Mercado de Saneamento puxa vendas de insumos químicos

Saneamento puxa as vendas de insumos químicos e inovações

O aumento da demanda por produtos químicos para tratamento de água e efluentes/ saneamento tem influências conflitantes. Ao mesmo tempo em que o uso das tecnologias demonstra que os mananciais hídricos do País ainda são muito poluídos, daí a necessidade de mais tratamento para permitir o consumo, a expansão do mercado também demonstra o contrário, ou seja, há um movimento que resulta da qualidade dos descartes, tanto de esgotos como dos efluentes industriais, impactando positivamente rios e outros cursos d´água.

O cenário é percebido facilmente no desempenho de empresas do setor, que vêm nos últimos anos conseguindo introduzir novas tecnologias e expandindo a produção para atender essas demandas.

Não se pode esquecer que influencia da mesma forma o novo panorama a maior abertura do mercado de saneamento para o setor privado, depois da publicação do marco regulatório do setor, em 2020, a Lei 14.026. Com meta de universalização dos serviços até 2033 (99% em acesso à água e 90% de esgoto), a lei tem impactado o crescimento do mercado.

Para começar pelos insumos mais consumidos, o cloro e seus derivados, a maior produtora do País, a Unipar, está fazendo altos investimentos, não só para atender a explosão de consumo de PVC para uso em saneamento, mas diretamente para o tratamento de água. Com meta de dobrar de tamanho em dez anos, a empresa está em fase final de expansão da fábrica de Santo André-SP, que envolve investimentos da ordem de R$ 100 milhões para a instalação de um eletrolisador e um novo forno de ácido clorídrico.

Além do investimento para expandir o volume de produção anual de cloro em cerca de 29 mil t/ano, o novo forno aumenta em 15% a de ácido clorídrico, insumo essencial para a fabricação de coagulantes utilizados no tratamento de água e esgoto. Também com várias outras aplicações industriais (cloretos para fertilizantes, decapagem de metais, regeneração de resinas troca iônica, biodiesel, etc.), o ácido clorídrico é produzido pela reação do hidrogênio (subproduto da eletrólise) com o gás cloro.

De acordo com o diretor de negócios da Unipar, Alexandre de Castro, a expectativa é a de que a fábrica expandida esteja em plena operação ainda no terceiro trimestre deste ano. No projeto, explica o executivo, o equipamento de eletrólise com a nova tecnologia (de membranas) consome 18% menos energia do que os equipamentos convencionais de diafragma.

“Além disso, o novo forno para o ácido clorídrico que escolhemos produz vapor e, com isso, não precisamos produzir este insumo, reduzindo nossas emissões em cerca de 2 mil toneladas de CO2 por ano e em 60% o consumo de água de resfriamento em relação aos fornos convencionais, que não produzem vapor”, explicou.

A Unipar também constrói nova fábrica no polo petroquímico de Camaçari-BA, com previsão de entrada em operação em 2024, com investimentos na ordem de R$ 234 milhões, com capacidade instalada inicial de 20 mil t/ano de cloro e 22 mil t/ano de soda cáustica.

Segundo Castro, a construção reforça o posicionamento da Unipar no Nordeste, “região mais carente e onde se espera o maior desenvolvimento do saneamento nos próximos dez anos”, disse.

Atualmente a Unipar tem três fábricas em operação, sendo duas no Brasil – Santo André e Cubatão, ambas em São Paulo – e uma terceira em Bahía Blanca, na Argentina. Em 2022, a fábrica de Cubatão, que produz soda, cloro e seus derivados (ácido clorídrico, cloro líquido e hipoclorito, soda líquida e soda em escamas) contabilizou capacidade de produção de 355 mil toneladas de cloro.

Já a de Santo André, integrada na cadeia cloro-soda-PVC, que produz soda, ácido clorídrico, dicloroetano (DCE), monômero vinílico (MVC), PVC emulsão e PVC suspensão, teve sua capacidade de produção anual, em 2022, de 300 mil toneladas de PVC e 180 mil toneladas de soda cáustica. Em Bahía Blanca, a produção é de soda, soda pérola, ácido clorídrico, DCE, MVC, PVC emulsão e PVC suspensão. Tem capacidade anual instalada para produção de 240 mil toneladas de PVC e 186 mil toneladas de soda cáustica.

No Brasil, segundo dados da Abiquim, o mercado geral de cloro liquefeito, hipoclorito de sódio e ácido clorídrico representam aproximadamente 36% da produção nacional, o equivalente a cerca de 570 mil t/ano. Por volta de 34% da capacidade produtiva do cloro, 550 mil t/ano, se destina à produção de PVC, sendo de 60% a 70% do mercado voltado para tubos e conexões. Outros derivados de cloro representam cerca 30% da capacidade produtiva (450 mil t/a).

Nesse contexto, estima-se que no Brasil a demanda de cloro para o tratamento de água seja próxima de 100 mil t/ano, considerando cloro liquefeito (granel e cilindros), hipoclorito de sódio e derivados de cloro (pastilhas de dicloro e tricloro).

“Vale ressaltar que outros produtos derivados do cloro estão presentes no tratamento de água, a exemplo de alguns tipos de coagulantes à base de ácido clorídrico não contabilizados como uso direto em tratamento de água”, destacou Castro.

Mercado de saneamento: Dióxido de cloro


A expansão da demanda, que justifica a ampliação da Unipar, também afeta positivamente um produto concorrente ao cloro, o dióxido de cloro (ClO2), que tem visto sua aplicação crescer como oxidante forte e desinfetante. No mercado de saneamento, seu uso tem se difundido nas etapas de pré-oxidação em estações de tratamento de água (ETA).

Meio ambiente: Saneamento puxa vendas ©QD Foto: iStockPhotoSegundo o gerente comercial da Sabará Químicos e Ingredientes, Lucas Donato, a aplicação tem aumentado para atender águas com precursores para formação de trialometanos e ácidos haloacéticos.

“Quando tratadas somente com cloro, certamente apresentarão esses subprodutos de tratamento, podendo levar ao descumprimento da Portaria 888 do Ministério da Saúde”, alertou Donato. “É nesse momento que o dióxido de cloro entra como alternativa ao cloro na pré-oxidação, não formando , ou formando muito pouco, esses subprodutos”, afirmou.

O gerente apontou ainda que o dióxido de cloro é um oxidante 2,5 vezes mais forte do que o cloro e, como desinfetante, até 25 vezes mais poderoso, também permitindo que sejam feitas dosagens muito baixas. Com os mananciais a cada dia mais contaminados, o dióxido de cloro tem sido demandado principalmente nos municípios onde a qualidade da água é, historicamente, muito ruim. Ele citou como exemplo de clientes no segmento as companhias de saneamento do Distrito Federal (Caesb), do Ceará (Cagece), Paraná (Sanepar) e de Sergipe (Deso).

Além do mercado de saneamento, a indústria também tem apostado no dióxido de cloro no pré-tratamento de ETAs, mas também na desinfecção final de efluentes. Mas o maior emprego é no tratamento de água das torres de resfriamento, sistemas críticos para as fábricas e que muitas vezes apresentam condições de extrema contaminação.

Segundo explicou Donato, um dos principais problemas identificados nas torres é a proliferação de algas e de micróbios formadores de biofilmes, que ficam impregnados nas paredes do sistema de refrigeração, reduzindo a eficiência na troca de calor. “O dióxido de cloro consegue remover esse biofilme com dosagens baixas e previne uma nova formação desses organismos”, afirma.

No setor industrial, o produto em pó e o líquido estabilizado são os mais vendidos, uma vez que as vazões em geral não são muito grandes e pelo fato de não haver capex para executar a aplicação dos produtos com geradores de dióxido de cloro, como ocorre com mais frequência no mercado de saneamento.

“A manipulação é muito fácil e segura, e o cliente pode aplicar o produto sempre que necessário. Já no mercado de saneamento, por se tratar de vazões bem maiores, a solução mais vendida é a geração in-situ”, disse.

O dióxido de cloro em pó, batizado de Sany-Plus Powder, é produzido na fábrica da Sabará em Anápolis-GO. Já o dióxido de cloro líquido estabilizado, o Sany-Plus Stabilized, e os geradores do oxidante são produzidos na fábrica principal, em Santa Bárbara D’Oeste-SP, onde também é produzido o clorito de sódio, utilizado na rota de geração do ClO2 da Sabará.

Embora a aplicação em tratamento de água seja a principal, Donato explicou que o dióxido de cloro tem também eficiência no tratamento de efluentes municipais e nos industriais. Mas nesses casos há a necessidade de um estudo prévio para avaliação de quais os resíduos e componentes que precisam ser oxidados e removidos antes de serem descartados.

“Os efluentes variam muito em função de cada setor industrial, por isso é sempre importante fazer uma análise preliminar e testes em laboratório. Mas o que se pode afirmar é que o dióxido de cloro tem grande aceitação na maioria dos processos de tratamento de efluentes industriais, requerendo baixas dosagens em comparação com outros oxidantes”, explicou.

Mercado de saneamento e Digitalização


Outra manifestação de amadurecimento do mercado é o uso de tecnologias de automação e inteligência artificial para supervisionar e melhorar o tratamento químico de água. Nesse caso, cresce principalmente a aplicação de sistemas em indústrias.

Segundo o consultor de inovação e marketing da divisão Nalco Water Light, da Ecolab, Renan Carrero, os gerentes de utilidades das indústrias têm sido desafiados para atender às crescentes demandas da economia e, como desafio, querem que seus sistemas sejam otimizados.

“Mas muitas vezes eles não têm tempo, pessoas e insights de desempenho do sistema para resolver pequenos problemas nos estágios iniciais, antes que eles se transformem em problemas maiores”, disse. Dessa forma, continuou Carrero, muitas empresas buscam tecnologias digitais capazes de apoiar a melhor gestão de tratamento químico.

