Meio ambiente: Crescimento da demanda por químicos

Expansão do saneamento aponta para crescimento explosivo da demanda por insumos químicos

O mercado de produtos químicos para tratamento de água e efluentes deve começar a crescer de forma expressiva a partir de 2023 no País, na análise de executivos do setor.

O motivo não poderia ser outro: a nova realidade do saneamento básico que nasceu com a promulgação do marco regulatório, a lei 14.026, de julho de 2020, cuja meta de universalizar os serviços de água e esgoto promete despertar a demanda reprimida do setor.

O efeito aparentemente retardado do novo marco sobre o setor – já que terão passados quase três anos da promulgação quando o início previsto da “nova fase de ouro” começar – tem explicação.

Além de a economia ainda estar sob efeitos das sucessivas crises internacionais durante este ano, que afetam as cadeias produtivas com alta dos preços de várias matérias-primas importantes e de logística, esse período para maturação das novas demandas reflete o ritmo natural das primeiras ações dos agentes que ganharam os leilões de concessões e Parcerias Públicos Privadas (PPPs) de saneamento.

Tem essa visão o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor), Milton Rego.

Para ele, a expectativa é a de que em 2023 o aumento da demanda por cloro e derivados comece de fato, o que vai dar início a uma fase de investimentos do setor que deve acrescentar até 600 mil toneladas de capacidade produtiva de cloro-soda até 2033, quando está prevista a universalização de 99% do atendimento de água e 90% de esgotamento sanitário.

A capacidade atual do setor está em 1,5 milhão de toneladas/ano.

“O marco do saneamento é a principal notícia para o setor de cloro-álcalis da última década”, disse Rego. Para ele, a previsão para 2023 tem a ver com o tempo de maturação para as primeiras concessões e PPPs de 2021 e 2022, de 16 leilões que envolvem mais de R$ 24 bilhões em investimentos.

Meio ambiente: Crescimento da demanda por químicos ©QD Foto: Divulgação
Rego: indústria de cloro-soda deve investir em novas plantas

“A primeira fase desse lote de investimentos envolve projetos, equipamentos, preparação de obras. Os pedidos para o setor químico estão entrando para entrega a partir do ano que vem, tanto de produtos para tratamento como de PVC”, diz.

Embora o maior impulsionador para a demanda seja a síntese do dicloroetano que origina o PVC, utilizado para construção de tubulações para transportar água e esgoto, o cenário vai beneficiar logicamente o setor químico também com o aumento de consumo de cloro gás, hipoclorito de sódio, ácido clorídrico e até soda cáustica, esta utilizada na produção de muitos produtos de tratamento de água e efluentes.

Além de fazer com que o setor amplie a sua capacidade produtiva depois de muitos anos estagnado, com reduções da ocupação ao longo dos últimos anos, a expectativa com a universalização, pontua ainda o presidente da Abiclor, é a de que o país se torne também autossuficiente em soda cáustica, pois a oferta do insumo será ampliada com a nova demanda de cloro, invertendo um histórico de dependência de importações.

Já para 2022, a Abiclor projeta crescimento de 20% para o setor, desempenho ainda não completamente influenciado pelo cenário do saneamento, mas por uma conjuntura de recuperação de indústrias consumidoras, como a de alumínio e a química, que passaram a ser beneficiadas em competitividade pelo aumento de custo de energia em regiões concorrentes, principalmente na Europa. Também a volta da unidade da Braskem em Alagoas ajudou no resultado do ano.

Para se ter uma ideia, a indústria de cloro-soda voltou a estar com mais de 80% de ocupação da capacidade instalada neste ano, depois de, na média, estar em 65,9% em 2021 e 54,5% em 2020. “Estamos voltando aos níveis pré-pandemia”, diz.

Para Rego, a nova capacidade instalada que deve acompanhar a demanda pelo saneamento não será mais possível apenas com ampliação das capacidades, exigindo construir indústrias novas. Um primeiro exemplo foi o anúncio de investimento da Unipar, em Camaçari-BA, naquela que será sua terceira unidade de cloro-soda do país, com aporte de R$ 140 milhões, que deve ficar pronta em dois anos, com capacidade para 10 mil t/ano de cloro (e 12 mil t/ano de soda). “Mas as outras unidades que devem ser construídas no futuro precisarão ser muito maiores do que essa”, diz.

