Indústria química brasileira sofre para superar momento difícil

Perspectivas 2024 - Setor sofre para superar momento difícil enquanto governo divulga plano de incentivo à produção local

Algumas vezes é difícil ver a parte meio cheia do copo. A indústria química brasileira passa por um momento difícil, consumindo matérias-primas de alto preço e baixa disponibilidade enquanto enfrenta concorrentes globais agressivos, com capacidade produção crescentes e mercados retraídos.

Os pleitos setoriais têm encontrado guarida no atual governo, que restituiu o Regime Especial da Indústria Química (Reiq), abatendo ligeiramente a carga tributária incidente sobre os insumos da primeira geração petroquímica, bem como elevou a alíquota do imposto de importação de químicos, voltando a aplicar a eles a Tarifa Externa Comum do Mercosul, sem exceções, ambos os movimentos apoiados diretamente pelo vice-presidente da República Geraldo Alckmin, que também responde pela pasta do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Presença mais ilustre no Encontro Nacional da Indústria Química (Enaiq 2023), em dezembro passado, enquanto ocupava interinamente a presidência, Alckmin ressaltou a retomada desses benefícios, cancelados no governo anterior, e a sua proximidade com a atividade petroquímica desde quando foi governador do Estado de São Paulo, onde se situa o polo petroquímico de Mauá e um grande parque químico distribuído pelo Estado.

Alckmin preparava, então, o terreno para a grande novidade federal, anunciada em janeiro de 2024: a Nova Indústria Brasil (NIB), a proposta de uma política industrial que prevê a aplicação de R$ 300 bilhões nos próximos anos para estimular a produção industrial e o desenvolvimento científico e tecnológico. Ambicioso, o plano ainda requer detalhamento e determinação de focos, agora chamados pelo nome de “missões”, planos que envolvem vários setores da sociedade e segmentos industriais.

Por ora, a indústria manifestou seu agrado com a nova política, embora tenha enfatizado a necessidade de proteger a atividade existente contra importações que ameaçam a continuidade de suas operações. Para alguns analistas, a NIB é uma coletânea de planos executados no passado com pouco sucesso, tanto que setores “apoiados” continuam dependentes de medidas governamentais. Mas é forçoso reconhecer que, sem algum tipo de auxílio e desprovida de objetivos claros, a atividade industrial tende a minguar por aqui.

Há quem entenda que um país deve se dedicar às atividades nas quais tenha óbvias vantagens competitivas. No caso brasileiro, isso implicaria concentrar todas as fichas na produção agropecuária e mineral. Porém, há nessa visão um grave risco embutido para a continuidade até mesmo desses negócios. A agricultura, por exemplo, depende de fertilizantes e defensivos importados que poderiam, em parte significativa, ser fabricados por aqui. Aliás, as matérias-primas para fertilizantes constituem o principal item na pauta das importações químicas brasileiras.

Além disso, cabe verificar que as relações internacionais mudaram muito nos últimos anos. O milênio foi inaugurado sob a égide do multilateralismo e da globalização econômica, posturas que trouxeram resultados extraordinários em geração de riqueza e redução da miséria em todo o planeta, mas que chegaram a um limite. A exuberância do crescimento chinês, por exemplo, passou a incomodar vários outros países, motivando retaliações. No governo Trump, por exemplo, foram instituídas sobretaxas protetivas que chegam a 31,5% apenas contra produtos chineses, além da implantação de muitos procedimentos antidumping. O governo Biden não aliviou essas proteções. A Europa também adotou esse figurino, embora com outros meios.

Com a pandemia da Covid-19 e os problemas enfrentados pelas estruturas logísticas internacionais, cresceu a vontade dos consumidores em contar com insumos produzidos no próprio país, ou em outros mais próximos, reduzindo eventuais riscos logísticos. Esse movimento foi nomeado nearshoring. O México, por exemplo, está se beneficiando da proximidade com os Estados Unidos, ampliando a participação de produtos mexicanos no mercado vizinho. Resta saber se o Brasil teria condições de aproveitar essa onda.

Risco imediato da Indústria química brasileira

A situação da indústria química brasileira pede medidas urgentes para sobreviver. “Se nada mudar no mercado, em 2024 o setor vai quebrar por aqui”, alertou André Passos Cordeiro, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Como explicou, o nível de utilização de capacidade instalada do setor no país chegou a 65%, em média, em 2023.

