Manutenção industrial – Setor recupera prestígio ao manter as fábricas em operação por mais tempo

Revista Química e Derivados, Manutenção Industrial, Setor recupera prestígio ao manter as fábricas em operação por mais tempoO volume de investimentos brasileiros em manutenção industrial chegou a 4% do PIB em 2010, percentual semelhante ao exibido pelos países mais desenvolvidos. Como esse percentual foi alcançado em um período de elevados aportes de recursos em novas capacidades produtivas, as previsões do segmento são muito estimulantes. A par da expectativa de demanda engordada, os prestadores de serviços em manutenção sentem a recuperação do prestígio da atividade, até há algum tempo classificada apenas como componente de custos. A visão mais moderna alia esses trabalhos à gestão estratégica dos ativos, pretendendo aumentar a disponibilidade operacional de fábricas e equipamentos e, com isso, melhorar a rentabilidade global dos empreendimentos.

A retomada do crescimento industrial do Brasil e os investimentos que tornam Pernambuco um novo polo da cadeia de petróleo e gás e das indústrias naval e petroquímica apareceram nos resultados da Conferência sobre Tecnologia de Equipamentos – Coteq 2011, realizada de 10 a 13 de maio, pela Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos e Inspeção (Abendi), na famosa praia de Porto de Galinhas, no Litoral Sul pernambucano. É lá onde fica o Complexo Industrial e Portuário de Suape, sede da Refinaria Abreu e Lima e da PetroquímicaSuape, investimentos da Petrobras que vão incrementar a demanda por ensaios e inspeção no estado. “Trazer o evento para Pernambuco foi uma iniciativa fantástica da Abendi, dada a grande concentração de investimentos”, avaliou o presidente da Refinaria Abreu e Lima, Marcelino Guedes.

Para o diretor executivo da Abendi, João Conte, esse cenário foi decisivo para quase dobrar o número de participantes da conferência, que passou dos 980 da edição anterior, em 2009, para 1.674, nesta. “O resultado foi muito além das nossas expectativas e já decidimos que a edição de 2013 também será em Pernambuco”, informou Conte, ressaltando que, neste ano, a presença de empresas, especialistas e empresários estrangeiros conferiu um caráter internacional à Coteq 2011.

Nos próximos dois anos, Pernambuco já deverá processar os primeiros barris de petróleo na Abreu e Lima, dando repercussão aos aportes públicos no estado que, só do BNDES, recebeu R$ 17,5 bilhões em 2010 na área de coque, refino de petróleo e combustíveis. Mesmo não produzindo petróleo, Pernambuco entra com ênfase na cadeia produtiva que, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP), conta com uma produção crescente no Nordeste. Em 2000, a região teve uma participação de 11% na produção nacional de derivados e, no ano passado, o índice foi de 15,9% com as atuais refinarias em funcionamento. O destaque ficou com a Bahia, que, em 2010, respondeu por 14,8% da produção brasileira.

Focados no futuro bem próximo, empresas nacionais e multinacionais aproveitaram para apresentar seus produtos na Exposição de Tecnologias de Equipamentos para Corrosão e Pintura (Expoequip) e tratar, nos seminários e congressos paralelos, dos principais temas que envolvem os ensaios não destrutivos, responsáveis pela ‘qualidade de vida’ e rentabilidade dos empreendimentos e seus ativos.

As áreas de inspeção e manutenção aparecem entre as mais promissoras. O engenheiro de equipamentos da Diretoria de Exploração e Produção da Petrobras, Laércio Rocha, confirma a expectativa de expansão da manutenção no rastro dos vários projetos da estatal que incluem plataformas para exploração do pré-sal e novas refinarias que aumentam a preocupação com a integridade das instalações e com os impactos ambientais. “É uma área em que vale a pena apostar. O mercado de petróleo no Brasil vai crescer muito e se expandir. No exterior, as empresas ficam espantadas com a velocidade dos acontecimentos e há uma tendência de se estabelecerem no Brasil para atender à demanda”, afirmou, admitindo que a Petrobras já faz contratos internacionais para a área de manutenção, seja para consultorias ou trabalhos específicos em equipamentos.

