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Farmacêutico e Biotecnologia

IYC 2011 – Medicamentos: Saúde reforçada com avanços da Química

Marcelo Fairbanks
15 de setembro de 2011
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    Barreiro recomenda aglutinar e coordenar os interesses dos três segmentos envolvidos: universidades, governo e empresas. Como as universidades sabem fazer moléculas e devem seguir ampliando seu conhecimento, o governo precisa incentivar a produção dos intermediários estratégicos para agregação de valor em etapa posterior. As empresas, por sua vez, contando com políticas oficiais definidas, poderão investir no setor com segurança. “A Índia fez isso, da maneira dela”, comentou.

    Ele até considera que esse quadro possa favorecer investimentos das indústrias químicas e de petróleo. “O Brasil é a sétima economia mundial, mas se apoia em produtos de baixa tecnologia; caso queira ser um player químico mundialmente relevante, precisa atuar também no campo farmacêutico”, afirmou. “Só não pode ficar como está, é muito cômodo ser apenas um mercado.”

    O relacionamento da universidade com os laboratórios farmacêuticos tem melhorado, com sensível aumento do interesse destes, como atesta Barreiro. Ele explica que os laboratórios nacionais preferiram o caminho da inovação incremental, ou seja, melhorar pouco a pouco os produtos disponíveis. Por sua vez, os laboratórios multinacionais são mais afeitos aos riscos e têm batido às portas das universidades à procura de moléculas “que falem português”. “Ainda não houve nenhum contrato fechado, mas só a perspectiva de aproveitamento das pesquisas já estimula muito os alunos”, comentou.

    Além dos custos e riscos inerentes à pesquisa e ao desenvolvimento de fármacos, Barreiro aponta a falta de pessoal qualificado na indústria nacional para dialogar com a academia. “São poucos os laboratórios locais que têm em seus quadros pós-graduados ou doutores para tratar de inovação radical, isso cria uma certa resistência”, considerou.

    Aos dois anos de atividade (embora o projeto tenha surgido há seis anos, no escopo do Instituto do Milênio), o INCT-Inofar, que congrega uma rede nacional de instituições de pesquisa, já tem três projetos avançados (na fase pré-clínica) com moléculas promissoras com o nível de inovação desejado. Isso não quer dizer que Barreiro ignore a pesquisa incremental. “Pelo contrário, as universidades precisam investir também nas inovações incrementais, embora os pequenos avanços geralmente não rendam publicações”, defendeu.

    Química e Derivados, Eliezer Jesus de Lacerda Barreiro, UFRJ, indústria farmacêutica

    Barreiro: importação de remédios não garante a soberania nacional

    Ele citou dois grandes êxitos de avanços incrementais obtidos no Brasil. O primeiro deles foi alcançado pelos pesquisadores Luiz Carlos Dias e Adriano Siqueira, da Universidade de Campinas (Unicamp), que estudaram e replicaram a produção da atorvastatina (o fármaco mais vendido do mundo, indicado para o controle do colesterol), avaliando gargalos e a possibilidade de otimizar e melhorar a produção. “Eles conseguiram introduzir melhorias significativas no processo que lhes renderam o privilégio de patente concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial, uma grande vitória”, exaltou.

    Também vitorioso foi o trabalho dos pesquisadores Angelo da Cunha Pinto e Bárbara Vasconcellos (da UFRJ), que conseguiram sintetizar o fármaco sunitinibe, indicado para o tratamento de algumas formas de câncer. “Esse produto não está na lista do SUS, mas os pacientes o obtêm mediante decisões judiciais”, explicou. A molécula é protegida por patente, mas é possível conseguir uma licença para produzi-la no país por razões humanitárias, como já se tornou frequente no caso dos antirretrovirais (contra a aids).

    A gênese dos fármacos – Concorrem para a apresentação de novas substâncias químicas ativas o aproveitamento de produtos naturais e a síntese de moléculas inovadoras, ambos com graus idênticos de relevância. “O Brasil é imenso, com problemas de saúde complexos e de vários graus, que não admitem uma solução única, exigindo conciliar formas terapêuticas para oferecer tratamento adequado para todos”, ponderou Barreiro.

    Há vários pesquisadores com larga carreira dedicada ao estudo de espécies vegetais (e também de micro-organismos marinhos) que contenham moléculas com propriedades terapêuticas notáveis, a exemplo da pesquisadora Vanderlan Bolzani, da Unesp de Araraquara-SP, homenageada na reunião deste ano da Sociedade Brasileira de Química, em Florianópolis (vide QD-510, de junho, pág. 64). Barreiro observa que essas moléculas são complexas demais para serem inventadas em laboratório e ocultam mecanismos de atuação ainda desconhecidos.

    Apesar disso, o desenho de moléculas para síntese em escala industrial, baseado em um modelo natural ou não, tem suas vantagens. “A obtenção de moléculas por extração e purificação é uma alternativa que muitos laboratórios adotam com sucesso, exigindo expertise própria nessa atividade”, comentou Edson Lima, ressaltando não ser essa a linha de atuação estratégica do Laboratório Cristália. Quando a produção depende de insumos naturais, há dificuldades com sazonalidade, eventuais variações de concentração de substâncias, interferências de contaminantes e entraves logísticos que podem ser custosos.

    Especialista em química molecular, planejamento e modelos computacionais desde o seu pós-doutorado, Adriano Andricopulo salienta os grandes avanços obtidos nos últimos anos. “Com a química computacional, já podemos saber antecipadamente como uma molécula se comporta em relação às proteínas e a sua farmacocinética, ou seja, o que acontece com ela quando introduzida no corpo humano”, explicou.



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    Um Comentário


    1. Daniel Ramos (Branches)

      Parabéns pelo artigo! Verdadeiramente inspirador para nós estudiosos quimicos.



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