Inovações tecnológicas e debates sobre política de saneamento básico

 

Química e Derivados, Linha de membranas de osmose reversa Lewbrane, da Lanxess
Linha de membranas de osmose reversa Lewbrane, da Lanxess

A Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, a Fenasan, em sua 29ª edição, entre 18 e 20 de setembro, em São Paulo, provou novamente ser o ponto de encontro das mais atuais discussões políticas, tecnológicas e comerciais do setor. Apesar do momento de crise e de incertezas político-econômicas no país, o saldo da feira e do congresso foi considerado positivo pelos organizadores e participantes.

Química e Derivados, Membranas de ultrafiltração com fibras ocas, da Inge/Basf
Membranas de ultrafiltração com fibras ocas, da Inge/Basf

Foram computados cerca de 15 mil visitantes nos três dias do evento realizado no pavilhão branco do Expo Center Norte, 1.059 congressistas, além de 199 expositores. No último dia da feira, Olavo Sachs, presidente da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), responsável pela organização, anunciou que a próxima edição, agendada para 17 a 19 de setembro de 2019 – além de ser especial por comemorar os 30 anos de Fenasan e de ter parceria mais consolidada com a alemã Ifat –, já registrava 67 reservas de expositores.

A despeito da avaliação por números da feira e do congresso, o importante para o visitante foi ter tido a sua disposição na Fenasan várias novidades e assuntos importantes sendo debatidos, respectivamente. Para começar pela exposição, não era difícil encontrar empresas até então desconhecidas ao mercado brasileiro, que se mostravam lado a lado de outras já consolidadas no setor de saneamento público e de soluções ambientais para a indústria.

Membranas em alta – Nesse aspecto, chamou a atenção a presença de alguns expositores especializados em membranas filtrantes, tecnologia em ascensão, uns demonstrando a evolução comercial dos seus produtos já há algum tempo disponíveis para comercialização no Brasil, outros recém-participantes na disputa local e mais outros à procura de representações para se estabelecerem naquilo que, apesar dos contratempos estruturais, consideram um promissor mercado.

A coreana Deerfos Membranes é um exemplo de empresa que aposta no aumento da demanda pelas soluções de membranas de ultrafiltração de fibra oca. Com escritório em São Paulo inaugurado neste ano, a Deerfos tem planos de importar da Coreia do Sul skids já prontos com as membranas produzidas pela empresa ou mesmo apenas as membranas em PVDF (fluoreto de polivinidileno) ou PES (polieterssulfona) para reposição ou montagens locais.

Química e Derivados, Membranas da Deerfos são fabricadas na Coreia do Sul
Membranas da Deerfos são fabricadas na Coreia do Sul

Voltadas para processos de separação, clarificação e recuperação, com capacidade de remover partículas microgranulares e micróbios patogênicos, as membranas tipo espaguete de ultrafiltração da Deerfos têm sentido de fluxo de filtragem de fora para dentro. Esse sentido, segundo a empresa, é ideal para a construção de módulos utilizados em tratamento de água de alta turbidez, em razão da alta durabilidade, baixo consumo de energia e de custo operacional.

De acordo com o responsável pelo escritório brasileiro, Diego Narvaes, as membranas de PVDF promovem remoção completa de vírus e micro-organismos patogênicos, têm alta resistência à tração e distribuição uniforme de microporos. Por ter fluxo alto de filtração, permitem operar o sistema em baixa pressão. O material ainda tem alta resistência química, o que preserva as propriedades físicas mesmo após a limpeza química.

A Deerfos, orginalmente produtora de lixas abrasivas há mais de 60 anos na Coreia do Sul, passou a produzir membranas há dez anos na Coreia e ao grupo. Há cerca de cinco anos começou a comercializar as membranas na China e na Índia e, a partir deste ano, estendeu a internacionalização para México e Brasil. Os primeiros skids devem ser fornecidos para fabricantes de autopeças de origem coreana instalados no Brasil e que fornecem para a montadora Hyundai, também daquele país asiático.

Outra apresentação interessante de membranas de ultrafiltração de fibra oca foi da alemã Inge, empresa do grupo Basf e representada com exclusividade no Brasil pela Puri Azul, OEM de São Paulo que projeta os skids com os módulos e membranas da Inge. A tecnologia da empresa, adquirida pela Basf em 2011, tem diferenciais em comparação com outras similares. A fibra oca conta com sete capilares em uma estrutura semelhante a uma colmeia de abelhas que torna sua estrutura estável com alta durabilidade e risco minimizado de ruptura, filtrando a água de sólidos em suspensão e micro-organismos em poros de 20 nanômetros.

