Meio Ambiente – Metais pesados pagam remediação na Bahia

Recuperado o chumbo, os cloretos de ferro e zinco são então oxidados, mediante adição de agentes apropriados, e em seguida separados mediante precipitação causada pela redução no índice de acidez da solução de HCl, também por ação de agentes químicos.

O investimento da Bolland em capital fixo – tanques e outras instalações, torre de lavagem, filtros, máquinas e equipamentos diversos – é estimado em10 a12 milhões de dólares. E o retorno sobre o investimento, incluindo pessoal e gastos correntes, em até 20%. As operações serãoem Santo Amaro, na desativada metalúrgica, onde ficarão instalações e equipamentos.

Perfil magnométrico – Nos 35 anos de operação, a metalúrgica extraiu óxido de chumbo (PbO) pela via da ustulação oxidante da galena (PbS), seguida de sinterização e redução do óxido a chumbo metálico. Nesse tempo, calculou a Universidade Federal da Bahia (UFBA), teriam sido produzidas 491 mil t de escória, decorrência da adição de fluxantes na etapa de redução, para remover as impurezas do banho metálico. A circunstância, hoje admitida, de o processo não ser tecnologicamente dos mais apurados, resultou nesta escória ambientalmente nociva, mas ainda passível de processamento econômico.

Coube à própria Bolland determinar a quantidade precisa da escória disponível no entorno da metalurgia, por elaboração do perfil magnométrico da área contaminada no entorno da metalurgia, etapa que exigiu a abertura de 40 furos de12 metros,em média. Nesselocal, de acordo com a pesquisa da UFBA, esperava-se encontrar mais de 350 mil t.

A caracterização foi feita a seguir, em duas instâncias – no próprio laboratório da Bolland, na Argentina; e em um laboratório canadense, segundo Henrique Dupertuis, um dos que contam com maior respaldo e credibilidade no mundo. “Os resultados foram muito aproximados”, assegura. A sondagem magnométrica não foi extensiva às ruas de Santo Amaro, onde estão as 50 mil a 100 mil t usadas como base de pavimentação, porque o método é sensível a metais presentes em construções e residências.

Dupertuis esclarece que, se as quase 500 mil t calculadas pela UFBA fossem localizadas, a recuperação seria por meio de uma planta pirometalúrgica, que operaria por dez anos, e não pelo processo hidrometalúrgico da sua empresa.

O engenheiro do CRA, Francisco Brito, alerta que o fato de a maior parcela da escória levada para a cidade estar abaixo do pavimento das ruas assegura certa proteção. Mas as autoridades ambientais consideram que constantemente a pavimentação é removida para operações nos sistemas de água e esgoto, novas ligações, implantação de cabos de fibra óptica e outras operações, situações com potencial de contaminação.

Em setembro de 1998, relata um documento da UFBA ao qual a reportagem de Química e Derivados teve acesso, fortes aguaceiros, que coincidiram com obras de saneamento, contribuíram para lixiviar e pôr em suspensão o metal particulado contido nessa escória, enquanto estava acumulada provisoriamente na porta das casas. Pesquisa feita posteriormente constatou que 31,9% das crianças com até cinco anos, nascidas, portanto, depois da desativação da metalurgia, estavam com níveis de chumbo acima de 20 mg/dl. Constatou também que as mais contaminadas eram aquelas em fase de engatinhar. A literatura registra ainda que o chumbo aspirado juntamente com a poeira em suspensão entra em contato direto com pulmões e vias respiratórias e daí imediatamente para a corrente sanguínea.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Usepa) relata que em determinadas situações as crianças ingerem cerca de 100 mg de solo por dia – e 5% delas bem mais, pelo menos 200 mg/dia. A geofagia, como o hábito é denominado, é comum na primeira infância. Há também mais uma constatação perturbadora: frutas e hortaliças dos terrenos e quintais de Santo Amaro com escória na cobertura do solo apresentam altas concentrações dos metais.

Especialização dupla – Na Bahia desde1999, a Bolland atua em função da Petrobrás, prestando serviços de remediação ambiental, principalmente tratamento de borras oleosas, sendo também uma das fornecedoras de bombas de fundo usadas em poços de petróleo, inibidores de corrosão, desemulsificantes e outros produtos procedentes de sua fábrica, na Argentina. Mais recentemente, passou a prestar serviços ao Pólo Industrial de Camaçari, com incinerador próprio de 16 mil t/ano instalado em área da Cetrel.

Na Argentina, onde foi fundado em 1937, o grupo Bolland é dono de sua própria empresa de mineração – a Bolland Mineradora – com jazidas de zinco, molibdênio e outros minerais, e de uma divisão que produz sondas adiamantadas de perfuração.

O engenheiro Francisco Brito explica que a dupla especialização da Bolland – remediação ambiental e mineração – é a causa do convite feito pelo governo do Estado há três anos para estudar a possibilidade de a empresa apresentar o projeto para livrar Santo Amaro do chumbo. Esta incumbência a princípio caberia à Plumbum Mineração e Metalurgia, a sucessora da Peñarroya Oxide que deixou o passivo ambiental. Mas a Plumbum alegou impossibilidade financeira de custear a atividade remediadora. O mesmo convite foi feito a outras empresas. “Mas a Bolland

foi a única a iniciar estudos para uma avaliação preliminar, retornando com a informação de que estaria disposta a prosseguir no desenvolvimento da tecnologia necessária para remediar a área”, lembra o engenheiro.

A limpezaem Santo Amaronão será uma ação do governo, mas, legalmente, um acerto entre a Plumbum, que assim saldará seu passivo ambiental, e a Bolland, que identificou na execução da remediação auto-sustentável um negócio lucrativo.

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