Consumo de água segue crescendo no mundo

Meio ambiente: Consumo segue crescendo e agrava risco de escassez

A ONU instituiu 22 de março como o Dia Internacional da Água, que vem sendo observado desde 1993, com o objetivo de estimular a discussão dos temas essenciais ligados aos recursos hídricos

Por mais que os alertas sobre a escassez global de água sejam dados aos quatro ventos, boa parte dos países parece não se atentar para os riscos que correm. O descompasso entre informações disponíveis e ações de fato é mais grave ainda nas regiões de média e baixa renda, sobretudo em países considerados emergentes, caso do Brasil.

Segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o estado dos recursos hídricos e consumo no mundo, publicado em 2023, o uso da água registra aumento de 1% ao ano nas últimas quatro décadas. Esse ritmo, considerado elevado pela entidade, deve se manter pelo menos até 2050 e justamente por conta do movimento registrado nos países em desenvolvimento.

A explicação para esse ritmo desigual que coloca em risco o abastecimento nas economias menos abastadas é o crescimento populacional e o desenvolvimento socioeconômico dessas regiões, que têm como consequência as mudanças nos padrões de consumo que essa combinação de fatores provoca. Se por um lado se trata de notícia positiva por demonstrar enriquecimento nesses países, o cenário por outro lado provoca pressão sobre os recursos hídricos.

Na análise da ONU, o resultado disso é que a escassez de água tem se tornado endêmica à medida que o impacto local do estresse hídrico físico se manifesta de forma mais relevante, fenômeno paralelo à aceleração da poluição da água doce, que reduz a disponibilidade ou torna mais caro o abastecimento.

Outro fator importante para o risco de escassez, porém, é o efeito das mudanças climáticas. E isso tende a se tornar mais comum, para começar, sobre áreas com populações com rendas médias e baixas e que, tradicionalmente, contam com abundância de recursos hídricos. A ONU aponta como regiões sob risco a África Central, o Leste Asiático e partes da América do Sul. Em regiões onde já há naturalmente escassez, a tendência é de agravamento da situação, casos do Oriente Médio e de várias localidades na África, como no Saara.

Consumo e qualidade da água

Segundo o relatório da ONU, em média, 10% da população mundial está em países com estresse hídrico alto ou crítico, sendo que praticamente todos os povos, não importa a renda média, sofrem problemas relacionados à qualidade da água.

No caso dos países mais pobres, aponta a organização, isso tem conexão direta com os déficits na coleta e tratamento de esgoto, um problema no Brasil e com probabilidade de ser solucionado em parte com os planos de universalização do novo marco regulatório. Nas nações mais desenvolvidas, o problema principal para afetar a qualidade é a contaminação proveniente da agricultura, atividade altamente consumidora de água e que gera efluentes com resíduos de defensivos agrícolas e fertilizantes.

De acordo com dados de 2020 da ONU, os últimos disponíveis, 26% da população mundial, ou cerca de 2 bilhões de pessoas, não têm segurança no abastecimento de água. Em acesso a saneamento, com coleta e tratamento de esgoto, o número é mais alarmante: são 3,6 bilhões de pessoas, ou seja, 46% da população registrada naquele ano. No aspecto da qualidade da água, cerca de 60% do volume disponível no mundo é apontado como adequado, mas a média é muito mais baixa nos 20 países mais pobres.

A situação é considerada preocupante porque, em resumo, o mundo está longe do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de número 6, da ONU, que estabelece as metas para água potável e saneamento até 2030 e que possui onze indicadores ligados à questão e que precisariam ser atendidos nesse prazo.

Para a ONU, há progressos apenas rumo à universalização dos serviços, mas vários outros indicadores importantes, como progresso para estresse hídrico, eficiência no uso da água, cooperação transfronteiriça e gestão integrada de recursos hídricos estão muito aquém do esperado. Pelo acompanhamento atual, a entidade calcula que na maioria dos casos as taxas de implementação de medidas precisam pelo menos quadruplicar.

Por conta da lentidão global para atender as metas do ODS 6, a recomendação da ONU é acelerar parcerias e cooperações, tanto entre países como internamente, com acordos entre associações, ONGs, governos e a iniciativa privada.

