Farmacêutico e Biotecnologia

IYC 2011 – Medicamentos: Saúde reforçada com avanços da Química

Marcelo Fairbanks
15 de setembro de 2011
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    Sob a direção de Andricopulo, o Laboratório de Química Medicinal do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural do Instituto de Física de São Carlos (USP) elaborou o PK/DB, o primeiro e ainda único banco de dados de propriedades farmacocinéticas de uso livre do mundo, que pode ser acionado pela internet: http://miro.ifsc.usp.br/pkdb. “É uma ferramenta poderosa para predizer as propriedades de um fármaco com base na sua estrutura molecular”, explicou. O sistema lida com 1.389 compostos, apresentando dados sobre absorção, distribuição, metabolismo e excreção. Segundo informou, a quantidade de visitas ao PK/DB tem sido enorme.

    Andricopulo, relacionado entre os dois mil intelectuais de destaque do século XXI pelo International Bibliographical Centre, de Cambridge, aponta os modelos computacionais como promotores de profundas transformações no desenvolvimento de moléculas. “Antes disso, era preciso testar milhares de moléculas contra um determinado alvo para identificar substâncias promissoras; hoje isso se faz por triagem virtual, avaliando milhões de possibilidades com grande rapidez e custos menores”, informou. Trata-se do High-Throughput Screening (HPS).

    As poderosas ferramentas computacionais ajudam muito, mas não isentam os pesquisadores de possuir amplos e sólidos conhecimentos tanto sobre as moléculas quanto sobre os alvos a atingir. “Ao contrário do que alguns alunos mais folgados imaginam, não basta colocar alguns parâmetros no computador e esperar que ele aponte a molécula certa para cada caso”, enfatiza Andricopulo. Ele cita como exemplo a Doença de Chagas, na qual o alvo a atingir é uma proteína, a cruzaína. “O pesquisador precisa conhecê-la muito bem para identificar quais moléculas podem ser eficazes contra ela e, indo além, ver como funciona, se funciona, como otimizá-la e depois produzi-la”, explicou. O grupo de pesquisas de São Carlos está estruturado para integrar a pesquisa virtual com a experimental, tudo no mesmo ambiente.

    Cada candidata virtual precisa ter sua eficácia biológica comprovada. A partir daí, o pesquisador recomenda proteger a descoberta. “Tendo a patente, é preciso procurar um parceiro comercial para formar uma associação mutuamente proveitosa”, orientou. Ele também nota a maior aceitação de laboratórios nacionais e multinacionais pelos resultados das pesquisas básicas feitas no Brasil nos anos mais recentes.

    Ao mesmo tempo, o pesquisador não acolhe o termo “inovação radical”. “A inovação precisa ser cotidiana, entrar na agenda nacional em qualquer modalidade, buscar novas moléculas que atuem por mecanismos inovadores”, afirmou. Laboratórios nacionais costumam temer a demora na obtenção de retorno financeiro dos investimentos em pesquisas. “De fato, elas demandam tempo e dinheiro, mas precisam ser consistentes”, afirmou.

    Andricopulo também é coordenador do Centro de Referência em Química Medicinal para Doença de Chagas da Organização Mundial da Saúde (WHO, da ONU). Essa é uma das chamadas doenças negligenciadas, que ocorrem em países pobres, sem mercado consumidor capaz de sustentar a pesquisa e o desenvolvimento de novos fármacos e medicamentos, como se dá com os anti-hipertensivos, os remédios para disfunção erétil ou contra o Mal de Alzheimer. “As doenças negligenciadas afetam um bilhão de pessoas no mundo”, apontou. Ele entende que o governo deveria dar mais estímulos para as pesquisas nesse campo, praticamente ignorado pelos grandes laboratórios.

    O centro de referência na Doença de Chagas é um projeto da Organização Mundial da Saúde (WHO, em inglês) que foi estabelecido em 2008, contando com a participação direta da USP-São Carlos e da Unicamp, com a colaboração de outras instituições. Trata-se de uma rede mundial de pesquisas com um único centro na América Latina. “Todo o conhecimento gerado nessa doença é compartilhado por todos os integrantes, com o objetivo de chegarmos a um medicamento eficaz”, explicou.

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    O projeto tem enfoque humanitário, sem alcance comercial (até porque beneficiará comunidades pobres, incapazes de pagar pelos remédios), e tem entre seus membros alguns laboratórios farmacêuticos globais. “Eles colaboram com materiais para os ensaios e farão a parte dos testes clínicos com as moléculas que serão descobertas, estas pertencerão à WHO, que as licenciará para os interessados”, comentou. Segundo informou, já se registram avanços, tendo sido identificadas moléculas mais potentes e seletivas, mas que ainda requerem mais estudos.

    No campo das doenças negligenciadas, o Laboratório Cristália tem especial interesse na Doença de Chagas e na Leishmaniose. “Recebemos a missão do Ministério da Saúde de desenvolver a produção local de duas moléculas porque o fabricante atual se desinteressou em manter a oferta”, comentou Lima.

    “Trazer remédio de fora não garante a soberania nacional, e povo sem saúde não se educa, não se desenvolve”, alertou o pesquisador Barreiro. Ele salienta que, por não serem comercialmente atraentes para os laboratórios, a maioria dos remédios para as doenças negligenciadas tem mais de 50 anos e apresenta uma série de efeitos colaterais, motivo para a baixa adesão dos pacientes aos tratamentos.

    A construção do conhecimento nos fármacos exige abordagem interdisciplinar. “No passado, muitos recursos foram gastos com a divisão entre pesquisa pura e aplicada, isso não vale mais”, criticou. Sem a ciência básica, não se compreende a fisiopatologia e, portanto, não se consegue agir contra nenhuma doença. “Muitos medicamentos foram descobertos nos laboratórios industriais, mas isso foi no passado, hoje as novas moléculas vêm da pesquisa básica, feita nas universidades de todo o mundo e isso nem sempre é contabilizado adequadamente”, afirmou.



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    Um Comentário


    1. Daniel Ramos (Branches)

      Parabéns pelo artigo! Verdadeiramente inspirador para nós estudiosos quimicos.



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