Máquinas: Exportações mantêm ritmo de crescimento

Perspectivas 2023 - Exportações mantêm ritmo de crescimento e compensam a queda nas vendas ao mercado interno

A receita da indústria brasileira de bens de capital mecânicos deve este ano aumentar 2,4% em relação a 2022, projeta a Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.

Considerando apenas as vendas locais, essa expansão deve atingir índice bem inferior.

“Prevemos crescimento de 0,6% das vendas ao mercado interno”, diz Cristina Zanella, diretora-executiva de Economia e Estatística da entidade. Responsáveis por cerca de 20% dessa receita, as exportações devem avançar 8,6% (nesse caso, em dólares).

Entre os mercados capazes de contribuir mais decididamente para os negócios do setor no decorrer deste ano, Cristina destaca a construção civil, no qual, já em 2022, havia proporcionado resultados mais favoráveis.

O agronegócio, ela prossegue, deve destinar a máquinas e equipamentos investimentos similares aos do ano passado, o mesmo ocorrendo com a indústria de transformação, cujo desempenho pode ser um pouco melhor no segmento dos produtos básicos, em detrimento dos não-duráveis, mais prejudicados por fatores como os elevados patamares de taxas de juros e de endividamento dos consumidores.

No ano passado, informa a Abimaq, essa indústria registrou uma queda de quase 6% em sua receita total (relativamente a 2021).

Máquinas: Exportações mantêm ritmo de crescimento ©QD Foto: iStockPhoto
Cristina: exportações de 2022 registraram crescimento de 21%

Encerrou-se com isso um ciclo de crescimento de seus negócios que durou quatro anos consecutivos, porém sem atingir em nenhum deles os picos registrados no período compreendido entre 2010 e 2013.

E, assim como está previsto para este ano, também em 2022 o desempenho do setor foi pior no segmento das vendas ao mercado interno, pois as exportações cresceram expressivos 21% e atingiram os maiores patamares dos últimos dez anos.

Também se expandiu a importação, com destaque para o setor de O&G e de energias renováveis, que incrementaram suas compras internacionais de máquinas e equipamentos em quase 50% (ver tabela com o desempenho global do setor nesta edição).

O desempenho negativo de 2022, relata Cristina, começou a delinear-se de maneira mais explícita em meados do ano, acentuando-se no último trimestre.

Ela credita o mau desempenho em parte às incertezas políticas decorrentes do período eleitoral, mas principalmente à elevação das taxas de juros, sempre prejudiciais aos investimentos nas atividades produtivas.

Para este ano, a Abimaq trabalha com uma perspectiva de investimento por parte do setor de aproximadamente R$ 12 bilhões.

Esse valor é inferior aos R$ 16,3 bilhões alocados no ano passado, destinados em maior escala à modernização dos parques produtivos (e quase 7% acima dos R$ 15,4 bilhões inicialmente previstos).

Baixou também o nível de ocupação da capacidade produtiva setorial, que no decorrer do ano passado manteve uma média de 78,6%, e em dezembro último era 4% inferior à do mesmo mês de 2021.

Medida em quantidade de semanas para atendimento, a carteira de pedidos ficou, em média, 3,4% abaixo do nível registrado em 2021; mas, como um sinal alentador, no último mês do ano ela elevou-se 3,3% em relação ao mesmo mês de 2021, atingindo 11,8 semanas, revertendo parte dessa queda e talvez prenunciando maiores possibilidades de futuros negócios.

Equipamentos de O&G – Analisando-se especificamente a indústria de óleo e gás, são positivas as perspectivas já visualizadas este ano no horizonte dos fabricantes de máquinas e equipamentos, afirma Idarilho Nascimento, presidente do Conselho de Óleo e Gás da Abimaq.

Para endossar essa afirmação, ele recorre às mais recentes cotações internacionais dos preços do petróleo, situadas na faixa entre US$ 85 e US$ 90 por barril.

Nascimento: abertura do pré-sal ampliou o leque de compradores ©QD Foto: DIVULGAÇÃO/CLEIA VIANA - CÂMARA DOS DEPUTADOS
Nascimento: abertura do pré-sal ampliou o leque de compradores

“São preços interessantes, que remuneram os investidores e mantêm os investimentos”, justifica Nascimento.