Atendidas por profissionais com alta qualificação, as empresas de manutenção e inspeção ainda terão de enfrentar muitos desafios na formação e regulamentação da mão de obra e na consolidação do conceito de que não representam custos, mas investimentos. O diretor presidente da Íntegra, Teófilo de Souza, depois de 25 anos de Petrobras, deixou a estatal e se juntou a outros especialistas em inspeção para atender, especialmente, a própria Petrobras. Com sede no Rio de Janeiro, a Íntegra já recebeu pedidos para levar pessoal à PetroquímicaSuape e poderá abocanhar um mercado em Pernambuco que, segundo ele, ainda não foi percebido pelos empresários locais, surpresos com a explosão regional e sem saber como aproveitar as possibilidades de negócios das cadeias que começam a mudar o perfil industrial do estado, historicamente ligado à indústria sucroalcooleira.

Esta visão é compartilhada por especialistas na economia pernambucana e refletida no reduzido número de cadastrados do estado como fornecedores da Petrobras, a mãe dos maiores investimentos estruturadores que chegam a Suape. Ponto para quem tem a expertise de Teófilo de Souza ou se associa a empresas também qualificadas. “Estamos ensinando a fornecer para a Petrobras”, afirmou o executivo. Para aprender é preciso ter condições de atender a requisitos como mais de 500 horas de treinamento teórico e ainda de aprendizado no campo, na prática. O processo de criação de um novo polo industrial, segundo o diretor da Íntegra, pode abrir espaço para fábricas de motores e componentes de solda, além de instalações que recebem tubos e válvulas para montagem no local, entre outros.

As novas tecnologias ligadas à inspeção podem impulsionar o setor e quem deseja investir nele. Entre as apresentadas na Coteq 2011, uma das que mais despertou interesse, segundo João Conte, foi a ISQ Brasil, grupo português que oferece uma metodologia de inspeção baseada em risco, o RBI (risk based inspection) para avaliação de riscos em unidades de refino, offshore e petroquímicas. De acordo com Ricardo Caldeira, diretor técnico da ISQ Brasil, a metodologia, criada há dez anos, foi discutida entre usuários de software do American Petroleum Institute (API), como a Braskem e a Petrobras, que trataram dos avanços e da evolução da metodologia que já é aplicada em refinarias da Petrobras e poderá ser usada na Abreu e Lima.

“Numa sessão especial sobre RBI, na qual discutíamos aplicações diversas, conseguimos modelar, de maneira construtiva, como esta metodologia se encontra no Brasil e traçar as perspectivas de aplicação futura”, revelou Caldeira. Para ele, o estado da arte da metodologia acompanha a evolução do Brasil: o software melhorou muito e as aplicações podem aumentar significativamente com o retorno positivo que é poder quantificar o risco, ver a possibilidade de falhas e assim reduzir custos. “Temos várias refinarias e grandes perspectivas de ampliar este parque industrial”, prevê Caldeira, que é também coordenador do grupo de inspeção do IBP. Para ele, a reação positiva revela os anseios da comunidade, identificados como um ponto importante para o evento.

Negócios na gestão – Os últimos dados do Mapa da Manutenção, resultado de uma enquete da Associação Brasileira de Manutenção (Abraman), apontam que em 2010 o setor esperava movimentar R$ 120 bilhões no Brasil, ou 33% acima do levantamento anterior. A pesquisa, realizada com as maiores empresas do país nos setores de petróleo e gás, papel e celulose, de saneamento, energia, transporte, automotivo, siderúrgico, metalúrgico, petroquímico e têxtil, está sendo atualizada e será apresentada em setembro no 26º Congresso Brasileiro de Manutenção, em Curitiba-PR. De acordo com o presidente da Abraman, João Ricardo Lafraia, os investimentos previstos até 2010 representam 4% do PIB brasileiro, um percentual equivalente ao que os países industrializados investem em manutenção, com expectativa de crescer proporcionalmente em relação à economia nacional e ao consequente aumento do parque industrial e da cadeia de petróleo e gás. “É importante que os investimentos nos ativos sejam acompanhados pelos de manutenção”, afirmou.