Indústria química: Setor sofre para superar momento difícil ©QD Foto: iStockPhoto
Cordeiro: ocupação baixa da capacidade instalada preocupa

“Isso na média do ano, porque no final do terceiro trimestre a ocupação chegou a 58%, é inviável, aumenta o gasto de energia por unidade produzida”, comentou.

Quando há queda de demanda, a primeira resposta da indústria é formar inventário; a segunda é reduzir a carga processada; a terceira, antecipar paradas de manutenção. “Essas medidas já foram tomadas por aqui e a situação não se normalizou”, alertou. “Existe o risco até de parar a operação de um cracker de nafta.”

Cordeiro aponta o excesso de capacidade instalada nos Estados Unidos e na China como a raiz do problema. Alimentados por matérias-primas de baixo custo (shale gas nos EUA e o óleo/gás com descontos elevados oferecidos pela Rússia, no caso chinês), os projetos não param de surgir em ritmo muito superior ao do crescimento da demanda global. “O ciclo econômico da indústria petroquímica continua existindo, mas agora ele está encurtado, há picos de oferta em intervalos menores, de até três anos”, afirmou.

O atual período de baixa começou em 2022, um pouco depois do previsto, pois a ruptura das operações logísticas afetou as vendas e houve um aumento de demanda para formação de estoques mais robustos em todos os segmentos da cadeia produtiva. “Agora, a navegação voltou ao normal, os preços dos fretes despencaram e a entrega de produtos ficou mais rápida, há uma oferta abundante de químicos no mundo”, apontou. Em 2023, com a normalização da oferta, houve um forte movimento de desestocagem, que também abateu os preços. “O preço médio dos produtos químicos importados pelo Brasil apresentou uma redução de 25,5% em 2023, mesmo assim, o valor total importado chegou a US$ 61,2 bilhões, formando um déficit de US$ 46,6 bilhões, o segundo pior resultado de toda a série histórica”, apontou Cordeiro.

A Ásia, principalmente a China, é a origem de quase 30% de todas as importações, sendo a principal região fornecedora. O executivo da Abiquim informou que o mercado já esperava uma redução de preços em 2023, mas o prolongamento do conflito provocado pela Rússia contra a Ucrânia levou a alterações no fluxo mundial de óleo, gás natural e derivados. “A China já tinha uma capacidade de produção química e petroquímica enorme e passou a receber petróleo e gás da Rússia com descontos entre 40% e 50% do preço de referência, ficou imbatível”, afirmou.

Os Estrados Unidos, mesmo com a proteção adicional de 31,5% instituída no governo Trump para os 80 principais produtos químicos, fora as ações antidumping, registrou queda de 2,7% na sua produção química. “Caiu pouco porque a proteção funcionou e eles também contam com gás natural abundante e barato”, disse.

A Europa apresentou retração de 10,6% na produção química, porém o tombo foi maior na locomotiva do grupo, a Alemanha, onde a redução chegou a 13,7%, nos dois primeiros trimestres de 2023. “Os europeus têm uma proteção diferente, via Reach, o complexo sistema de registro e classificação de produtos químicos, mesmo assim, tiveram desempenho ruim”, salientou. A tendência é de que os europeus venham a barrar a entrada de produtos feitos a partir de carvão, considerados nocivos ao meio ambiente, uma forma de conter a invasão chinesa. Outros países também indicaram retração: Coreia do Sul (13,8%) e Japão (7,3%), por exemplo. No Brasil, a produção recuou 7,2%.

Na outra ponta da mesa, a China ampliou sua produção em 9,2% e a Índia ficou praticamente estável. “Ambas recebem óleo russo, aliás, a oferta química russa cresceu 5%”, disse Cordeiro, informando que a produção mundial do setor teve aumento de 0,9%.

Na sua avaliação, as dificuldades da indústria química no Brasil permanecem as mesmas de sempre. “Continuamos recebendo gás natural muito caro e com especificação aberta, itens que prejudicam as operações”, apontou. Atualmente, Cordeiro ressalta a falta e transparência na discussão do preço das moléculas do gás (metano e etano, principalmente) e do seu custo de transporte. Hoje, o setor recebe o gás a US$ 16 por milhão de BTUs, dos quais US$ 12 seriam relativos às moléculas e o restante para remunerar transporte e distribuição. A Abiquim considera que o preço ideal seria de US$ 6 a 7, ainda acima da cotação dos EUA. “Precisamos melhorar o diálogo, a Petrobras está com um discurso diferente do que afirma o governo federal, este enfatizando a reindustrialização local”, comentou.

