Meio Ambiente (água, ar e solo)

Meio ambiente: Análise financeira passa a considerar indicador ambiental

Marcelo Furtado
14 de dezembro de 2002
    -(reset)+

    Crédito verde – A mudança na relação da indústria com o mercado financeiro, motivada pela preocupação sócio-ambiental, não se limita ao sistema acionário. Uma outra tendência, prática comum no exterior e em maturação no Brasil, envolve a política de concessão de crédito das instituições financeiras. Em linguagem clara, isso significa o seguinte: alguns bancos começam a levar em conta a conduta ambiental e social de seus clientes empresariais nas operações de crédito e financiamento.

    Química e Derivados: Ambiente: Maria Luiza e Wells - metodologia cruza informações de várias fontes.

    Maria Luiza e Wells – metodologia cruza informações de várias fontes.

    Novamente, quem está na vanguarda dessa política é o ABN Amro, o quinto maior banco privado brasileiro (R$ 36,4 bilhões em ativos e R$ 12,9 bi em crédito). “Os bancos, ao financiarem uma empresa, não podem levar em consideração apenas o risco financeiro”, explicou a diretora executiva do ABN Maria Luiza de Oliveira Pinto. A explicação para a frase da diretora é fácil: um acidente ou um passivo ambiental subitamente revelado pode, de uma hora para outra, quebrar ou complicar a situação financeira de um tomador de empréstimo. Nesses casos, a simples avaliação do desempenho financeiro do devedor não seria suficiente para evitar um possível calote. “O passivo ambiental não está no balancete da empresa”, ilustra Maria Luiza. A luz desse raciocínio, o banco começou a reclassificar seus clientes.

    Para montar a política de riscos sócio-ambientais, o ABN Amro chamou um respeitado profissional da área de meio ambiente, Christopher Wells, com passagem por instituições como Cempre e Unibanco. Foi ele quem coordenou a elaboração de um questionário que passou a ser enviado aos 3 mil clientes jurídicos do banco, sendo 2 mil ativos. As perguntas, aplicada a cada seis meses na revisão nos limites de crédito, tentam saber da existência de políticas ambientais na empresa e se ela foi multada nos últimos dois anos.

    No aspecto social, procura saber sobre a relação do cliente com seus funcionários, questionando até a existência ou não de programas de divisão de lucros, ou se houve recentemente greve de trabalhadores.

    Para evitar que os clientes consultados falseiem as respostas, o ABN conta com uma rede de informações organizada por Wells, que inclui ONGs, pesquisa em sites e na mídia em geral, ou por consulta junto aos órgãos ambientais. Após também uma avaliação criteriosa das respostas, que tenta identificar contradições, o relatório é enviado a um comitê do banco, cuja função será limitar ou não o crédito da empresa ou, em casos extremos, interromper a relação financeira com o cliente. Esta última hipótese, aliás, já ocorreu com quatro empresas. O ABN Amro preferiu suspender sua relação com duas madeireiras sem certificação ambiental de manejo florestal e outras duas empresas que operavam com amianto.

    A decisão de eliminar o crédito a essas empresas ocorreu porque faz parte da política de risco do banco, como princípio, excluir madeireiras não certificadas e empresas vinculadas à industrialização de amianto. Também estão na “lista negra” os setores que utilizam trabalho infantil de forma prejudicial e os que exercem atividades incentivadoras direta ou indiretamente da prostituição. Embora não excluídos, há outros tipos de empresas, potencialmente poluidoras, que a priori são tratados de maneira mais crítica: indústria de móveis, embalagens, de papel e celulose, construção civil, defensivos agrícolas, agricultura, frigoríficos, têxtil, bebidas alcoólicas e tabaco, mineração, óleo e gás, atividade pesqueira, fabricantes de produtos de higiene e limpeza, bem como a indústria química.

    As avaliações dão origem a um ranking de clientes. Os primeiros colocados são os mais avançados na implantação de políticas ambientais e sociais. Como prêmio, conseguem limites maiores de crédito, com custos também mais favoráveis. Mas as piores “ranqueadas”, que não tenham sido bem avaliadas pelos questionários e pesquisas, não devem ser excluídas de maneira apressada e intolerante. “Daremos prazos para elas se adequarem e não hesitaremos em reconhecer seus esforços”, explicou Christopher Wells.

    Para tornar efetiva a nova política foi necessário difundir o conceito a todas as agências do banco pelo País. Até o final de 2002 foram treinados, em uma parceria com a ONG Amigos da Terra, 1.600 gerentes. Nesse caso, ocorreu uma grata surpresa a Christopher Wells, que também coordenou essa etapa.

    “Os funcionários compreenderam muito bem a proposta e se mostraram ansiosos para começar a implantar o novo critério de avaliação em seus clientes”, afirmou. Outra surpresa apontada por Wells, durante a implantação da política, foi saber que alguns setores industriais médios estão muito avançados na questão ambiental. Um exemplo foi o têxtil, no qual a grande maioria das empresas já possui gerência de meio ambiente.

    Embora a nova exigência bancária possa incentivar a adoção de diplomas ambientais de fachada, a percepção futura é que ela incentive as empresas reticentes com a problemática ambiental a tomarem o rumo da chamada sustentabilidade. Critério iniciado pelos bancos multilaterais, que já há alguns anos consideram esses aspectos quando emprestam dinheiro a governos e empresas privadas, a política de riscos sócio-ambientais deve se expandir aos demais bancos, que também não vão querer perder dinheiro com clientes irresponsáveis. Aí então estará fechado o ciclo virtuoso.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *