Farmacêutico e Biotecnologia

IYC 2011 – Medicamentos: Saúde reforçada com avanços da Química

Marcelo Fairbanks
15 de setembro de 2011
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    Ele questiona os custos relacionados pelos laboratórios na criação e licenciamento de novas moléculas, sempre por volta da casa do bilhão de dólares. “Esse número é sempre exagerado, mesmo considerando os projetos que fracassam”, avaliou. Levando em conta o faturamento mundial de US$ 860 bilhões do setor e a alocação de 10% desse montante para pesquisas, Barreiro aponta o investimento anual de US$ 86 bilhões para gerar 15 moléculas boas por ano. “Isso quer dizer que a indústria está investindo muito para produzir pouco, pois antigamente a média anual de novas moléculas chegava a 50”, comentou. “Os acionistas não devem estar lá muito felizes.”

    Química e Derivados, Adriano Andricopulo, Instituto de Física de São Carlos (USP), desenvolvimento de fármacos

    Andricopulo: modelos computacionais mudaram desenvolvimento de fármacos

    Além das bancadas – Uma vez identificada a molécula mais promissora para um determinado resultado pretendido, é preciso transpor esse conhecimento para as prateleiras dos hospitais e farmácias, mediante atividades complexas, demoradas e burocráticas. Em geral, a participação científica química para por aqui, dando lugar para testes clínicos padronizados internacionalmente, avaliações de entidades regulatórias oficiais e análises de mercado.

    “Os pesquisadores científicos desconhecem as dificuldades dessa parte regulatória, como a burocracia dos órgãos oficiais, tarefa que os laboratórios enfrentam todos os dias”, comentou Edson Lima. Ele salienta que o Brasil tem pouca experiência para avaliar e aprovar moléculas inéditas. Normalmente, os laboratórios nacionais pegam as moléculas conhecidas e prontas no mercado internacional e fazem por aqui a fase três (estudo terapêutico ampliado), após a qual o produto pode ser comercializado.

    Lima comenta a experiência do laboratório com o carbonato de lodenafila, a primeira molécula totalmente desenvolvida no Brasil para disfunção erétil. “Do laboratório até colocarmos o produto final nas prateleiras, foram cinco anos de testes clínicos e mais um ano e meio para a Anvisa dar a aprovação final”, informou. “Essa aprovação demorou demais, foi o preço do pioneirismo.” Até mesmo a avaliação toxicológica das novas moléculas, uma das fases iniciais, tem deficiências no Brasil, segundo Lima.

    Esse é um dos motivos que afastam os laboratórios da inovação radical. “Novos marcos regulatórios, mais adequados, estão sendo desenvolvidos no país, e eles podem abrir novas oportunidades”, considerou. Enquanto isso, as indústrias se concentram na nacionalização de princípios ativos com patentes caducas ou próximas da caducidade. “Há vários produtos importantes com patentes expirando nos próximos anos, e precisamos ter uma estratégia para aproveitar esses negócios, já sabendo que os chineses e os indianos estão atentos também”, considerou.

    Lima ainda ressaltou que a produção em escala de qualquer fármaco é complexa. “Há vários desafios embutidos. Como controlar a reação em alto volume e como obter alto rendimento sem perder a pureza são alguns deles”, apontou.

    Uma das formas de aproximação entre pesquisadores e laboratórios aparece quando uma instituição desenvolve um insumo específico. Nesse caso, a instituição ou os seus profissionais podem criar uma empresa para fazer avançar o projeto até um certo ponto, a partir do qual se torna vantajoso vender a ideia para uma grande corporação. “No exterior, isso é muito comum e há muita gente fazendo pesquisa de alta qualidade no Brasil que poderia seguir esse caminho”, afirmou.Especializado em produtos para hospitais (anestésicos e analgésicos) e para tratamento do sistema nervoso central, o Laboratório Cristália possui 28 patentes internacionais em produtos, processos e formulações, além de um pipeline estruturado para várias outras. A linha de produtos finais chega a 400 itens.

