ISO 14000: Novo texto será definido em julho

Entidade internacional promove reunião em Bali para definir alterações no conteúdo da norma

No próximo julho será dado um passo decisivo para o aperfeiçoamento das normas ISO 14001 e ISO 14004, criadas pela entidade internacional ISO em 1995 para incentivar as empresas a controlarem com maior propriedade os procedimentos necessários para que sejam evitados danos ao meio ambiente.

Em um encontro previsto para a primeira semana na paradisíaca região de Bali, na Indonésia, os técnicos responsáveis pela redação das alterações devem chegar ao estágio do trabalho conhecido como DIS (Draft International Standard), no qual o texto estará praticamente definido.

No último mês de abril o novo texto chegou ao estágio CD2 (Committee Draft 2), que dá diretrizes quase finais ao trabalho.

Pequenas alterações ainda poderão ocorrer no encontro seguinte, ainda sem data marcada, quando será definido o conteúdo da etapa FDIS (Final Draft International Standard).

Em 2004 a reforma deve ser concluída com o lançamento da redação definitiva.

Química e Derivados: ISO: grafico_iso01Desde que o projeto de atualização começou a ser executado, em 1998, nove reuniões foram realizadas em diversos cantos do mundo.

A demora na aprovação do novo texto, à primeira vista, dá a idéia de que as normas estejam sofrendo importantes alterações em relação ao seu conteúdo original.

As mudanças, no entanto, não serão significativas, revela Jorge Emanuel Reis Cajazeira, gerente de excelência empresarial do Grupo Suzano, divisão Celulose e Papel, e representante brasileiro no subcomitê da ISO que está realizando os aperfeiçoamentos no texto.

Ele explica que a lentidão dos trabalhos deve-se muito mais às dificuldades de atender o interesse dos vários países participantes da entidade.

Os maiores entraves estão ocorrendo na revisão da ISO 14001, única norma da família ISO que permite a uma empresa obter certificado que ateste a adoção do controle de uma gestão preocupada com a defesa da natureza. Tal característica lhe confere um caráter essencial e controverso.

Tanto que a aprovação do CD2 relativo a ela não foi unânime. Dos 38 países membros que avaliaram as mudanças, cinco com grande expressão mundial votaram contra (Estados Unidos, Áustria, Japão, Canadá e Finlândia) e um se absteve (Itália).

O texto do CD2 encontra-se recheado com mais de 350 comentários, que serão avaliados na reunião de Bali que aprovará o estágio DIS.

Química e Derivados: ISO: grafico_iso02“A nova redação da ISO 14001 procura deixar claro alguns itens que antes davam vazão a interpretações dúbias”, explica Cajazeira.

É o caso, por exemplo, da definição do conceito de “melhoria contínua”, exigido pela norma desde o seu lançamento.

“Antes o texto falava que a ‘melhoria contínua’ deveria ocorrer no sistema de gerenciamento ambiental.

Na nova redação será exigido o desenvolvimento ambiental, as empresas terão que demonstrar como suas práticas proporcionam a redução constante dos danos à natureza”, informa o representante brasileiro.

Além disso, o texto atualizado obriga a definir com maior exatidão o alcance do sistema adotado por uma empresa e dá maior ênfase à necessidade de sua adequação à legislação local.

Também houve uma grande preocupação, por parte dos representantes da entidade internacional, em alinhar o conteúdo de seus artigos ao da norma de qualidade ISO 9001:2000, de modo que as duas possam ser adotadas de maneira integrada com maior facilidade por parte dos interessados.

As alterações previstas para a ISO 14004, por sua vez, geraram menos polêmica. Ocorre que ela tem caráter de material referencial e didático.

Em outras palavras, as empresas que a adotam não precisam provar que estão seguindo seus artigos à risca. Isso vem facilitando as discussões.

Tanto que o conteúdo do estágio CD2 da norma foi aprovado por 100% dos delegados dos 28 países membros que o avaliaram.

Mesmo assim, o novo texto conta com 250 comentários, que devem render muitas avaliações na reunião que ocorrerá em julho na Indonésia.

Potencial – O número de empresas brasileiras que obtiveram certificado da ISO 14001 ainda não entusiasma, mas vem crescendo bastante e promete dar um salto importante nos próximos anos.

No início de 2001, estava estimado na casa de 250. Hoje, de acordo com dados do Inmetro, órgão ligado ao governo federal responsável pela política de implantação da norma no Brasil, ele encontra-se na casa das 525 certificações.

Dados do QSP, associação de caráter privado mantida por empresas e pessoas físicas, no entanto, revelam dados mais otimistas.

Para a entidade já existem mais de 600 empresas certificadas.

Química e Derivados: ISO: Cicco - mais de 600 empresas já têm certificado no Brasil.
Cicco – mais de 600 empresas já têm certificado no Brasil.

“Até mesmo os nossos dados devem estar desatualizados, precisaria ser feita uma pesquisa constante junto às certificadoras para se chegar a um número confiável. É muito provável que o número real supere essas estimativas”, esclarece Francesco de Cicco, diretor-executivo da QSP.

O motivo de tanto entusiasmo por parte das empresas vai bem além do interesse de preservar a natureza.

“A ISO 14001 traz muitas vantagens para as empresas”, assegura Eduardo Prestes, diretor do Bureau Veritas, grupo multinacional de origem francesa que presta consultoria às empresas interessadas em adotar a norma e que também emite certificações por meio de uma de suas empresas, a BVQI.

Para o dirigente, um dos aspectos que mais vem sendo levado em consideração pelas corporações é o da imagem institucional, componente muito importante em um momento no qual os consumidores tornam-se cada vez mais críticos em relação às marcas que cometem deslizes ecológicos.

A questão da imagem ganha importância junto aos exportadores, uma vez que a opinião pública de muitos países desenvolvidos faz com que neles as leis se tornem muito rígidas em relação aos processos industriais poluentes.

Cajazeira cita um recente estudo assinado pelo Banco Mundial para reforçar a tese de que em várias regiões do planeta há uma crescente tendência de importação de produtos fabricados a partir de plantas que adotem medidas de preservação da natureza.

Alguns outros benefícios da adoção da norma não passam desapercebidos em uma análise mais cuidadosa.

Com o certificado na mão, por exemplo, as companhias ficam mais protegidas das ações dos órgãos fiscalizadores ligados aos níveis de governo municipal, estadual e federal, cujo rigor cresce dia a dia.

Química e Derivados: ISO: Prestes - norma traz muitas vantagens para companhias.
Prestes – norma traz muitas vantagens para companhias.

“É incalculável o prejuízo institucional e econômico de uma empresa condenada a paralisar sua produção por um determinado período por ter sido flagrada ferindo a legislação ambiental”, ressalta Prestes.

Como trabalham em um regime que proporciona maior controle sobre os riscos de acidentes, as corporações credenciadas também encontram maiores facilidades para obter financiamento e contratam seguradoras a preços mais competitivos.

“Não se pode esquecer a grande receptividade da comunidade onde as plantas estão instaladas e dos funcionários, que de maneira espontânea se sentem muito mais motivados”, acrescenta o diretor.

Todos esses aspectos são potencializados ou não de acordo com o setor no qual a companhia opera. Nesse aspecto, as indústrias química e petroquímica surgem como maiores interessadas.

“É um segmento onde os riscos de danos ambientais são mais críticos e a opinião pública fica mais atenta. É diferente, por exemplo, dos casos da indústria eletrônica, que pode se preocupar mais com a adoção de medidas que garantam a qualidade de seus produtos. Ou da construção civil, mais sujeita a acidentes e que por isso procura seguir de perto os procedimentos destinados para a garantia da segurança e saúde do trabalho”, ressalta Hugo Pacheco, gerente técnico e de certificação do Bureau Veritas.

Cerca de 170 empresas do ramo químico e petroquímico no Brasil já contam com o certificado, número equivalente a 32% do universo das companhias certificadas, de acordo com os dados registrados pelo Inmetro.

“Em termos de número de empresas pode parecer pouco, uma vez que o País conta com de 5 mil a 6 mil companhias ligadas ao setor. Mas realizamos uma pesquisa junto as cem maiores empresas do ramo químico e petroquímico no Brasil, que respondem por cerca de 90% do faturamento deste segmento, e todas já seguem ou estão em processo de adoção da norma”, revela Pacheco.