Espaço para avanço – Uma tradicional produtora e fornecedora nacional de soluções químicas para tratamento de água, a Sabará, fundada em 1956, também está confiante de que há uma demanda reprimida prestes a despontar por conta dos reflexos do marco regulatório, segundo análise do gerente da Sabará Químicos e Ingredientes, Lucas Donato.

Para ele, as companhias públicas e privadas estão em momento de levantar informações sobre os produtos que passarão a comprar com mais intensidade em breve, tanto no aspecto tecnológico como de custo.

Nesses casos, na sua opinião, há uma oportunidade grande de divulgação e adoção de tecnologias mais avançadas, que podem ser mais benéficas para acelerar o processo de universalização e melhorar os tratamentos.

Uma dessas oportunidades seria aumentar a participação de uma das soluções que a empresa tem apostado e desenvolvido em várias versões tecnológicas nos últimos anos: a adoção do dióxido de cloro como desinfetante alternativo ao cloro em aplicações de saneamento e na indústria, em tratamento de água ou efluentes.

Meio ambiente: Crescimento da demanda por químicos ©QD Foto: Divulgação
Donato: dióxido de cloro evita a formação de trialometanos

“Acho que a demanda vai explodir para todos os produtos, desde os tradicionais, como cloro gás, hipoclorito de sódio, soda, barrilha, pastilhas de cloro e floculantes, mas principalmente para o dióxido de cloro, que conseguimos elevar muito sua competitividade”, avalia.

A possibilidade de expansão de uso do dióxido de cloro, para Donato, tem a ver com a piora crescente da qualidade das águas superficiais do País, que demandam desinfecções mais fortes, principalmente as pré-oxidações, mas também nas outras etapas, inclusive nos descartes de efluentes.

Segundo ele, concessionárias públicas e privadas tendem a optar cada vez mais pelo ClO2 para ter um produto mais eficiente, com poder de oxidação maior, e que não gera subprodutos indesejados como os trialometanos (THM), o que ocorre com o cloro em contato com precursores orgânicos na água.

O uso na pré-oxidação, por exemplo, permite que a empresa dose o cloro na pós-oxidação sem receio de formação de THM.

Melhorias no ClO2 – O gerente da Sabará classifica como primeira ação da empresa para aumentar a competitividade do ClO2 a inauguração, no fim de 2018, de fábrica própria de clorito de sódio, em Santa Bárbara D´Oeste-SP, componente principal da rota de geração do dióxido de cloro.

“Com isso ele se tornou extremamente competitivo; com a verticalização, foi-se o tempo em que a tecnologia era cara ou difícil de aplicar”, comemora.

Aplicado como pré-oxidante, na interoxidação ou na pós-oxidação, o dióxido de cloro é gerado em reação com o ácido clorídrico na hora da aplicação, já presente em várias operações em saneamento e na indústria, inclusive para a potabilização, visto que pela legislação atual (Portaria GM/MS 888/21) ele pode ser residual protetivo, tal qual o cloro.

A Sabará fabrica os próprios geradores para aplicação in situ, com taxa de conversão de 98%, que são alugados ou fornecidos em comodato para os clientes.

Um segundo avanço de uso do dióxido de cloro, realizada pela pesquisa da própria Sabará, foi criar uma segunda rota de produção, para tirar um inconveniente da tecnologia em aplicações industriais. Isso porque, quando feito com o ácido clorídrico, o oxidante gera íons de cloreto, com efeito corrosivo em superfícies metálicas, como torres de resfriamento e tanques.

Para solucionar o problema, em 2021, a Sabará criou uma rota que envolve o clorito de sódio com uma solução ácida (ácido sulfúrico aditivado com o próprio dióxido de cloro dissolvido).

Batizado de BioE-Max, esse ClO2 passou a não formar mais cloretos e a permitir seu uso principalmente em sistemas de refrigeração, onde há maiores restrições à corrosão.

“Isso sempre foi um tabu, embora a geração de cloreto através do ácido clorídrico seja muito baixa, existe a formação e em alguns sistemas há tolerância zero com eles”, explica Donato.

Também na aposta do dióxido de cloro – que apesar do uso em ascensão ainda não é o carro-chefe da empresa, que também produz hipoclorito de sódio e fornece cloro-gás para várias empresas de saneamento em todo o país, além de coagulantes – a Sabará criou uma versão em pó do oxidante. Segundo seu gerente, trata-se de solução que ganha grande participação em aplicações em saneamento em ETAs e ETEs e em desinfecção de hortifrutícolas.

Fabricado no Brasil, com formulação patenteada pela Sabará, a versão em pó é disposta em dois componentes que dispensam o gerador in situ de dióxido de cloro.

Os componentes são misturados à água e aplicados com bombas dosadoras, o que além de facilitar a operação reduz o capex do tratamento.

“O investimento do cliente vai ser proporcional ao tamanho da aplicação, mas é muito inferior ao investimento em um gerador, com armazenagem muito mais simples, sem precisar de tancagem como na geração convencional”, explica.

Essas características do ClO2 em pó têm feito o produto ser muito demandado. Há, por exemplo, aplicações em companhias públicas de saneamento para ETAs, clientes privados usando em efluentes e agroindústrias em lavagem de frutas.

Segundo Donato, com 15 kg de produto em pó, misturados em mil litros de água, forma-se solução de dióxido de cloro de até 3500 ppm.

Como vantagem, a tecnologia da Sabará demanda de 10 a 15 minutos para deixar o oxidante pronto, enquanto similares estrangeiros levam de 3 a 6 horas, segundo o executivo.

Novos investimentos – Mesmo com a aposta na explosão da demanda para o médio prazo, este ano ainda é considerado desafiador para os fornecedores químicos para água, com alta recorde ainda mantida em várias matérias-primas, por exemplo, no ácido sulfúrico, soda cáustica, cloros isocianúricos para pastilhas de cloro (dicloro, tricloro, hipoclorito de cálcio), além do custo logístico nas alturas e real desvalorizado.

Mas apesar disso o ânimo com a perspectiva com o mercado interno e mesmo a conjuntura que começa a ser mais favorável em comparação principalmente com o mercado europeu, que perde competitividade com o alto custo da energia, criam cenário para investimentos de competidores.

Meio ambiente: Crescimento da demanda por químicos ©QD Foto: Divulgação
Vista da fábrica da Projesan em Capivari-SP

Além do anúncio do investimento de peso pesado do setor, caso da Unipar, uma empresa de médio porte, a Projesan, de Gaspar-SC, também demonstra fôlego para aumentar a capacidade produtiva.

No início de 2021, a empresa inaugurou sua primeira unidade fora de Santa Catarina, em plano de expansão nacional, em Capivari-SP, quando começou a produzir no local os coagulantes cloreto férrico, sulfato férrico e sulfato de alumínio.

Em julho deste ano, na mesma unidade, a Projesan deu partida à segunda fase da nova fábrica, para produzir o coagulante PAC (policloreto de alumínio), nas versões 18% e de alta basicidade (10% a 12%), produtos cada vez mais empregados tanto em saneamento como em tratamento de água e efluentes industriais.

Para essa produção, foco da empresa, a capacidade da nova unidade é para 10 mil t/mês.

Segundo o diretor da Projesan, Pedro Vieira, a estratégia de descentralização da produção para outras partes do País não para por aí.

Nos próximos cinco anos, a intenção é construir mais três unidades. “Uma já está mapeada no Nordeste e as outras duas estamos definindo”, diz. O investimento total previsto é de R$ 85 milhões.

A ideia é ter as fábricas próximas do consumo, já que o custo do transporte é determinante para dar competitividade para o fornecimento dos coagulantes, mesmo para o PAC, cuja grande vantagem é ser mais concentrado do que as versões convencionais.

A produção de Gaspar, por exemplo, de 4 mil t/mês de PAC, atende companhias de saneamento da região Sul, Casan (SC) e Sanepar (Paraná), além de indústrias de papel e celulose, tratamento de água e frigoríficos próximos.

A nova unidade em Capivari tem entre seus clientes Sabesp, Sanasa (Campinas) e várias indústrias.

Também formuladora de especialidades químicas para tratamento de água, polímeros aniônicos, catiônicos e não-iônicos, a Projesan registrou crescimento de 84% no primeiro semestre deste ano, saindo de um receita operacional bruta de R$ 64,5 milhões para R$ 128 milhões no mesmo período.

Até o fim do ano, Vieira projeta atingir faturamento de R$ 270 milhões, com crescimento anual entre 60% e 65%, muito por conta da nova fábrica paulista.

A meta é crescer entre 35% e 40% nos próximos cinco anos. Segundo o diretor, a empresa tem se dedicado a projetos de pesquisa e desenvolvimento principalmente voltados para substituir tratamentos convencionais de coagulantes pelo PAC, cuja concentração reduz custos logísticos e investimentos maiores com tancagem e bombas.

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