Mercado pede alimentos mais saudáveis

Conjuntura favorece consumo e mercado pede alimentos mais saudáveis e multifuncionais

– Alimentos mais saudáveis: As projeções da indústria de alimentos sinalizam crescimento. A expansão está atrelada a contingências políticas e econômicas, mas, ainda assim, o setor demonstra fôlego para atender às demandas atuais, com foco na funcionalidade e na promoção da saúde e do bem-estar do consumidor. No campo dos processos regulatórios, existe evolução, porém, sem a agilidade desejada. De qualquer forma, o mercado preza pela segurança e tem se voltado para sua ampliação com a aprovação de novos produtos.

Para 2024, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) prevê uma melhora no cenário para a demanda por alimentos no mercado interno. A expectativa é balizada pela tendência de queda na taxa de inflação que abriu espaço para a redução gradual da taxa básica de juros, a Selic, assegurando assim previsões de crescimento da economia brasileira, em 2023, o que favoreceu a retomada da geração de emprego.

Em âmbito internacional, porém, há a perspectiva de desaceleração do crescimento econômico na maioria dos países. No último levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), de outubro de 2023, a taxa prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial permanecia em 3,0%, e em 2,9%, para 2024, índice abaixo do observado em 2022, de 3,5%. Segundo a Abia, este movimento de acomodação reflete a alta dos juros pelos bancos centrais da maioria dos países e a permanência de conflitos que interferem nas dinâmicas das cadeias de produção.

Em suma, todo este processo tem influenciado negativamente os preços dos produtos agrícolas exportados pelo Brasil. No entanto, o balanço da receita tem sido positivo por conta da expansão dos volumes. Se a situação se mantiver dessa forma, a indústria de alimentos poderá encerrar o ano com crescimento nas vendas reais no patamar de 3,0%.

A preocupação de Helvio Collino, presidente da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos (Abiam), quanto aos rumos do setor diz respeito ao risco de inflação e às possíveis alterações de natureza fiscal. Segundo ele, essas questões poderiam modificar sensivelmente o mix atual de alimentos consumidos pela população, repercutindo negativamente no mercado.?

Alimentos: Mercado pede alimentos mais saudáveis ©QD Foto: iStockPhoto
Collino: ingredientes devem oferecer incorporação fácil

“O desempenho dependerá do contexto tributário, da evolução econômica e de outros fatores que ainda não são claros”, afirma. Na opinião dele, a trajetória da indústria de ingredientes ainda não está completamente sedimentada. Há preocupações, especialmente, com o aumento nos custos de commodities agrícolas e do petróleo.

Alimentos mais saudáveis: Rumo ao crescimento

De qualquer forma, espera-se uma evolução positiva e constante na regulamentação tanto sanitária quanto fiscal, visando facilitar os processos e evitar entraves desnecessários. A expectativa de Collino é de que o ambiente de negócios seja favorável ao desenvolvimento da indústria de ingredientes e bebidas, proporcionando condições para a inovação e o crescimento sustentável.

O momento atual traz a possibilidade de aumento, ainda neste ano, da procura por ingredientes e aditivos que permitem soluções mais simples e facilmente aplicáveis para incrementar os aspectos reológicos e sensoriais dos alimentos, como enzimas, amidos e estabilizantes. “É uma tendência constante, pois está relacionada à inovação”, afirma Collino.

Segundo as previsões de Luis Madi, diretor de Assuntos Institucionais do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), este ano terá dois focos extremamente concentrados: sustentabilidade e saudabilidade. Ou seja, será exigido do alimento uma ação funcional ou de promoção de melhorias na saúde pessoal.

Alimentos: Mercado pede alimentos mais saudáveis ©QD Foto: iStockPhoto
Madi: consumidor pede alimento que ajude a melhorar a saúde

“As empresas estão cientes e aproveitando as oportunidades mais ligadas à saúde do consumidor, então a tendência é de maior energia dedicada aos alimentos funcionais e enriquecidos”, prevê.

Nesse contexto, as projeções para o mercado de alimentos para fins especiais e congêneres são positivas, apesar de dependerem das contingências dos cenários político e econômico do país. “Projetamos que – mantendo-se a atual conscientização da população, em relação à qualidade de vida, e a contínua evolução da indústria para atender às demandas nutricionais dos consumidores – o ano de 2024 possa testemunhar um crescimento ainda mais robusto”, afirma Gislene Cardozo, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), comparando com os índices de 2023. A previsão também se baseia na expansão da geração de emprego com carteira assinada (de 3,1%), que é um indicativo adicional da solidez do setor.