Parcerias

A entidade, para facilitar as tomadas de decisão, dividiu essas parcerias por três categorias. A primeira envolveria parceiros com um objetivo comum, por exemplo, o abastecimento de água e tratamento de esgotos para comunidades locais ou a gestão de sistemas de irrigação compartilhados.

O segundo tipo de parceria deve envolver atores com objetivos díspares e até mesmo concorrentes, caso de municípios e agricultores, que devem discutir a atribuição de abastecimento ou mesmo a adoção de pagamento pelos serviços ambientais. A terceira categoria tentaria unir agentes que não necessariamente estão envolvidos com a água, mas que são afetados por sua qualidade ou escassez. Neste caso, as possibilidades seriam de vários setores ou representações da sociedade civil, que são afetadas por aspectos relacionados à saúde humana por conta de contaminações ou pelas mudanças climáticas.

Uma questão considerada relevante nos próximos anos, e que deve demandar ações conjuntas com essas parcerias sugeridas, é a alocação de água do meio rural para o urbano, segundo o relatório da ONU. Isso porque a projeção é a de que a demanda urbana de água aumente em 80% até 2050, por conta do deslocamento das populações para as metrópoles e megalópoles.

Embora a alocação dos recursos hídricos esteja atendendo seu propósito de abastecer as populações do êxodo, o receio cada vez maior é o impacto que a escassez de água nos meios rurais provoque na agricultura, cuja irrigação afetada pode diminuir a segurança alimentar dos países, além de diminuir a renda de agricultores. A ONU sugere políticas de compensação para equacionar esses alocamentos de recursos hídricos, o que inclui pagamentos financeiros ou construções de novas infraestruturas para compensar os impactos no meio rural.

Também deve fazer parte da agenda dos países o estreitamento de políticas para implantar medidas de proteção ou reabilitação de bacias hidrográficas, principalmente para torná-las mais resilientes aos efeitos das mudanças climáticas. Para isso, a ONU recomenda mais parcerias entre todos os agentes consumidores e fiscalizadores das comunidades locais.

Aí devem participar o setor privado, principalmente indústrias, ONGs e associações de moradores, além de ministérios governamentais e departamentos responsáveis por água, saneamento e higiene saúde, habitação, agricultura, educação, planejamento e infraestrutura.

Consumo de água e empregos

Além da importância evidente da água para todas as atividades da vida, uma correlação interessante levantada pelos relatórios da ONU é a que envolve a dependência hídrica de vários empregos no mundo. De acordo com estimativa do órgão multilateral, 65% dos empregos que formam a força ativa de trabalho global, ou 2,1 bilhões, são dependentes da água. Isso significa que alterações no abastecimento têm implicações diretas na economia.

Segundo o levantamento, o maior número de empregos em risco está em países de renda média e baixa (868 milhões) e em média-alta (769 milhões). Os de baixa renda, apesar de serem em menor número (cerca de 250 milhões), 80% deles são totalmente dependentes de água. Ou seja, qualquer desbalanço no fornecimento representa risco de subsistência de mulheres e homens em setores hidrologicamente mais vulneráveis, “sem mencionar a estabilidade socioeconômica geral de um país”, diz o estudo da ONU.

Para a entidade, os setores econômicos fortemente dependentes da água são os que requerem quantidade significativa de recursos hídricos como insumo para as atividades ou processos produtivos. Sem a garantia de abastecimento de água, esses postos de trabalho podem desaparecer.

Entre estes, alguns destaques são a agricultura, silvicultura, a pesca interior e a aquicultura, além da mineração e extração de recursos minerais; vários tipos de geração de energia (hidrelétricas, térmicas); e certos tipos de indústrias de manufatura e transformação, como alimentos, bebidas, têxteis e produtos farmacêuticos.

O setor de serviços também apresenta uso crescente de água, incluindo atividades de alojamento, hotelaria, alimentação e educação. De forma indireta, também há preocupação com vagas de empregos em setores com dependência moderada a forte de água, como construção, recreação, transporte (excluindo navegação interior, que é fortemente dependente da água), indústrias (madeira, papel, borracha/plásticos e metais) e empregos em educação, financiamento e seguros.

