Meio Ambiente: Perspectivas 2009 – Fornecedores temem adiamento de projetos. Saneamento lamenta crédito privado mais caro

Química e Derivados, Meio AmbienteO setor de serviços e tecnologias ambientais deve passar por um teste de fogo em 2009. Com o espectro da crise financeira atemorizando a todos, a expectativa de vários atores desse mercado é saber se neste ano se repetirá ou não a triste e tradicional prática de, na primeira dificuldade, os clientes retardarem os investimentos na área ambiental. Com o setor mais maduro, muitos querem crer que esses efeitos tendam a ser menores em comparação com outros momentos semelhantes. Mas um pouco de cautela no otimismo não faz mal a ninguém, tendo em vista o que já começa a ocorrer em alguns segmentos.

“Em 2009, se conseguirmos crescer metade do que vínhamos crescendo nos últimos anos, já estaremos satisfeitos”, explicou Jacinto Costanzo, o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Diagnóstico e Remediação de Solos e Águas Subterrâneas (Aesas). Isso significa atingir o percentual de crescimento de até 15% em 2009, depois de esse segmento em plena ascensão manter ininterruptamente um ritmo de incremento anual próximo dos 30% nos últimos períodos.

Química e Derivados, Jacinto Costanzo, o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Diagnóstico e Remediação de Solos e Águas Subterrâneas, Meio Ambiente
Jacinto Costanzo: retrações na construção civil e na siderurgia preocupam

Mas mesmo essa previsão, na opinião de Costanzo (ele próprio sócio-diretor de empresa da área), pode ser até otimista demais. Isso porque, do final de 2008 para cá, as notícias não têm sido nada boas. Os clientes até então mais importantes do segmento passaram a ser justamente os mais afetados pela crise financeira: o ramo imobiliário e a indústria.

Em crescimento acelerado nos últimos anos, em serviços de descontaminação e de diagnóstico visando a construção de condomínios e outros empreendimentos em antigas áreas industriais, o setor imobiliário foi o primeiro a ser abalado. Ao se levar em conta que esse setor já era responsável por 24% dos contratos das associadas da Aesas, ficando apenas atrás dos clientes industriais (26%), dá para se ter uma idéia do impacto negativo no segmento. É bom saber que o faturamento em 2008 das dez associadas foi de R$ 193 milhões, 25% maior do que o de 2007. Esse número, nas contas de Costanzo, representa cerca de 40% do mercado nacional, tendo em vista que há ainda mais 50 empresas não-associadas (a maior parte delas pequenas consultorias, com exceção de dois grandes grupos, a Geoklock e a ERM).

“O mercado imobiliário já parou e o industrial vem parando em vários setores”, disse Costanzo. É de se lamentar, por exemplo, a retração na indústria siderúrgica, que ultimamente se tornava o novo grande palco de serviços na área. “Eles estavam começando a fazer grandes concorrências, modernizando a gestão ambiental e, com a crise, puxaram o freio bruscamente”, completou. Não custa acrescentar que a redução global no consumo de aço, fruto direto da crise econômica, está gerando demissões em massa em empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Diminuir os investimentos em meio ambiente torna-se apenas mais uma consequência natural da desaceleração econômica.

Para o dirigente, porém, as perdas nos setores industrial e imobiliário podem ser compensadas com investimentos em petróleo e energia. Segundo ele, a promessa é de que no segundo semestre de 2009 haja vários grandes contratos em petróleo, seja na área de produção e exploração como na distribuição e no varejo. Em energia, ainda um mercado pequeno para o segmento, sua confiança se baseia nas várias conversões de subestações a diesel, que exigirão a elaboração de diagnósticos ambientais para a obtenção de licenças de operação e possíveis projetos de remediação. “Esse mercado vai crescer muito”, afirmou Costanzo.

A esperança para 2009, no caso das empresas de remediação e de outros prestadores de serviços ambientais, é de também poder contar com novas ferramentas de regulamentação para ajudar a minimizar os efeitos negativos da crise. Atento a essas questões, o presidente da Aesas acredita, em primeiro lugar, que a política nacional de resíduos sólidos deve ser concluída ainda neste ano. E não só isso: a política estadual de São Paulo (onde são prestados 54% dos serviços das associadas) também promete breve conclusão. Na sua opinião, as duas regulamentações estimularão medidas mais enérgicas de proteção ambiental.

Além disso, Costanzo crê na publicação em 2009 de resolução do Conama para disciplinar a investigação e a remediação ambiental, o que nacionalizará parâmetros e exigências que até agora só existiam oficialmente em São Paulo, por meio de manual de gerenciamento de áreas contaminadas publicado pela Cetesb e que serve de orientação para o restante do país.

Também merece sua atenção a elaboração de norma para qualificação de empresas de remediação pela ABNT, que deve seguir como modelo para processo de certificação do Inmetro. “As discussões para criar as regulamentações estão muito adiantadas”, finalizou. O novo cenário previsto, aliás, deve favorecer não apenas as associadas da Aesas, mas todo o mercado de empresas prestadoras de serviços ambientais.

Química e Derivados, Diógenes Del Bel, Presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), Meio Ambiente
Diógenes Del Bel teme que clientes estoquem mais resíduos

Resíduos – Mas os demais segmentos da área ambiental também estão temerosos com a crise econômica. As empresas de tratamento e disposição de resíduos industriais e urbanos, por exemplo, aguardam redução nas contratações tanto provenientes do setor privado como do público. Embora ainda não tenha dado tempo para sentir concretamente os impactos, a expectativa negativa, segundo explicou o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), Diógenes Del Bel, deve se confirmar ao longo do ano.

