Meio ambiente: Prevenção de acidentes conta com esforços

Esforços são de todos os elos da cadeia produtiva química

A prevenção de acidentes no setor químico é uma preocupação há muitos anos institucionalizada pela maioria das empresas.

Conscientes da periculosidade de boa parte de seus produtos, do risco embutido em todas as etapas da cadeia, desde a produção até o transporte, distribuição e o armazenamento, as companhias do setor podem, na maior parte das vezes, afirmar que estão organizadas para, se não extinguir de vez os sinistros, para pelo menos para reduzi-los.

O efeito é causado principalmente pelas ações setoriais, lideradas por sistemas de gestão, programas e certificações que as principais associações implementam há mais de duas ou até três décadas.

Foi nesses períodos que o Brasil passou a replicar, depois de alguns anos, sistemas semelhantes adotados por associações de países mais avançados nos temas.

Praticamente todas as principais entidades de classe ligadas ao setor, a exemplo da Abiquim, que representa os produtores, a Associquim, dos distribuidores, ou a mais específica Abiclor, da indústria de cloro-álcalis, têm ações já bem delineadas e consolidadas para difundir entre seus associados as melhores práticas para se prevenir de ocorrências desagradáveis no transporte e no armazenamento.

Todas elas também têm em comum o registro de indicadores positivos depois da implementação de seus programas e sistemas.

A Abiquim, para começar, atua em várias frentes, sendo a principal delas o seu sistema de gestão de saúde, segurança e meio ambiente, o Atuação Responsável, implementado de forma obrigatória pelos associados e que tem registrado anualmente indicadores bastante positivos.

O programa começou a ser adotado no Brasil em 1992, quando passou a ser tropicalizado, já que sua origem se remonta ao Canadá, cuja associação do setor químico criou em 1985 o Responsible Care, depois difundido por todo o mundo.

Com o sistema de gestão rodando nas empresas, há dois indicadores centrais, na área de transportes, que mostram as melhorias ao longo do tempo proporcionadas pelas práticas do programa.

Nos últimos 14 anos, houve redução de 60% no número de acidentes no transporte rodoviário de produtos (por 10 mil viagens) e de 5% nos últimos cinco anos (por 108 km rodados).

Para o gerente de gestão empresarial da Abiquim, Luiz Shizuo, os números são resultado do formato do programa, cujo sistema de gestão, com foco no gerenciamento de riscos relacionados à segurança, a saúde e ao meio ambiente, mantém um processo transparente de informações e de preparação para situações de emergência.

Meio ambiente: Prevenção de acidentes conta com esforços ©QD Foto: Divulgação/Mario Castelo
Shizuo: Sassmaq está em fase de revisão e de ampliação

“Isso promove uma cultura de melhoria contínua na empresa, o que vale para todos os aspectos, incluindo transporte e armazenamento de produtos químicos”, explica.

Uma ferramenta importante para atingir essas melhorias em transporte também pode ser creditada ao Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade, o Sassmaq, criado em 2001 pela associação e que qualifica as transportadoras de produtos químicos.

Hoje há mais de 800 sites certificados no Brasil.

Todos os signatários do Atuação Responsável, ou seja, os associados da Abiquim, o exigem de seus prestadores de serviços.

Com o tempo, o sistema se tornou referência e se estendeu para além do setor químico já que, por exemplo, muitas indústrias de alimentos e até a Petrobras também exigem o certificado de seus transportadores.

Além do módulo principal para o modal rodoviário, o Sassmaq conta com um específico para qualificar estações de limpeza, que hoje conta com 14 empresas certificadas, sendo três estações prestadoras de serviços e 11 transportadoras que contam com estações de limpeza próprias em suas instalações.

Também já está com sua elaboração adiantada um novo módulo para armazenamento de químicos. Mas, segundo Shizuo, algumas etapas do procedimento de qualificação estão em aberto e em desenvolvimento e, além disso, por conta de mudanças de políticas internas na associação em andamento, seu lançamento está suspenso temporariamente.

O próprio Sassmaq, explica o gerente, também está em momento de revisão, para se adequar à nova norma de transporte ANTT 5947, lançada em 2021.

“A cada mudança de legislação, precisamos adequar o sistema”, diz.

Até o fim do ano, o novo sistema deve estar pronto.

Afora isso, há também a intenção de expandir os módulos para qualificação de ferrovias e de atendimento a emergências.

Apesar de ainda não contar com o módulo de armazenamento do Sassmaq, Shizuo ressalta que as associadas seguem padrões elevados de gestão para segurança por conta das práticas do Atuação Responsável.

E mesmo as transportadoras com Sassmaq, por terem seus sites auditados a cada dois anos, também são cobradas internamente nesses quesitos, o que garante também a prevenção a acidentes.

Na distribuição – Parceiros diretos da indústria, os distribuidores de produtos químicos também agem de forma semelhante, com sistema de gestão próprio adotado a partir de 2002 de forma obrigatória no Brasil entre os membros da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos, a Associquim.

Trata-se do Processo Distribuição Responsável, o Prodir, que comemora 20 anos com conquistas na governança e na segurança da operação do setor.

Atualmente com 49 certificadas e 14 candidatas, as empresas com o Prodir representam por volta de 80% do total das distribuidoras do país.

Estão fora dessa conta pequenas empresas, com atuação limitada e fora da Associquim, e alguns associados antigos e anteriores a 2002 (a partir desse ano, todos os novos membros precisaram aderir ao processo).

Para começar pelos indicadores, os ganhos da adoção dos 13 códigos de implementação do processo – que incluem por exemplo gerenciamento de risco, de produto e de resíduos, atendimento a legislações, seleção de transportadores, ações preventivas, atendimento a emergências, segurança patrimonial – são evidentes.

De 2010 para 2020, o total de acidentes nas unidades das distribuidoras caiu pela metade, de uma taxa de 0,3/t de produtos vendidos para 0,155/t.

Em transportes, atividade para as qual, aliás, são exigidas as certificações Sassmaq dos prestadores de serviços, a queda no período também foi expressiva: 0,38 acidentes por 10 mil embarques para 0,104.

Para a assessora técnica da Associquim, Gloria Benazzi, os benefícios do Prodir vão além dos indicadores.

Por ter auditorias independentes anuais (a certificação vale por três anos), o sistema obriga as empresas a fazerem manutenção frequente das 64 práticas dos códigos, nos quais os cuidados com vários itens precisam ser revisados para não gerar não-conformidades nas checagens dos auditores certificados.

Esta frequente fiscalização e rigor do processo, diz Benazzi, passou a ser reconhecida no mercado, tanto por órgãos públicos, quanto grandes indústrias.

No primeiro caso, um exemplo ocorreu com a Cetesb, a agência ambiental paulista, que passou a dar mais um terço de validade para a licença ambiental de distribuidores com Prodir.

No segundo, muitas indústrias que têm seus produtos distribuídos pelas associadas certificadas passaram a deixar de fazer suas auditorias próprias para verificar os prestadores de serviços.

Meio ambiente: Prevenção de acidentes conta com esforços ©QD Foto: Divulgação/Mario Castelo
Gloria: aos 20 anos, Prodir tem o respeito do mercado

“No máximo, eles fazem uma checagem on-line, porque confiam no Prodir”, diz.

Outro ponto que demonstra o respeito do mercado ao programa da Associquim tem sido atestado por associados recentemente, afirma Benazzi.

Por seguirem as exigências de governança e de gestão do Prodir, as empresas têm conseguido registros como operadores econômicos autorizados na Receita Federal.

Essa certificação permite às distribuidoras um canal direto com o órgão público, o que facilita as importações, com desembaraços mais rápidos.

“Isso antigamente era possível apenas para grupos muito grandes, mas o Prodir democratizou o acesso, ao qualificar as distribuidoras”, comemora Benazzi.

Em cloro-soda – Com a mesma preocupação, mas de forma específica enfocando as peculiaridades de seus produtos, a indústria de cloro-álcalis também tem conduta organizada para prevenir acidentes em transporte e armazenamento.

A Associação Brasileira das Indústrias de Álcalis, Cloro e Derivados, a Abiclor, lidera as iniciativas com seus associados, que incluem não só produtores, mas distribuidores e transportadores ligados ao setor.

Com uso sistemático de processos de gestão e em parceria com os outros elos da cadeia de transporte e distribuição, o setor conseguiu reduzir em 77%, no período de 2009 até 2021, o índice de acidentes por 10 mil viagens, passando de 0,87 para 0,20 no ano passado.

O cálculo inclui acidentes em que houve perda de produto e ocorrências de trânsito sem perda ou envolvimento dos produtos.

