Meio ambiente: Análise financeira passa a considerar indicador ambiental

Desempenho social e ambiental ganha destaque entre os itens observados por bancos e fundos de investimento

No começo, o medo principal era escapar das novas leis ambientais e do conseqüente aumento da fiscalização. Depois, a tendência foi usada para atender exigências de mercados externos e, não poucas vezes, para ser administrada como eficiente ferramenta de marketing. Daqui por diante, porém, a “onda verde” no setor industrial começa a invadir um ponto fundamental na estratégia competitiva das empresas: a sua relação com o mercado financeiro.

Química e Derivados: Ambiente: grafico7.A lógica da nova onda é clara: que investidor arriscaria suas fichas numa empresa com risco de ter a imagem de repente vilipendiada por um acidente ambiental, ou por utilizar mão-de-obra infantil em um país em desenvolvimento? A resposta, pelo menos por enquanto, não é a mais esperada, visto que não são todos os que levam em consideração esses fatores. Mas os investidores mais conservadores, com perspectivas de ganhos no médio e longo prazo, estão aderindo com empolgação aos chamados fundos éticos ou socialmente responsáveis.

Nos Estados Unidos, a meca do mercado acionário, esses investimentos baseados não apenas nos riscos financeiros das empresas, mas também nos sociais e ambientais, já representam cerca de 13% do total investido. Pode não parecer muito, mas levando em conta o gigantismo dos fundos de ações norte-americanos, esse percentual significou, em 2001, o total de US$ 2,3 trilhões. O mais impressionante é a taxa de crescimento dos investimentos levando em conta o “caráter” sócio-ambiental da empresas: de 1999 para 2001, enquanto o universo total do mercado acionário cresceu 22%, passando de US$ 14,3 trilhões para US$ 19,9 trilhões, os fundos éticos subiram 36% .

São 230 fundos múltiplos nos EUA que utilizam algumas das chamadas screenings, ou peneiras, cuja função é identificar nas corporações com ações negociadas alguma característica não-desejável nos aspectos ambientais ou sociais. A forma de agir de cada fundo, depois de “peneirar” os problemas, se divide em três tipos principais de estratégias: screening, shareholder advocacy ou community investing. O fundo do tipo screening é o mais comum e tem como princípio negociar apenas ações de empresas com boa conduta social, ambiental e de relação trabalhista, excluindo da carteira companhias de setores malvistos: fumo, álcool, pornografia, jogos de azar, material bélico e energia nuclear.

O fundo shareholder advocacy possui estratégia mais tolerante. Isso porque ele aceita empresas com problemas rejeitados pelo fundo screening, sem fazer muita restrição. Porém, a empresa fica sujeita a ter que abandonar suas práticas ruins. Durante as assembléias de acionistas, os administradores do fundo movem ações para convencer as empresas a mudarem de conduta. Foram medidas desse tipo, por exemplo, que obrigaram a General Electric a produzir máquinas de lavar com menor consumo de energia, que obrigou uma grande rede de fármacias americana a parar de vender termômetros com mercúrio ou ainda que fez a Coca Cola se comprometer a usar 10% de PET reciclado, mundialmente, em suas garrafas até 2005.

Já a estratégia community investing, responsável pela menor fatia do bolo dos fundos éticos, tem como propósito gerar recursos e oportunidades para comunidades urbanas e rurais carentes nos Estados Unidos. Esses investidores tentam tornar viáveis, com os recursos do fundo, projetos de geração de empregos, de financiamento para pessoas de baixa renda e microempresas, e ainda de serviços comunitários, como escolas e creches.

Química e Derivados: Ambiente: Ribeiro - critérios evitam riscos futuros.
Ribeiro – critérios evitam riscos futuros.

Brasil adere – Mesmo com seu imaturo mercado de ações, com apenas 500 empresas listadas em Bolsa, o Brasil já conta desde o ano passado com um fundo socialmente responsável. Em novembro de 2001, o banco ABN Amro Real lançou o fundo Ethical. Com carteira de ativos de R$ 13,5 milhões e 17 ações brasileiras listadas, o fundo comemorou um ano com desempenho acima da média do índice Ibovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo.

De acordo com o gerente sênior do ABN Amro, Luiz Ribeiro, o perfil do fundo é igual ao do screening americano: exclui empresas de fumo, álcool, energia nuclear, material bélico, pornografia e jogos de azar, e também se fixa apenas em ações de empresas com desempenho ambiental e social elogiáveis. Por isso, a Petrobrás, repetidora contumaz de acidentes ambientais de grandes proporções, não faz parte do portfólio de ações.

