Meio Ambiente : Metais pesados pagam remediação na Bahia

Superar o maior passivo ambiental causado pelo chumbo no mundo, herança de uma desativada metalúrgica largada em Santo Amaro da Purificação- BA, será uma inédita experiência de remediação auto-sustentável.

Para o governo da Bahia, não custará nada e renderá impostos, como outra atividade qualquer, e, para a empresa responsável pela remediação, a argentina Bolland, revela o executivo Enrique Dupertuis, tende a ser um bom negócio, por conta das boas cotações do chumbo, zinco e ferro, metais contidos na escória a ser recuperada, e da tecnologia precisamente desenvolvida com tal propósito.

Restaurado o meio ambiente, restará o drama das pessoas contaminadas com chumbo e cádmio, principalmente ex-operários da desativada metalúrgica, que produziu lingotes de chumbo durante 35 anos, entre 1958 e1989.

A“responsável” foi a Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac), subsidiária da francesa Peñarroya Oxide, hoje incorporada ao grupo líder mundial na produção de óxidos de chumbo, o Metaleurop, e na seqüência, até ser fechada em 1993, pela sucessora, a brasileira Plumbum Mineração e Metalurgia.

A Bolland está com a licença do Conselho de Recursos Ambientais da Bahia (CRA-BA) para processar as primeiras 150 mil toneladas de escória, deixadas nas próprias instalações e terrenos da metalurgia.

Posteriormente, por ordem judicial, elas foram acumuladas no entorno, em terreno nas imediações do Rio Subaé. A previsão é de que essa quantidade de escória seja processada em quatro anos e, a este volume, se acrescentarem outras 50 mil a 100 mil t, usadas pela Prefeitura dessa velha cidade do Recôncavo baiano na base da pavimentação de ruas e também pelas famílias, em quintais e aterramentos.

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Vítimas da contaminação continuam sem tratamento adequado

Até descobrir-se como causa de contaminação do ar, da terra e da água, e conseqüentes envenenamentos de pessoas, bichos e plantas, a escória era um aparente benefício, doado pela metalúrgica para uso como carga na construção de ruas e calçadas, e em aterros e quintais (ver QD-446, pág. 58).

Remediar será submeter seguidas bateladas de escória à lixiviação por solução de ácido clorídrico (HCl) e conseqüente recuperação da maior parte do chumbo, zinco e ferro. “Na reação com o HCl, os três metais são solubilizados, transformados nos correspondentes cloretos e, mediante outras reações, passam a óxidos”, resume Dupertuis. “Na seqüência são precipitados e recuperados.”

Concentrações de chumbo de até 159 mg/l, equivalentes a 31,8 vezes o limite recomendado, indicam que as 150 mil toneladas permanecem agravando o passivo ambiental. Em virtude da ação das intempéries, solo e água são contaminados. As águas superficiais lixiviam a escória, atravessam uma zona alagadiça, alcançam o rio Subaé e a Baía de Todos os Santos, menos de dez quilômetros adiante, carregando teores elevados – até 7,81 mg/l (chumbo) e 0,84 mg/l (cádmio), bem acima do limite do Conama para os dois metais, de 0,03 mg/l e 0,001 mg/l, respectivamente.

Análises de solo acusam concentrações de 8.200 ppm de chumbo, 117 ppm de cádmio e nas águas subterrâneas valores moderadamente acima do estabelecido na legislação – o maior, de 0,72 mg/l de chumbo – fato atribuído à composição impermeável do terreno de massapé, e decorrente da alta capacidade de retenção de poluentes. Mas altos teores em sedimentos e mariscos foram confirmados.

Investimento e retorno – Os testes de laboratório, confirmados em escala semiindustrial, indicam que a Bolland extrairá, em quatro anos, 30 mil t de óxido de ferro, correspondentes a 20% das 150 mil t de escória e avaliadas em cerca de 4,5 milhões de dólares; 6 mil t de óxido de chumbo (4%), no valor de 12 milhões de dólares; e 15 mil t de óxido de zinco (10%), com valor de mercado estimado em 45 milhões de dólares. Todos os metais com alto grau de pureza. Nos testes, a recuperação do zinco alcançou 97% e a do chumbo, 92%.

