Nacionalização dos insumos de tratamento de superfície

Diversificação de clientes mantém o ritmo de negócios do setor que busca nacionalizar insumos

A nacionalização de insumos de tratamento de superfície, a pressão por sustentabilidade e a relação do tratamento de superfície com qualidade e durabilidade dos produtos estão abrindo perspectivas inovadoras ao setor, puxadas por uma reação persistente, mas ainda com ritmo lento. Esse aquecimento é sustentado também pela diversidade de aplicações do tratamento de superfície, mitigando o impacto negativo da retração de setores consumidores tradicionais, como os fabricantes de veículos automotores, os quais costumam a ter efeito multiplicador sobre a conjuntura econômica setorial.

Dessa forma, enquanto o automotivo desacelera a produção e requisita menos nitretação (um nicho do segmento de tratamento de superfície) por conta do impacto negativo do elevado custo do crédito na venda de carros, por exemplo, o setor se ajusta ancorado em outros consumidores. Com isso, mantêm a demanda protetiva em alta, baseada inclusive em tratamentos e aplicações diferenciadas, segundo a avaliação de empresários e especialistas desse segmento.

Em termos de soluções voltadas ao setor automotivo, até setembro deste ano, a demanda estava aquecida, informa Glaucio Sansonas, head técnico comercial da Isoflama, que opera com nitretação iônica por plasma pulsado para revestimento de produtos ferrosos. “Vínhamos com bons volumes, mas de lá para cá o montante de negócios atrelados a materiais consumidos pela indústria automotiva caiu”, relata.

Para compensar a queda, a empresa reforçou sua estratégia comercial com base nas especificações e desempenho de seus produtos. Ou seja, características técnicas e boa adaptabilidade das camadas nitretadas e nitrocarbonetadas sobre os substratos, tornando seu portfólio flexível. “Com isso, conseguimos atingir uma gama de clientes e aplicações que demandam justamente esses diferenciais competitivos”, explica Sansonas

Além da indústria automobilística, o mercado de tratamento superficial abrange uma ampla gama de segmentos consumidores, como construção civil, agroindústria, têxtil, óleo e gás, eletrodomésticos e eletroeletrônicos, informa Melissa Ferreira de Souza, diretora cultural da Associação Brasileira de Tratamento de Superfícies (ABTS). Essa diversificação repercute no comportamento do mercado, redistribuindo a demanda protetiva e impulsionando o crescimento no setor de forma horizontal.

Afora isso, o setor abrange desde a preparação da superfície propriamente dita até a aplicação de revestimentos sobre os substratos tratados, todos dependentes de portfólios de ofertas diferentes. A lista inclui fornecedores de equipamentos e de materiais visando à remoção de contaminantes da superfície e de equipamentos para processos galvânicos e de pintura; fornecedores de produtos, tratamentos químicos e de materiais cerâmicos e poliméricos, bem como fabricantes de tintas e prestadores de serviços em geral. Esses, por sua vez, demandam produtos e serviços para atender necessidades específicas de cada aplicação.

Ela confirma a percepção da Isoflama sobre a evolução do mercado, ao afirmar que, superados parcialmente os efeitos da pandemia, como a falta de insumos e aumento dos preços, as atividades setoriais reagiram de forma lenta, mas constante. Esse movimento de ascensão dos negócios resultou de inovações e melhoria contínua promovidas nas empresas, com foco significativo na sustentabilidade. Essas mudanças qualitativas e quantitativas vêm ocorrendo tanto entre companhias ligadas à proteção de produtos ferrosos e não ferrosos, principalmente, como nas de equipamentos que compõem a infraestrutura de produção, ou seja, os ativos imobilizados, interpreta a representante da ABTS.

A necessidade de proteger máquinas e equipamentos, especialmente em indústrias cujas atividades são críticas em termos de segurança e confiabilidade, como as de prospecção de petróleo e gás, é um dos fatores impulsionadores da demanda de produtos e serviços ligados ao tratamento de superfície. Novos tipos de revestimentos para lidar com desgaste, corrosão e abrasão enfrentados por essas indústrias vêm sendo desenvolvidos pelo setor, complementa Raphaella Bomfim, gerente de marketing da Super Finishing do Brasil.