A expectativa é de que essa indústria prossiga em sua trajetória de crescimento em 2024, contribuindo não apenas para o mercado nacional, mas também consolidando sua presença no cenário internacional.

Alimentos: Mercado pede alimentos mais saudáveis ©QD Foto: iStockPhoto
Gislene: aprovação de insumos ainda é demorada no Brasil

“Estamos otimistas em relação ao futuro da indústria de alimentos para fins especiais e congêneres”, reforça Gislene.

Porém, não quer dizer que não haverá obstáculos. No caso dos suplementos alimentares, um gargalo se refere à aprovação de novos ingredientes. Levantamento recente da Abiad, com base na lista positiva de ingredientes para suplementos, apontou que, num período de cinco anos, desde o lançamento da nova regulamentação, houve aumento da ordem de 20% de novos ingredientes – índice considerado baixo por Gislene.

O ano é 2023

No ano passado, as vendas reais e a produção física da indústria brasileira de alimentos cresceram 3,5% e 4,6%, respectivamente, segundo dados preliminares da Pesquisa Conjuntural Abia. As exportações e o setor de alimentação fora do lar (food service) se destacaram; aliás, esse canal, deve registrar avanço da ordem de 4,5%, acima do PIB do país.

A expansão da economia, puxada pelo agronegócio e o setor de serviços, contribuiu para que a geração de emprego se mantivesse com saldo positivo, o que, somado à redução da inflação, viabilizou, em última instância, o aumento do consumo de alimentos industrializados. Decerto que a indústria de alimentos seguiu a dinâmica de retomada gradual do crescimento da economia brasileira, porém o seu desempenho se mantém à mercê dos juros altos, apesar das reduções efetuadas pelo Banco Central, e do elevado patamar de endividamento da população.

De qualquer maneira, o desempenho do setor de alimentos teve a seu favor a contribuição da safra recorde de grãos 2022/2023, de 321,4 milhões de toneladas (17,9% maior, em relação à anterior), segundo projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que melhorou a disponibilidade de matérias-primas e reduziu os custos de produção dos alimentos industrializados.

Em 2023, a indústria de alimentos para fins especiais e congêneres também registrou avanço. O setor cresceu 2,7%, no acumulado de janeiro a setembro. A demanda dos complementos alimentares, suplementos vitamínicos e concentrados de proteínas foram determinantes para este desempenho.

O consumo de concentrados de proteínas evoluiu 4,6% em 2023, no comparativo de janeiro a setembro, demonstrando, segundo Gislene, existir uma demanda contínua para esses produtos. As bebidas dietéticas e de baixas calorias também apresentaram um desempenho positivo, com o crescimento de 20,6%, nos nove primeiros meses do ano. Ela destaca os complementos alimentares e os suplementos vitamínicos, pois registraram elevação de 8,1% do consumo, no mesmo período.

Não por acaso, essa categoria também apresentou aumento (22%) nas importações. Bebidas dietéticas e de baixas calorias seguiram a mesma rota – elevação de 31,6% nas importações. “Esses resultados refletem a adaptabilidade da indústria às necessidades dos consumidores”, comenta Gislene. No acumulado de janeiro a setembro, este mercado totalizou US$ 623 milhões em importações.

Para a indústria de ingredientes e aditivos para alimentos, o ano passado, por sua vez, passou quase incólume. “Não tivemos grandes alterações e tão pouco prevíamos algo extraordinário para 2023, até porque os cenários local e global, no mínimo, mostravam-se pouco animadores”, afirma Collino. No entanto, a manutenção dos dados já consolidados não representa estagnação – longe disso.

Alimentos mais saudáveis: Valor agregado

O setor se movimentou qualitativamente. Ao longo dos últimos anos, algumas especialidades apresentaram evolução. “Esses ingredientes estão muito direcionados a produtos finais, sobretudo diferenciados, como aqueles que preconizam melhor nutrição e saudabilidade”, explica Collino.

Aliás, os maiores vetores estão no crescimento dessas categorias de alimentos e assim tendem a se manter. Segundo a Abia, produtos com atributos de saudabilidade e bem-estar deverão continuar em expansão. Leia-se: alimentos sem glúten, lactose e reduzidos em algum nutriente/ingrediente. Em suma, o setor vem buscando produzir alimentos seguros que agreguem valor (nutricional ou econômico), pautados na saudabilidade. Segundo Collino, existem novos ingredientes que podem facilitar essa produção, permitindo a fabricação de alimentos com valor nutricional equivalente, mas com um custo menor.