Além do preço e da qualidade, ele reclama da falta de segurança nos volumes ofertados. A entrada em operação da Rota 3, gasoduto que ligará o pré-sal da Bacia de Santos com Itaboraí-RJ, o antigo Comperj, apenas substituirá o suprimento que tem origem na Bolívia. “Não haverá aumento de oferta de gás”, criticou. “Isso tudo desestimula investimentos no setor produtivo.”

Como resultado, Cordeiro informa que o consumo industrial de gás natural no Estado de São Paulo caiu 7% no ano passado. Ele enfatiza a importância de contar com o gás na produção petroquímica, tanto como energético, para fornos e caldeiras, como na forma de matérias-primas. “Fazer etano de gás natural chega a ser mil dólares por tonelada mais econômico, considerando os preços dos Estados Unidos, do que produzir com nafta”, salientou.

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FATURAMENTO DE PRODUTOS QUÍMICOS DE USO INDUSTRIAL

Nas condições atuais, mesmo com imposto de importação entre 11% e 12%, é difícil justificar novos projetos químicos no país. “A Argentina tem muito gás em Vaca Muerta, mas é pouco atraente para investimentos por causa da instabilidade econômica e política, aliás toda a América do Sul está ficando para trás em investimentos no setor”, verificou.

A Abiquim montou um grupo de trabalho com a Petrobras para discutir essas questões, mas não teve respostas. “Precisamos de metano para produzir fertilizantes nitrogenados e de etano para o polo petroquímico do Rio de Janeiro, além de preços mais baixos também para o consumo como energético”, reforçou. No caso dos fertilizantes, segundo avaliou, o programa oficial de desenvolvimento dessa indústria se refere às compras de máquinas e equipamentos, mas pouco afeta a matéria-prima. “A Lei do Gás prevê livre acesso às estruturas de transporte e abertura da UPGNs (unidades de processamento de gás), mas não vai adiante e ninguém briga por isso”, lamentou.

O caminho natural para desenvolver o processamento e transporte do gás é permitir que as frações líquidas suportem os custos de implantação e operação das UPGNs. “No mundo inteiro é assim, as correntes líquidas bancam os custos de separação, mesmo porque elas são mais valiosas do que o gás seco, o metano; aqui no Brasil é o contrário, como o metano é vendido muito caro, a separação não vale a pena”, explicou. Ao mesmo tempo, a Petrobras colocou novamente no seu Plano de Negócios o retorno aos investimentos em termelétricas a gás e/ou com aumento da reinjeção de gás nos poços de extração de petróleo, usos que não favorecem a industrialização.

Sem contar com suprimento de gás, o setor estuda projetos com matérias-primas de fontes renováveis, as linhas da alcoolquímica e oleoquímica. “Queremos abrir essa frente, já há grandes empresas atuando nisso, por exemplo, a Braskem e a Rhodia com etanol, mas pode ser complicado para ampliar a escala”, avaliou.

Cordeiro, porém, tem uma esperança: os analistas internacionais apontam para 2025 a virada do ciclo petroquímico, ou seja, a demanda global voltaria a alcançar a capacidade de produção, puxando os preços e margens para cima. Mas será preciso sobreviver até lá.

Janelas abertas para a Indústria química brasileira

A indústria química precisa aproveitar as oportunidades que se apresentam para iniciar um ciclo de investimentos em novas tecnologias e capacidades produtivas no Brasil. João Luiz Zuñeda, sócio fundador da consultoria MaxiQuim, enxerga duas janelas sendo abertas para o avanço do setor: uma na petroquímica e outra em fertilizantes nitrogenados. “Só receio que as duas janelas se abram ao mesmo tempo e uma prejudique a outra”, afirmou.

Zuñeda que a posição econômica do Brasil no cenário internacional é sólida, com um superávit comercial aproximado de US$ 100 bilhões obtidos principalmente de produtos agropecuários, minérios e commodities do setor de óleo e gás.

Indústria química: Setor sofre para superar momento difícil ©QD Foto: iStockPhoto
Zuñeda: petroquímica avançará com novo acionista na Braskem

“O país já está inserido no mercado internacional, compramos e vendemos de e para vários países”, disse. O problema está na baixa competitividade da indústria nacional, que depende de taxas e proteções para sobreviver.