Revista Química e Derivados - João Ricardo Lafraia, Presidente da Abraman
Lafraia: setor de manutenção cresceu 33% no ano passado

Eleito secretário-geral do Fórum Global de Gestão de Ativos e Manutenção, Lafraia disse que os países industrializados estão tratando a manutenção como uma das fases da gestão de ativos, aplicando o conceito na gestão de rodovias, campos de futebol, refinarias, entre outros empreendimentos. “A manutenção não pode ser tratada como um centro de custo, mas como parte do ciclo de vida de um ativo”, defendeu, ressaltando que isso exige investimentos e certificados contra os riscos de impactos ambientais, sociais e do próprio negócio.

A Petrobras, segundo ele, começará a cobrar a certificação do Programa Nacional de Qualificação e Certificação de Pessoal na Área de Manutenção (PNQC, da Abraman) dos seus fornecedores de construção e montagem. Esses setores, na opinião de Lafraia, ainda precisam melhorar seu grau de automação e produzir tecnologia para dar conta da relação demanda vs. falta de pessoal qualificado. “A iniciativa da Petrobras pode ser adotada como modelo para outros setores e empresas”, disse o presidente da Abraman.

O Mapa da Manutenção revela ainda uma tendência, percebida desde 2005, do crescimento do nível hierárquico da gerência de manutenção. Isso comprova que as companhias estão dando mais ênfase na gestão e, por consequência, aumentando a necessidade de pessoal especializado com conhecimento, capacidade e competência para a condução da gestão da manutenção nas companhias.

A carioca WCR Engenharia, no mercado de consultoria e execução de manutenção há 16 anos, conta com a expertise em Petrobras, adquirida pelo sócio William Dantas, que se aposentou como engenheiro da estatal com apenas 43 anos de idade. Montou seu negócio e, depois de criar planos e executar serviços de manutenção em 13 plataformas de petróleo, chegando a ter 900 empregados terceirizados para a Petrobras no Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro, começou a implantar a gestão de manutenção em empresas de comércio e serviços. A mudança, segundo Dantas, trouxe mais tranquilidade e a descoberta de um nicho na manutenção centrada na confiabilidade (MCC), que analisa as possíveis falhas na prestação de serviços. “No Brasil, acho que só eu estou fazendo isso”, suspeita Dantas.

A MCC, segundo ele, atua no equilíbrio entre a manutenção preditiva e a corretiva. Esta última é a responsável pela visão de que o pessoal da manutenção apenas conserta o que quebra, implicando despesas. “Mas, embora seja um dos primeiros serviços cortados na hora de economizar, a manutenção adequada pode elevar em até 10% a produtividade numa empresa”, assegura.

Mas se na área de inspeção, parte integrante da manutenção, um dos gargalos é a falta de pessoal qualificado, as empresas que lidam diretamente com a execução de serviços também sofrem do mesmo mal. O Mapa da Manutenção aponta que 31% dos investimentos projetados são para gastos com pessoal próprio e 27% com a contratação de outros serviços, enquanto 33% são destinados às despesas com materiais. Outra constatação foi que a rotatividade entre os profissionais vem aumentando e chegou a 3,7% na última pesquisa, superando os 2,39% da anterior.

Profissionalização – Para atender a Petrobras, as empresas de manutenção precisam ter profissionais certificados pelo PNQC da Abraman. Isso tem elevado os salários de quem obteve os certificados e, segundo Dantas, dificulta a vida das empresas com poucos recursos. “A jogada agora é qualificar pessoas para lidar com as necessidades da manutenção, com tecnologia e se preparar para a gestão do negócio”, concluiu o empresário, que considera “muito melhor organizar a gestão da manutenção do que executá-la”. Uma das atividades da WCR é promover capacitações de pessoal para aplicação da NR-10, a norma oficial regulamentadora de segurança em instalações e serviços em eletricidade, uma demanda constante em empresas do sudeste do país.

Teófilo de Souza formou uma cooperativa com outros ex-engenheiros da Petrobras e técnicos autônomos para prestar serviços em inspeção e treinamentos e diz que não se arrepende. Fez MBA em gestão de empresas e, apesar da sazonalidade, acha que atua num bom mercado. “Cansei de ver empresas de inspeção fecharem as portas, mas há uma reviravolta, embora a área tenha muitas exigências”, afirmou.

