Negro de Fumo: Importação de Pneus enfraquece demanda e ameaça produção local

Química e Derivados, Negro de Fumo, Importação de pneus enfraquece demanda e ameaça produção localNão é a importação de negro de fumo que tira o sono dos fabricantes brasileiros desse importante material de reforço de artefatos de borracha e pigmento para vários tipos de tintas.

É a importação de produtos finais, como pneus, coxins e mangueiras. A perda de competitividade nacional se reflete na cadeia produtiva completa e pode comprometer o futuro de todos os seus elos.

Os fabricantes nacionais ouvidos nesta reportagem consideram que a fabricação de negro de fumo no Brasil sofre em razão dos altos custos das suas matérias-primas principais, o gás natural e o resíduo aromático (do refino de petróleo ou de processos petroquímicos), do preço da eletricidade (mesmo com a redução de preços anunciada continua alto em comparação a outros países) e dos demais componentes do famigerado custo Brasil: impostos, logística precária, entre outros fatores.

Mesmo assim, a importação do insumo não tem sido relevante.

“Assim como muitos outros setores da indústria química, a indústria de negro de fumo está sendo muito afetada pela importação de produtos acabados, como os pneus”, comentou José Carlos Dreux, vice-presidente de vendas e logística para a América do Sul da Birla Carbon/Columbian Chemicals (empresa do grupo indiano ABG – Aditya Birla Group). Um de seus concorrentes confirmou a situação, estimando em 40% a participação de pneus importados no mercado nacional.

Química e Derivados, José Carlos Dreux, Birla Carbon / Columbian Chemicals, quase 30% do peso de um pneu é negro de fumo
Dreux: quase 30% do peso de um pneu é negro de fumo

A produção de pneus é de longe a atividade que mais consome negro de fumo. Dreux apontou uma demanda mundial pelo insumo da ordem de 11 milhões de toneladas em 2012, das quais 8 milhões são incorporadas aos pneus, 2 milhões ficam com artefatos de borracha e o milhão de t restantes é direcionado para usos diversos, como principalmente masterbatches de plásticos e fabricação de tintas. “Um pneu carrega de 25% a 30% em peso de negro de fumo, ou seja, um pneu de carro de 8 kg tem de 2 a 3 kg do insumo, enquanto um pneu de caminhão de 100 kg tem quase 30 kg de negro de fumo”, comentou. Ao mesmo tempo, uma peça plástica de 1 kg contém apenas 0,5 g do insumo.

Há estudos que apontam para uma capacidade mundial total de 15 milhões de t, mas há dúvidas quanto à operação de algumas unidades espalhadas pela Ásia, que seriam antieconômicas. Avalia-se que o mercado mundial de negro de fumo cresceu 2% em 2012 e deve crescer 3% em 2013, contando com a evolução da economia norte-americana e alguma retomada da indústria europeia.

Andando aos saltos, o setor sofreu muito com a crise global deflagrada em 2008. “Na média dos últimos cinco anos, o mercado mundial cresceu 5%, houve um avanço muito grande em 2010”, avaliou Dreux. Atualmente, o continente asiático abriga cerca de 60% da produção e do consumo de negro de fumo, segundo Dreux. E metade disso está na China.

As 450 mil t/ano do mercado brasileiro colocam o país como o sexto mercado mundial do insumo e o líder na América do Sul, um mercado regional de 600 mil a 650 mil t/ano. Mesmo com a crise, a Europa responde por 20% do mercado total, seguida pela América do Norte, com 15%.

A estimativa de desempenho do mercado de negro de fumo no Brasil no ano passado é negativa. Mesmo sem os dados consolidados de 2012, Dreux estima uma queda de 5%, justificada pelo aumento da importação de pneus e pela queda na venda de caminhões provocada pela adaptação ao padrão Euro V. “O Brasil é um mercado muito disputado, pois conta com a presença dos três maiores players mundiais, todos eles com produção local”, afirmou.

Brasil na berlinda – Um dos participantes desse mercado, que preferiu se manter incógnito, salientou que a perda do mercado de pneus e artefatos de borracha para concorrentes externos foi acontecendo gradualmente, ano após ano. Como todos os produtores nacionais de pneus investiram em novas capacidades e ampliações, pensando em um pico de produção que não aconteceu, existe uma capacidade ociosa no país. Segundo essa fonte, não haveria nenhuma dificuldade para absorver um crescimento repentino de demanda, mas a realidade aponta em outra direção: as fábricas de pneus no Brasil estão rodando com grande folga.

Essa fonte também comentou que o Brasil nunca foi exportador significativo de negro de fumo, mas de alguns produtos finais, como pneus e masterbatches (concentrados de cor). Essas exportações acabaram e há uma grande preocupação com uma possível chegada de negros de fumo asiáticos, que já aportaram na América do Sul pela costa do Pacífico.

Esse entrevistado apontou a disparidade de preços do gás natural, cujo preço na porta de fábrica no Brasil fica entre US$ 14 e US$ 15 por milhão de BTU. Na Argentina, esse preço não passa de US$ 6, na Colômbia fica abaixo disso, enquanto nos Estados Unidos se fala em US$ 3 a US$ 4. Para ele, os preços praticados pela Petrobras estão alinhados com os da Europa, mas muito distantes dos valores cobrados nos EUA e na Ásia. Também o preço dos termoplásticos, usados para a produção dos masterbatches, está muito além da concorrência mundial, inibindo os negócios nesse ramo. Como explicou essa fonte: os concentrados coloridos são feitos por aqui, pois os volumes são relativamente pequenos e é mais difícil acertar a cor desejada pelos clientes, mas os produtos brancos e pretos estão sendo importados em grandes volumes.

