Química

Especialista aponta desafios e oportunidades no horizonte da indústria química

Albert Hahn
24 de fevereiro de 2018
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    Perspectivas Indústria Química – Por volta de 1935 – já vai para um século – a DuPont lançou o slogan “Better Living Through Chemistry”, melhorando de vida graças à química. E, de fato, naquela época era a química quem dava as cartas, puxava o cordão, indicava o caminho para a sociedade melhorar de vida. Quem fez mais pela emancipação das mulheres do que as fibras sintéticas? Ou a pílula?

    Hoje essa colocação soaria ultrapassada. A química continua crescendo e inovando, mas quem compõe a comissão de frente da escola agora é a física. Aliás, já é assim há algum tempo.

    Química e Derivados, Albert Hahn é sócio-diretor da Ecoplan Consultoria, de São Paulo, e senior partner da Ecoplan International, de Paris

    Albert Hahn é sócio-diretor da Ecoplan Consultoria, de São Paulo, e senior partner da Ecoplan International, de Paris

    Em 1986, foi realizado um estudo sobre custo de geração e valor de tecnologia, onde a missão era arbitrar uma pendência triangular evolvendo um licenciador de tecnologia, sua licenciada brasileira e o INPI, que representava a síntese dos interesses do país. O licenciador, um dos grandes conglomerados químicos europeus, abriu não só os laboratórios e pilotos que tinham a ver com o assunto em questão, como também a contabilidade de custos de toda a atividade de P&D do grupo. A começar com a “pesquisa fundamental” – métodos analíticos, modelizações matemáticas – cujos custos eram rateados pelas divisões que as solicitavam – passando pelos pilotos (contínuos, altamente instrumentados), até chegar, na base da pirâmide, nas células de trouble shooting que estavam lá para solucionar problemas prementes da clientela.

    A empresa brasileira, além daquilo que havia pago pelo projeto e o know-how, continuava recebendo assistência técnica do licenciador, pela qual também pagava. Era esse o acordo que estava para ser prolongado por mais cinco anos, e que constituía o foco do trabalho.

    Entre os ensinamentos derivados desse contrato – às vezes parece que é o consultor que deveria remunerar o cliente – está a constatação de que 1985 havia sido o primeiro ano em que, dos recém-formados admitidos para trabalhar em P&D, o número de físicos havia excedido o de químicos. Poucos anos depois, aliás, os físicos eram 85% da turma de admitidos. A tal ponto que cabe perguntar se a física não estaria a ponto de perder essa liderança para outras ciências, as ditas “da vida” ou outras, que há pouco tempo nem tinham nome, e agora surgem no sulco da química do silício, no sentido mais amplo.

    Por enquanto, a química continua tendo seu papel incontornável e avança, sobretudo, em diversas frentes:

    Biotecnologia, sensu latu indo desde a produção em grande escala, por fermentação de biomassa, de intermediários até então obtidos por via petroquímica (ou até, inexistentes em escala comercial), até novas armas com quais combater o câncer. A diversidade de tarefas com que parece ser possível incumbir os micro-organismos parece não ter limites.

    Um exemplo recente, entre muitos, é o da metionina, ácido aminado utilizado no mundo em escala que se aproxima de 1 MM t/ano, obtido por uma síntese de várias etapas em que participam matérias-primas baratas, porém altamente desagradáveis, como acroleína, metilmercaptana e HCN. Pois não é que conseguiram criar um micro-organismo que se alimenta de um coquetel de nutrientes inorgânicos e de carboidratos, excretando metionina? E isso em teores de g/l de calda no fermentador que tornam o processo competitivo com a via sintética.

    Mas nem sempre o teor de produto no fermentador conta a história toda. A notícia de que a empresa californiana Verzyne estaria obtendo resultados altamente promissores com a obtenção, por fermentação, do ácido adípico faz relembrar um caso ocorrido aqui no Brasil há lá se vão bons 50 anos.

    O ácido adípico, matéria-prima do náilon 66, era (e ainda é) obtido por oxidação nítrica de cicloexanol. Não é preciso dizer que se trata de um processo altamente corrosivo e poluente, que exige o emprego de materiais nobres cujo custo é várias vezes o do aço carbono. Ao servir como oxidante, o nítrico concentrado é reduzido a vapores nitrosos, os quais precisam ser recuperados e reconvertidos em ácido, exigindo um investimento suplementar em aparelhagem anexa quase equivalente ao de uma unidade de ácido virgem Não é à toa que a obtenção de adípico por oxidação catalítica com ar ou oxigênio, era – é até hoje – um exemplo de Santo Graal da pesquisa.

    Vai daí que quando chegou na França a notícia de que no Brasil um grupo de pesquisadores da Rhodia estava, na moita, conseguindo fazer adípico sem nítrico e com excelentes rendimentos, a reação foi de consternação. Como é que esta turma de ferrabrases lá nos trópicos consegue algo que estamos há anos tentando sem sucesso?

    Mas diante dos resultados, foi autorizada a montagem de um piloto capaz de produzir quantidades suficientes para a avaliação do produto na fabricação de filamentos. E aí – decepção em Paulínia, talvez um certo alívio em Lyon – constatou-se que o produto simplesmente não iria servir: o índice de quebras de filamentos durante a estiragem, esteio dos economics de produção, era 10 ou 100 vezes o aceitável. De volta, pois, à bancada.


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