Os riscos nos países de baixa renda, mais dependentes de empregos na agricultura, altamente ligada ao uso da água, é mais elevado ainda por conta dos efeitos das mudanças climáticas, aponta a ONU. Isso porque a agricultura nesses países é amplamente alimentada pelas chuvas, com empregos mais comuns em pequenas propriedades. Porém, o estudo aponta a probabilidade de que a proporção de empregos na agricultura diminua mais nas próximas décadas nesses locais e que os sistemas de irrigação sejam mais frequentes com a modernização no campo.

Bom acrescentar que, nos países de baixa renda, a agricultura ainda está dominando a oferta de emprego, mas com participação em queda, de 70% registrado em 1991 a 2001 para 58% em 2021.

Mercado bilionário

A preocupação com a escassez de água, apontada pelo estudo da ONU, tem também o efeito de desenvolver o mercado de tratamento, com soluções físicas e químicas para preservar e recuperar mananciais que serão utilizados para abastecimento.

Segundo estudo da consultoria norte-americana Grand View Research, o mercado global de sistemas de tratamento de água foi estimado em US$ 38,56 bilhões em 2023 e deve crescer a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 8,1% de 2024 a 2030. E o crescimento do mercado é impulsionado principalmente para reduzir o nível de contaminação da água utilizada para abastecimento e para o descarte de efluentes, o que de certa forma vai ajudar a atender uma das metas do ODS 6, da ONU.

Para o estudo, a perspectiva animadora do CAGR, além de demandas mais específicas, como a redução de contaminação por vírus com o uso de membranas, é incentivada por várias iniciativas de governos de países preocupados em melhorar a qualidade da água. “Como resultado da crise hídrica, do aumento da poluição da água e das mortes por doenças transmitidas pela água, a demanda por sistemas de tratamento testemunha um crescimento significativo”, diz o relatório.

A consultoria também aponta a influência positiva de fatores macroeconômicos, como a rápida urbanização em várias regiões do mundo, além da mudança nos padrões de compra dos consumidores e os crescimentos em economias emergentes. Esse cenário tem inclusive incentivado o uso de sistemas mais avançados de tecnologia, como as membranas de osmose reversa e de ultrafiltração e a radiação ultravioleta.

As membranas de osmose reversa, para a consultoria, têm registrado aumento na participação entre os vários tipos de sistemas empregados, chegando a 28,2% do total global em 2023. Além de ser eficiente contra partículas bacterianas e amebianas suspensas ou dissolvidas na água, o sistema também pode ser incluído em tratamentos convencionais, como o de carvão ativado e filtros de sedimentos, complementando as demandas técnicas com a remoção de cloro, odor e mau cheiro da água, além de detritos e sujeiras, respectivamente.

O estudo ainda aponta a ascensão de unidades simples de destilação, que são instaladas no ponto de consumo de água, substituindo sistemas que tratam previamente toda a água antes de chegar nas casas. Essa tecnologia minimiza o número de metais tóxicos e livra a água de contaminantes orgânicos.

Também há crescente popularização de sistemas de desinfecção, como dióxido de cloro, ozônio, luz ultravioleta e cloraminas, além da tradicional cloração, que cada vez mais tem opções de geração in situ. A consultoria vê muitas perspectivas, em específico, para a radiação UV, que usa luz ultravioleta com comprimento de onda de 253,7 nanômetros para eliminar bactérias, vírus, algas e bolores, destruindo o DNA dos microrganismos.

O estudo da Grand View Research entende que a crescente preocupação com a qualidade da água, para evitar seu potencial transmissor de doenças, como observado no relatório anual da ONU, tem incentivado várias novas legislações restritivas de potabilidade. Cita por exemplo o Safe Drinking Water Act (SDWA), dos Estados Unidos. Essa lei é específica e tem se tornado novo modelo de exigências para outros países, com restrições severas, por exemplo, contra trialometanos.

Outro exemplo é o fato de Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) ter recentemente classificado 65 poluentes e novas 126 classes de substâncias como tóxicas e outras como não-convencionais. Além disso, anualmente a agência faz uma revisão das classes de poluentes. Para isso, a EPA tem utilizado várias técnicas analíticas que incluem teste microbiológico, químico, radioquímico e de biossólidos, Para cada indústria consumidora de água, são empregadas novas formas de testes.