Pode ainda haver, ele observa, oportunidades de negócios caso se efetivem as intenções já anunciadas pelo novo governo federal, por exemplo, da alocação de recursos em um gasoduto a ser construído na Argentina para trazer ao Brasil o gás do campo de Vaca Muerta, ou mesmo a retomada, seja por venda ou por investimento estatal, da construção da fábrica de fertilizantes nitrogenados do Mato Grosso do Sul, cujas obras não foram concluídas, bem como por uma possível reativação da indústria naval brasileira.

Mas também foram importantes, ressalta Nascimento, iniciativas de governos anteriores, como a abertura do pré-sal para novos players, que resultou na vinda de empresas como Equinor, Total e Shell, entre outras, e as privatizações dos campos terrestres maduros, que também atraiu novas empresas.

“Tudo isso ampliou o leque de clientes do setor”, ressalta o presidente do Conselho de O&G.

Ele reconhece ser inexorável o avanço das fontes de energia que emitem menos gases de carbono, em detrimento dos combustíveis de origem fóssil.

Mas, além de haver empresas capazes de produzir máquinas e equipamentos para essas diferentes fontes de energia – ou mesmo já fazendo isso –, esse avanço, ele pondera, é menos rápido que aquele inicialmente previsto e, em seu atual estágio, pode até beneficiar o gás natural, que ganha espaço crescente nas matrizes energéticas de vários países.

“O gás natural é o energético de transição, apesar de ter origem fóssil, emite menos gases que carvão, diesel, gasolina”, ressalta.

“E é importante lembrar que o Brasil atravessou a crise hídrica de 2021 em grande parte devido às térmicas, muitas delas alimentadas com gás natural”, acrescenta.

Mas Nascimento também associa a evolução dos negócios dos fabricantes locais de equipamentos para O&G a uma mescla de fatores que inclui tanto questões gerais da economia, quanto decisões governamentais específicas.

Nesse segundo grupo, inclui a disponibilização de fontes de financiamento também para as vendas internacionais.

“O BNDES, que já oferece financiamento para o mercado interno, precisa oferecê-lo também para exportação, voltando a ter um papel que já desempenhou no passado, vários países fazem isso”, destaca.

Também é necessário, complementa Nascimento, revisar o Repetro (o regime tributário que incide sobre o fornecimento de bens e serviços destinados à pesquisa e à exploração de O&G).

Esse regime, ele pondera, gera custos adicionais para os fabricantes locais de bens destinados a essa indústria, relacionados, principalmente, à incidência do ICMS em vendas interestaduais.

Além disso, dificulta a adesão dos diversos elos da cadeia de fornecedores desses fabricantes.

“Da forma como está atualmente o Repetro, é mais fácil para as operadoras de O&G trazer equipamentos importados, que não têm esse custo adicional, do que comprá-los localmente”, diz o presidente do Conselho de O&G da Abimaq.

“É preciso reestabelecer a isonomia entre a importação e a produção local”, advoga.

Atualmente, estima Nascimento, algo entre 30% e 40% das 1,7 mil empresas associadas à Abimaq fornecem máquinas e equipamentos também para o setor de O&G (embora não exclusivamente para ele).

E, segundo ele, de modo geral essas empresas relataram ter obtido em 2022 incrementos de seus negócios com esse setor situados na faixa entre 10% a 20% (relativamente a 2021).

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DESEMPENHO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE MÁQUINAS EM 2022

Válvulas e bombas – Assim como ocorreu com os produtores de equipamentos para a indústria de O&G, também os fabricantes nacionais de bombas e motobombas informaram ter obtido em 2022 incrementos de vendas situados quase sempre no patamar dos dois dígitos.

É o que diz Francisco Novaes, presidente da CSBM (Câmara Setorial de Bombas e Motobombas) da Abimaq.

A câmara reúne as empresas responsáveis por quase 100% da produção nacional desses equipamentos.

E, embora perceba um cenário ainda com muitas incertezas, Novaes projeta 2023 também como “um bom ano” para essas empresas.