Tratamento de superfície: Setor busca nacionalizar insumos ©QD Foto: iStockPhoto
Geremia: tratamento bem feito reduz despesas com garantia

“No geral, as empresas vêm se dando conta de que os tratamentos de superfícies são parte fundamental de um produto de qualidade. Uma correta seleção do tratamento de superfície a ser utilizado pode garantir resultados expressivos, tanto aos fabricantes, que terão menores custos com garantia, como para usuários, beneficiados por melhor custo-benefício do seu equipamento”, avalia Darlan Geremia, diretor da Rijeza

Durante muito tempo, segundo ele, empresas dos mais variados ramos da indústria passaram a importar peças, especialmente da China, devido aos melhores custos de aquisição em relação ao mercado nacional. Muitas delas, inclusive, instalaram filiais lá. Mas essa estratégia de importação sofreu um revés por dois motivos distintos.

Primeiro, os impactos da Covid-19 obrigaram muitas empresas a mudar o percurso de boa parte de suas atividades. Adicionalmente, um navio de carga gigante, o Ever Given, encalhou por seis dias, em março de 2021, no canal de Suez, interrompendo o comércio global e, particularmente, o fornecimento de insumos para o mundo inteiro, relembra o empresário.

Nacionalização dos insumos de tratamento de superfície

Para não ficarem expostas a novos riscos desse tipo, muitas empresas brasileiras estão fazendo um movimento de nacionalização da produção e diversas oportunidades estão se abrindo, explica Geremia.

Dentre as principais consequências deste período, destaca Souza, da ABTS, está o fato de o mercado doméstico passar a produzir grande parte dos itens que antes eram importados, voltando a movimentar a indústria local. Ela acrescenta que tanto os fabricantes de insumos aplicadores de tratamento superficial, como os consumidores de serviços nesses segmentos foram obrigados a substituir produtos, trocar substratos e adotar novas tecnologias. Mas muitas ligas ainda são importadas, obrigando os empresários com maior volume de capital de giro a trabalhar com reserva de estoques, a fim de evitar os riscos já mencionados.

Bomfim, da Super Finishing, reitera que a cadeia de suprimentos desempenha um papel vital, pois os revestimentos são o último estágio de um projeto de fabricação e a qualidade de matérias-primas e serviços anteriores influencia diretamente a eficiência do tratamento de superfícies.

Por essa razão, sua empresa exige que os fornecedores apresentem documentação técnica e, quando necessário, testes de desempenho, como parte do compromisso com a qualidade e a eficiência do tratamento de superfícies. Sansonas, da Isoflama, concorda com essa prática de relacionamento comercial, pois entende que o setor precisa de fornecedores confiáveis, que entreguem qualidade e tenham um alto nível de repetibilidade, além de condições comerciais estáveis.

A Rijeza superou boa parte desses gargalos, ao desenvolver uma carteira de fornecedores de insumos para o seu processo de deposição de revestimentos que operam como parceiros, devidamente qualificados. Paralelo a eles, a companhia conta com o apoio de institutos de pesquisa brasileiros para desenvolver novas aplicações destinadas aos mais variados segmentos da indústria. “Hoje nós temos uma variedade muito grande de insumos de boa qualidade, condição que conquistamos durante 21 anos de atuação. Isso facilita muito a vida dos profissionais da nossa engenharia, pois de nada adianta o conhecimento se não dispusermos do material que necessitamos especificar”, afirma Geremia.

Demanda cresce e desafia fornecedores a investir em inovação

Nitretação iônica por plasma pulsado, níquel químico e carboneto de tungstênio. Estes são alguns dos tipos de tratamento de superfície desenvolvidos pela Isoflama, Super Finishing e Rijeza, respectivamente, destinados a várias cadeias produtivas industriais. Cada uma dessas empresas disponibiliza um portfólio de produtos diversificado, de acordo com o perfil industrial em que atuam, com o substrato a ser revestido e exigências do mercado de consumo de tratamento de superfície.

