IYC 2011 – Química Têxtil – Inovações químicas apoiam a criatividade dos estilistas

Revista Química e Derivados, Química Têxtil, Inovações químicas apoiam a criatividade dos estilistasSem a indústria química, o setor têxtil não existiria.” A frase, dita pelo vice-presidente da unidade de negócios Textile Chemicals da Clariant para as Américas, Markus Furrer, reflete a influência exercida pela química no desenvolvimento da indústria têxtil. Elizabeth Haidar, diretora de marketing da Rhodia Fibras, GBU (Global Business Unit), do grupo Rhodia, cunha outra expressão lapidar: “Sem o desenvolvimento da indústria química no setor têxtil, não teríamos roupas suficientes para atender os bilhões de habitantes do nosso planeta.”

Revista Química e Derivados, International Year of Chemistry 2011O segmento têxtil é um dos mais significativos mercados de consumo de produtos químicos. Em cada fase do processo de produção, da fibra ao tecido, a química está presente, como num casamento perfeito. Produtos para acabamentos em tecidos, tais como corantes, amaciantes, tensoativos etc., formam um grande eixo de importância química na indústria têxtil. E uma série de produtos baseados na nanotecnologia chega no mercado com força.

Jefferson Zomignan, coordenador do Comitê Setorial de Química Têxtil (CSQT), da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), calcula que as fibras químicas (sintéticas ou artificiais) representem 40% do volume total das fibras produzidas.

Os números globais são ainda mais robustos. Furrer dispõe de estatísticas que indicam um consumo mundial de fibras da ordem de 74 milhões de toneladas/ano. Desse total, 47 milhões (63%) se referem a fibras sintéticas e 27 milhões (37%) às naturais. “E as fibras sintéticas ainda têm espaço para crescer mais”, aposta o executivo, seja pelos menores preços em relação aos produtos naturais, pela funcionalidade ou pelo crescimento populacional.

A indústria têxtil é uma das mais dinâmicas, na medida em que oferece espaço para a criatividade do estilista. “A cada grande desfile, o mundo da moda se encanta com novas e inusitadas formas, fruto da criatividade do estilista. Ele sabe como ninguém empregar a sua principal matéria-prima, o tecido. E está sempre em busca de novos materiais e cores para surpreender e emocionar. Por isso, a cada estação se renova o desafio para a indústria têxtil: criar novos tecidos, capazes de despertar a imaginação do artista para mais uma coleção”, declara Marcelo Pacielo, gerente de venda de químicos para têxtil da Basf.

“Há um aumento da demanda do consumidor por vestuário que alie beleza e design ao conforto e ao bem-estar. Por isso, a indústria química tem um papel cada vez mais fundamental”, pontua Elizabeth Haidar.

E, nos tempos atuais, os têxteis, como não poderia deixar de ser, já estão vinculados à onda ecológica que varre o planeta. Os chamados tecidos funcionais estão no mercado e as novidades não param de surgir. E também há modificações nos processos de produção.

Zomignan diz que, com a evolução dos equipamentos utilizados no beneficiamento dos fios, tecidos e malhas e também na estamparia, devem chegar cada vez mais ao mercado produtos de alto desempenho que utilizam a menor quantidade de água e energia possível. “É impossível desenvolver produtos químicos sem pensar em termos ecológicos e sustentáveis hoje em dia”, acrescenta.

Ele assevera que, cada vez mais, as empresas fabricantes de roupas esportivas e infantis, as grandes lojas de varejo e os exportadores “exigem a aplicação de produtos que sejam atóxicos, de alta durabilidade e altíssima solidez à lavagem caseira”.

A evolução também passa por produtos com nanopartículas e nanotecnologicamente modificados. “Existem muitas novas moléculas e técnicas de aplicações para efeitos em substrato têxtil. As pesquisas são desenvolvidas e testadas em universidades do exterior e também aqui no Brasil”, observa Zomignan. Essas moléculas quando aplicadas ao substrato criam o chamado “tecido inteligente”, que possui propriedades funcionais diferenciadas, como: liberação de odores; proteção contra frio e calor, com químicos chamados de PCM (phase change material); proteção contra gases e químicos tóxicos (para uso militar, por exemplo); contra mosquitos (“os pescadores e churrasqueiros agradecem”, disse); antipólen e antialérgicos; com proteção contra os raios ultravioleta (UV); e contra a propagação de fogo.

Por tudo isso, Zomignan, também sócio-diretor da Werken Brasil Química, afirma que, na indústria têxtil, a química é usada para fazer produtos de auxílio à sustentabilidade da vida.