Sobre o tema, Madi analisa que as ações ligadas à sustentabilidade e à saudabilidade estão no início e sua evolução depende de dois fatores: as indústrias se adequarem ao contexto socioeconômico e haver uma comunicação assertiva com a sociedade. Até por isso, o Ital intensificará a sua atuação neste sentido, a fim de propagar conhecimento e combater notícias falsas.

Para Madi, educação e informação são imprescindíveis. Não por acaso, ele coordenou a Macrotendência Informação e Educação sobre Segurança dos Alimentos, seminário do evento Brasil Food Safety Trends 2030, lançado em meados de 2023, e idealizado pela diretora-geral do Ital, Eloísa Garcia. A proposta era mostrar os diferentes caminhos que o conceito está seguindo, principalmente nas mudanças dos sistemas de distribuição, de comercialização e de venda, incluindo toda a parte de food trucks. “O food safety é o item mais estratégico da indústria de alimentos e bebidas”, pontua.

O mercado também se ancora em novas tecnologias aplicadas à sustentabilidade ambiental e social dos materiais das embalagens dos alimentos e bebidas, pois são e serão, segundo a Abia, cada vez mais, importantes para a transição das cadeias de valor de alimentos rumo a uma economia circular e de baixo carbono, em linha com o cumprimento dos compromissos empresariais e setoriais assumidos no país. Vale lembrar que alimentos e bebidas absorvem mais ou menos 70% do total das embalagens de bens de consumo produzidas.

Neste sentido, abre-se um espaço gigantesco para o upcycle, por exemplo. De acordo com a Abia, reusar e reutilizar as embalagens, de forma segura, além da possibilidade de serem recicladas como matéria-prima de novas embalagens, contribuem de forma direta para a redução do consumo de novos materiais, das emissões de gases do efeito estufa (GGE), ao mesmo tempo em que criam novas cadeias de valor, importantes para a geração de emprego e renda para o país.

Se não bastassem estas questões, as embalagens mais sustentáveis se constituem ainda em um diferencial cada vez maior para as marcas de alimentos, seja no mercado interno ou no externo, ao se alinharem com as preocupações dos consumidores, sobretudo das gerações mais novas.

Pela saúde

Outro importante segmento que acompanha as tendências de expansão da indústria há alguns anos é o de ingredientes que funcionam como alternativas ao sódio, ao açúcar e às gorduras. Pensando nos produtos, Collino destaca as fibras na substituição de gorduras ou de açúcares, corantes natural, vitaminas, minerais e outros.

Neste contexto, as novas regras da rotulagem nutricional, que entraram em vigor em outubro último, se tornam ainda mais relevantes no panorama atual dos alimentos e bebidas. Segundo Gislene, um marco de 2023 é justamente ess legislação, pois foi neste ano que se encerrou o prazo de adequação das empresas e as normas se tornaram efetivas.

Resultado da RDC nº 429 e da Instrução Normativa nº 75, as mudanças incluem a implantação do rótulo frontal, destacando o alto teor de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio. O novo regramento ainda não abarca produtos artesanais e bebidas não alcoólicas acondicionadas em embalagens retornáveis, os quais precisarão, segundo Madi, se adequar a partir de 9 outubro deste ano e de 2025, respectivamente, aos critérios estabelecidos.

De acordo com a Abiad, a indústria também vem incorporando novos ingredientes em formulações com proteínas e isso tem sido muito bem aceito pelo consumidor. No ano passado, grandes marcas lançaram produtos nesse segmento. A tendência é de que esse cenário se mantenha em 2024, com a possibilidade de mais ingredientes novos no setor.

Outros fatores impactaram o mercado em 2023. No caso da indústria de alimentos para fins especiais e congêneres, um deles foi o término do período de adequação dos suplementos alimentares – eles passaram a atender restritamente à legislação vigente. Para 2024, Gislene adianta que o setor se movimentará ainda mais. Isso por conta da discussão setorial sobre a consulta pública de Novos Ingredientes, com a legislação a ser lançada brevemente.

Segurança

Quanto à regulamentação do setor de alimentos, nota-se evolução contínua, nos últimos anos, mas sem um impacto mais significativo, diz Collino. Aliás, para o setor, o maior desafio é manter os avanços da regulamentação sanitária e fiscal, favorecendo assim a inovação.