O setor petroquímico realizou grandes investimentos na sua implantação, nas décadas de 1970 e 1980. “Faz quase 20 anos que não há um grande investimento do setor no Brasil, mas a demanda cresceu nesse período gerando déficit comercial”, apontou Zuñeda. E a desindustrialização química (a jusante) também prejudicou o setor.

A janela de oportunidade começa com a reforma tributária, que pode deixar patente as deficiências tecnológicas e estruturais do setor, como afirmou o consultor especializado. “Os tributos excessivos escondem o problema”, disse. Além disso, o país precisa avançar em educação e nas estruturas logísticas para alicerçar o desenvolvimento industrial.

A oportunidade ficará mais clara com a definição do destino da participação acionária da Novonor (ex-Odebrecht) na Braskem, maior empresa do setor petroquímico no Brasil. “Acredito que a Petrobras e a Adnoc, empresa do setor petrolífero de Abu Dhabi, entrarão em acordo e ficarão com o controle da Braskem e isso dará início a um novo ciclo de investimentos”, afirmou Zuñeda. Para ele, a combinação das duas grandes petroleiras garantirá a participação brasileira nas operações e também maior oferta de matérias-primas a preços competitivos internacionalmente, com transparência.

Enquanto conversa com a Adnoc, a Petrobras busca retomar a refinaria de São Francisco do Conde-BA (a antiga Landulpho Alves de Mataripe – Rlam, hoje denominada Acelen), comprada no governo passado pelo Mubadala (fundo soberano de Abu Dhabi, mesmo país de origem da Adnoc), conforme termo de cessação de conduta estabelecido pelo Cade. “Pode haver algum tipo de acordo entre as partes, mas penso que a retomada da refinaria pela Petrobras seria um retrocesso”, afirmou.

O momento atual é de baixa no mercado químico mundial, superofertado. “Projetos de investimento precisam começar na baixa para que possam entrar em operação e ofertar resinas no começo da fase de alta”, alertou. Porém, ressaltou que esses projetos só saem do papel quando dispõem de matérias-primas e custo de capital adequado.

No caso brasileiro, os juros estão muito elevados e inibem os investidores. “Com duas petroleiras de grande porte no comando, a Braskem teria acesso a recursos mais baratos para investir”, afirmou. Ele recorda que a companhia aproveitou ciclos de baixa anteriores para comprar empresas e suas capacidades nos Estados Unidos e Europa. E ainda construiu sua operação no México. “Ela obtém a metade de seu faturamento no exterior, está na hora de voltar a investir aqui.”

Zuñeda considera que a oferta de gás natural é baixa no Brasil e isso se explica pela tecnologia adotada pela Petrobras para explorar o pré-sal. “Escolheram a tecnologia que mais utiliza a reinjeção do gás nos poços para manter a produção, podem adotar outra nos projetos futuros para liberar mais gás para o mercado”, salientou. “Ou se faz isso, ou se busca integração com o gás natural da Argentina.”

Renovação estratégica

A chamada transição energética exige mudanças na visão de longo prazo das empresas de óleo e gás. As projeções de entidades como a Agência Internacional de Energia (IEA, dos Estados Unidos) indicam uma queda acentuada no consumo de derivados de petróleo a partir da metade deste século, decorrente da adoção de propulsores elétricos nos autoveículos.

“No longo prazo, a petroquímica será uma boa opção para as petroleiras colocarem seus derivados de óleo, gás e refino”, comentou Zuñeda. “Mas é preciso salientar que o petróleo ainda será muito consumido no mundo pelos próximos 30 anos, pelo menos.” Ele se preocupa com abordagens simplistas da questão ambiental, que demonizam os derivados de petróleo em geral e os plásticos em particular. “É impossível e inviável eliminar o uso de materiais plásticos”, considerou.

Falsas percepções podem levar companhias a reduzir investimentos em pesquisa e exploração de reservas de petróleo e gás para aumentar a presença em energias alternativas, movimento que precisa ser feito com muita cautela.

Olhando para trás, o consultor verifica que o Brasil trocou de posição, deixando de ser importador para se tornar exportador de petróleo, enquanto reduziu sua participação na atividade petroquímica. “A Petrobras se concentrou no core business e se saiu muito bem, mas o mercado está mudando e é preciso desenhar novas estratégias”, afirmou.