    Aos jovens – A química dos medicamentos é um campo de trabalho de forte alcance social e também representa desafios importantes para quem quiser dedicar a ela sua carreira. “Entre os estudantes que chegam à UFRJ, percebo um porcentual significativo de jovens que aspiram a coisas novas, indo além dos padrões antigos, como o caminho dos concursos públicos”, comentou Barreiro. A esses interessados em desafios intelectuais e na inovação científica ele recomenda estudar continuamente, pela vida toda. “É o que diferencia o bom do ótimo, uma distância grande, já entre o bom e o ruim a distância é bem pequena”, afirmou. “Surgem novas moléculas a cada ano e sempre temos mais perguntas do que respostas, isso é estimulante.”

    Ele também percebe que os jovens alunos respondem bem às demandas sociais. “Um pesquisador precisa conhecer a dimensão social da sua atividade, além de ter uma forte noção de ética, sendo honesto sempre”, recomendou. O futuro da química de medicamentos está garantido com as novas gerações, desde que elas não se rendam ao complexo de “vira-lata” e não se acomodem.

    Barreiro apenas lamenta que a educação fundamental esteja sendo tão descuidada no Brasil, com reflexos na formação superior. “Já estão faltando engenheiros e logo faltarão trabalhadores qualificados em todos os níveis”, prevê.

    Adriano Andricopulo identifica um interesse crescente pela pesquisa na química dos medicamentos, estimulado por atividades mais consistentes na área. “Várias universidades estão abrindo vagas nesse campo e também os laboratórios farmacêuticos passaram a contratar mais pesquisadores brasileiros, tanto aqui quanto no exterior”, comentou. Com isso, as perspectivas de trabalho são hoje bem melhores do que eram há alguns anos.

    Ao mesmo tempo, Andricopulo considera necessário aprimorar a formação na área. “A multidisciplinaridade está avançando especialmente nos fármacos, portanto é preciso interconectar esses conhecimentos”, avaliou. A USP de São Carlos começou a oferecer um curso de graduação em Ciências Físicas e Moleculares, voltado para o planejamento de fármacos e substâncias bioativas, que está formando sua quarta turma. “É um curso moderno, interdisciplinar, cujos formandos estão sendo bem recebidos pela academia e pelas indústrias”, disse.

    Edson Lima se lembra da curiosidade que tinha quando jovem de saber como podiam as moléculas dos medicamentos restabelecer as funções do metabolismo e curar as doenças. Essa curiosidade o levou à faculdade de farmácia e, mais tarde, para o mestrado e doutorado em química orgânica. Há sete anos trabalhando no Laboratório Cristália, ele comanda as atividades de produção e também de pesquisa e desenvolvimento farmoquímico, com equipe formada por seis especialistas de várias áreas. “A companhia tem outras divisões para farmacotécnica e também para biotecnologia”, afirmou.

    Lima observa que há uma tendência clara, em âmbito mundial, para o aproveitamento de produtos de origem biológica, oriundos de fermentações, por exemplo, no desenvolvimento e produção de fármacos. “Os jovens estudantes devem buscar especialização em alguma das áreas da biotecnologia, como engenharia genética ou fermen­tações, o mercado sinaliza nessa direção”, recomenda.

    No entender de Barreiro, o olhar do pesquisador deve ir do fármaco para a doença. “Um medicamento vai além disso, ele é um promotor da saúde, age mesmo antes de a doença se instalar”, explicou. A intervenção dos fármacos nos processos crônicos, como câncer, diabetes e Alzheimer, costuma ser a mais desafiadora para os cientistas.

     



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    Um Comentário


    1. Daniel Ramos (Branches)

      Parabéns pelo artigo! Verdadeiramente inspirador para nós estudiosos quimicos.



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