“A tendência no ramo industrial é as empresas armazenarem os resíduos por mais tempo antes de destiná-los para o tratamento. E no setor público, com a arrecadação afetada, o risco de inadimplência e de baixa nos investimentos será muito maior”, disse Del Bel. E isso, é lógico, complementado com o fato de a redução da atividade econômica também se traduzir por uma menor geração de resíduos. “Além de as empresas retardarem o tratamento do lixo gerado, também devem naturalmente gerar menos”, completou.

No ramo público, Del Bel acredita que a nova situação já é perceptível quantitativamente. Em janeiro já houve redução de 7% no Fundo de Participação dos Municípios, com tendência negativa para os meses seguintes. Com a queda no orçamento público, o dirigente prevê a descontinuidade de investimentos previstos em coleta e destinação de resíduos. “É uma pena porque o Brasil tem carência nessa área e há muitos projetos previstos para aterros em 2009, não só públicos como privados, que podem estar sob risco de não sair do papel”, lamentou.

O presidente da Abetre só demonstra satisfação quando lembra que boa parcela da indústria já incorporou no cotidiano muitas práticas ambientais corretas. Nesse sentido, não vai ser o momento de baixa econômica que de uma hora para outra fará todas elas retrocederem. “O nosso receio apenas é o poder da crise de inibir novos negócios”, disse. Mais especificamente, Del Bel teme a retração de uma tendência que vinha se consolidando nos últimos anos: a destruição de passivos ambientais. Com a revisão de gastos, muitas indústrias devem postergar esses investimentos ambientais de grande valia para a sociedade. “Os clientes vão adiar tudo que puder ser resolvido a longo prazo.”

Saneamento –Outro setor já sofrendo abalo com a crise de liquidez, mas que se agarra a algumas “muletas” para não perder totalmente a esperança com 2009, é o de saneamento básico. Vindo de uma nova era de investimentos iniciada com a promulgação do marco regulatório em 2007 e com os recursos do famigerado PAC, o setor confia na continuidade desse movimento, sobretudo por estar bastante vinculado a recursos públicos já comprometidos. Mas isso ao mesmo

tempo em que começa a reconhecer dificuldades no crédito privado.

 

Compartilha dessa opinião Yves Besse, o presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon). “Dinheiro não é e nem nunca foi problema para o setor, o que falta mais são projetos e boa gestão”, afirmou. Os recursos públicos do BNDES, oriundos do FAT, e da Caixa Econômica Federal, do FGTS, são a principal fonte de recursos, que continuam a garantir financiamento, no primeiro caso, mais para o setor privado e, no segundo, para as poucas companhias públicas com condição de obter crédito.

Yves Besse, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto
Yves Besse: contrapartida privada com juros altos e curto prazo

Porém, o problema para 2009, no caso dos recursos do BNDES para o setor privado, é as empresas conseguirem no mercado financeiro privado a contrapartida exigida nos financiamentos. Como o banco estatal empresta no máximo 70%, os tomadores de créditos (operadores de concessões, fabricantes de equipamentos etc) precisam ir atrás do restante em bancos. E, depois da crise, o crédito não só minguou como ficou muito mais caro. Segundo informa Yves Besse, os juros quintuplicaram e os prazos para quitação caíram para menos da metade.

O presidente da Abcon, aliás, já sente esse novo panorama na pele. Também diretor da CAB Ambiental, concessionária privada que venceu a maior concorrência de parceria público-privada (PPP) na área de saneamento do país em 2008 – a construção da ETA Taiaçupeba para a Sabesp, em São Paulo –, Besse se assustou com as novas condições que o setor bancário privado ofereceu para a contrapartida da CAB nessa obra com valor total de R$ 1 bilhão. “Antes da crise, era CDI mais 1,5% ao ano, com prazo de dez anos. Agora foi para CDI mais 7% ao ano, com amortização em três anos”, explicou. “Vamos precisar conviver com esse novo cenário, que será temporário, porque temos que cumprir os contratos”, disse.

É com esse temperamento, aliás, que Besse acredita que o setor deve encarar 2009. Mesmo com a crise, as obras não devem parar. Há até sinais positivos, como a intenção oficial de o conselho de administração do FGTS entrar como sócio de companhias públicas de saneamento em dificuldade. Trata-se aí, na opinião de Besse, de uma iniciativa histórica, que representaria o terceiro grande movimento oficial do saneamento, depois do Planasa da década de 70 e da tentativa de privatização do setor na década de 90. Isso porque a entrada do FGTS como sócio minoritário das companhias (com 49% das ações, para não passar a impressão privatizante) visaria à contratação de agentes privados para administrar e recuperar essas empresas. “Vai ser uma briga política com os estados, mas se o projeto sair será melhor para todos”, explicou Besse. Não custa lembrar que das 27 companhias estaduais, apenas quatro são consideradas saneadas: Sabesp, Sanepar, Copasa e Caesb.

Soluções estratégicas como a proposta pelo FGTS, para Yves Besse, são mais interessantes do que usar recursos a fundo perdido, como hoje tem sido feito com parte da verba do PAC, em contratações diretas com os governos estaduais. “Isso até mesmo porque o dinheiro na verdade é dos contribuintes, têm origem e precisam ser bem administrados”, disse. Na sua opinião, mesmo em regiões carentes ou desinteressantes para investidores, a eficiência operacional pode tornar o negócio do saneamento lucrativo e eficiente. Uma parceria mais firme com a iniciativa privada, que hoje oferece o serviço para 9,6% da população urbana do Brasil (13,6 milhões de habitantes) com meta de chegar a 30% em dez anos, seria um meio de realizar o sonho ainda um pouco distante da universalização.

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