Para Elizabeth Haidar, as perspectivas da química nessa área “são muito boas” porque ainda há muito trabalho a ser feito no desenvolvimento de tecnologias e inovações aplicadas. “Eixos de trabalho tais como evoluções nos tecidos inteligentes, insumos para estamparia digital e acabamentos são alguns exemplos que deverão agitar bastante os negócios futuros do setor têxtil”, aposta.

No nicho de tecidos para decoração, recentemente foram apresentadas algumas novidades em feiras, como: tecidos aromatizados; tecido que brilha no escuro (indicado para clubes e quartos de crianças); e poliéster com propriedades do carvão ativado (absorve odores presentes no ar).

Sintonizada com as tendências dos novos tempos, a Clariant – sediada em Muttenz (Suíça), com mais de cem unidades industriais e comerciais nos cinco continentes – oferece ao mercado diversas novidades. Entre elas, a linha Coldblack, que bloqueia a ação dos raios UV, protegendo e garantindo uma sensação de frescor à pele.

O produto representa, no mínimo, um fator de proteção 28, mas, para atingir ou superar esse desempenho, é preciso levar em conta algumas variáveis como a estrutura do tecido e a sua gramatura, por exemplo, informa Furrer. A tecnologia Coldblack é resultado de aliança estratégica com a suíça Schoeller Technologies AG.

Furrer afirma que outro destaque da Clariant, também fruto da parceria com a Schoeller, é a NanoSphere, que confere aos produtos finais alto nível de repelência à água, líquidos em geral e sujeira, conservando o aspecto, o toque e a respirabilidade do tecido quando usado para a linha de vestuário, propiciando grande conforto. “Em acabamentos voltados para a linha de decoração, os testes comprovam que a resistência desse material às chuvas e intempéries, por exemplo, é bastante superior à do tecido tradicional sem esse acabamento.”

Já a tecnologia Advanced Denim, da Clariant, contempla um processo de tingimento preciso e compacto; mudança de cor rápida e eficiente; melhor solidez de cor; reprodutibilidade dos matizes e nuances; promove uma redução de até 92% no consumo de água; redução de 30% no consumo de energia elétrica; 87% menos refugos de algodão; e nenhuma emissão de águas residuais. Além disso, minimiza o desbotamento depois de lavagens repetidas; conserva o toque leve e natural do Denim cru, inalterável; produz tecidos com excelente resistência à fricção e à abrasão.

“É importante salientar que, com este processo, é possível conseguir uma gama de novos matizes e tonalidades, inspirada e criada pela natureza, como noite-ártica, azul celeste, marinho escuro, matizes de terra, tons de verde, variações em cinza e preto – enfim, cores perfeitas para qualquer uso ou ocasião e que não se conseguem com outros processos”, prossegue Furrer. O Advanced Denim da Clariant é um sistema que está de acordo com as exigências das diretrizes ecológicas do mercado.

A empresa também oferece a série Nuva N, como uma nova geração de fluorcarbonos, baseada na química C6. Ainda vale destacar: as linhas para tecidos antimicrobianos, que podem ser utilizados na área médica e hospitalar; para dry fit (que fazem roupas mais confortáveis, sem o incômodo do suor), especialmente usadas para moda esportiva; e os detergentes muito mais eficientes e também biodegradáveis (o índice chega a 90%).

De acordo com Furrer, os químicos e corantes da Clariant para o setor têxtil obedecem ao conceito 4E: ecology, economy, efficiency, environment. Isso significa que seguem os rigorosos padrões internacionais de proteção às pessoas e ao meio ambiente – como GOTS, Oeko-Tex, bluesign –, e permitem economia de recursos, como água e energia, nos processos produtivos.

“Desenvolvemos constantemente novas tecnologias para oferecer aos clientes produtos e serviços que possam aperfeiçoar os seus processos e garantir melhores resultados, alinhados aos conceitos e padrões internacionais”, sintetiza Furrer.

“Reformulamos nosso portfólio de produtos para, não apenas atender às exigências das normas ecológicas europeias, mas principalmente porque acreditamos nos benefícios de longo prazo que trarão à comunidade”, declara Pacielo. “Os grandes desafios estão ligados à sustentabilidade, como consumo consciente, preservação dos recursos naturais e proteção climática.”

Na linha de consumo consciente, a Basf garante processamento têxtil sem formaldeídos. “Os produtos utilizados nestes processos podem ser substituídos pelo sistema de estamparia, com pigmentos Helizarin e pelo sistema Fixapret NF para acabamento”, destaca Pacielo.