Todas sinalizaram que as vendas vêm aumentando no mercado brasileiro, mas, ao mesmo tempo, crescem as necessidades de investimento em inovações, principalmente ambientais.

Por exemplo, insumo, acabamento e tecnologia tendem a caminhar juntos visando desenvolver produtos e processos cada vez mais amigáveis. Mas, de acordo com informações da ABTS, nem todas as empresas do setor estão preparadas para esse desafio, devido à falta de centros de pesquisa dedicados a esse campo.

A Rijeza Metalúrgica, com sede em São Leopoldo-RS, é uma notável exceção em termos de modernização do chão de fábrica, na qual são processados mais de 1.500 kg por mês de materiais como carboneto de tungstênio e carboneto de cromo.

“Nosso sistema produtivo, todo robotizado, é um grande diferencial competitivo, mas seguramente o nosso Centro de Pesquisa e Tecnologia responde pela nossa diferença mais significativa. Ele é composto por laboratórios de caracterização, laboratório de desempenho e uma equipe experiente de engenheiros de materiais. Nele é desenvolvido todo o nosso conhecimento técnico e é o principal pilar de geração de resultados para nossos clientes”, salienta o diretor Darlan Geremia.

Tratamento de superfície: Setor busca nacionalizar insumos ©QD Foto: iStockPhoto
Centro de Pesquisa e Tecnologia auxilia Rijeza a desenvolver…

A empresa possui uma linha de revestimentos metálicos, aplicados por processos de aspersão térmica, PTA (transferência por arco de plasma) e laser cladding, utilizados em ambientes com condições severas de desgaste por abrasão, corrosão e erosão, nos mais variados segmentos da indústria. Mas seu carro-chefe é o revestimento de carboneto de tungstênio, o mais demandado, atualmente, pela sua versatilidade. “Ele consegue ter uma excelente resistência ao desgaste por abrasão, erosão e a diversos meios corrosivos em temperatura de até 450ºC”, justifica Geremia.

Os revestimentos desenvolvidos pela companhia – em maioria, destinados a substratos de aço carbono – permitem que as empresas clientes fabriquem peças com aços menos nobres, os quais aliviam os custos de produção. Tecnicamente, os revestimentos disponibilizados pela Rijeza reforçam a resistência das peças ante os fatores de desgaste presentes no meio a que estarão expostas. “A grande variedade de ligas que disponibilizamos permite que se consiga customizar a superfície ao meio no qual a peça vai trabalhar”, ressalta o diretor.

Tratamento de superfície: Setor busca nacionalizar insumos ©QD Foto: iStockPhoto
…técnicas avançadas de proteção como o laser cladding e…

A resistência ao desgaste também representa o ponto forte dos revestimentos disponibilizados pela Isoflama, destinados a substratos à base de aços tipo construção mecânica e ferramenta. É justamente para esses materiais ferrosos que os clientes buscam melhor desempenho estrutural, observa Glaucio Sansonas, head técnico comercial da companhia.

Sansonas explica que o desempenho da nitretação é totalmente dependente do metal base, ou seja, do aço/liga em que a ferramenta ou componente foi construído. Alterando-se a combinação de tempos, gases e temperaturas, durante o processamento do revestimento, obtêm-se diferentes morfologias de camada nitretada.

“Cada tipo de aplicação demanda um tipo específico de morfologia (dureza) de camada nitretada. Se tomarmos como exemplo o material AISI H13, que é comumente utilizado para construção de moldes para injeção de alumínio, matrizes destinadas à extrusão de alumínio e moldes voltados à injeção de plástico, a condição morfológica de um e de outro será diferente.

Tratamento de superfície: Setor busca nacionalizar insumos ©QD Foto: iStockPhoto
…a aplicação de carbeto de tungstênio por aspersão térmica

Ou seja: “a morfologia da camada nitretada para um molde de injeção de alumínio é diferente da morfologia de uma matriz para extrusão de alumínio, que são diferentes da morfologia recomendada para um molde de injeção de plásticos”, explica Sansonas.