Química e Derivados, Encontro reuniu inovações tecnológicas e debates sobre política de saneamento básico

Denominada Multibore, a membrana é disponível em capilares de 0,9 mm de diâmetro ou mais espessa, com 1,5 mm de diâmetro, a depender do nível de contaminação da água bruta. Os sistemas são fornecidos em módulos da própria empresa, com possibilidade de uso de até 2 mil fibras por módulo, que podem ser projetados tanto para pequenas vazões domésticas até os de grande porte para indústria ou estações de potabilização.

Embora o mercado esteja um pouco retraído para investimentos, a Puri Azul conseguiu fornecer a tecnologia para várias plantas no Brasil, principalmente na indústria, caso da Karina Plásticos, da indústria de autopeças Dayco, Chimica Baruel, TetraPak, entre outras. Faz parte dos fornecimentos os módulos de ultrafiltração dizzer, de 8 polegadas, para o mercado horizontal de reposição. Isso permite que os integradores e operadores de sistemas melhorem o desempenho e a confiabilidade de suas plantas de tratamento de água, mantendo os vasos de pressão existentes, sem precisar ajustar o sistema instalado à tecnologia da Inge.

Ainda no mundo das membranas, a Lanxess marcou presença com sua linha Lewabrane de elementos de osmose reversa, produzida em sua fábrica em Bitterfeld, na Alemanha. Tradicional no segmento de resinas de troca iônica, tecnologia teoricamente adversária das membranas em sistemas de desmineralização de água, a Lanxess, segundo seu responsável por vendas técnicas, Johan Lopez, tem conseguido em atuar também com força na reposição de unidades de osmose reversa existentes no país. Recentemente, a empresa venceu concorrência para fornecer 800 membranas na Refinaria de Paulínia (Replan), da Petrobras.

A Lanxess, por ser a principal fornecedora de resinas de troca iônica, tem a vantagem de combinar fornecimentos dos dois sistemas de dessalinização e desmineralização de água. Isso porque, além de haver plantas das duas tecnologias por todo o país, é muito comum se utilizar, em grandes unidades de osmose reversa para desmineralização de água para caldeiras, colunas de polimento misto de troca iônica no final do tratamento, para aumentar a capacidade de remoção de sais do sistema. “Mais do que concorrentes, as tecnologias são complementares”, diz Lopez.

Havia ainda mais estandes onde as membranas eram destaque e em empresas desconhecidas no Brasil A chinesa Vontron Membrane Technology, que produz por ano 30 milhões de metros quadrados de membranas de osmose reversa, nanofiltração e ultrafiltração, estava em busca de representantes para ingressar no mercado brasileiro. A empresa tem linha completa de membranas tubulares de 4 e 8 polegadas, incluindo versões de osmose com alta resistência ao fouling e a oxidantes fortes como o cloro.

Outra chinesa, a Membrane Solutions, também apareceu pela primeira vez para prospectar negócios com OEMs e clientes finais e, possivelmente, conseguir representação local, para sua linha de módulos de osmose reversa, ultra, nano e microfiltração, além de sistemas de MBR (biorreatores a membranas). Segundo o engenheiro de vendas da empresa, Jim Wang, a empresa pode criar soluções customizadas para qualquer tipo aplicação, incluindo os esquemas de processo com pré e pós-tratamento. Também a francesa Polymen Membrane Manufacturer estava à procura de representantes para suas membranas de micro e ultrafiltração de fibra oca.

Cloro in situ – Outras tecnologias, além das membranas, também demonstraram estar em ascensão. Um exemplo pode ser visto no estande da italiana De Nora, tradicional fornecedora de sistemas eletroquímicos e cuja divisão de tratamento de águas e efluentes destacava na Fenasan seus geradores de hipoclorito de sódio.

Química e Derivados, Braga: geração de cloro in situ reduz custos e riscos
Braga: geração de cloro in situ reduz custos e riscos

Segundo o gerente de vendas da De Nora, Diógenes Braga Carvalho, os geradores in situ, que utilizam solução de salmoura a 30% de cloreto de sódio para gerar o hipoclorito de sódio a 0.8% por eletrólise, têm sido cada vez mais requisitados por companhias de saneamento, com destaque as privadas, por conta principalmente da questão de segurança. De acordo com ele, há geradores da De Nora em concessões, por exemplo, da BRK Ambiental, Aegea e GS Inima.

A opção pelos geradores, em primeiro lugar, tem a ver com a questão de segurança e praticidade operacional. Isso porque evita o transporte e armazenamento do perigoso gás cloro a 100%, cujo vazamento é de extremo risco, por ser asfixiante. E também tem vantagem sobre o hipoclorito de sódio a 12%, também perigoso para os operadores.