Na sua avaliação, o atual governo federal tem uma visão muito diferente da executada pelo antecessor. “O governo atual está induzindo ministérios e empresas privadas a promover reformas, ainda não se sabe bem em que sentido, mas é mais proativo”, comentou. Ao mesmo tempo, ele demonstra algum receio de que o Brasil mude de estratégia industrial a cada governo, gerando um ambiente instável que afugenta investidores. “Veja a YPF da Argentia: já foi estatal, privatizaram-na e depois a reestatizaram; a mexicana Pemex sofreu tantas intervenções dos governos que acabou se tornando irrelevante”, enfatizou. “É preciso ter um plano consistente e de longo prazo.”

A entrada da Adnoc na Braskem, dividindo o controle com a Petrobras, seria a forma de o país montar uma política ambiciosa para a petroquímica, com efeitos positivos na cadeia a jusante. “É preciso definir se será escrito um novo capítulo ou um novo livro na história da petroquímica brasileira. A entrada do Adnoc seria um novo livro, com personagem novo”, comentou.

Nesse sentido, a troca de ciclo político também reforça a janela de oportunidade para a petroquímica. Zuñeda considera que há um onda protecionista global ganhando força desde a pandemia, promovendo a formação de diversos tipos de protecionismo. “Há projetos de investimento sendo executados em regiões que não são competitivas, eles só se justificam com algum tipo de proteção, isso o Brasil também pode fazer, ou seja, seguir a moda”, afirmou.

Projetos bons sempre encontram financiamento fácil. Porém tributação e incentivos entram no pacote, embora isso possa reduzir a aceitação por parte dos investidores estrangeiros. “Isso pode encarecer o projeto, mas é algo comum na América Latina, Oriente Médio e até na China”, disse.

Zuñeda considera que questões como preços e inflação não devem afetar a decisão de investimentos, que precisa ser tomada com os olhos no longo prazo. “A retomada de investimentos na América Latina não virá apenas da inciativa privada”, adverte.

Economia circular

Do ponto de vista da sustentabilidade, Zuñeda comentou que as petroquímicas globais já aderiram às práticas de economia circular, incluindo a reciclagem (química ou mecânica) nas suas operações. “Já estão retirando plásticos de aterros sanitários para reciclar, existe dificuldade para conseguir resíduos para alimentar as linhas de reciclagem”, observou.

Na sua avaliação, é preciso melhorar a regulamentação da reciclagem no Brasil para que ela possa cumprir o seu papel na circularidade dos plásticos. “Movimentos para banir plásticos acabam prejudicando os recicladores, além da indústria de resinas”, disse.

O uso de matérias-primas renováveis para a produção de plásticos é considerada como uma realidade de mercado, mas com limites para expansão. “A Braskem já usa etanol para alimentar a produção de algumas linhas de polietileno, por exemplo, com sucesso”, apontou. “Essa opção, assim como os bioplásticos, são complementos à produção petroquímica, mas não a substituirão.”

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Planejar é preciso

Os consultores José Borges Matias e Auri Marçon, sócios proprietários da Mastersenso, entendem como exagerado o pessimismo expresso por lideranças do setor químico e petroquímico. “Sabemos que a indústria passa por ciclos, estamos numa fase de baixa, mas vai virar e voltar ser atraente”, afirmou Matias.

Na visão da Mastersenso, o Brasil conta com matriz de energia limpa, tem fontes de insumos naturais renováveis em quantidade razoável, mas sofre com matérias-primas convencionais muito caras. “É preciso contar com um plano de longo prazo para proporcionar um futuro melhor para o setor”, considerou Marçon. Ambos consideram que o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022 e que tem metas de curto, médio e longo prazo (até 2050), um começo e exemplo para novas iniciativas.

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Matias: unidades modulares de hidrogênio podem ser viáveis

“Em 2023, o alto custo de matérias-primas para química e petroquímica ficou muito evidente, tornando indispensável a discussão sobre planejamento setorial e sobre a oferta de gás natural, ou alternativas, talvez considerando a aproximação com a Adnoc”, afirmou Matias.

O discurso oficial sobre reindustrialização exige atenção maior ao setor químico, pela participação dos seus produtos em todas as cadeias produtivas. “Hoje, estamos perdendo mercado nos fertilizantes, mas as resinas plásticas estão sofrendo muito, assim como a transformação plástica”, salientou Marçon.