Preservação de recursos naturais: o Cyclanon Eco é uma solução biodegradável indicada para aplicação durante o processo de lavagem dos tecidos. Quando aplicado sob condição ácida, não é necessário ajustar o nível de pH. Proporciona “economia significativa de tempo, água e energia”.

O Cyclanon AC é um agente universal de pós-lavagem para remover corantes reativos hidrolisados ou não fixados de processo de tingimento em materiais de fibras de celulose. O produto reduz tempo de lavagem, consumo de água e energia, aumentando a produtividade. Não é sensível ao pH, nem à presença de sal e pode ser aplicado a temperaturas abaixo de 100ºC.

Pacielo relata ainda que o Helizarin Ecosoft é outro sistema interessante para quem busca uma solução ecoeficiente durante o processo de estamparia. “Reduz significativamente o consumo de água e energia, em comparação à estamparia reativa, graças ao menor tempo de processamento. Também é superior em termos de maciez, brilho e fixação”, salienta.

O executivo da Basf revela que existem algumas novas tecnologias como aplicação de produtos por espuma. “Isso aumenta a qualidade dos artigos têxteis, deixando-os com toques mais nobres, além de proporcionar uma grande redução da utilização de químicos, o que está totalmente ligado ao nosso conceito Putting Future into Textiles, no quesito economia de recursos.”

Revista Química e Derivados, Química Têxtil, Elizabeth Haidar, diretora de marketing da Rhodia Fibras, GBU (Global Business Unit), do grupo Rhodia
Elizabeth: roupas aliam beleza e conforto

Com uma política de investimentos permanentes no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, a Rhodia, “sempre com o viés de melhorar o conforto e o bem-estar das pessoas que usam roupas feitas com os fios têxteis de poliamida da empresa”, criou o Emana. De acordo com Elizabeth Haidar, trata-se de um fio inteligente que tem a propriedade de melhorar a microcirculação sanguínea da parte do corpo em contato com a roupa, auxiliando no combate à fadiga muscular e na redução dos sinais da celulite.

O Emana recebeu certificação da Anvisa e é indicado para artigos têxteis do segmento esportivo e de lingerie. Recebeu da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e do Sinditêxtil o prêmio Inovação 2010. “É um desenvolvimento da plataforma brasileira da Rhodia e entra no mercado por meio de diversas marcas conhecidas”, adiciona a diretora.

Os planos da Rhodia no setor têxtil “são de expansão”. Elizabeth Haidar relata que, no segundo semestre, deverá estar em funcionamento uma nova ampliação da produção de fios especiais (microfibras, supermicrofibras e fios inteligentes). “A empresa está investindo US$ 10 milhões na implantação de novas máquinas (praticamente uma fábrica de três andares, que foi montada com tecnologia japonesa e alemã e neste momento está no mar, vindo para o Brasil). Esses equipamentos deverão ampliar em 10% a capacidade total da Rhodia de produzir fios têxteis no país”, comenta.

Ela também aposta no crescimento da química nesse setor, mas observa: “Enfrentamos os mesmos desafios de todos os setores industriais (falta de política industrial, questões tributárias, entraves logísticos etc.). E é preciso investir permanentemente em P&D (pesquisa e desenvolvimento) para se obter mais inovações a serem aplicadas no setor têxtil, em todas as fases da cadeia. No Brasil, a Abiquim e a Abit têm dedicado esforços nesse sentido, por compreenderem com exatidão a importância do setor têxtil para a geração de empregos e de riqueza para o país”, afirma.

Revista Química e Derivados, Química Têxtil, insumos químicos atuam em todas as etapas
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Pacielo, da Basf, lembra que a ascensão da classe C, hoje consumindo muito mais itens de vestuário que há alguns anos, provocou mudanças importantes no mercado. “Há uma previsão de crescimento do mercado têxtil para os próximos anos, mas também poderemos perceber uma certa dificuldade no futuro com a entrada de grandes grifes, que consomem produtos asiáticos”, declara.

A Abit é otimista: “O maior dos desafios é, sem dúvida, antecipar as tendências e as necessidades mundiais do beneficiamento têxtil, associado às perspectivas e anseios da moda, do mercado e do constante desenvolvimento de novas moléculas cada vez mais “verdes”, sem perder as propriedades químicas exigidas nos processos atuais”, relata Zomignan.

“Já evoluímos muito e estamos evoluindo, mas ainda há muito a ser feito. Também é possível, por meio da química, produzir efeitos diferenciados que agregam valor ao substrato têxtil, possibilitando fugir do ‘efeito China’ de concorrência nas commodities”, conclui.

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