Especialmente, havendo um controle mais rígido da inflação: não apenas aqui, mas também a inflação no exterior, que se elevando pode afetar um segmento da indústria que utiliza muitas matérias-primas e insumos importados.

“Se conseguirmos controlar a inflação e forem mantidos os investimentos anunciados na campanha do atual governo, poderemos até ter desempenho similar ao do ano passado”, projeta.

A indústria de O&G, especifica o presidente da CSBM, deve este ano elevar de forma mais relevante sua demanda por bombas e motobombas, enquanto a indústria química deve seguir comprando esses equipamentos para projetos já programados.

“Também não há volta para o marco do saneamento, pode haver até algum breque no início do novo governo, mas os investimentos devem se manter. O setor agro também deve seguir investindo, porém em ritmo inferior ao do ano passado”, complementa.

Agronegócios e indústria química, ele diz, estiveram também entre os mercados que no decorrer de 2022 mais contribuíram para o incremento dos negócios das empresas integrantes da CSBM.

“Mais no final do ano cresceu a demanda do setor de O&G, que tenho quase certeza se manterá mais aquecido no decorrer deste ano”, enfatiza.

Esses mesmos setores de O&G e agro, juntamente com o saneamento, contribuirão para o incremento das vendas de válvulas industriais, observa Djalma Bordignon, presidente da CSVI, a Câmara Setorial de Válvulas Industriais da Abimaq.

“O setor de válvulas industriais cresceu de forma constante nas últimas duas décadas e esse crescimento se manterá em 2023”, garante Bordignon.

O agronegócio, ele especifica, investirá em novas válvulas focadas principalmente em projetos de automação destinados à melhoria de produtividade, enquanto os investimentos em saneamento serão impulsionados pelo marco regulatório que hoje rege esse setor.

“Na área de óleo e gás, por não ser mais viável a importação de derivados pelo aumento do preço, precisaremos construir mais FPSOs e mais refinarias”, ressalta.

O apelo dos importados – Ao menos nesse período inicial, 2023 se apresenta com boas perspectivas para as vendas de equipamentos importados ao mercado brasileiro, afirma Paulo Castelo Branco, presidente-executivo da Abimei – Associação Brasileira de Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais.

Mas a concretização dessas perspectivas, “dependerá do novo governo começar a implementar medidas que realmente aqueçam a atividade industrial do país”.

Castelo Branco considera promissoras algumas das medidas já anunciadas pelo governo, tanto na esfera federal, quanto no âmbito do estado de São Paulo.

Caso, no primeiro desses dois grupos, da nomeação de Geraldo Alckmin como Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

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Castelo Branco: financiamentos precisam chegar aos importados

“Ele foi um bom gestor no Estado de São Paulo, tem boa visão do setor industrial”, avalia Branco.

Por sua vez, o novo governo paulista parece interessado em agilizar iniciativas capazes de repercutir positivamente nas atividades econômicas.

“E São Paulo é o principal polo da economia nacional”, destaca.

Para incrementar ainda mais suas vendas, o presidente da Abimei demanda a estruturação de canais de financiamento também para máquinas e equipamentos importados, mais ajustados, ele qualifica, às principais tendências do desenvolvimento da indústria global, como a indústria 4.0 e a automação.

“Mas precisa ser financiamento ao longo prazo, pelo menos cinco anos”, ressalta.

Sugere ainda a criação de polos ou condomínios industriais nos quais os importadores teriam subsídios para instalar sucursais e subsidiárias.

“Também deve haver incentivo à cadeia que traz conjuntos importados para a montagem parcial das máquinas no Brasil, incentivando a criação de joint-ventures, parcerias e montadoras locais de equipamentos e máquinas”, solicita Castelo Branco.

No ano passado, mostram os dados da Abimei, a importação de máquinas e equipamentos aumentou em 13%, relativamente a 2021.

Índice, ressalta o presidente da entidade, bem superior ao do crescimento do PIB do país, e mesmo das vendas da indústria local de máquinas. Isso se deve a diversos fatores, entre eles, algumas decorrências da pandemia – como a falta de insumos e encarecimento dos processos logísticos – que, ao prejudicaram o abastecimento de diversos mercados, mostraram quão problemático pode ser concentrar a produção mundial em algumas regiões, como vinha acontecendo especialmente na China e em outros países asiáticos.