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Avião – Nem todos são defensores ardorosos da ISO 14001 para a gestão dos processos ambientais das empresas.

Alguns críticos lembram que ela apenas controla o conhecimento que uma empresa tem da gestão de uma política de proteção ambiental, não controla dados como a emissão de poluentes ou o investimento no combate à prevenção de acidentes.

Para quem apoia a tese, os vários acidentes graves provocados por descuidos de corporações certificadas são uma prova de sua pouca eficiência.

O argumento não é aceito pelos especialistas. Prestes admite que a norma não garante o desempenho do sistema de gestão ambiental de uma empresa, se resume à instrução ao usuário de como gerenciar um processo industrial dentro de condições favoráveis à eliminação de riscos.

Mas acha que esse aspecto já é dos mais elogiáveis. Para justificar seu ponto de vista, utiliza uma metáfora. É impossível eliminar todos os riscos de acidente de uma aeronave em pleno vôo. Mas quanto mais um avião é mantido por uma equipe de manutenção bem preparada, maiores as chances das viagens serem tranqüilas.

Pacheco cita outro aspecto que considera essencial. “As normas prevêem as atitudes que as empresas devem tomar quando ocorrem acidentes, elas ficam preparadas para adotarem planos de ação capazes de reduzirem os impactos provocados”, ressalta.

Ou seja, no caso da necessidade de um pouso forçado, é bem melhor contar com um piloto e uma equipe de bordo experientes e treinados do que com novatos.

O conceito de “melhoria contínua” previsto na ISO 14000 é outro aspecto exaltado pelos seus defensores. É preciso obsevar que o texto não faz exigências sobre os investimentos que serão destinados ao aperfeiçoamento da gestão do controle ambiental.

Dessa forma, duas empresas concorrentes que obtenham o certificado no mesmo dia, daqui a três anos podem estar em estágios muito diferentes.

De acordo com suas prioridades e da disponibilidade de recursos, por exemplo, uma pode investir R$ 3 milhões por ano em sua planta em um projeto de preservação da natureza, enquanto outra pode investir apenas R$ 30 mil.

“Mesmo que em níveis diferenciados, é impossível negar que haja um constante progresso na gestão do controle ambiental”, reforça Pacheco.

Outro defensor do texto, Cajazeira mostra-se otimista em relação ao futuro. Para ele, considerando-se que mais de 36 mil empresas de todo o mundo já contam com sistemas de gestão baseados na norma, é de se esperar que o desempenho ambiental do planeta tenda a melhorar.

Ele reconhece que o quadro atual é preocupante e justifica a sensação sentida pelas pessoas de que a proteção à natureza não tem evoluído de maneira satisfatória.

Mas aponta o livro The Skeptical Environmentalist (“O Ambientalista Cético”, lançado no Brasil pela editora Campus), escrito pelo professor dinamarques Bjorn Lomborg, para justificar sua opinião.

“Baseado em fatos, e não em mitos, o autor demostra que houve, nos últimos anos, uma melhora em praticamente todos os indicadores ambientais mensuráveis”, garante.

Rhodia certifica unidade em Paulínia

No último mês de dezembro a Rhodia comemorou a obtenção do primeiro certificado da ISO 14000 em uma planta instalada no Brasil.

O feito pertence à unidade Rhodia PI – Intermediários Poliamida, localizada em Paulínia-SP e fornecedora de uma variada gama de substâncias aproveitadas pelo setor têxtil e de polimerização.

O certificado foi dado pela auditora BVQI e vale para as unidades de produção de todos os produtos da planta: ácido adípico, ácido nítrico, hexametilenodiamina (HMD), sal nylon, cicloexanol, diácidos e dioro (mistura de ácidos dicarboxílicos de cor amarelada obtida na produção de ácido adípico).

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De acordo com Pascal Chavon, diretor da Rhodia PI para a América Latina, essa é a primeira certificação ISO 14001 em uma unidade do gênero da multinacional em todo o mundo.

