresas de saneamento.

Química e Derivados - Novo marco do saneamento faz crescer a demanda por máquinas ©QD Foto: iStockPhoto
Andrade: o PVC biorientado suporta pressões mais altas

“Além disso, ele tem o mesmo preço do PVC convencional”, disse.

Para Andrade, apesar do crescimento do mercado, tem pesado contra a produção de tubos e conexões de PVC a escassez da resina e o consequente alto preço da matéria-prima, que dobrou no ano passado, por conta da conjuntura global, e que ainda se mantém em alta.

A situação fez até o governo reduzir as sobretaxas de importação em janeiro para permitir que os produtores tivessem acesso à resina, escassa no mercado local.

“Mesmo com o preço elevado, pelo menos os fabricantes tiveram acesso ao PVC”, disse.

Apesar disso, segundo o diretor, a Amanco Wavin foi menos afetada por ter no grupo um produtor de PVC na Colômbia (Vestolit).

Para ele, aliás, um bom sinal para prever que esse tipo de problema não afetará o desempenho futuro da cadeia de fornecimento foi o BNDES ter procurado a empresa recentemente para saber como ela está se preparando para a prevista expansão do mercado.

“A ideia do banco é identificar possíveis gargalos nos fornecimentos e se antecipar com medidas governamentais, por exemplo, abrindo mais o mercado de resinas”, disse.

Médios e pequenos – A provável expansão do mercado de saneamento promete ser benéfica também para vários fabricantes de médio e pequeno porte que atuam na área.

Um exemplo é a Fluid Feeder, de São Paulo, que produz linha completa de acessórios para dosagem de cloro, desde as conexões com os cilindros de cloro gás até os ejetores responsáveis pela mistura com a água do oxidante e sistemas de monitoramento e de segurança para a aplicação.

Com a atuação principal em empresas de saneamento, segundo o diretor da Fluid Feeder,

Francisco Carlo Oliver, a expectativa é crescer até 25% neste ano, muito por conta da alta demanda esperada no consumo de gás cloro pelas concessionárias.

Da mesma forma, para esgoto, a empresa também confia na ampliação de vendas dos lavadores de gases que produz e fornece para companhias de saneamento, utilizados para exaustão e controle de odores de gás sulfídrico e amônia em estações elevatórias de esgoto.

Além disso, a Fluid Feeder também começa a produzir gerador in situ de cloro, para aplicações com pequena demanda do oxidante, já que esses sistemas o produzem em muito baixa concentração (0,5%) e demanda eletricidade e salmoura para o processo.

 

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