Logicamente, para ser incluída as ações também precisam ter boa liquidez. Na escolha das empresas, o ABN partiu das 500 empresas nacionais listadas, depois reduzidas para 150 ações com bom desempenho financeiro, sendo a partir daí peneiradas, pelas condições socio-ambientais, até chegarem nas 17 finais do portfólio. Na seleção, foram levadas em conta itens como responsabilidade social e conduta ambiental, mas também fatores específicos como respeito a sócios minoritários, transparência administrativa, independência do conselho administrativo, entre outros.

De acordo com Luiz Ribeiro, embora o desempenho do fundo Ethical no universo analisado tenha sido superior à média Ibovespa, estudos indicam que, de modo geral, os fundos socialmente responsáveis a curto prazo ainda não têm retornos superiores aos convencionais. Mas também eles não são inferiores. “Essa é a beleza do investimento: os aplicadores não perdem no curto prazo e não correm risco no futuro, visto que as ações são melhor selecionadas”, diz. Para manter atualizadas as informações sobre as empresas listadas, o ABN possui, além de uma estrutura interna de pesquisa que abrange questionário e metodologia de pontuação, suporte de ONGs e de outras instituições financeiras, como o Unibanco, que também faz avaliação sócio-ambiental de corporações.

Crédito verde – A mudança na relação da indústria com o mercado financeiro, motivada pela preocupação sócio-ambiental, não se limita ao sistema acionário. Uma outra tendência, prática comum no exterior e em maturação no Brasil, envolve a política de concessão de crédito das instituições financeiras. Em linguagem clara, isso significa o seguinte: alguns bancos começam a levar em conta a conduta ambiental e social de seus clientes empresariais nas operações de crédito e financiamento.

Química e Derivados: Ambiente: Maria Luiza e Wells - metodologia cruza informações de várias fontes.
Maria Luiza e Wells – metodologia cruza informações de várias fontes.

Novamente, quem está na vanguarda dessa política é o ABN Amro, o quinto maior banco privado brasileiro (R$ 36,4 bilhões em ativos e R$ 12,9 bi em crédito). “Os bancos, ao financiarem uma empresa, não podem levar em consideração apenas o risco financeiro”, explicou a diretora executiva do ABN Maria Luiza de Oliveira Pinto. A explicação para a frase da diretora é fácil: um acidente ou um passivo ambiental subitamente revelado pode, de uma hora para outra, quebrar ou complicar a situação financeira de um tomador de empréstimo. Nesses casos, a simples avaliação do desempenho financeiro do devedor não seria suficiente para evitar um possível calote. “O passivo ambiental não está no balancete da empresa”, ilustra Maria Luiza. A luz desse raciocínio, o banco começou a reclassificar seus clientes.

Para montar a política de riscos sócio-ambientais, o ABN Amro chamou um respeitado profissional da área de meio ambiente, Christopher Wells, com passagem por instituições como Cempre e Unibanco. Foi ele quem coordenou a elaboração de um questionário que passou a ser enviado aos 3 mil clientes jurídicos do banco, sendo 2 mil ativos. As perguntas, aplicada a cada seis meses na revisão nos limites de crédito, tentam saber da existência de políticas ambientais na empresa e se ela foi multada nos últimos dois anos.

No aspecto social, procura saber sobre a relação do cliente com seus funcionários, questionando até a existência ou não de programas de divisão de lucros, ou se houve recentemente greve de trabalhadores.

Para evitar que os clientes consultados falseiem as respostas, o ABN conta com uma rede de informações organizada por Wells, que inclui ONGs, pesquisa em sites e na mídia em geral, ou por consulta junto aos órgãos ambientais. Após também uma avaliação criteriosa das respostas, que tenta identificar contradições, o relatório é enviado a um comitê do banco, cuja função será limitar ou não o crédito da empresa ou, em casos extremos, interromper a relação financeira com o cliente. Esta última hipótese, aliás, já ocorreu com quatro empresas. O ABN Amro preferiu suspender sua relação com duas madeireiras sem certificação ambiental de manejo florestal e outras duas empresas que operavam com amianto.