Essa movimentação na demanda tem provocado também um processo de reestruturação mercadológica, como várias fusões e aquisições entre grandes grupos, além de expansões de atuação de empresas multinacionais para novas regiões. Um fenômeno que o estudo observa como importante é o chamado sistema Internet da Água, que usa a inteligência artificial e a digitalização para monitorar a infraestrutura de abastecimento e distribuição de água. A aposta é que a tecnologia aumente a produção de água potável no futuro.

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Países se mexem

Há movimentações importantes no mercado de tratamento de água, com poder de influenciar outros países, por exemplo na China, a segunda maior economia do mundo. Em 2021, segundo aponta estudo da consultoria Mordor Intelligence, foi anunciada pelo governo chinês uma capacidade adicional de tratamento de esgotos de 20 milhões de metros cúbicos por dia, para serem adotadas nos próximos cinco anos, portanto até 2026. O país também publicou normativas para aumentar o reúso de efluentes, com meta de chegar a um percentual de reúso de 25% do total gerado até 2025.

Também em outra grande economia emergente, a Índia, aponta a Mordor, há novas diretivas para aumentar a capacidade das plantas de tratamento de efluentes domésticos e industriais, ação com força para afetar a oferta e demanda do mercado global.

Por último, mas não menos importante, no Brasil está sendo implementado o que muitos consideram como o maior programa de saneamento em curso no mundo. Desde que o marco regulatório do setor foi aprovado, em julho de 2021, a meta é levar água potável para mais de 35 milhões de pessoas (para chegar a 99% da população até 2030) e coleta e tratamento de esgoto para 100 milhões (90% até 2033), além de zerar os lixões a céu aberto, tudo isso até 2033.

Os primeiros resultados dessas metas estão começando a aparecer, a se guiar pelo último Censo, do IBGE, que apontou melhoras, com cerca de 49 milhões sem acesso à rede de esgoto (aproximadamente 85 milhões sem tratamento). A mudança está ligada à maior participação privada no setor, o que também está se refletindo na despoluição de rios e mares. Isso já está acontecendo, por exemplo, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, desde que os serviços da Cedae foram privatizados em 2021.

Apesar da sua grande disponibilidade hídrica, segundo cálculos da Secretaria Nacional de Saneamento, o Brasil tem cerca de 115 mil quilômetros de rios com águas comprometidas. Daí a importância de adequar os despejos de esgoto para permitir que, principalmente nos grandes centros urbanos, que atraem cada vez mais as pessoas, haja água suficiente para o abastecimento.

E a perspectiva é de continuidade nos investimentos, que apenas em três anos envolveram 37 leilões para concessões estaduais e municipais, que somam R$ 102 bilhões a serem investidos nos próximos anos, para atender mais de 30 milhões de pessoas. Desse total, a maioria é de leilões para concessões regionais (R$ 96 bilhões e 28 milhões de pessoas de 560 municípios).

Apenas em 2024, segundo dados da Associação Brasileira de Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), mais R$ 100 bilhões em investimentos em saneamento devem ser viabilizados com nova leva de leilões e privatizações. São 38 concorrências na esfera municipal e 11 estaduais e/ou regionais. A expectativa é a de que o ritmo se mantenha, com novos projetos de concessões sendo estruturados pelo BNDES, apesar da aparente mudança de rumo político no banco de fomento, agora não muito afeito a privatizações.

Aliás, a previsão da Abcon é que o setor privado chegue até o final do ano com 34,2% de participação no saneamento no Brasil, com 1.906 municípios. Mas isso caso realmente seja viabilizada a privatização da companhia paulista de saneamento, a Sabesp, que aparentemente está bem encaminhada. Mas se o processo, por algum motivo, não for concluído, a previsão é reduzida para 27,8%, com 1.551 municípios com concessão privada.

A inclusão dos investimentos privados para atingir as metas de universalização é considerada fundamental pelos especialistas do setor. Em média, no Brasil, os aportes anuais, de todas as frentes, sejam elas públicas ou privadas, têm oscilado em R$ 20 bilhões. Mas para alcançar a universalização no plano do marco regulatório esse valor precisaria dobrar, o que dificilmente pode ser feito sem a participação privada.

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