Madi defende que o sistema regulatório está progredindo, mas as empresas esperam maior velocidade do processo para não haver prejuízo no lançamento de produtos. “Por vezes, há mais demora do que gostaríamos, porque a Anvisa é bastante cautelosa, como toda agência reguladora deve ser”, afirma.

Por esta postura e por entender que o sistema tem possibilidade de melhorias, a Anvisa publicou recentemente a RDC nº 839/2023, que moderniza o trabalho de comprovação da segurança e autorização do uso de novos alimentos e ingredientes. Entre as novidades desse regulamento, que entra em vigor na íntegra em 16 de março deste ano, estão procedimentos otimizados de análise, com flexibilização de requisitos, caso o novo alimento ou ingrediente reúna características que aumentem as certezas ou diminuam as incertezas existentes em relação à segurança.

Para a Abia, o setor de industrializados, incluindo as cadeias de suprimentos, produção, distribuição e consumo, é um dos mais regulados no Brasil e no mundo, sobretudo nos campos da segurança dos alimentos, sustentabilidade social e ambiental e comércio exterior, entre outros.

A entidade ressalta que muitas destas legislações representam barreiras não tarifárias (fitossanitárias, técnicas e administrativas) para o comércio internacional de alimentos, convertendo-se em medidas protecionistas. Além das regulações estabelecidas por governos de países e blocos econômicos, as empresas também estão sujeitas aos padrões privados de sustentabilidade.

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Porvir

Mudanças regulatórias devem ocorrer em breve no setor de plant-based. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) abriu em 2023 consulta pública para embasar o estabelecimento de requisitos mínimos de identidade e qualidade dos produtos formulados somente com matérias-primas de origem vegetal. Esta é uma resposta a uma reivindicação antiga do setor. Aliás, um déficit importante do segmento se dá justamente quanto à definição de regras efetivas e mais claras para a categoria. “Estamos seguros de que precisamos que a regulamentação avance para que esse mercado realmente possa evoluir”, diz Collino.

As previsões são de que neste ano haja progressos neste sentido. Segundo ele, já existem alguns alimentos plant-based sendo comercializados, mas há também uma gama muito maior de produtos em desenvolvimento e em fase de teste.

Collino aponta alguns gargalos do setor de ingredientes e aditivos para alimentos, como a falta de maior colaboração entre a indústria e instituições de ensino e pesquisa, como o Ital. A ideia seria fortalecer a pesquisa e facilitar a aprovação de novas tecnologias, especialmente as que possam ter como base os recursos naturais do país.

O Ital tem participado das discussões sobre os produtos plant-based junto ao Mapa e elaborou para a organização sem fins lucrativos The Good Food Institute – GFI Brasil fascículos da Série Tecnológica em Proteínas Alternativas, disponibilizada no site gfi.org.br, uma fonte de conhecimento para o desenvolvimento dessas tecnologias. Atento às pautas atuais, como as alusivas às conferências das Nações Unidas sobre a mudança do clima, o instituto também lidera há dois anos a Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), Núcleo de Pesquisa Orientada a Problemas em São Paulo (NPOP-SP).

Alimentos: Mercado pede alimentos mais saudáveis ©QD Foto: iStockPhoto
Laboratório de inovação prioriza matérias-primas nacionais

A proposta surgiu da necessidade de ter ingredientes e proteínas vegetais alternativas feitas com matéria-prima brasileira. “É até irônico o Brasil, quarto maior produtor de alimentos do mundo, ter que importar esses itens”, afirma Madi. Vale lembrar que, no cenário nacional, uma proteína alternativa considerada promissora é o feijão. Esse grão, aliás, vem sendo pesquisado pelo instituto.

Além disso, o Ital inaugurou, em outubro de 2023, o Tropical Food Innovation Lab, onde são feitos testes de extrusão úmida para vários produtos alimentícios, assim como estão previstos laboratório e planta-piloto dedicados ao desenvolvimento de bebidas aproveitando a biodiversidade brasileira, infraestrutura especializada que hoje o Ital não possui adequadamente.

Outro tema discutido pelo mercado de alimentos e bebidas são os investimentos realizados pelo governo. Collino os reconhece, porém os avalia como aquém da real necessidade. “Somos nós do setor que estamos há anos investindo sozinhos e praticamente sem incentivos, de maneira abrangente, em áreas como pesquisa e desenvolvimento, seja de produto, seja de aplicação e inovação, entre outras”, diz. Um importante aliado do mercado, aliás, ele comenta, trata-se da própria Abiam, que faz 45 anos, em 2024, e desde os primórdios, assumiu um papel fundamental nos rumos do mercado.

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