A decisão de eliminar o crédito a essas empresas ocorreu porque faz parte da política de risco do banco, como princípio, excluir madeireiras não certificadas e empresas vinculadas à industrialização de amianto. Também estão na “lista negra” os setores que utilizam trabalho infantil de forma prejudicial e os que exercem atividades incentivadoras direta ou indiretamente da prostituição. Embora não excluídos, há outros tipos de empresas, potencialmente poluidoras, que a priori são tratados de maneira mais crítica: indústria de móveis, embalagens, de papel e celulose, construção civil, defensivos agrícolas, agricultura, frigoríficos, têxtil, bebidas alcoólicas e tabaco, mineração, óleo e gás, atividade pesqueira, fabricantes de produtos de higiene e limpeza, bem como a indústria química.

As avaliações dão origem a um ranking de clientes. Os primeiros colocados são os mais avançados na implantação de políticas ambientais e sociais. Como prêmio, conseguem limites maiores de crédito, com custos também mais favoráveis. Mas as piores “ranqueadas”, que não tenham sido bem avaliadas pelos questionários e pesquisas, não devem ser excluídas de maneira apressada e intolerante. “Daremos prazos para elas se adequarem e não hesitaremos em reconhecer seus esforços”, explicou Christopher Wells.

Para tornar efetiva a nova política foi necessário difundir o conceito a todas as agências do banco pelo País. Até o final de 2002 foram treinados, em uma parceria com a ONG Amigos da Terra, 1.600 gerentes. Nesse caso, ocorreu uma grata surpresa a Christopher Wells, que também coordenou essa etapa.

“Os funcionários compreenderam muito bem a proposta e se mostraram ansiosos para começar a implantar o novo critério de avaliação em seus clientes”, afirmou. Outra surpresa apontada por Wells, durante a implantação da política, foi saber que alguns setores industriais médios estão muito avançados na questão ambiental. Um exemplo foi o têxtil, no qual a grande maioria das empresas já possui gerência de meio ambiente.

Embora a nova exigência bancária possa incentivar a adoção de diplomas ambientais de fachada, a percepção futura é que ela incentive as empresas reticentes com a problemática ambiental a tomarem o rumo da chamada sustentabilidade. Critério iniciado pelos bancos multilaterais, que já há alguns anos consideram esses aspectos quando emprestam dinheiro a governos e empresas privadas, a política de riscos sócio-ambientais deve se expandir aos demais bancos, que também não vão querer perder dinheiro com clientes irresponsáveis. Aí então estará fechado o ciclo virtuoso.

Desafios para o novo governo na área de saneamento básico

De acordo com Martin Afonso Penna, diretor executivo da Abiclor – Associação Brasileira de Álcalis, Cloro e Derivados, um dos maiores desafios que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de enfrentar será a questão do saneamento básico. Um número elevado de brasileiros ainda morre por problemas ligados à falta de uma estrutura adequada de saneamento. Segundo o IBGE, na última década, o Brasil retrocedeu nesse setor. De acordo com o Instituto, mais de 30 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada e quase dois terços da população não possui serviços de esgoto e coleta de lixo.

A conseqüência disso é a volta ou o recrudescimento de doenças como cólera, dengue, hepatite A e o aumento dos índices de mortalidade infantil nas regiões mais carentes.

Felizmente, nem todas as notícias nessas áreas são ruins. Em setembro, durante a realização da Rio 92+10 em Johannesburgo – África do Sul, houve um consenso sobre o direito de todo cidadão ao acesso à água com qualidade e a proposta de redução pela metade da população mundial o número de pessoas sem este benefício, até 2015. Aqui no Brasil, o programa de governo do novo presidente aponta perspectivas de soluções. Entretanto, para viabilizá-las será necessário um conjunto de ações práticas que viabilizem uma parceria do poder público com os diversos agentes da sociedade que possam contribuir para alterar esse cenário, tornando as boas intenções medidas concretas e urgentes.

Entre as medidas urgentes está o tratamento intensivo da água de abastecimento. É sabido e reconhecido que a intervenção sanitária mais eficaz no combate a doenças de veiculação hídrica é a cloração adequada da água, em todos os municípios brasileiros. Por isso, o apoio da cadeia produtiva de cloro-soda é indispensável para cumprir esse objetivo.

A Abiclor reitera seu princípio de atuar de forma responsável e coloca-se inteiramente à disposição para integrar os esforços que possam proporcionar água de qualidade para toda a população do País, visando oferecer melhor qualidade de vida.

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