Meio Ambiente – Famosa no RJ, geosmina pode ser controlada

Química e Derivados - Sabesp usa barco para lançar algicidas na represa de Guarapiranga, em São Paulo
Sabesp usa barco para lançar algicidas na represa de Guarapiranga, em São Paulo

Famosa por contaminar água no RJ, geosmina pode ser controlada

Algumas especificidades técnicas do tratamento de água ganharam evidência no começo do ano quando os moradores do Rio de Janeiro começaram a sentir na água abastecida pela companhia estadual, a Cedae, um gosto e odor intragáveis de terra. Além de causar manchetes de jornal, a quase impossibilidade de consumo da água pública e o aumento explosivo de vendas de água mineral, o cenário fez a população passar a conviver com palavras antes reservadas aos técnicos do setor.

A principal novidade para o vocabulário popular foi a geosmina, composto orgânico responsável pelo excessivo gosto de terra na água fluminense. Trata-se aí – como grande parte da população passou a saber – de subproduto da floração das algas azuis em sistemas reservatórios, cujas cianobactérias presentes geram não só as geosminas (C12H22O) como o composto 2-metilisoborneol, o MIB (C11H20O), ambos causadores do gosto estranho à água, que também pode ser comparável a mofo ou a gramíneas.

Menos ruim foi saber que os compostos não são tóxicos e, na verdade, se encontram naturalmente em vários vegetais, como na batata ou na cenoura. Mas, para a população, essa explicação tinha efeito praticamente nulo, já que a experiência sensorial estranha e distante da referência, que no caso da água é ser insípida ou próxima disso, provoca rejeição imediata no consumo e muita preocupação.

Atacar a fonte – A preocupação provocada na população por conta do efeito sensorial, aliás, faz todo sentido, visto que a presença dos compostos, mesmo sem serem tóxicos, revela que os reservatórios não estão sendo bem cuidados. Para formar a geosmina e o MIB em demasia, os corpos d´água, além de uma série de condições ambientais, como insolação, temperatura e fluxo hídrico, precisam conter poluentes, que servem como nutrientes para a floração das algas.

Química e Derivados - Mara: protocolo de controle de algas evita contaminação
Mara: protocolo de controle de algas evita contaminação

A experiência da companhia paulista de saneamento, a Sabesp, é importante para entender o mecanismo de contaminação da água por esses compostos e a forma de controlá-los. Com dois de seus grandes seis reservatórios em áreas urbanas vulneráveis – Guarapiranga e Rio Grande –, a empresa esteve sempre às voltas com o problema, mas há mais de uma década conseguiu mantê-lo sob controle, aplicando um protocolo de ações bem-sucedido para evitar a contaminação em suas estações de tratamento de água.

A estratégia da Sabesp tem como base central de controle ações diretas nos mananciais, no caso das duas represas citadas, como explica a gerente de departamento de recursos hídricos, Mara Ramos. De acordo com ela, o manejo em campo inclui, para começar, o acompanhamento semanal de pontos vulneráveis para floração demasiada das algas, com coleta de amostras e análises laboratoriais que indicam se o manancial está com as condições para proliferação das cianobactérias.

Nas duas represas vulneráveis, explica Mara, é muito difícil prever sem monitoramento detalhado e frequente se haverá floração ou não. De forma geral, além do fato de esses dois reservatórios serem urbanos e, portanto, sujeitos a poluição difusa, esgoto clandestino, detergentes e defensivos agrícolas, há na sequência o aspecto sazonal. “No verão é mais comum ter floração em demasia, por conta da insolação mais frequente, mas fazemos o monitoramento o ano todo, entre uma a até três vezes por semana”, disse.

Os testes frequentes permitem concluir quais pontos monitorados nas represas, cuja água será posteriormente captada para tratamento, estão com as condições favoráveis para formação das algas. “Quando está propício para a floração, uma junção de fatores, que inclui por exemplo temperatura, insolação, fluxo hídrico, entre outras variáveis, é realizado manejo no manancial com produto químico”, disse a gerente.

De acordo com Mara Ramos, com as amostras são realizadas análises qualitativia e quantitativa de cianobactérias e também avaliadas a concentração de cianotoxinas, de geosmina e MIB.

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H2O2 e CuSO4 – Para combater no ambiente e evitar a floração, são utilizados como algicidas o peróxido de hidrogênio ou o sulfato de cobre, injetados diretamente na água com auxílio de barcos. “A escolha por um ou outro depende do tipo de cianobactéria a ser atacada, a se guiar pela sensibilidade que o gênero específico de bactéria tem”, explicou.

Segundo ela, com os testes é possível saber quais das áreas monitoradas precisam de intervenções, por ter potencial de floração de algas com tendência de emitir os compostos. De forma geral, em 2019, a média mensal de aplicação envolveu 282 toneladas de peróxido de hidrogênio e 67 toneladas de sulfato de cobre.

As intervenções evitam que a água no ponto de captação dos reservatórios esteja contaminada com a geosmina e MIB. A legislação exige que esses químicos seja lançados a uma distância mínima de 500 metros do ponto de captação, mas Mara Ramos informou que os pontos de injeção desses produtos são todos mais distantes do que o exigido e, por conta dos estudos anteriores, não afetam o ecossistema local. Apenas na Guarapiranga, nove pontos são constantemente monitorados.

Sem boom de algas – Com as intervenções diretas nos mananciais, a Sabesp passou a não registrar mais eventos de boom de geosmina e MIB nas estações de tratamento, segundo afirmou o gerente de departamento de tratamento de água, André Gois. “Há pelo menos sete anos não precisamos intervir na água logo após a captação”, disse.

Caso, porém, seja detectada a presença dos compostos, a Sabesp mantém um estoque estratégico de 400 toneladas de carvão ativado, o produto empregado no ponto de sucção da bomba para adsorver os compostos dissolvidos na água, entre eles a geosmina e o MIB. “Apenas na Guarapiranga temos um estoque de 200 toneladas, mas não temos mais precisado dele depois que a equipe de recursos hídricos passou a adotar as intervenções na represa”, disse. A outra grande parte do estoque fica no ponto de captação do Rio Grande e a menor parte em Taiaçupeba, em Suzano-SP, no Alto Tietê.

Na eventualidade de ocorrer excesso de algas, que deixa a água do reservatório esverdeada, o carvão ativado dosado faz com que, durante o trajeto de 40 minutos da água captada até a ETA, grande parte da geosmina e do MIB tenham sido adsorvidos. “E o que falta para a remoção é eliminado com a obrigatoriedade de pré-oxidação com cloro”, explicou. Segundo Gois, ainda depois da pré-oxidação, há também arraste dos contaminantes na etapa de floculação-coagulação, que ficam no decantador.

Antes das intervenções nos reservatórios, havia ocorrências de geosmina na água de abastecimento. “Mesmo com o tratamento nas estações, era muito difícil remover os compostos, por isso que é fundamental evitar a formação das algas”, disse.

Segundo a gerente Mara Ramos, porém, a última grande floração de algas com cianobactérias no manancial foi em 2002. “Se não fosse o manejo, no verão teríamos crescimento explosivo de algas a cada trinta dias e água da represa ficaria sempre verde”, completou Gois. Para ele, além das dosagens dos químicos, o sucesso tem a ver com o grande conhecimento acumulado com anos de monitoramento frequente do manancial.

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Pior do que a geosmina – Apesar de o odor e o gosto serem o principal parâmetro da população para qualificar a água, sem dúvida eles não podem ser as principais referências. Além da presença da geosmina e do MIB não representar toxicidade, por outro lado, só para ficar em um exemplo, o gosto de cloro prova que a água é segura, pelo menos no que diz respeito à contaminação biológica.

Do mesmo modo, uma água cristalina e insípida, de um poço artesiano ou até de uma rede de abastecimento, muitas vezes esconde uma série de perigos para a saúde humana. Na verdade, trata-se aí de uma certeza científica, já que há nos corpos d´água do Brasil e do mundo uma infinidade de microcontaminantes, principalmente de origem de fármacos, hormônios naturais e seus subprodutos, consumidos e excretados pela população, além de várias substâncias químicas industriais, desde metais até alguns herbicidas, fungicidas e inseticidas utilizados na agricultura. Todas essas fontes de contaminação seguem para os mananciais mesmo com esgotos tratados como nos não-tratados, estes mais comuns no Brasil.

Esses mananciais com microcontaminantes servem de reservatórios para captação e tratamento de água potável, cujas tecnologias empregadas não são suficientes para remover os micropoluentes. O resultado final é uma água clara, clorada, mas com várias substâncias, como os chamados desreguladores endócrinos – metais, plastificantes, antibióticos, hormônios como o etinilestradiol contido em pílulas anticoncepcionais e outros – que têm poder de alterar não só a fauna como, segundo alguns estudos supõem, de causar a longo prazo câncer, infertilidade e distúrbio em fetos em humanos.

Ao alterar o sistema endócrino, estas substâncias já foram comprovadas como causadoras de alterações na fauna aquática, morfológicas e sexuais, como feminização de machos e esterilidade ou queda na produção de esperma. A alta presença de antibióticos na água, por exemplo, também tem sido apontada como causa de resistência a estes fármacos por parte de bactérias patogênicas e também indutoras de genotoxicidade (alteração genética).

Melhorar o tratamento – E quanto pior for o tratamento, mais suscetível a população estará sujeita a esses riscos. Para muitos técnicos, inclusive, os sistemas precisariam ser sofisticados, seja com processo de oxidação avançada e carvão ativado ou até mesmo, em alguns casos, com membranas. E esse tipo de sofisticação no Brasil está muito longe de ocorrer, onde ainda 100 milhões de habitantes não têm esgotamento sanitário.

Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto, intitulado “Fármacos e desreguladores endócrinos em águas brasileiras: ocorrência e técnicas de remoção”, apontou que, na presença de muitos desses microcontaminantes em mananciais de águas naturais e tratadas do país, principalmente no Sudeste, as soluções técnicas precisariam ser bem diferentes das hoje adotadas.

Química e Derivados - Gois: não foi preciso aplicar carvão nos últimos sete anos
Gois: não foi preciso aplicar carvão nos últimos sete anos

Segundo os pesquisadores, em um trabalho de revisão bibliográfica, tornou-se consenso de que as operações de separação líquido-sólido utilizadas no Brasil são ineficientes para remover fármacos e disruptores endócrinos. O estudo alerta ainda que o uso de cloro em demasia no tratamento, a depender da estrutura do contaminante, pode gerar subprodutos desses microcontaminantes com toxicidade crônica ainda desconhecida.

Ainda de acordo com o estudo, a adsorção com carvão ativado em pó ou granular, empregada nas emergências de geosmina, apresenta bom custo-benefício e elevada eficiência de remoção, superior a 95%, em alguns tipos de microcontaminantes dissolvidos. Os pesquisadores também chamam a atenção para o uso de processos oxidativos avançados (POA), com remoção superior a 98% para a maioria dos fármacos e desreguladores endócrinos. Nesse caso, os POA com ozônio são considerados os de melhor eficiência.

Por fim, o estudo afirma que os processos de separação por membranas devem ser também considerados, embora muitas delas tenham apresentado eficiência de remoção variável. As membranas de poliamida seriam as mais promissoras, sendo que nessas escolhas, mais caras, haveria a necessidade de uma análise de viabilidade econômica.

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