Lideranças femininas debatem os desafios das mulheres

Lideranças femininas debatem os desafios das mulheres na política, indústria e academia 

Profissionais contam como quebraram barreiras para alcançar cargos inéditos entre mulheres

O evento “Liderança Feminina”, promovido pela Associação Brasileira da Indústria Química – Abiquim, no dia 12 de março, reuniu mulheres de destaque na política, indústria e academia para compartilhar experiências das suas trajetórias profissionais.

Em comum, as palestrantes destacaram a necessidade de inovar, ter coragem e ousadia para aceitar novos desafios, e esforço e disciplina na busca pelo preparo acadêmico.

Segundo a diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Abiquim, Marina Mattar, o evento teve o objetivo de celebrar o Dia Internacional da Mulher (8 de março), promover o intercâmbio entre a indústria e a academia e A troca de experiências entre mulheres líderes e potenciais lideranças.

“As mulheres vêm alcançando posições de destaque na indústria e na academia, chegando a ocupar os principais cargos de liderança nas duas áreas, queremos promover um debate que estimule jovens profissionais e pesquisadoras, além de mostrar os caminhos percorridos para alcançar essas posições”.

A senadora Kátia Abreu (PDT-TO), que abriu o evento, lembrou que alguns ambientes profissionais demandam uma postura mais rígida para se ter o respeito dos colegas.

“Preconceitos existem e os demais pecuaristas duvidavam que eu conseguiria manter a Fazenda Aliança. Estava no último ano de psicologia quando meu marido faleceu e passei a estudar os temas ligados ao dia a dia da fazenda para assumi-la”.

A incessante busca pelo conhecimento e inovação possibilitou à senadora ter uma atuação de destaque na área rural.

“Fazia inseminação artificial no gado quando mais ninguém fazia. Era necessário fazer melhor e diferente dos demais”.

Essas características colaboraram para que Kátia iniciasse sua trajetória política.

“Fui convidada para ser a presidente do sindicato rural de Gurupi, em seguida ganhei a eleição da Federação da Agricultura do Tocantins (Faet)”.

Posteriormente ela foi eleita deputada federal, senadora e a primeira mulher a presidir a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e seu conhecimento sobre o tema lhe possibilitou ser a primeira mulher a assumir o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Abiquim, Marina Mattar, foi responsável pela mediação do painel que uniu representantes da academia e indústria.

“O objetivo foi mostrar os desafios superados por essas profissionais para ocuparem cargos de liderança e discutir como nós mulheres – que representamos mais de 50% da população brasileira e temos um nível médio educacional maior que os homens – podemos contribuir para a geração de empregos e retomada do crescimento econômico”.

As convidadas abordaram temas como a maternidade e o retorno ao ambiente de trabalho e as políticas para a inserção de mulheres no mercado, incluindo a necessidade de serem criadas políticas públicas e privadas que promovam o aumento no número de creches e espaços de amamentação nas empresas.

A presidente do Grupo Solvay na América Latina e da Unidade Global de Negócios Coatis da Solvay e membro do Conselho Diretor da Abiquim, Daniela Manique, explicou que um dos pontos importantes da liderança feminina é não adquirir as características de um “homem”.

“A diversidade não é ter uma mulher com as características das lideranças masculinas. São as características da liderança feminina que geram a diversidade e um diferencial no ambiente corporativo”.

Apesar de não terem planejado alcançar os cargos que ocupam, as líderes destacaram a necessidade de estarem prontas para aproveitar as oportunidades.

A diretora Comercial e de Desenvolvimento de Mercado da Braskem, Isabel Figueiredo, lembrou que teve a oportunidade de trabalhar na área de Custos e Orçamentos, e por ser formada em Letras decidiu estudar Economia.

“Nunca deixe passar uma oportunidade e se prepare para isso, é preciso ser ativa e buscar seus objetivos”.

A coragem e ousadia para aceitar novos desafios também foram lembradas nas discussões. A primeira diretora mulher da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Liedi Legi Bariani Bernucci, explicou que sua carreira era focada na pesquisa e na engenharia, mas, quando surgiu a oportunidade, ela se candidatou à direção da Escola.

“Fui eleita com 200 de 217 votos. Sempre existirão barreiras que precisarão ser derrubadas”, contou a primeira mulher a exercer o cargo na Poli.

Química e Derivados - As pesquisadoras e fundadoras do Comitê Jovens Pesquisadores na Sociedade Brasileira de Química: Marilia Valli e Paula Bueno
As pesquisadoras e fundadoras do Comitê Jovens Pesquisadores na Sociedade Brasileira de Química: Marilia Valli e Paula Bueno

Outra precursora no ramo acadêmico, a professora titular do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Vanderlan Bolzani, também lembrou de sua eleição para a presidência da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), sendo também a primeira mulher a assumir a função.

“Fui primeira-secretária, secretária-geral e quando me tornei vice-presidente me candidatei. Pela primeira vez houve uma disputa para o cargo e ganhei. Se não tivesse a ousadia de me candidatar, nunca teria sido a primeira presidente mulher da SBQ”, relembra.

O painel contou ainda com a participação da líder de Compras de Matérias-primas, Embalagens, Manufatura Externa e Logística para a Dow na América Latina, Adriana Amelio.