Antes da pandemia, pondera o presidente da Abimei, até poderia ser vantajoso importar da Ásia mesmo produtos de baixo valor.

“Mas com os custos logísticos aumentando mais de dez vezes isso ficou inviável, e muitos países viram que precisavam reforçar a produção local, e para isso importaram equipamentos”, destaca.

“No Brasil, passou-se a produzir mais utilidades domésticas, autopeças, eletrodomésticos, implementos rodoviários, componentes de energia solar, eletroeletrônicos, entre outros artigos”, finaliza.

CNI – A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta para 2023 expansão de 0,8% no PIB industrial do país, e de 1,6% no conjunto da economia nacional.

Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da entidade, salienta que essas projeções foram feitas em cenário ainda pouco definido, no qual não são desprezíveis as possibilidades de ocorrências capazes de alterá-las: entre elas, a reforma tributária, capaz de impactar positivamente o contexto.

Essa reforma, ressalta Azevedo, teria reflexos principalmente no médio e no longo prazos, contribuindo, por exemplo, para um processo mais consistente de queda nas taxas de juros.

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Azevedo prevê expansão de 0,8% no PIB industrial deste ano

“Mas pode também ser interessante já este ano, como um norte importante, uma injeção de ânimo para os investidores”, pondera o especialista da CNI.

Também Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), qualifica uma reforma tributária como agente estimulante da indústria nacional.

Até porque o reconhecimento explícito do novo governo sobre a importância da indústria para a economia nacional pode enfatizá-la no caso dessa reforma.

“O setor industrial sofre mais com o contexto tributário, tem cadeias produtivas mais longas e embute mais riscos”, explica.

“Mas não basta indicar maior preocupação com o setor industrial, é preciso desenhar estratégias que aproximem nossa indústria do restante do mundo, em quesitos como sustentabilidade, digitalização, inovação”, recomenda.

Pode-se perceber também, prossegue o economista do Iedi, fatores potencialmente negativos para o desempenho da indústria nacional, como o movimento de desaceleração da economia global e a persistência de fortes tensões internacionais.

Sem contar com as taxas de juros, que, embora não devam aumentar, ao menos em um futuro próximo, provavelmente permanecerão por mais algum tempo nos elevados patamares atuais, prejudicando uma atividade que depende de financiamentos tanto na etapa de produção, quanto em suas vendas.

Conjugando essas várias perspectivas, Cagnin visualiza para este ano um PIB industrial estagnado, ou mesmo com alguma queda, relativamente a 2022.

Identifica, porém, alguns segmentos que talvez se mantenham mais aquecidos, como a produção de equipamentos para transporte e para papel e celulose.

Ou mesmo no setor químico, em vertentes como as indústrias farmacêuticas e de fertilizantes, esta última, até por ter sido exposta de maneira muito nítida pela guerra entre Ucrânia e Rússia como perigosamente dependente do mercado externo.

No mercado dos fertilizantes, ressalta Cagnin, o país não pode trabalhar apenas na substituição das importações.

“É necessário investir em nichos de inovação, por exemplo, com produtos nanoestruturados que liberem mais lentamente o nitrogênio, reduzindo as perdas”, sublinha.

“A química vinculada à biodiversidade também pode ser uma interessante frente de negócios”, acrescenta o profissional do Iedi.

Azevedo, da CNI, crê que no decorrer deste ano se manterão mais aquecidas as vertentes industriais dedicadas a produtos menos vinculados a crédito, e mais diretamente dependentes da renda da população, como alimentos e artigos de higiene e beleza.

E o setor agro, ele prossegue, prejudicado em 2022 por problemas climáticos, deve registrar melhor desempenho este ano.

A construção civil, complementa Azevedo, apesar das elevadas taxas de juros deve manter um ritmo ao menos razoável de atividade, até por trabalhar com ciclos longos de produtos, vários deles concebidos já há algum tempo.

“Talvez diminuam os novos lançamentos, mas os projetos já desenvolvidos pelo setor imobiliário devem ser implementados”, afirma o profissional da CNI, que estima que no ano passado o PIB industrial brasileiro cresceu 1,8% sobre 2021.

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