Ele ressalta que dominar esse conhecimento é crucial para obter o melhor desempenho possível da ferramenta. Além disso, pode ser o fator decisivo entre a falência ou o sucesso de uma ferramenta. Ainda segundo ele, a nitretação iônica por plasma pulsado oferece vários benefícios, dentre os quais, destacam-se, por exemplo, melhora da resistência ao desgaste, aumento da resistência à fadiga de alto ciclo e controle da espessura da camada difundida.

Além do níquel químico e suas variações a Super Finishing do Brasil oferece ampla gama de revestimentos para atender às necessidades específicas de cada segmento industrial, informa a gerente de marketing Raphaella Bomfim. Cada um atende a finalidades específicas, ditadas por normas técnicas, sem concorrer diretamente com os outros, permitindo que o cliente atenda uma variedade de necessidades, esclarece Bomfim.

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Preocupação com a sustentabilidade ainda é incipiente

Mesmo com a necessidade de investimentos em sustentabilidade batendo à porta dos fornecedores de produtos para tratamento de superfície, o assunto ainda é praticamente uma incógnita. Os poucos dados disponíveis a esse respeito na ABTS indicam que o níquel e cromo demandam alternativas mais seguras e ambientalmente amigáveis, devido à toxicidade de alguns de seus compostos utilizados em materiais de deposição.

Nos últimos anos, tem havido uma conscientização crescente sobre os riscos associados ao descarte de cianetos, devido à toxicidade desse composto, relata Melissa Ferreira de Souza, diretora cultural da ABTS. A substância é comumente usada no tratamento superficial de metais, galvanoplastia etc. Por conta dessa preocupação, segundo ela, muitas indústrias buscam alternativas mais seguras e ambientalmente amigáveis para o tratamento superficial.

Melissa acrescenta que, no caso do cromo, devido a problemas ambientais associados ao cromo hexavalente, que é altamente tóxico e carcinogênico, há uma transição em curso. O objetivo é desenvolver alternativas de baixo teor de cromo e cromo trivalente.

Quanto ao níquel, o cenário é mais ou menos semelhante, ou seja, existem pesquisas de revestimentos isentos de níquel e antialergênicos, assim como outros métodos de deposição mais eficientes. Mas as empresas usuárias dessas substâncias, entre as quais a Supe Finishing, não se manifestaram sobre a aplicação prática desses estudos.

Ainda segundo a ABTS, há pesquisa e desenvolvimento para evolução de outros insumos químicos. Mas sua evolução depende de cada uso específico da indústria e do processo de tratamento superficial em questão.

Tratamento de superfície: Setor busca nacionalizar insumos ©QD Foto: iStockPhoto
Melissa: descarte de cianetos exige desenvolver alternativas

“As informações são genéricas, pois cada situação específica pode variar de acordo com o setor no qual cada acabamento, insumo e tecnologia são utilizados”, esclarece.

Contudo, a indústria química é considerada essencial para o setor de tratamento de superfícies, segundo Raphaella Bomfim, gerente de marketing da Super Finishing. Ela justifica que os transformadores garantem a eficiência e a qualidade dos serviços prestados. Neste sentido, segundo ela, os processos químicos e os testes laboratoriais são cruciais para a entrega de revestimentos de alta qualidade.

Glaucio Sansonas, head técnico comercial da Isoflama, informa que os processos isonit e isonit-c, realizados entre 480 e 500ºC, são termoquímicos. A qualidade de ambos, incluindo alto índice de repetibilidade, depende igualmente da qualidade da matéria-prima, como gases, por exemplo.

Felizmente, muitas empresas do setor químico já possuem profissionais com essa vocação dentro das engenharias, observa Darlan Geremia, diretor da Rijeza. A preocupação com a especificação de materiais é cada vez maior, segundo ele, não só do ponto de vista estrutural, mas também em relação a sua resistência nos meios de trabalho. “As oportunidades nesse meio estão cada vez mais abundantes. Os potenciais ganhos para a indústria como um todo são enormes”, justifica.

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