Todas as painelistas tinham em comum a maternidade e compartilharam suas experiências, neste momento em que muitas profissionais decidem interromper suas carreiras.

“Na primeira maternidade pensei em parar de trabalhar, mas senti que precisava seguir os meus sonhos. Vocês que pretendem ser mães tenham resiliência nos primeiros meses, é uma decisão difícil retomar o trabalho, mas é necessário seguir os sonhos”, afirmou Adriana.

Mulheres da academia e da indústria conectadas

As jovens pesquisadoras e doutoras em Química pelo Instituto de Química da Unesp de Araraquara, Marilia Valli, e da USP, Paula Bueno, apresentaram o Comitê Jovens Pesquisadores na Sociedade Brasileira de Química (JPSBQ), que será lançado oficialmente no workshop “Jovens Pesquisadores: futuros líderes nos setores acadêmico e empresarial”, a ser realizado na 42ª Reunião Anual da SBQ, que acontece de 27 a 30 de maio, em Joinville-SC.

Paula lembrou que o comitê teve origem em 2015 quando foi a uma reunião da American Chemical Society para receber um prêmio. “Era a única representante da América do Sul e participei da reunião para a criação da International Younger Chemists Network (IYCN), da União Internacional de Química Pura Aplicada (Iupac), e que foi lançada no Brasil em 2017. A Marilia me informou que estava no IYNC e decidimos criar um comitê nacional”.

Segundo Marilia, o objetivo do JPSBQ é conectar a academia, jovens pesquisadores e indústria, além de estimular a participação de mestrandos, doutorandos, pós-docs e jovens professores em reuniões e encontros internacionais.

“Queremos trabalhar em prol da maior interação entre jovens cientistas de todo o mundo e principalmente da América do Sul, e na promoção de interação com associações nacionais e internacionais”.

Ações para promover para um ambiente equilibrado

Um dos temas abordados no evento foram as políticas realizadas pelas empresas para aumentar a participação das mulheres no quadro de colaboradores nos escritórios e nas plantas industriais.

A líder de Compras de Matérias-primas, Embalagens, Manufatura Externa e Logística para a Dow na América Latina, Adriana Amelio, explicou que no início da carreira há uma proporção igual de homens e mulheres na empresa, mas as mulheres representam 37% dos cargos de liderança.

Adriana explicou que para equilibrar essa proporção são desenvolvidas ações focadas na etapa de carreira de cada profissional.

“Para quem tem até 5 anos de empresa, temos um programa focado em networking para garantir que ela consiga fazer conexões com pessoas diferentes, entre 6 e 15 anos é trabalhado o mentoring, pois um mentor pode auxiliar nas decisões complexas sobre a carreira”.

A presidente do Grupo Solvay, Daniela Manique, contou que a empresa adota a política de ter uma mulher entre os dois finalistas para uma nova vaga de trabalho e são praticados o home office e a jornada flexível de trabalho.

O Grupo Solvay também tem em suas políticas de diversidade a meta de, até 2020, ter pelo menos 20% dos altos cargos, formados pelo comitê executivo e direção, preenchido por mulheres, tendo como base de comparação o ano de 2015.

Na América Latina, a quantidade de mulheres em nível de direção já ultrapassou a meta de 20% estabelecida para o ano de 2020.

No caso da Braskem, Isabel Figueiredo lembrou que em novas contratações entre os dois finalistas precisa haver ao menos uma mulher.

Também foram criadas salas para que as mulheres que acabaram de ter filhos façam a coleta do leite materno, com o objetivo de facilitar o retorno dessas mulheres ao trabalho após a licença maternidade.

A empresa, por meio de sua área de Diversidade & Inclusão, iniciou um trabalho em 2014 para diagnosticar quais pontos estruturais poderiam ser melhorados nos escritórios e nas plantas industriais.

“Foram incluídos nesse trabalho a necessidade de aumentar a oferta de banheiros, vagas de estacionamento para gestantes, além das áreas para a coleta de leite”, complementa a analista da área, Debora Gepp. A meta da companhia é que até 2021 o índice de mulheres líderes na companhia seja de 32%.

Química e Derivados - Liedi Legi Bariani Bernucci (Poli-USP), Vanderlan Bolzani (IQ-Unesp), Daniela Manique (Grupo Solvay), Isabel Figueiredo (Braskem), Adriana Amelio (Dow) e Marina Mattar (Abiquim)
Liedi Legi Bariani Bernucci (Poli-USP), Vanderlan Bolzani (IQ-Unesp), Daniela Manique (Grupo Solvay), Isabel Figueiredo (Braskem), Adriana Amelio (Dow) e Marina Mattar (Abiquim)

Debora explicou que são realizados treinamentos com os líderes da empresa para serem trabalhadas questões como a igualdade de gênero.

“No ano passado, 500 líderes foram treinados e nossa meta é treinar os 300 restantes este ano.

O avanço pode ser medido pela recente promoção de uma colabora ao cargo de ROI, que é o profissional responsável pela supervisão da operação industrial, na planta de Duque de Caxias-RJ e que é uma posição considerada masculinizada na indústria”, completou.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.