Mineração: Potencial dos rejeitos supre outras cadeias produtivas

Quem vê cara, não vê coração.

O ditado popular talvez se ajuste bem à narrativa de quem se acostumou a ver o ouro apenas sob a ótica simbólica.

Mas o resíduo do beneficiamento desse metal precioso também alimenta a produção de cimento e fertilizantes.

Por sua vez, os resíduos estéreis e a lama resultantes do processamento do minério de ferro podem ser transformados em pré-moldados e material para pavimentação de ruas, enquanto o reprocessamento do rejeito do cobre e do zinco gera calcário dolomítico, próprio para corrigir a acidez do solo.

Essa mistura deu origem ao Zincal, da Nexa, produzido em Morro Agudo, que vem sendo vendido desde 2019, como informa o gerente comercial Diogo Henrique de Carvalho.

O produto resultou de uma mudança no processo de beneficiamento da planta, em 2010, visando obter o concentrado de chumbo através da flotação.

“Ao ser retirado do minério dolomítico, faz com que o segundo atenda aos critérios necessários para sua utilização como corretivo da acidez de solos, insumo muito necessário para a agricultura da região”, acrescentou Caio Van Deursen, gerente de inovação da companhia.

Química e Derivados- Mineração: Potencial dos rejeitos supre outras cadeias produtivas ©QD Foto: Divulgação
Areia obtida de rejeitos é consumida em blocos para construção

A comercialização atinge em média cerca de um milhão de t de calcário por ano, o que permitiu duplicar o reprocessamento de rejeitos antigos da usina. Em 2020, a Nexa ultrapassou a marca de 1,3 milhão de t de calcário comercializadas.

De acordo com a empresa, a transação gera uma receita anual da ordem de U$S 8,7 milhões (15% do total da unidade). Além disso, elimina a necessidade de construir novas estruturas de contenção, como barragens.

Tomando como referência a qualidade técnica dos rejeitos da mineração de ouro das plantas da AngloGold Ashanti, o diretor da i9 Mining, Alexandre Orlandi Passos, propôs uma receita de fertilizante em conformidade com a realidade brasileira.

De acordo com a caracterização do material estudado pela sua empresa, segundo ele, a solução apresentada facilitará o desenvolvimento de um produto capaz de apresentar melhor desempenho em regiões de clima tropical, onde os níveis de precipitação são elevados e os solos arenosos retém pouca umidade.

Nessas condições, segundo ele, cerca de 50% dos fertilizantes solúveis são rapidamente lixiviados, podendo contaminar o subsolo e o lençol freático.

O novo produto estaria mais adequado a essa realidade, pois utiliza base mineral fina e de menor dureza, porém rica em potássio, permitindo controlar a liberação e melhorar seu aproveitamento no campo, além de reduzir custos e o impacto ambiental.

O beneficiamento do rejeito de ouro por uma rota tecnológica patenteada pela i9 Mining gerou ainda outras duas frações de materiais, para aplicações distintas.

Uma delas de perfil bem fino, agrupa substâncias ricas em sílica e minerais mais resistentes, que poderão ser utilizados como cimentício, reduzindo o consumo desse insumo tanto na mineração como na construção civil.

A segunda fração reúne material mais grosso, igualmente rico em sílica, além de outros minerais de maior resistência. Essa camada poderá ser utilizada como agregado seco na mineração e na construção civil, observa Passos

Mais de 200 traços de amostras de rejeito de bauxita foram testados pela Prronto antes de optar pela melhor rota de beneficiamento e o desenvolvimento de uma linha de produtos técnica e economicamente viável.

Ao final dessa maratona de laboratório, que contou com o auxílio de aglomerantes e aditivos diversos, oito amostras foram escolhidas como insumo para a produção de aglomerados destinados à base e sub-base de pavimentação e fabricação de blocos intertravados (pisos), informa a Weldie Jorge, sócia-diretora, da empresa.

Pelotas de ferro resultam do processamento do minério bruto ©QD Foto: Divulgação/Samarco - JeferSon Rocio
Pelotas de ferro resultam do processamento do minério bruto ©QD Foto: Divulgação/Samarco – JeferSon Rocio

De acordo com o projeto, os produtos serão desenvolvidos por meio de uma planta-piloto que contará com uma tecnologia adicional, para separação de fases. Essa inovação, também criada pela empresa, “possibilita a reutilização de minerais e viabiliza muito o investimento inicial”, revela a executiva.

Ao se referir à importância de substâncias e processos químicos para viabilizar o reúso do rejeito, ela lembrou que um dos aditivos da Clariant (bentonita) contribuiu para melhorar a adesividade dos aglomerados.

A Prronto também contou com ativadores alcalinos “de prateleira” (silicato de sódio, carbonato de sódio e hidróxido de sódio) a fim de viabilizar a agregação dos resíduos de acordo com as propriedades físicas e mecânicas demandadas pelas aplicações dos aglomerados.

A sinergia entre áreas de conhecimento também é destaque na Samarco, cuja principal operação unitária da concentração do minério de ferro é a flotação, um processo basicamente físico-químico.

Para o engenheiro especialista da mineradora, José Pedro da Silva, “toda inovação agregada à configuração de reagentes voltados a esse processo é fundamental para promover a melhoria do desempenho operacional visando o maior aproveitamento dos recursos naturais”.

Desde 2005, segundo ele, a empresa desenvolve várias iniciativas com foco multidisciplinar, (clientes, universidades e institutos de pesquisa), visando usar resíduos (lamas e rejeitos arenosos) no desenvolvimento de novos produtos para outras cadeias de produção.

Um dos resultados práticos mais recentes foi a pavimentação de 11 km de estradas vicinais do município de Mariana-MG em parceria com uma startup. A inovação se baseou em lama e aglomerante inorgânico, dando origem a um produto de alta resistência e durabilidade, conta Silva.

Pavimentação de estradas e aplicações na construção civil são também o destino da areia que a Vale vem processando, com vistas a reduzir o descarte de rejeitos em barragens.

Desde 2021, segundo a empresa, mais de 250 mil t do produto foram processadas e direcionadas à venda e doação, para uso principalmente em concretos, argamassas, pré-fabricados, artefatos e cimento.

A qualidade do material contrasta com o produto que geralmente vem de pequenos produtores, muitos dos quais “com pouca ou nenhuma tecnologia de beneficiamento”, afirma Bruno Batista, engenheiro especialista da mineradora.

Química e Derivados- Mineração: Potencial dos rejeitos supre outras cadeias produtivas ©QD Foto: Divulgação
Projetos da Metso Outotec aposentam o uso de barragens

Por esse motivo, acrescenta, o produto ofertado por esses agentes tem uma variação química e granulométrica muito grande, capaz de afetar o processo do cliente final.

Por sua vez, o material industrializado e disponibilizado pela Vale não tem muita variação química e física e sua qualidade é controlada, segundo ele.

Por exemplo, a aplicação em concreto e argamassa tem o aval dos laboratórios especializados do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Falcão Bauer e do ConsultareLabCon. O negócio deverá movimentar cerca de um milhão de areia este ano e dois milhões em 2023, de acordo com a expectativa da empresa

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