Química

IYC 2011 – Ensino de Química – Cursos de todos os níveis devem ir além da formação científica

Marcelo Fairbanks
15 de abril de 2011
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    “As crianças começam a aprender a Química pela estrutura atômica, ouvindo o professor dizer que o ácido sulfúrico é perigoso e outras coisas assim, isso gera uma aversão contra a ciência, parece que a Química é a culpada de todos os problemas do mundo”, criticou. Para ele, o ensino básico deveria ensinar os fundamentos das ciências naturais, até mesmo da Química, mas também da Matemática, Física e Biologia. Sem isso, a graduação precisa dedicar muito tempo para a equalização de conhecimentos entre os alunos, tarefa que acaba sendo diluída ao longo do curso, chegando até a pós-graduação.

    Química e Derivados, Hans Viertler, Instituto de Química da USP (IQ-USP)

    Viertler: deficiências no nível médio afetam o curso superior

    Viertler se recorda da reforma universitária promovida em 1970, que já previa um ciclo básico de disciplinas de amplo alcance. “Isso foi feito, mas não houve uma adaptação adequada”, lamentou. “As disciplinas que eram anuais passaram a ser semestrais, mas na prática elas só se dividiram em parte 1 e 2.” O ciclo básico persiste, mas espalhado pelas várias escolas, com o pretexto de atender às especificidades de cada curso.

    Além da interdisciplinaridade e da organização dos cursos, até mesmo a classificação profissional dos químicos interfere na graduação. “A normativa do Conselho Federal de Química está ultrapassada, mas ainda orienta a grade curricular”, informou. Ainda persistem reflexos das velhas leis regulamentadoras da década de 1950, que instauraram divergências entre bacharéis, licenciados, técnicos e químicos industriais.

    Viertler elogia a existência de um núcleo forte dentro do IQ-USP voltado à apresentação didática da ciência. “Eles ensinam a aprender”, comentou. Além disso, outro núcleo desenvolve pesquisas de alto nível, grupo que conta com alguns professores excelentes. “Os docentes universitários precisam ter altíssima qualificação e contar com planos de pesquisa muito bem elaborados”, recomendou. Mesmo assim, ele aponta alguns problemas na formatação dos cursos. “Os alunos de graduação têm 40 horas de aula semanais, quando é que eles vão estudar? Como incluir mais disciplinas nessa grade?”, questionou. Segundo informou, muitas disciplinas são descritas pela simples cópia do índice de um livro-texto, sem a devida seleção dos itens mais importantes.

    Viertler compara a situação da graduação em Química no Brasil com a da Inglaterra, país no qual também atuou. “O curso inglês é de três anos, com o terceiro em nível equivalente ao da nossa pós-graduação”, afirmou. “Mas lá eles têm ensino médio de alta qualidade.” Os conteúdos ministrados são bem parecidos entre os cursos dos dois países, mas os graus de dificuldade são diferentes, bem como o formato das aulas. Segundo Vietler, lá cada aula demora uma hora e meia, com o professor abordando cada tópico em seus aspectos mais relevantes. “Daí por diante, o aluno precisa fazer exercícios, ler textos complementares e se preparar para os debates semanais com o professor, nos quais são eliminadas as dúvidas e discutidos detalhes”, comentou. “Aluno brasileiro gosta de apostilas, não dá para fazer um bom curso sem os livros, sem uma boa biblioteca.”

    Ele comentou que o ensino universitário europeu está passando por um processo de harmonização em todo o continente, um dos frutos da criação da União Europeia. No escopo do Projeto Bolonha, a graduação em Química em todo o continente será feita em três anos. “Há um curso semelhante na Federal do ABC, com o bacharelado em ciência e tecnologia”, afirmou. Aliás, a Resolução nº 2, de 18 de junho de 2007, do Ministério da Educação, define a carga horária mínima para o bacharelado em Química em 2.400 horas, a serem cumpridas em três ou quatro anos. Cabe lembrar que as universidades têm autonomia para definir os conteúdos de seus cursos.

    Ele comentou que a formação de professores para o ensino médio conta com bons cursos, como a licenciatura em Química da própria USP, com duração de cinco anos. Na USP Leste (campus da Zona Leste da cidade) há também um curso de licenciatura em ciências que está voltado para preparar bons professores. “Recentemente, a universidade conseguiu ajustar um curso a distância para licenciatura em ciências, depois de muitas dificuldades”, informou. A ideia desse curso, que requer a presença física dos alunos em algumas aulas, era promover a reciclagem dos professores que estivessem atuando no ensino médio.

    Viertler considera essencial a participação pessoal nas aulas práticas, normalmente realizadas em laboratórios. “É possível até conduzir aulas virtuais, mas elas só funcionam se o aluno já tiver alguma experiência prática anterior”, ressaltou. O avanço da tecnologia apoia o ensino. Ele citou estudos em microescala com resultados interessantes e também simulações computadorizadas.

    Ensino médio – O ensino da Química para jovens no nível médio (o antigo colegial ou científico) exige reunir sólido conhecimento da ciência com excelentes ferramentas didáticas. E também uma boa dose de habilidade por parte dos professores. “É impossível agradar a todos, ainda mais nessa faixa etária”, comentou Luciana Oliveira de Lellis, integrante das comissões de divulgação e ensino superior do Conselho Regional de Química da 4ª região (CRQ-IV), chefe do departamento de ciências exatas da Unifeo, de Osasco-SP, química e mestre em educação científica pela USP.

    “Não é que o ensino da Química seja chato, o problema é se os alunos aprendem ou não, independentemente da forma como os conteúdos são ministrados”, afirmou. Para ela, as melhores propostas apresentadas para o ensino da Química durante as discussões dos Planos Nacionais Curriculares partem de temas ligados ao cotidiano dos alunos para, em seguida, desenvolver os conceitos científicos necessários à sua formação. “Por exemplo, o professor pode ensinar cálculo estequiométrico com base em um boletim de operações de uma siderúrgica, explicando o processo e as reações químicas envolvidas passo a passo, com os respectivos cálculos”, salientou. “Embora seja um método muito interessante, pode ser que metade da turma ache essa abordagem uma chatice só.”



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