Segundo o consultor técnico da Abiclor, Gilberto Marronato, embora tenha havido a queda no período inteiro, a redução propriamente dita ocorreu entre 2009 e 2012.

Após esse período, verificou-se estabilidade no índice (em 2020, por exemplo, foi de 0,22 e, em 2018, de 0,19). Daí sua observação de que há ainda a necessidade de esforços adicionais para reduzir mais o indicador.

Além de os associados da Abiclor já seguirem processos e sistemas de suas áreas – no caso dos produtores, o Atuação Responsável; distribuidores, o Prodir; e transportadores, o Sassmaq –, a Abiclor conta também com sua comissão de manuseio e transporte (CMT Abiclor), que examina linhas de ação que a associação organiza internamente e com parceiros da cadeia.

Participam das dez reuniões anuais da comissão os membros da Abiclor, dos produtores, distribuidores, transportadores, fabricantes de equipamentos e empresas de atendimento a emergências para troca de experiências e informações.

Meio ambiente: Prevenção de acidentes conta com esforços ©QD Foto: Divulgação/Mario Castelo
Marronato: indústria atua ao lado dos transportadores

“Além disso, a Abiclor organiza e realiza, por meio da CMT, encontros anuais com transportadores e promove ou participa de simulados de emergência envolvendo seus produtos no transporte”, completa Marronato.

Há também ações de capacitação do pessoal, com treinamentos para procedimentos de carregamento, expedição, transporte e entrega dos produtos.

São também realizados simulados anuais envolvendo o Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e órgãos ambientais.

Para Marronato, na ação preventiva setorial, a Abiclor se estruturou em diferentes linhas de ação. Numa delas, os produtores e distribuidores buscam elaborar e implantar as boas práticas de expedição dos produtos.

Em outra linha, há parceria entre expedidores e transportadores para aplicação das melhores práticas de segurança durante o transporte.

A relação da Abiclor com as transportadoras, segundo o consultor, é ação contínua. Vale citar, como ilustração, a participação de membros da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP) e das transportadoras na CMT Abiclor e nos dois encontros anuais sobre transporte de produtos do setor e em grupos de trabalho para analisar questões específicas quanto a equipamentos e procedimentos.

Esse método de ação, para Marronato, se reflete na queda no índice de acidentes registrado em 2021 sobre o ano anterior (0,22 para 0,20).

Para ele, a redução tem como causa direta o trabalho de prevenção de acidentes desenvolvido pelas empresas, nas etapas de treinamento, capacitação e conscientização dos motoristas e em investimentos em tecnologia, por meio do uso de rotogramas falados e sistema de rastreamento eficiente.

“A segurança preventiva é fundamental no transporte dos produtos do segmento cloro-álcalis”, afirma o consultor.

Quanto à armazenagem dos produtos, nas fábricas e distribuidores, Marronato aponta que não há registro de acidente relevante em relação aos produtos de cloro-álcalis.

“Os produtores mantêm um programa de gerenciamento de segurança nos processos que incluem inúmeras medidas, inclusive em relação aos armazenamentos”, diz.

Além disso, o consultor acrescenta que somente uma parte dos produtos é armazenada em terminais, mais especificamente no caso da solução de soda cáustica.

Mas como a soda não é inflamável ou combustível, o único cuidado a ser tomado é com relação à alcalinidade do produto e eventuais vazamentos, para evitar corrosão.

Atendimento a emergências – Uma frente importante na prevenção a acidentes químicos é o serviço prestado por empresas de atendimento a emergências, uma obrigatoriedade para indústrias e transportadoras de produtos perigosos, que por sua vez podem terceirizar ou ter internamente equipe para dar resposta às ocorrências.

A primeira alternativa, porém, é a mais adotada.

A alta demanda por esse tipo de serviço explica, além da estratégia corporativa agressiva dos últimos anos. que envolveu uma oferta pública inicial de ações (IPO) em 2020 de R$ 1,3 bilhão, a ascensão da Ambipar Response, a líder desse mercado no país e que se tornou empresa global, com participação em 16 países, nos mercados latino-americano, na América do Norte (EUA e Canadá) e na Europa (Reino Unido e Holanda), além da África (Nigéria).

A empresa tem hoje 13 mil funcionários em todo o mundo e opera, por exemplo, no atendimento a emergências do importante Porto de Roterdã, na Holanda.