Para lidar com elas e ajudar na formação dos profissionais, Souza participa do Grupo Regional de Inspeção do Estado do Rio de Janeiro, no qual são trocadas experiências e promovidos seminários que apresentam o mercado de inspeção a estudantes que nem conhecem a atividade, mas que poderão obter um certificado de inspetor de equipamentos em cursos de cerca de quatro meses. “Estamos atrasados no tempo, a demanda já existe”, sentenciou Teófilo de Souza, que é ainda vice-coordenador da Comissão de Inspeção do IBP. Ele participa da organização de um seminário que reunirá, em outubro, no Rio de Janeiro, grandes empresas, o IBP, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – órgão registrador desses profissionais – e instituições de ensino. O encontro pretende incentivar um movimento que defende a criação de cursos de inspeção de equipamentos como extensão de cursos técnicos. “Um inspetor de ensaios não destrutivos faz cursos de 40 horas promovidos pela Abendi, que o habilita, depois de provas, a exercer a atividade, mas, por não ser uma profissão regulamentada, não há estágios. Minha luta é para que esta profissão seja reconhecida”, disse Teófilo de Souza.

Segundo ele, no Paraná, há um curso reconhecido pelo Ministério da Educação, com apoio da Petrobras, que é um exemplo a ser seguido por outros estados, podendo formar pessoal para a construção civil, indústrias e até para empresas nucleares. Com a falta de profissionais preparados, há casos em que técnicos de inspeção ganham mais do que engenheiros. Na área de offshore a procura já provoca a migração de profissionais de outros setores e a chegada de engenheiros estrangeiros para trabalhar com inspeção no Brasil.

Conteúdo nacional – Uma das boas discussões da Coteq 2011 se deu na mesa-redonda sobre conteúdo nacional e desenvolvimento tecnológico de fornecedores, durante o último dia do evento. Coordenada pelo presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), Diogo Ardaillon Simões, a mesa serviu como prato principal os problemas enfrentados por produtores brasileiros para chegar ao cadastro de fornecedores da Petrobras, a estatal que tem entre seus princípios usar 70% de conteúdo nacional em suas aquisições de materiais e serviços.

A concorrência internacional, que oferece preços mais baixos com modelos de produção não comprometidos com encargos trabalhistas ou de impostos que oneram as empresas nacionais, vem sendo digerida com dificuldade pelos fabricantes de equipamentos do Brasil. O diretor industrial da Jaraguá, Helder Neves, criticou a falta de materialização do discurso oficial de incentivo ao conteúdo nacional e que, segundo ele, vem contribuindo para o encerramento de atividades de várias empresas. “Um ponto importante para evitar isso é a flexibilização do acesso ao Certificado de Registro de Classificação Cadastral (CRCC) da Petrobras para empresas de médio porte. Hoje, quem nunca fabricou não o recebe”, sugeriu.

O gerente da Confab Equipamentos, Edson Morimoto, assegurou que as empresas brasileiras estão preparadas para atender às demandas locais, mas, por causa da relação cambial, as importações continuam em alta, mantendo a entrada de produtos feitos em países como a China, a Coreia e o Vietnã, principalmente nas áreas de petróleo e gás. Segundo ele, os brasileiros não conseguem concorrer por falta de preço, pela burocracia e por causa da alta carga tributária do país. Chega-se a ponto de as empresas contratantes admitirem pagar multas por não atingir a cota de conteúdo nacional e, ainda assim, sair mais barato importar. Morimoto revelou que a Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) pretende inibir a prática com um selo de normatização para equipamentos estrangeiros que seria exigido também para equalizar a qualidade dos importados.

“Falta isonomia para a gente; vejo muita desigualdade entre o que fazemos no Brasil e o que é feito lá fora. A concorrência é bem desleal e muitas normas brasileiras não são respeitadas pelos estrangeiros”, afirmou Eduardo Menezes, da Protub, empresa que se enquadra entre os subfornecedores da Petrobras.

Para quem vem de fora decidido a se inserir no amplo mercado que surge no país, o cenário também está nublado. Empresas espanholas têm desistido de se instalar no Brasil porque não entendem os passos exigidos pela legislação
nacional e esbarram em dificuldades para formar joint ventures, criar estruturas e contratar profissionais.

[box_light]Leia mais: Manutenção Industrial – Instituto explora novas aplicações para a galvanização a quente[/box_light]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.