O material sobrante, correspondente a 66% do volume da escória (90 mil t), será necessariamente doado para a produção de cimento, ou telhas, e assim estabilizado. “Não ficará resíduo solto na natureza”, explica o engenheiro do CRA, Francisco Brito. Além dos três metais recuperados, a escória contém principalmente sílica e, em concentrações menores, Mg, Al, S, Ca, Cd, Ti, Mn e Cu.

Na Central de Tratamento de Efluentes de Camaçari (Cetrel), empresa responsável pelos resíduos do pólo industrial de Camaçari, mostras de escória foram submetidas ao agente extrator, o hidrácido HCl, pelas 80 horas necessárias de gotejamento, percolação e conseqüente lixiviação. No processamento definitivo, o ácido será transferido para um tanque de concreto revestido de mantas de polietileno (PEAD), ocupado sucessivamente por pilhas de escória.

A reação inicial, que resultará nos três cloretos, será seqüenciada pelo processo eletrostático, a própria eletrólise, em função exclusivamente da recuperação do chumbo. É a etapa ambientalmente mais sensível. Exige a instalação de um sistema de captação, com torre de lavagem.

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Brito (esq.) e Dupertuis: CRA autorizou início do trabalho

“A parcela do cloro gaseificada que se desprender da eletrólise será reabsorvida na torre e voltará para a pilha de lixiviação”, revela Dupertuis. Além de ser uma obrigação ambiental, ressalta ele, o procedimento possibilitará o reúso do CL2.

O executivo lembra também que o HCl, necessariamente, deve ser puro, não conter elementos voláteis, como ar e solo, exigência que descarta a possibilidade de uso de grande parte do estoque disponível no Pólo Industrial de Camaçari a custo zero. Dupertuis exibe dois frascos – o primeiro contendo HCl puro, como é requerido, translúcido tanto quanto água destilada; o segundo com o HCl pós-utilizado uma solução com a mesma coloração esverdeada do azeite de oliva.

Recuperado o chumbo, os cloretos de ferro e zinco são então oxidados, mediante adição de agentes apropriados, e em seguida separados mediante precipitação causada pela redução no índice de acidez da solução de HCl, também por ação de agentes químicos.

O investimento da Bolland em capital fixo – tanques e outras instalações, torre de lavagem, filtros, máquinas e equipamentos diversos – é estimado em10 a12 milhões de dólares. E o retorno sobre o investimento, incluindo pessoal e gastos correntes, em até 20%. As operações serãoem Santo Amaro, na desativada metalúrgica, onde ficarão instalações e equipamentos.

Perfil magnométrico – Nos 35 anos de operação, a metalúrgica extraiu óxido de chumbo (PbO) pela via da ustulação oxidante da galena (PbS), seguida de sinterização e redução do óxido a chumbo metálico. Nesse tempo, calculou a Universidade Federal da Bahia (UFBA), teriam sido produzidas 491 mil t de escória, decorrência da adição de fluxantes na etapa de redução, para remover as impurezas do banho metálico. A circunstância, hoje admitida, de o processo não ser tecnologicamente dos mais apurados, resultou nesta escória ambientalmente nociva, mas ainda passível de processamento econômico.

Coube à própria Bolland determinar a quantidade precisa da escória disponível no entorno da metalurgia, por elaboração do perfil magnométrico da área contaminada no entorno da metalurgia, etapa que exigiu a abertura de 40 furos de12 metros,em média. Nesselocal, de acordo com a pesquisa da UFBA, esperava-se encontrar mais de 350 mil t.

