Máquinas – Dólar caro favoreceu vendas de nacionais
Perspectivas 2021
Dólar caro e bloqueios em vários países favoreceram vendas da indústria nacional – Perspectivas 2021
Nem a Covid-19, nem as persistentes dificuldades da economia nacional, impediram a indústria brasileira de máquinas e equipamentos de expandir sua receita em pouco mais de 5% no decorrer de 2020, relativamente ao ano anterior (veja tabela com os destaques setoriais). Índice, inclusive, bem superior aos 0,7% de 2019 e devido principalmente aos negócios no mercado interno que, favorecidos pelo fechamento das fronteiras dos países após o surgimento da pandemia e pelo alto valor do dólar, elevaram-se 11%, crescendo mais acentuadamente em segmentos como máquinas para o setor agrícola, infraestrutura, embalagens de produtos de consumo direto e indústria farmacêutica.

A Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos projeta expansão algo maior para este ano, exatamente de 6,9% nas vendas, com incremento de 4,9% na produção. “Elevarão mais acentuadamente sua demanda o setor agro, a mineração, obras públicas e construção, indústrias de embalagens e de alimentos”, projeta José Velloso, presidente-executivo da entidade.
Entre as causas da expansão da demanda nacional por máquinas, Velloso inclui as reduzidas taxas de investimento do país: “para o Brasil crescer de forma sustentável 3,5 ou 4% ao ano, a taxa de investimentos deveria ser de pelo menos 24%; nos últimos anos, ela ficou entre 15% e 15,5%”, observa.
Para que suas expectativas se realizem, o dirigente da Abimaq solicita a implementação de iniciativas capazes de elevar a competitividade da indústria brasileira. Caso, entre outros, das debatidas reformas tributária e fiscal. “Também precisam avançar os marcos regulatórios que garantam maior segurança ao investimento em setores como energia, gás, saneamento, PPPs, licitações e concessões públicas”, complementa.

Óleo e gás
A elevação, após as acentuadas quedas do ano passado, nas cotações do petróleo no mercado internacional – no fim de janeiro, ficaram próximas US$ 55 por barril – estimulará a demanda por equipamentos e máquinas destinados ao setor de O&G neste ano de 2021, crê Alberto Machado, diretor de Petróleo, Gás, Bioenergia e Petroquímica da Abimaq. “Há uma tendência de viabilização de blocos exploratórios que não seriam viáveis com as cotações praticadas em 2020”, calcula.
Mas as perspectivas da indústria nacional de máquinas para O&G seriam ainda melhores, ressalta Machado, “não fossem as sensíveis reduções nos índices de conteúdo local levadas a efeito pelo governo nos anos de 2017e 2018”. Reduções, ele lamenta, que associadas aos fatores que oneram a produção local hoje estimulam empresas até a preferirem pagar multa caso ultrapassem algum limite de conteúdo importado, pois mesmo assim obterão vantagens financeiras. “Não tenho dúvidas: a demanda por equipamentos para O&G logo estará nos patamares pré-crise, talvez até um pouco superiores. A dúvida é se a indústria nacional conseguirá atender a essa demanda”, pondera Machado.
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Para Idarilho Nascimento, presidente do Conselho de Óleo e Gás da Abimaq, essa demanda será ainda mais favorecida pelo processo de desinvestimento hoje implementado pela Petrobras, que vem se desfazendo de vários ativos, entre eles, campos de exploração onshore e agora trabalha na venda de refinarias. “A Petrobras está se concentrando no pré-sal, que gera retornos financeiros maiores. Mas esse desinvestimento atrai players menores, mais adequados aos volumes de produção onshore, e que já estão investindo nas áreas recém-adquiridas”, detalha Nascimento.
Também impactará positivamente o setor a finalização do processo de aprovação da Nova Lei do Gás, que ele espera ocorrer brevemente. “Ela reduzirá o preço do gás, tornando essa indústria mais competitiva e atraindo novos players”, argumenta Nascimento.
Em 2020, como relata, em grande parte do ano a indústria nacional de máquinas e equipamentos para O&G viveu basicamente de negócios destinados à manutenção e apenas no último trimestre teve início uma “leve retomada” da demanda relacionada a novos investimentos. “Mas tenho bastante esperança: hoje em dia fala-se muito em energia limpa, mas por um bom tempo o petróleo ainda terá valor relevante”, confia Nascimento. “E as empresas fornecedoras dessa indústria também começam a olhar para os mercados da energia limpa, até porque em muitos casos eles usam os mesmos equipamentos, como válvulas e bombas”, acrescenta.

Válvulas e desindustrialização
Também a demanda do mercado nacional de válvulas crescerá no decorrer deste ano, prevê Maurício Garcia, vice-presidente da CSVI (Câmara Setorial de Válvulas Industriais) da Abimaq. “Difícil falar em números, mas não será um crescimento expressivo. Agronegócios, segmentos da infraestrutura, como saneamento, mineração e O&G deverão ser os setores com maior expansão de demanda”, detalha.
Em 2020, avalia Garcia, a indústria brasileira de válvulas industriais realizou volume de negócios similar ao do ano anterior. “Mercado muito importante, a indústria química registrou uma situação difícil, com queda de 10% a 15%”, especifica o dirigente da CSVI, citando como grande desafio atual desse setor o enfrentamento da concorrência global, intensa tanto no segmento dos produtos de baixo preço – em que predominam competidores asiáticos –, quanto no mercado de maior valor. Nesse último caso, incluindo válvulas embarcadas em plataformas trazidas prontas do exterior pela Petrobras. “Precisaremos de reformas fiscais e tributárias, crédito e câmbio favorável para nossos negócios”, pleiteia Garcia.
[adrotate banner=”276″]Por sua vez, Velloso reivindica um processo de abertura à concorrência internacional no qual se privilegie quem agrega mais valor aos produtos, com a simultânea expansão da abertura à competitividade do mercado de matérias-primas. “No Brasil, matérias-primas são entre 30% e 60% mais caras que em outros países, é preciso ampliar a competitividade no fornecimento de aço, de aço inox, de polipropileno, de combustíveis”, especifica.
Somente essas e outras medidas de minimização dos fatores desfavoráveis aos custos da produção no Brasil, acredita Velloso, reverterão um processo de contínua desindustrialização da economia nacional. “Há trinta anos, a participação da indústria de transformação no PIB do país era de 25%; hoje, está em 11%”, compara. “A saída da Ford, e pouco antes da Sony, apenas expõem a continuidade de um processo que já vem de décadas”, ressalta o presidente-executivo da Abimaq.