O grupo também conta com plantas de intermediários poliamida em Chalampé e Belle Étoile (França) e em Onsan (Coréia do Sul).

“Essa certificação reforça os trabalhos que desenvolvemos junto ao mercado, em particular junto aos nossos clientes”, afirma o executivo.

O trabalho de adequação da fábrica teve início em janeiro de 2002 e foi desenvolvido a partir da atuação de um grupo multidisciplinar de profissionais.

Química e Derivados: ISO: Vanessa - projeto será estendido a outras plantas.
Vanessa – projeto será estendido a outras plantas.

“A adaptação não foi difícil, pois a Rhodia já adota, em todas as suas plantas, o sistema de gestão Simser +, desenvolvido internamente e também bastante rigoroso”, informa Vanessa Silva, assistente do sistema de gestão que acompanhou o processo em tempo integral.

Vanessa conta que antes mesmo do início dos procedimentos de adoção da ISO 14001, a empresa havia investido US$ 2,6 milhões em dois grandes projetos ambientais na mesma unidade, batizados de Gama e Denox.

O primeiro reduziu em 90% o volume de efluentes gerados pela unidade de HMD e o segundo contribuiu para o fim da emissão de gases nitrogenados na produção de ácido nítrico. A Rhodia, agora, deve partir para o projeto de adoção da norma em outras unidades nacionais.

Empresas adotam normas integradas

Atender a clientes cada vez mais exigentes em tempos de acirrada competitividade vem exigindo um grande esforço por parte da indústria e que, para sobreviver, tem a obrigação de oferecer produtos de reconhecida qualidade e, ao mesmo tempo, manter uma imagem positiva junto à comunidade.

Uma ótima oportunidade para investir não só na obtenção do certificado da norma ISO 14000, voltada para o controle da gestão de sistemas de proteção do meio ambiente, mas também o da ISO 9001/2000, dirigida à administração de procedimentos voltados para a manutenção da qualidade dos produtos, e o da OHSAS 18001, criada para monitorar iniciativas que elevem a segurança e a saúde dos trabalhadores.

Esse quadro explica uma das preocupações atuais das corporações, a de aproveitar o fato de todas essas normas serem orientadas para o gerenciamento de processos para adotá-las de maneira integrada.

A otimização de atividades de conscientização e treinamento dos funcionários, a possibilidade de melhorar a comunicação entre as partes interessadas e a redução da burocracia são alguns dos benefícios das empresas que estão interessadas ou já obtiveram mais de um certificado.

Química e Derivados: ISO: grafico_iso04.Esse interesse fica claro avaliando-se o resultado da pesquisa Sistemas Integrados de Gestão (SIG), realizada no início do ano pela QSP, entidade voltada para a disseminação de técnicas de qualidade, segurança e produtividade, junto a 134 empresas brasileiras certificadas em pelo menos uma das normas.

No universo total das entrevistadas, 82 empresas (61,2%) revelaram já contar com SIGs.

Entre estas, 63% atuam com normas ambientais e de qualidade, 27% unem os procedimentos ambientais, de qualidade e segurança e saúde, e 6% preferiram unir as normas ambientais e de segurança e saúde.

Entre as 52 que ainda não adotaram a solução integrada, 36 pretendem adotá-la no futuro, das quais 34 dentro de um prazo máximo de dois anos.

“Muitas empresas em todo o mundo têm defendido a criação de uma norma ISO única, que ao mesmo tempo oriente os sistemas de gestão voltados para a qualidade, meio ambiente e segurança e saúde dos trabalhadores. Não sei quando isso vai acontecer, mas acredito que será inevitável”, aposta Francesco de Cicco, diretor-executivo da entidade.

De acordo com o dirigente, o estudo mostra que embora seja mais difícil implementar os sistemas de gestão em empresas maiores, a maior disponibilidade de recursos e especialistas fez com que tais organizações integrem mais rapidamente duas ou mais normas.

O raciocínio oposto vale para as empresas de pequeno e médio porte.

O grande interesse demonstrado pelas empresas interessadas em adotar a solução, fez a QSP lançar a apostila SIGs – Da teoria à prática, que traz passo a passo os procedimentos necessários para integrar a adoção das normas.

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