A caracterização foi feita a seguir, em duas instâncias – no próprio laboratório da Bolland, na Argentina; e em um laboratório canadense, segundo Henrique Dupertuis, um dos que contam com maior respaldo e credibilidade no mundo. “Os resultados foram muito aproximados”, assegura. A sondagem magnométrica não foi extensiva às ruas de Santo Amaro, onde estão as 50 mil a 100 mil t usadas como base de pavimentação, porque o método é sensível a metais presentes em construções e residências.

Dupertuis esclarece que, se as quase 500 mil t calculadas pela UFBA fossem localizadas, a recuperação seria por meio de uma planta pirometalúrgica, que operaria por dez anos, e não pelo processo hidrometalúrgico da sua empresa.

O engenheiro do CRA, Francisco Brito, alerta que o fato de a maior parcela da escória levada para a cidade estar abaixo do pavimento das ruas assegura certa proteção. Mas as autoridades ambientais consideram que constantemente a pavimentação é removida para operações nos sistemas de água e esgoto, novas ligações, implantação de cabos de fibra óptica e outras operações, situações com potencial de contaminação.

Em setembro de 1998, relata um documento da UFBA ao qual a reportagem de Química e Derivados teve acesso, fortes aguaceiros, que coincidiram com obras de saneamento, contribuíram para lixiviar e pôr em suspensão o metal particulado contido nessa escória, enquanto estava acumulada provisoriamente na porta das casas. Pesquisa feita posteriormente constatou que 31,9% das crianças com até cinco anos, nascidas, portanto, depois da desativação da metalurgia, estavam com níveis de chumbo acima de 20 mg/dl. Constatou também que as mais contaminadas eram aquelas em fase de engatinhar. A literatura registra ainda que o chumbo aspirado juntamente com a poeira em suspensão entra em contato direto com pulmões e vias respiratórias e daí imediatamente para a corrente sanguínea.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Usepa) relata que em determinadas situações as crianças ingerem cerca de 100 mg de solo por dia – e 5% delas bem mais, pelo menos 200 mg/dia. A geofagia, como o hábito é denominado, é comum na primeira infância. Há também mais uma constatação perturbadora: frutas e hortaliças dos terrenos e quintais de Santo Amaro com escória na cobertura do solo apresentam altas concentrações dos metais.

Especialização dupla – Na Bahia desde1999, a Bolland atua em função da Petrobrás, prestando serviços de remediação ambiental, principalmente tratamento de borras oleosas, sendo também uma das fornecedoras de bombas de fundo usadas em poços de petróleo, inibidores de corrosão, desemulsificantes e outros produtos procedentes de sua fábrica, na Argentina. Mais recentemente, passou a prestar serviços ao Pólo Industrial de Camaçari, com incinerador próprio de 16 mil t/ano instalado em área da Cetrel.

Na Argentina, onde foi fundado em 1937, o grupo Bolland é dono de sua própria empresa de mineração – a Bolland Mineradora – com jazidas de zinco, molibdênio e outros minerais, e de uma divisão que produz sondas adiamantadas de perfuração.

O engenheiro Francisco Brito explica que a dupla especialização da Bolland – remediação ambiental e mineração – é a causa do convite feito pelo governo do Estado há três anos para estudar a possibilidade de a empresa apresentar o projeto para livrar Santo Amaro do chumbo. Esta incumbência a princípio caberia à Plumbum Mineração e Metalurgia, a sucessora da Peñarroya Oxide que deixou o passivo ambiental. Mas a Plumbum alegou impossibilidade financeira de custear a atividade remediadora. O mesmo convite foi feito a outras empresas. “Mas a Bolland

foi a única a iniciar estudos para uma avaliação preliminar, retornando com a informação de que estaria disposta a prosseguir no desenvolvimento da tecnologia necessária para remediar a área”, lembra o engenheiro.

A limpezaem Santo Amaronão será uma ação do governo, mas, legalmente, um acerto entre a Plumbum, que assim saldará seu passivo ambiental, e a Bolland, que identificou na execução da remediação auto-sustentável um negócio lucrativo.

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