A De Nora produz os geradores em sua fábrica de Sorocaba-SP e tem disponibilidade de modelos na faixa de 3 kg/dia até 544 kg/dia. Muitos fornecimentos, porém, são feitos com várias máquinas para atender demandas maiores, como é o caso de sistema em operação em Manaus-AM, de 2.750 kg/dia, e outros de 825 e 2.200 kg/dia, em outras concessionárias privadas. No exterior, a De Nora chega a produzir geradores com capacidade até 1.350 kg/dia.

Os eletrodos bipolares da unidade eletrolítica são produzidos no Brasil também, mas o titânio e os metais nobres precisam ser importados, revela Carvalho. A célula eletrolítica opera em alta corrente, mas com baixa tensão, o que garante melhor eficiência energética. O hidrogênio liberado nos tanques pela eletrólise do sal, por segurança operacional, é diluído a uma concentração abaixo de 25% antes de ser liberado para a atmosfera.

Engenharia – Na área de empresas de engenharia de tratamento de água e efluentes, a Aquarum, de São Paulo, prestava informações sobre seus contratos e ofertas de soluções que incluem projeto, implantação e operação de ETAs e ETEs e de estações de reúso, além de projetos de rede de distribuição de água e de redes de coleta, transporte e afastamento de esgoto.

Química e Derivados, Vela: demanda por tecnologia de reúso de água está em alta
Vela: demanda por tecnologia de reúso de água está em alta

Com exemplo recente, o diretor da Aquarum, Francisco Vela, ressalta licitação vencida em agosto para a construção da ETE Franco da Rocha, da Sabesp, conquistada em consórcio com a R3 Engenharia e a Copa Engenharia. A Aquarum será responsável pelo projeto, eletromecânica, gerenciamento e a operação assistida da ETE. Obra de R$ 33,6 milhões, a estação contará com sistema biológico anaeróbio (UASB) e o aeróbio de lodo ativado. Projeto antigo da Sabesp, que finalmente sai do papel, a ETE deve ser erguida em prazo de dois anos. A rede coletora que levará o esgoto para a ETE já está em construção.

Segundo Vela, a empresa está trabalhando bastante também o setor privado de saneamento, o que mostra a agilidade e o empenho desses grupos em investir. Há vários negócios e fornecimentos concretizados e outros em prospecção com concessionárias privadas, de grupos como GSI Inima, Iguá Saneamento e Aegea. Uma demanda em alta para esse setor, por exemplo, são estações compactas de tratamento de esgoto e água, para expansão mais imediata dos serviços.

Ajuda privada – Serviu também, durante a feira, como prova do potencial do setor privado como auxiliar de peso para acelerar a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil a participação da francesa Suez, que aliás comemorou seus 80 anos no país com coquetel em seu estande. Segundo o CEO da Suez Brasil, Charles Chami, o grupo aguarda ansiosamente o estabelecimento de regras mais claras para participar com força no saneamento, seja em concessões ou mesmo PPPs. Nesse caso, considera a aprovação da MP 844 um passo importante. “Há muito dinheiro lá fora disponível para o saneamento, mas para que ele venha para cá é necessário ter segurança jurídica”, diz.

A estratégia da Suez, segundo Chami, é atuar em todas as frentes possíveis, agregando a capacidade de financiamento, de projeto, construção, operação e de uso de tecnologia própria, que inclui extenso portfólio de soluções mecânicas originárias da Degrémont e, mais recentemente, da adquirida GE Water, que além de sistemas também é forte em soluções químicas para tratamento.

Enquanto não volta a atuar em concessões de saneamento, o dirigente lembra que a Suez atua em vários contratos de desempenho para controle de perdas de água com a Sabesp e também de operação com a Cesan e Compesa. Além disso, o grupo passou recentemente a nacionalizar sua especialização em perfuração e operação de poços. A Suez já opera 7 mil poços nos Estados Unidos, França e Espanha e pretende expandir o negócio no Brasil para indústrias e municípios – aliás, já opera 30 poços para a Vale.

Os negócios com o setor privado também é um foco da Suez. Para Charles Chami, as perspectivas são grandes, principalmente por conta da maior rapidez nas negociações, o que não ocorre com o setor público. O know-how do grupo em soluções ambientais vai ser explorado nesse sentido, como ocorre no momento, segundo o CEO, em negociação em curso com um pool de indústrias que teriam o lodo de estações de tratamento de efluentes aproveitados em biodigestor para geração de biogás e fertilizantes.

As soluções ambientais para a indústria no país, dentro da nova estratégia, podem envolver ações semelhantes a outras, implementadas globalmente pelo grupo. Para a Procter & Gamble, por exemplo, a Suez desenvolveu embalagens de xampus com plásticos recolhidos dos oceanos. Com a também francesa L´Oreal foi assinado contrato global para gerenciar e encontrar soluções para água e resíduos, que deve incluir a planta de São Paulo do conhecido produtor de cosméticos.

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