Máquinas: Perspectivas 2009 – Queda nas encomendas anula bons efeitos conquistados com o real desvalorizado

Química e Derivados, MáquinasA crise econômica internacional gerou uma boa e uma péssima notícia para os fabricantes brasileiros de máquinas e equipamentos. A novidade boa é que, no rastro da crise mundial, a moeda brasileira se desvalorizou e melhorou a competitividade do setor. Nos últimos anos, o real valorizado era a principal queixa da indústria de máquinas. Por conta dessa situação, os fabricantes perdiam mercados no exterior e passaram a sofrer uma forte concorrência de produtos importados no Brasil. Os números preliminares apontam um aumento na compra de máquinas importadas de 42% em 2008, que gerou um déficit na balança comercial do setor de US$ 10 bilhões. O dólar cotado acima de R$ 2,00 afasta este problema.

Carlos Nogueira, vice-presidente da Abimaq
Carlos Nogueira: setor é o primeiro a parar e o último a se recuperar

A péssima notícia é que a desvalorização do real chegou num momento de retração dos compradores no mercado interno e no externo. Em dezembro, por exemplo, os pedidos em carteira do setor eram 30% menores do que em novembro. “Agora somos competitivos, mas não há mercado”, diz Carlos Nogueira, vice-presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Segundo o executivo, a expectativa para a economia brasileira é de um 2009 difícil, sem crescimento. Portanto, a indústria não vê motivos para investir em ampliação de capacidade produtiva e deixa de comprar máquinas e equipamentos. “Somos o setor que mais sofre com as crises; o primeiro a parar e o último a retomar os negócios”, diz Nogueira. A previsão da Abimaq é de uma queda em vendas e faturamento na ordem de 10% em 2009.

Até a erupção da crise, 2008 foi um ano excepcional para os fabricantes de bens de capital mecânicos. Entre janeiro e outubro, o setor registrou um faturamento de R$ 65,4 bilhões, num crescimento nominal de 29,3% em relação ao mesmo período de 2007. Mas, em outubro, os primeiros sinais de retração se fizeram presentes, provocando uma queda nas vendas de 10,3% em relação a setembro. Em novembro, outro tombo, desta vez de 11,9% em relação a outubro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 15 de setembro e o final de novembro, as encomendas da construção civil recuaram 47%; as da agricultura, em 39%; e as da indústria de transformação, em 28%. Em dezembro, os pedidos recuaram em média 40%. Mesmo assim, os números preliminares da Abimaq apontam que 2008 foi o melhor ano da história em consumo de máquinas no país. Somando-se a produção doméstica voltada ao mercado local com as importações, o país investiu R$ 95 bilhões em equipamentos no ano passado, um crescimento nominal de 29% em relação a 2007. As exportações alcançaram US$ 12 bilhões, um crescimento de 17%, e as importações totalizaram em US$ 22 bilhões. Os segmentos que mais se destacaram no ano foram o de máquinas agrícolas e bombas/motobombas. Já as indústrias de máquinas gráficas e têxteis apresentaram uma forte retração durante todo o ano. Atribui-se a queda ao fato de esses segmentos terem sido fortemente afetados pela importação de produtos acabados.

O período entre o final de 2008 e as primeiras semanas de 2009 foi recheado de notícias ruins, apontando para uma forte retração das vendas de bens de capital. Segundo o IBGE, a produção industrial brasileira em novembro recuou 5,2%. Em dezembro, a indústria paulista, que responde por 40% da produção nacional, apresentou uma retração de 13,5%. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), fugindo a uma tradição, não fez uma previsão de produção para 2009. Mas o presidente da General Motors do Brasil, Jaime Ardila, afirmou que o setor espera uma queda de 11% a 15% nas vendas totais no ano. A indústria siderúrgica projeta queda de 40% na produção do primeiro trimestre do ano. Na área agrícola, a situação não é melhor. O próprio Ministério da Agricultura prevê uma queda de 5,9% na atual safra. Mas a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) fala em queda de 10%. As previsões de exportações brasileiras também não são otimistas. A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) projeta uma queda de 17,6% nas vendas internacionais, limitando-se a US$ 163 bilhões no ano.

 

Anúncios de cancelamento de investimentos também se tornaram frequentes. O grupo LLX, de Eike Batista, interrompeu o projeto do Porto Brasil, no litoral paulista. A Gerdau informou que seu cronograma de investimentos de US$ 6,4 bilhões seria alterado; o grupo Votorantim paralisou a construção de uma unidade de níquel em Goiás; vários fabricantes de celulose e usinas de álcool postergaram investimentos. Só para citar alguns exemplos.
Carlos Nogueira relata que a queda nas encomendas de bens de capital no início do ano ainda não afetou por igual todos os segmentos. Os mais prejudicados foram os fabricantes de máquinas agrícolas, máquinas-ferramenta e máquinas têxteis. Mas, segundo o executivo, a tendência é de contaminação dos negócios em outras atividades. Apenas os fabricantes de equipamentos para a indústria de petróleo e gás podem se safar da queda de encomendas. Outra preocupação do setor é o aumento da inadimplência. Em média, apenas 2% a 4% dos compradores de máquinas não honram seus compromissos em dia. Em janeiro, esse índice chegou a 14%. “Ninguém deixa de pagar porque quer. A inadimplência é fruto do aperto de crédito”, constata o executivo. A soma de tantos fatores negativos aponta para uma situação desalentadora para a manutenção do nível de emprego no setor. Em dezembro, as demissões chegaram a duas mil. Mas a previsão da Abimaq é de que a situação deve mesmo se agravar a partir de março. A projeção da associação é de dispensa de 20 mil trabalhadores em 2009.

Enfrentar a crise – Na opinião de Carlos Nogueira, o governo vai ter de trabalhar muito e rápido para reverter esse quadro negativo. A receita da associação de como o país deve agir para reduzir o impacto da crise todo mundo conhece, de tanto que é repetida por seus diretores e também por representantes de outras associações empresariais. Os pontos-chave são: redução urgente da taxa de juros; redução da carga tributária, se possível desonerando completamente os impostos que incidem sobre a compra de bens de capital; a adoção de uma política industrial que privilegie o produtor nacional; investimentos em infraestrutura e flexibilização da legislação trabalhista. Uma medida que também está sendo reivindicada pelos fabricantes de bens de capital mecânicos é a maior disponibilidade de financiamento de capital de giro, o que permitiria às empresas do setor enfrentar o momento agudo da crise de encomendas.

Segundo Nogueira, nas reuniões frequentes com os empresários, os representantes do governo têm se mostrado sensíveis às reivindicações. O problema, que o empresário não diz, é a distância entre a sensibilidade e a atitude concreta. Boa notícia é a alta capacidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para emprestar. Até novembro de 2008, o banco desembolsou R$ 79,9 bilhões, sendo que R$ 32,4 bilhões foram para a indústria, um total 37% acima do registrado no mesmo período de 2007, e R$ 31,3 bilhões foram destinados ao setor de infraestrutura, um crescimento de 45%. Para 2009, a expectativa do BNDES é de liberar recursos totais entre R$ 100 bilhões e R$ 110 bilhões.

Ao mesmo tempo, a tão esperada desvalorização do real não deve gerar, pelo menos em curto prazo, um aumento das exportações de bens de capital. O motivo é simples. Os principais clientes da indústria brasileira de máquinas e equipamentos não estão comprando. Os Estados Unidos, o maior comprador, são o “epicentro” do terremoto financeiro. O México, o terceiro maior comprador em 2008, tem uma economia bastante atrelada à norte-americana. A Alemanha, a quarta compradora, também está em recessão. Os demais grandes compradores de máquinas brasileiras são países da América do Sul, como Argentina (segunda do ranking), Venezuela, Chile, Paraguai e Colômbia. Economias que dependem muito das vendas internacionais de commodities agrícolas, minerais e petrolíferas, cujos preços internacionais desabaram nos últimos meses. Em dezembro, as vendas brasileiras de bens manufaturados para a região caíram 12,4%, e as máquinas estão entre os principais itens de exportação. Além disso, Argentina e Venezuela passaram a criar entraves burocráticos para dificultar ainda mais as compras externas. Como diz Carlos Nogueira: “A desvalorização cambial foi boa. Mas veio com dois anos de atraso. Agora não há muito como aproveitar a situação e ampliar as exportações.”

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