Para atender essa demanda crescente, a Nalco tende a expandir o uso da tecnologia 3D Trasar – com base em traçantes fluorescentes nos produtos e sistemas automatizados de controle que tradicionalmente era mais voltada para grandes sistemas de resfriamento e vapor – para outras aplicações de menor porte, em indústrias ou no mercado institucional. Fornecida em séries compactas, afirmou o consultor, a tecnologia ajuda na otimização de recursos e desempenho operacional da planta e, principalmente, no gerenciamento dos programas químicos, com controle dos impactos de corrosão, incrustação e microbiologia.

A solução opera junto com a plataforma Ecolab3D, baseada em nuvem, que gerencia os dados em campo para permitir visibilidade operacional ao cliente, que passa a ter acesso às informações críticas de processo em tempo real dos sistemas. “Isso garante que as operações estejam dentro das especificações, o que reduz os riscos operacionais e os custos totais de operação”, disse.

Em sistemas menores, a tecnologia compacta é mais empregada em sistemas de resfriamento, mas em breve será aplicada para controle de sistema de vapor em indústria de rações, para controlar os impactos de corrosão e incrustação e com visibilidade por meio da plataforma digital.

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A tecnologia 3D Trasar da Nalco já está aplicada em mais de 2 mil unidades na América Latina, revelou Carrero. Com exemplo recente, ele citou a aplicação em uma fornecedora brasileira de proteínas, que ele não pode citar o nome. Segundo ele, a empresa enfrentava problemas com a falta de atendimento de um de seus fornecedores, o que ocasionava falhas no suprimento de produtos químicos para manter o programa de tratamento, que apresentava processos corrosivos intensos e uma fina camada de incrustação nos tubos da caldeira, além de falha no trocador de calor a placas.

Com a tecnologia, que passou a permitir a visibilidade e controle sobre parâmetros críticos de tratamento químico, além de um suporte técnico mais regular, o tratamento passou a ter adequação de processos corrosivos (passivação) e remoção gradual de depósitos formados na superfície metálica da caldeira.

Como resultado, a empresa teve economia de energia de R$ 16,5 mil por ano, redução e custos com químicos de R$ 30,4 mil, além de ganhos com a minimização de corrosão e de produtividade, que renderam ao total R$ 51,3 mil de ganhos anuais para o cliente, segundo dados da Ecolab.

A solução de digitalização também foi adotada em usina de açúcar, que tinha dificuldades em estabilizar os parâmetros da caldeira, em razão da instabilidade das dosagens e grande oscilação, o que impossibilitou o aumento da eficiência operacional através do incremento do ciclo.

Com o sistema de automatização do 3DTRasar, de acordo com o executivo, a estabilização das dosagens controlou os parâmetros críticos do processo e possibilitou ganhos com o aumento do ciclo da caldeira. Foram economizados R$ 36,4 mil por ano com energia, R$ 3,1 mil com água, além de R$ 28,4 mil com economia de produtos químicos para tratamento.

Novos tratamentos

Além da tecnologia de digitalização do tratamento, a Ecolab está introduzindo no mercado brasileiro também o programa Pearl para o tratamento da água de sistemas de resfriamento. Trata-se de formulação especial sem fósforo para o controle de corrosão, que também utiliza uma mistura exclusiva de polímeros para controle de depósitos de ferro, manganês, carbonato de cálcio, fosfato de cálcio, sulfato de cálcio, zinco e sólidos suspensos.

“A tecnologia difere do que já se apresenta no mercado, sendo uma aplicação segura e econômica por trazer reduções no consumo de água e energia, impactando o custo total de operação”, disse o consultor técnico da Nalco, Cláudio Fabro. Além disso, para o tratamento de efluentes a empresa lança nova linha de coagulantes orgânicos, que reduz o volume de químicos adicionados ao efluente, diminuindo a geração de lodo inorgânico, emissão de alumínio e fósforo, o que permite reuso no processo ou enquadramento ambiental para despejo.

Outra novidade no mercado é a aliança entre as empresas Carmeuse, fornecedora de cal, e a Bauminas, produtora de coagulantes para tratamento de águas e efluentes. As empresas criaram a joint venture Potabilis para investimentos conjuntos em unidades produtivas de hidróxido de cálcio em suspensão (marca Neutramol).

O foco é o atendimento ao mercado de saneamento. A suspensão aquosa de hidróxido de cálcio é um alcalinizante de alto desempenho para tratamento de água e efluentes. Segundo comunicado das empresas, o produto não requer preparo prévio para a utilização e é transportado em caminhão tanque diretamente para o reservatório do cliente.

As unidades produtivas ficam em Suzano-SP e no Rio de Janeiro, cujas capacidades estão sendo ampliadas para produzir juntas 108 mil toneladas anuais já em 2023. A joint venture envolverá ainda outras cinco unidades, em fase de construção, distribuídas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Todas devem entrar em operação até 2025.

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