No Brasil, depois de um investimento de R$ 110 milhões em 2021, a empresa conta hoje com 121 bases operacionais espalhadas por todas as regiões.

Segundo seu diretor de operações, Dennys Spencer, a ampliação (antes, havia 70 bases) levou em conta critérios de mapeamento de áreas mais demandadas por seus clientes, em regiões industriais, em rotas de transporte rodoviário e ferroviário, e levando em conta uma espécie de mapa de calor de todo o país, onde é identificada a alta frequência de acidentes e as áreas sensíveis ambientais, por exemplo.

Cada base operacional, explica Spencer, tem condições de fazer pelo menos o primeiro atendimento, com uma viatura operacional que atende todas as classes de risco químico.

Em uma categoria superior, em que há rotas de gases, a viatura também é equipada para atender a classe 2.

Além disso, há bases avançadas, de suporte, que são acionadas havendo a necessidade de uma intervenção maior no acidente.

Nesse caso, as bases contam com equipamentos pesados, como caminhões hidrovácuos, retroescavadeiras, escavadeiras hidráulicas, caminhões carreta e caçamba, entre outros.

Mas o investimento principal em 2021 da Ambipar foi na modernização e ampliação do que o diretor chama de “cérebro da resposta às emergências”: a central de controle de emergências em Nova Odessa-SP.

É lá que 60 funcionários treinados em atendimento às situações, durante 24 horas recebem a média de 170 chamados (incluindo para outros serviços, como supervisão de descarga e vazamentos de gás em residências para concessionárias) de todo o país.

Meio ambiente: Prevenção de acidentes conta com esforços ©QD Foto: Divulgação/Mario Castelo
Spencer: central de controle reduz o tempo de resposta

“A central coordena toda a operação e define a estratégia de campo, desde quando a viatura sai para dar a primeira resposta, decidindo se precisará ser mobilizada a estrutura das bases avançadas”, diz.

“Isso diminui o tempo de resposta, porque antes do operador chegar ao local normalmente toda a estratégia já está sendo organizada”, completa.

Para tornar o controle operacional uma rede com suas outras operações no Exterior, a Ambipar tem outra central, com mesmos padrões de atendimento, coordenação e estrutura de campo, no Chile, para atender os países latino-americanos, e desde o ano passado adequa uma central adquirida nos Estados Unidos, da empresa Pers, que fará o mesmo serviço padronizado para coordenar as operações de 24 bases operacionais nesse país.

Nos países latino-americanos, vale acrescentar, sobretudo na América do Sul, a empresa tem 53 bases operacionais.

Segundo Spencer, o sistema de rede é importante para atender situações em que as cargas circulam entre os países.

É comum, por exemplo, a central do Brasil receber telefonemas para dar resposta a cargas brasileiras em outros países.

“Se quem estiver ligando preferir o atendimento em espanhol, fazemos um link com a central no Chile, ou em inglês, para os Estados Unidos”, revela.

A central nos Estados Unidos, aliás, está sendo adequada porque originalmente ela apenas realizava atendimento no nível consultivo, no chamado nível de classificação L1, e passará a atuar como as centrais brasileira e chilena, ou seja, no nível L3, o mais elevado na classificação internacional, por incluir coordenação das respostas (L2) e a resposta em campo.

Em toda a sua operação, no Brasil e Exterior, a Ambipar teve receita em 2021 de aproximadamente R$ 630 milhões.

Apenas no Brasil, o faturamento foi de R$ 290 milhões.

Ainda com seu plano de crescimento oriundo da abertura de capital, de acordo com Spencer, há no pipeline mais aquisições e crescimento orgânico nos Estados Unidos, mercado com muitas oportunidades no transporte químico.

Uma demonstração de que o planejamento nos Estados Unidos está dando muitos resultados foi a vitória da empresa na concorrência do governo norte-americano para gerenciar o mais importante centro de treinamento para emergências químicas do país, em Pueblo, no Colorado.

A Ambipar assume em outubro a tarefa do centro, que tem foco principal no modal ferroviário, mas que amplia seu escopo para o rodoviário, uma das incumbências do edital.

Em moldes semelhantes, a empresa também gerencia centro próprio de treinamento em Nova Odessa, que atende várias demandas de formação no Brasil, principalmente de órgãos públicos, como o Corpo de Bombeiros, Ibama e órgãos ambientais.

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