Por sua vez, Dreux avalia que o preço do negro de fumo na saída da fábrica (FOB) pode ser considerado competitivo. “Quando se adicionam os impostos e os custos logísticos subsequentes, o preço dispara”, considerou. Para ele, a falta de competitividade das matérias-primas, principalmente o gás natural, é um problema sério para o setor. “Mas o que está prejudicando o setor é a importação de pneus”, enfatiza.

Ele explicou que o resíduo aromático e o gás natural são craqueados conjuntamente dentro de um reator tubular, sob condições específicas, com reação interrompida mediante a passagem por chuveiros de água. Separadores do tipo ciclone isolam o negro de fumo do gás residual, ainda com algum teor combustível. O negro passa por operações sucessivas de concentração e recebe aditivos para ganhar estrutura adequada às aplicações previstas. Enquanto isso, o gás residual é enviado para uma caldeira que gera vapor para acionar uma turbina de cogeração elétrica, capaz de sustentar a planta de Cubatão-SP com um pequeno excedente que é comercializado.

“Poderíamos aumentar nossa receita de cogeração se pudéssemos contar com um volume maior de gás natural com preço adequado”, afirmou Dreux. Para ele, na situação atual, mais importante até do que gerar receita, está o fato de a cogeração garantir a estabilidade do processo produtivo, que poderia ser afetada por apagões ou por variações na qualidade da energia suprida pela rede. Nesses casos, a instalação operaria independentemente da rede.

A unidade de Cubatão da Birla Carbon/Columbian Chemicals opera há 58 anos e, embora tenha passado por várias manutenções e atualizações, está recebendo investimentos na ordem de US$ 50 milhões nos próximos quatro anos para modernização. “O foco agora está direcionado para a sustentabilidade nos critérios de Segurança, Saúde Ocupacional e Meio Ambiente, mas pode ser que isso permita também um pequeno aumento de produção pela melhoria da eficiência geral do processo”, considerou.

A empresa também opera a unidade de Camaçari-BA, inaugurada em 2007 e considerada a mais moderna fábrica de negro de fumo do mundo. A Birla Carbon/Columbian Chemicals afirma ser a maior produtora mundial do insumo, com uma capacidade global de mais de 2 milhões de t/ano. A capacidade de produção instalada no Brasil é de 267 mil t/ano (segundo dados do anuário da Abiquim).

A Cabot também afirma deter cerca de 2 milhões de t/ano de capacidade mundial de produção. Na América do Sul, conta com aproximadamente 300 mil t/ano, com fábricas na Argentina, na Colômbia e no Brasil (115 mil t/ano, segundo a Abiquim). A companhia informou, em seu relatório anual para o ano fiscal dos EUA de 2012 (setembro de 2011 a outubro de 2012), o aumento de sua capacidade produtiva mundial em 50 mil t/ano, nos sites da Europa, Argentina e Indonésia. Há planos para a ampliação de capacidades em 120 mil t/ano na América do Sul, Ásia e Europa. Em 2013, deve ser inaugurada a fábrica de Xingtai (China) para 130 mil t/ano (poderá chegar, no futuro, a 300 mil t). Em 2009 e 2010, porém, foram fechadas duas fábricas, uma na Europa e outra na Índia.

Na avaliação da alta diretoria da empresa, as vendas de pneus na Europa Ocidental em 2012 foram as piores dos últimos três anos, e também afetaram os volumes negociados no primeiro trimestre do ano fiscal de 2013 (outubro, novembro e dezembro de 2012). Com isso, as vendas de negro de fumo como material de reforço caíram 3% em volume. Nesse período, porém, as vendas do insumo cresceram 5% na China; e 6% na América do Sul.

Além da Birla Carbon/Columbian Chemicals e da Cabot, a Orion compõe a trinca de fabricantes locais. Formada após a venda dos negócios da Evonik com negro de fumo em 2011, a Orion recebeu uma estrutura de negócios mundialmente estabelecida, com fábricas instaladas nos Estados Unidos, Europa, Brasil e Ásia, perfazendo uma capacidade produtiva aproximada de um milhão de t/ano. No Brasil, a unidade de produção de Paulínia pode fabricar 100 mil t/ano (dados da Abiquim), e está rodando cheia, segundo o gerente de marketing da empresa, Álvaro Lopes.

Todos os fabricantes nacionais usam a tecnologia de produção por fornalha (furnace), considerada a mais efetiva para a produção dos tipos usados em pneus, com flexibilidade para a produção de alguns modelos especiais, que apresentam valor mais elevado no mercado, embora tenham pequeno volume de demanda.

“O negro de fumo não é uma commodity, pois não existe uma contratipagem perfeita entre os diferentes grades, mesmo os classificados na norma ASTM, usados em pneus e borrachas”, explicou Dreux, da Birla Carbon/Columbian Chemicals. Daí a necessidade de fazer ensaios e aprovar o produto em cada cliente e aplicação, para verificar se não há alterações na performance do produto final, seja ele um pneu ou uma tinta.

“O segmento de mercado que mais cresce no mundo é o voltado para produtos especiais, capazes de conferir efeitos específicos aos produtos ou abrir aplicações inteiramente novas”, comentou Dreux. A Birla Carbon/Columbian Chemicals produz alguns tipos especiais no Brasil, e possui uma fábrica situada nos Estados Unidos voltada para essas aplicações especiais.

Dreux mencionou a disponibilidade de um tipo especial capaz de substituir a sílica usada na fabricação dos chamados pneus verdes. “O processo de produção do negro de fumo é mais amigável do ponto de vista ambiental do que o da sílica”, comentou. Essa especialidade poderá ser produzida no Brasil, caso a demanda justifique.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.