Também presidente da Associação Brasileira do PET (Abipet), Marçon entende ser necessária uma estratégia de cadeias produtivas nos plásticos, envolvendo a produção de resinas, sua transformação e utilização. “O setor da transformação é muito pulverizado, seria interessante promover uma consolidação que aumentasse a sua competitividade”, comentou.

Matias salienta, porém, que há um retrospecto de planos nacionais naufragados por falta de continuidade na sua execução. “Quando muda o governo, os planos são esquecidos, isso não pode acontecer mais”, criticou. Os consultores entendem que o PNF tem boas chances de sucesso, pois está bem organizado e indica receber gás natural entre US$ 6 e US$ 9 por milhão de BTU.

Como afirmou Matias, há anos se nota uma baixa vontade política de governos, empresas e até consumidores em mudar a situação atual, que favorece importações de produtos intermediários e finais com preços aviltados. “Parece que agora há uma vontade política nesse sentido, espero que se mantenha”, disse, ressaltando que não se pode abrir mais o mercado local aos importados sem haver um planejamento prévio. “O mercado internacional está com excedentes enormes que estão entrando aqui.”

O consultor aponta que a China impõe poucos tributos intermediários nas cadeias de produção. No Brasil, cada etapa tem seus encargos. “A indústria química chega a arcar com 45% de carga tributária, isso inviabiliza qualquer atividade”, avaliou. Ainda é prematuro, para eles, dizer que a recente reforma tributária vai aliviar o peso dos tributos, sendo necessário aguardar a regulamentação.

Ao elaborar planos, Matias recomenda observar aquilo que gera mais riquezas para o país. “O Ministério do Desenvolvimento olhava para inovação, mas isso não é estratégia”, criticou. Ele ressaltou que Brasil conta com muitos insumos convencionais e bioinsumos, tem pessoal altamente qualificado, possui uma capacidade industrial já instalada e uma infraestrutura operacional, embora com deficiências. “Em alguns casos, nem precisa ampliar capacidade, apenas mudar os insumos para gerar produtos mais competitivos”, afirmou.

Ele citou o exemplo da Alemanha, planejadora por excelência. O país não tem matérias-primas químicas, nem energia limpa, mas vende equipamentos e máquinas de alta qualidade e tecnologia. “Além disso, fazem os melhores equipamentos e financiam a sua venda para outros países, numa atividade que é realizada em várias etapas e emprega muita gente qualificada”, informou. A Itália também, com algumas diferenças, entre elas as empresas familiares, se destaca na produção de maquinários. “A ideia é vender Capex (despesas com capital fixo).”

Com base nos estudos de projetos, identificam-se os mais interessantes para o país em valor. “Daí se estuda o que está dando errado, pode ser a escala, a tecnologia empregada, a pulverização excessiva de empresas ou a concentração abusiva em monopólios”, comentou Matias.

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BALANÇA COMERCIAL DE PRODUTOS QUÍMICOS DE USO INDUSTRIAL (em US$ bilhões)

Marçon adverte para a necessidade de o Brasil gerar empregos de qualidade para a população jovem que chega todos os anos ao mercado de trabalho. “Não importa se é investimento público ou privado, se a empresa é nacional ou estrangeira, se a verba sairá da União ou dos Estados, o que interessa é que esses investimentos sejam feitos aqui”, frisou. Da mesma forma, estratégias de fusões e aquisições, uma das atividades desenvolvidas pela Mastersenso, contribuem para ampliar a escala das operações e reduzir seus custos. Mesmo no campo dos fertilizantes agrícolas é interessante contar com uma estratégia de consolidação.

Matias recomenda ao setor químico um olhar atento para energias renováveis, uso mais intensivo de gás natural em seus processos, adotar bioinsumos, especialmente na agricultura, e também produtos de origem natural, como o monoetileno glicol verde.

“Os processos industriais são ainda tradicionais, isso vai mudar algum dia e será bom para o Brasil, que tem recursos naturais e pessoal qualificado, mas nos falta dinheiro para investir”, afirmou Matias. Como resultado, as mudanças tendem a demorar mais por aqui.

O hidrogênio é considerado um recurso energético alternativo para quem tem energia muito cara, por exemplo, a Europa que ainda sofre com o corte de suprimento de gás russo e com as restrições à fonte nuclear. “Não é um negócio muito atraente, grandes projetos globais estão atrasados e se percebe que a rentabilidade só virá no longo prazo”, avaliou. “Não é uma solução que serve para todos.”

