Química

IYC 2011 – Ensino de Química – Cursos de todos os níveis devem ir além da formação científica

Marcelo Fairbanks
15 de abril de 2011
    -(reset)+

    Apesar disso, ela ressalta a importância de partir de objetos e situações palpáveis e observáveis para com elas desenvolver os conceitos mais abstratos. “Ao contrário do que muita gente pensa, isso não prejudica a capacidade de abstração do jovem, muito pelo contrário”, enfatizou. Toda a proposta curricular do ensino médio nacional está voltada para que o aluno melhore a sua leitura e compreensão do mundo. “Nada melhor do que a Química para ajudar a entender a realidade”, afirmou.

    Para Luciana, o formato tradicional das aulas de Química no ensino médio ainda prioriza um tipo de conhecimento inútil e mecânico, a chamada “decoreba”. Os alunos precisam decorar aquilo que não conseguem compreender imediatamente, como os nomes e as formas dos orbitais, e as famílias da tabela periódica dos elementos. Mas, como explicou, as propostas curriculares não são obrigatórias.

    Química e Derivados, Luciana Oliveira de Lellis, CRQ-IV, UNIFEO

    Luciana: temas do cotidiano ajudam a ensinar

    “Já existem vários bons livros para essa faixa etária que seguem essa linha de ensino e algumas escolas, até mesmo da rede pública, os adotam”, comentou. Na rede estadual de ensino paulista, em 2008, foi introduzida uma proposta curricular compatível com a linha mestra desses parâmetros curriculares, buscando a integração entre ciência, tecnologia e sociedade (CTS). A implantação dessa diretriz levou à confecção de cadernos específicos para cada disciplina, desde o fundamental até o médio, nas modalidades para alunos e professores (estes com sugestões de abordagem e exemplos práticos).

    Luciana participou da comissão que elaborou esses cadernos para o ensino da Química. “Posso garantir que os cadernos foram muito bem-feitos e montados de forma que permitam a cada professor fazer acréscimos, sem se tornar uma camisa de força”, explicou. Além disso, esses cadernos levaram em conta uma séria limitação da escola pública: a baixa carga horária. “A escola pública paulista oferece duas aulas de Química por semana, com duração de 50 minutos durante o dia e 45 minutos no curso noturno”, informou. “Isso é muito pouco, não permite criar vínculos com os alunos.” Para ela, seriam necessárias pelo menos três aulas semanais, embora ela admita que algumas escolas particulares cheguem a dar seis aulas por semana, práticas inclusive, porém com baixos resultados de aprendizagem. Aliás, “aula em laboratório não é a salvação da pátria”, ressaltou. Dessa forma, os cadernos limitaram o conteúdo aos pontos essenciais que pudessem ser efetivamente ministrados a cada ano.

    Química e Derivados - Tabela - IYC 2011 - Ensino de Química - Números da Graduação

    Tabela: Os números da graduação superior nas áreas ligadas à química no brasil – 2009 – Clique para ampliar

    Embora a proposta seja admirável, houve falhas na implementação. “Os cadernos foram introduzidos também nos dois últimos anos do ensino, quebrando a sequência de aprendizagem e os professores não foram todos preparados para usá-los”, lamentou. Ela comentou que apenas os professores que estavam entrando na rede receberam naquele ano um treinamento a distância sobre o conteúdo e o método usado nos cadernos, com bons resultados. “Todos os professores da rede deveriam participar de um programa de formação continuada, há uma boa receptividade deles nesse sentido”, recomendou.

    Luciana avalia como deficiente a formação de grande parte dos professores de Química na rede pública. “Há professores malformados até nos conteúdos da ciência, enquanto outros têm boa formação científica, mas são ruins em didática, ao lado de professores excelentes nos dois aspectos”, considerou. “Quando a deficiência é meramente metodológica, um pequeno apoio resolve.” Ela admite que essa formação precisa quebrar conceitos arraigados e também que a remuneração dos professores é ruim, a ponto de não atrair os melhores profissionais para a carreira.

    Ela também aponta deficiências nas condições de ensino nas escolas públicas, a começar pelo grande número de alunos por sala. “Há uma luz no fim desse túnel”, ressaltou Luciana. “Os cadernos são um bom começo, mas o sistema não pode mudar quando muda o governo; é preciso pelo menos uns dez anos de trabalho para mostrar resultados, contando com as crianças que começaram a usar os cadernos desde o fundamental.” Mesmo assim, ela recomenda atenção com todas as disciplinas: “Aluno que não sabe Português e Matemática não aprende Química, pois não desenvolveu a estrutura de pensamento e linguagem.”

    Cursos profissionalizantes – A formação dos técnicos químicos era feita durante e paralelamente ao ensino médio, com bons resultados. Desde 1998, os cursos foram separados por força da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, regulamentada pelo Decreto 2.308, de 1997. Com isso, a formação técnica mudou de nome para ensino profissionalizante, deixando de ter três anos e meio de duração para ficar restrita a quatro semestres.

    “Essa mudança foi muito ruim, afastou os alunos da escola”, criticou Édina Marta Uzelin, professora e representante da qualidade na Escola Senai Mario Amato, em São Bernardo do Campo-SP, e também integrante da comissão de ensino técnico do CRQ-IV. Para ela, o formato antigo, combinando o ensino médio regular com o técnico, era mais efetivo. “O aluno ficava mais tempo na escola, as disciplinas de ambos os cursos eram integradas e complementares, além da possibilidade de oferecer disciplinas adicionais, como inglês técnico”, explicou.

    A mudança normativa levou o Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Mario Amato a extinguir seu curso médio, que continuou sendo oferecido pelo Sesi – Serviço Social da Indústria. Mesmo assim, a escola permanece como referência na formação de técnicos químicos, cuja habilitação prevê a atuação em laboratórios e plantas químicas, controlando a qualidade de produtos e processos, desenvolvendo e aperfeiçoando produtos químicos, fundamentando suas ações em requisitos de sistemas de qualidade e na preservação ambiental.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *