Inovação – Crédito aumenta, mas pequenos têm dificuldades de acesso

Revista Química e Derivados, Inovação, Nem Copa do Mundo nem Olimpíada. O assunto do momento no Brasil é inovação. Pelo menos é o que diz o Google. Em uma rápida consulta no portal de buscas, “inovação” apresentou 24,7 milhões de resultados, o dobro de “Copa de 2014” e três vezes mais que os “Jogos Olímpicos de 2016”.

Longe de banalizar o termo, a inovação está sendo tratada como compromisso pelo governo com seriedade tal que até fez mudar o nome de um ministério. Em outubro de 2011, a pasta passou a se chamar Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Investir é preciso – Os valores liberados para o desenvolvimento de inovação vêm aumentando nos últimos anos no país. E parte deles pode parar no bolso da sua empresa. Para 2012, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve destinar mais de R$ 4,5 bilhões para as linhas de financiamento à inovação – um terço acima do orçado para 2011. Além disso, o banco repassará R$ 6 bilhões em recursos à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep, vinculada ao MCTI) para a contratação de projetos inovadores reembolsáveis, via linhas de crédito – o dobro do valor repassado no ano anterior.

O orçamento da Finep também contará com R$ 933 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), R$ 220 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e R$ 200 milhões do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico das Telecomunicações (Funttel). A soma de todas essas cifras gerou um aporte de caixa recorde para a financiadora. “Hoje vivemos o momento de maior disponibilidade de recursos da vida da Finep. Desde 2004, os valores têm crescido em uma curva exponencial”, afirma Eliane Bahruth, assessora da presidência da agência.

Este ano, o país comprometerá 0,5% do PIB em recursos públicos para inovação, ou seja, mais de R$ 20 bilhões. Apesar de conter muitos zeros e ser equivalente ao PIB de países como Islândia e Ruanda, esse valor está muito aquém das necessidades do Brasil, mesmo quando somado aos R$ 25 bilhões anuais desembolsados pelas empresas privadas em projetos inovadores.

Segundo cálculos da Finep, caso o país queira se tornar uma potência tecnológica, terá que investir de 2% a 2,5% do PIB em inovação tecnológica por ano, sendo pelo menos 1% do PIB (R$ 40 bilhões) desembolsado pelo setor público. Esses são os percentuais de investimento usados como referência nos países desenvolvidos, os mesmos já alcançados por alguns emergentes, como Índia e China.

Pedra no sapato – A China, aliás, tem sido um dos principais algozes da indústria química brasileira. De lá vem grande parte dos insumos que contribuem para o desequilíbrio da balança comercial de produtos químicos. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Químicas (Abiquim), nos últimos doze meses, o déficit chegou a US$ 26 bilhões.

Nesse cenário, o gigante asiático aproveita as deficiências do chamado custo Brasil. “Todas as empresas sofrem com a taxa cambial, há uma grande dificuldade de competir. Com isso, os investimentos de longo prazo mínguam, porque as empresas se preocupam em sobreviver no curto prazo,” ressalta Paulo Coutinho, coordenador da comissão de tecnologia da Abiquim.

De fato, a indústria química tem desacelerado investimentos que não geram retorno imediato. Em 2007, o setor investiu 0,78% do seu faturamento líquido em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). Em 2008, o percentual caiu para 0,77%. Em 2009, para 0,70%. E, em 2010, o setor puxou o freio de mão, investindo apenas 0,58% do faturamento líquido.

Em resumo: a indústria química brasileira está entre a cruz e a espada. Por um lado, a crise do setor pressiona o equilíbrio econômico-financeiro das empresas, que priorizam a sobrevivência no curto prazo. Por outro, não podem parar de inovar e de pensar no longo prazo, sob o risco de perder ainda mais competitividade. Sair desse dilema é uma tarefa difícil, mas muitos têm conseguido.

“Hoje, toda empresa de grande porte do setor químico está inovando”, pontua Paulo Coutinho. E ele vai além: “Mais de 50% das indústrias químicas no Brasil implantaram ou estão em processo de implantar algum tipo de inovação, seja ela

Revista Química e Derivados, Paulo Coutinho, Abiquim, Rafael Navarro, Braskem, químicas inovando
Coutinho (esq.) e Navarro: químicas de grande porte estão inovando

incremental, de produto, ou de processo.” Em geral, a indústria química utiliza recursos próprios para inovar. Mas, segundo Coutinho, “as grandes empresas do setor têm acesso e nunca deixam de utilizar os recursos públicos disponíveis”.

Quem inova mais – A Dow Química, a DuPont e a Basf têm algo em comum. Todas possuem centros de pesquisa instalados no país e têm investido em PD&I. “É interessante estar no Brasil nesse momento. A variedade de fontes de matéria-prima que ainda não foi explorada pela indústria química é muito grande e o país oferece esse desafio”, ressalta Mariana Doria, assessora de assuntos regulatórios da Abiquim.

Foi exatamente o que fez a Braskem. Em 2010, inaugurou uma fábrica moderna de polietileno obtido do etanol da cana-de-açúcar. Em 2007, iniciou as pesquisas para desenvolvimento do polipropileno feito do etanol da cana, de forma sigilosa – e gerou resultados promissores. O produto inovador, que não deverá encontrar concorrência no mercado, terá fábrica construída em 2013, em local ainda desconhecido. Para tanto, a Braskem investe 0,5% de sua receita líquida em inovação, ou seja, R$ 155 milhões, em 2011.

Ao todo, a empresa conta com um time de 298 profissionais dedicados à PD&I, sendo: doutores (16%), mestres (15%), especialistas (44%), graduados (25%) e técnicos (30%). Todos alocados nas áreas de inovação e tecnologia de cada uma das cinco unidades de negócio da empresa. “Quem decide pelo lançamento de um projeto inovador é a unidade de negócios. Isso garante a visão de mercado e a aplicabilidade dos produtos e processos desenvolvidos”, afirma Rafael Navarro, responsável pela gestão, planejamento e estratégia de inovação da área corporativa da Braskem.

Faminta por fomentos, a empresa possui um setor específico dentro da área financeira para cuidar da captação de recursos, mas a interlocução com os órgãos públicos é feita em parceria com o pessoal de inovação e tecnologia, responsável pelo embasamento técnico e pelo orçamento dos projetos.

Quem inova menos – As grandes empresas caminham à frente na gestão da inovação, enquanto as de médio porte permanecem muitos passos atrás. Estudo recente divulgado pela Fundação Dom Cabral (FDC) revela que as médias empresas do Brasil inovam pouco. Quase 80% declara não fazer uso de incentivos à inovação, metade delas pela falta de conhecimento tanto do conceito quanto do “como fazer” para inovar.

Para Fabian Salum, professor e pesquisador da FDC, “as empresas de médio porte não sabem que podem inovar com parcerias, nem com recursos disponíveis no mercado”. E acrescenta: “Ninguém pensa em inovação incremental. Muitos desconhecem que inovação inclui revisão e renovação de processos e serviços. Muitas empresas inovam o tempo todo e nem se dão conta disso.”

Se para as médias empresas o caminho da inovação anda esburacado, as micro e pequenas encontram estradas de terra interditadas ou com desvios. “Empresas pequenas têm dificuldade para conseguir financiamento ou subvenção. Muitas vezes não possuem as garantias nem contrapartidas necessárias para realizar as operações e, outras vezes, nem sabem que há acesso às linhas da Finep, BNDES etc.”, afirma Paulo Coutinho, da Abiquim.

O resultado? A maioria inova quando e como pode. “Em geral, as pequenas e médias empresas químicas que possuem projetos inovadores interessantes utilizam recursos próprios para implantá-los”, sinaliza Mariana Doria, da Abiquim.

Nesse aspecto, as empresas nascentes que estão incubadas em algum centro tecnológico do país, como o tradicional Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) levam uma vantagem competitiva: a incubadora oferece informações sobre onde e quando acontecem os editais para recursos de subvenção econômica – vale dizer: dinheiro a fundo perdido – e alerta os incubados para os prazos de entrega de propostas.

Barreiras para inovar – Apesar do aumento de recursos disponíveis, as empresas químicas encontram barreiras para concretizar seus projetos de inovação. A maior delas, na opinião dos especialistas, é a falta de ferramentas de fomento para viabilizar o piloto semi-industrial, uma etapa fundamental da inovação tecnológica. Afinal, uma produção que se prova viável em escala laboratorial não necessariamente será competitiva em escala industrial. “Existe um gap para o setor que é a primeira passagem da escala de laboratório para a industrial. A subvenção econômica da Finep, por exemplo, não paga esse estágio. Sem isso, a empresa não consegue fazer a planta piloto nem o scale up. Acredito que, por causa disso, muita tecnologia esteja guardada na gaveta”, analisa Paulo Coutinho, da Abiquim.

Outra barreira relevante é a falta de profissionais capacitados para desenvolver inovação. “A indústria química exige gente altamente qualificada. Não temos todos esses profissionais no mercado. Não há massa crítica para sermos grandes inovadores. Precisamos formar mais profissionais”, conclui Mariana Doria, da Abiquim.

Revista Química e Derivados, Reinaldo Giudici, Engenharia Química Poli-USP, dividir as patentes
Giudici: empresas não querem dividir patente

A saída para a escassez de recursos humanos pode estar nas parcerias entre empresas e universidades. O diálogo empreendedor-cientista já melhorou, mas há entraves que envolvem principalmente propriedade intelectual. “Pelo lado das universidades, a pesquisa em parceria com a empresa tem que gerar artigos técnicos e resultados inovadores. Há empresas que não entram em acordo com os pesquisadores porque não querem dividir as patentes”, afirma Reinaldo Giudici, chefe do departamento da Engenharia Química da Poli-USP. Mas, segundo ele, o cenário é promissor: “As parcerias são interessantes para os dois lados e os diálogos tendem a se tornar mais flexíveis.”

O que vem por aí – O reconhecimento da Finep como instituição financeira pelo Banco Central promete ampliar recursos para as pequenas e médias empresas, pela estruturação de fundos de fomento diferenciados. A Finep também está preparando um novo programa para empresas nascentes, que auditaria, com edital ainda este ano, para manter o apoio às pequenas empresas inovadoras.

A criação da Empresa Brasileira de Pesquisas Industriais (Embrapi), parceria entre o MCTI e a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), promete disponibilizar uma série de centros tecnológicos de alta capacidade, no modelo do prestigiado instituto dinamarquês Fraunhofer, oferecendo infraestrutura física para testes e orientação para os projetos de PD&I nas empresas. Enquanto isso, o projeto de lei que cria o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação tramita pela Câmara Federal e pelo Senado sem grandes percalços.

Quanto à indústria química, é consenso entre os especialistas: “países que desenvolveram uma indústria forte, desenvolveram uma indústria química forte”. O BNDES entendeu isso. Abriu consulta pública para um estudo que mapeará a indústria química brasileira, permitindo ao banco desenhar instrumentos de fomento mais adequados ao setor.

Leia mais sobre inovação:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.