No caso brasileiro, ele recomenda avaliar bem a utilização do produto, bem como as perdas do processo – por eletrólise da água, há uma emissão de oxigênio que pode ou não ser aproveitada. “As correntes de hidrogênio podem dar origem a amônia ou etanol, quando ele não for usado como energético, mesmo assim, são processos pouco eficientes que necessitam de desenvolvimentos adicionais”, considerou. “Unidades modulares próximas aos pontos de consumo podem ser interessantes, usando o oxigênio nos queimadores, talvez.” Esse tipo de projeto combina o uso de energias renováveis (eólica ou solar) com termelétricas a gás para permitir operação contínua do sistema, sem ociosidade.

Indústria química brasileira: Transição para o futuro

As circunstâncias atuais podem levar a crer que a indústria petroquímica nacional chegou ao fim da linha e que deve perder força. Não é o que entende Carlos Fadigas, ex-CEO da Braskem e CEO e fundador da CF Partners, que atua nas áreas de gestão, fusões e aquisições, e reorganização empresarial, com ênfase em indústrias.

“A petroquímica do Brasil tem um grande futuro, pois tem um mercado local grande, com PIB expressivo e consumo de plásticos elevado”, ressaltou. Além disso, Fadigas aponta como aspectos favoráveis ao desenvolvimento do setor a ampla base de hidrocarbonetos, em especial de gás natural, cuja oferta vai aumentar com os novos dutos que ligam o continente à região do pré-sal, bem como de nafta.

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Fadigas: globalização e livre mercado foram abandonados

“A crescente eletrificação dos automóveis vai liberar mais nafta para outros fins, dos quais o uso como carga petroquímica é o mais interessante.”

Outro fator positivo é a existência de um parque industrial petroquímico de boa qualidade e escala, operando com ociosidade, o que permite ampliar a oferta rapidamente. “Temos uma base sólida para crescer, por exemplo, as plantas de polietileno e de prolipropileno do Rio de Janeiro podem ser duplicadas com baixo investimento”, afirmou, com a experiência de quem comandou a integração com os negócios de PP adquiridos da Dow e a construção da operação da Braskem no México.

Como fator negativo, Fadigas critica a presença de um ambiente ácido para a industrialização local, com a persistência do famigerado custo Brasil e a permanência de preços muito altos das matérias-primas petroquímicas. “Precisamos ter uma agenda clara para redução do custo Brasil, a começar pela reforma tributária que precisa trazer algum alívio para a atividade industrial”, comentou.

Ao mesmo tempo, Fadigas recomenda acompanhar as mudanças nas relações internacionais que envolvem produção e comércio de químicos, bem como de outros produtos. “A globalização acabou, os Estados Unidos criaram um programa trilionário de incentivos à produção interna, a Europa também está reagindo da mesma forma, e até o Japão criou mecanismos de estímulos, todos apontando para a transição energética, mas que terão efeitos limitadores da concorrência estrangeira”, apontou. “A China vem concedendo esse tipo de benefícios há muito tempo e é uma das razões pelas quais esses países mudaram sua política em relação à globalização; a China está apostando na autossuficiência.” A pandemia e as guerras subsequentes só agravaram o quadro.

Essa mudança de critérios produz mudanças no conceito de cadeia global de suprimentos, dando força ao nearshoring e/ou friendshoring (comprar de países alinhados). “Esse cenário até favorece a Braskem, que tem fábricas nos Estados Unidos e na Europa”, avaliou.

Ao Brasil, é fundamental reduzir suas deficiências internas, manter estável a moeda e reduzir a taxa de juros para incentivar novos investimentos industriais. “Além disso, é preciso contar com eficientes mecanismos de tributação sobre importações e antidumping contra práticas desleais; para tanto, o governo precisa ter equipes com tamanho e qualificação compatível”, recomendou.

Os planos de desenvolvimento precisam levar em conta o efeito multiplicador dos produtos petroquímicos, as resinas, em especial, na economia como um todo. “É fácil perceber isso, principalmente quando a matéria-prima é ligada ao governo”, disse. Como explicou, o BNDES, Mdic, Abiquim e outras entidades contam com equipes qualificadas para fazer essas avaliações. “Precisamos ver qual o papel do Brasil no mundo, antes de tudo”, afirmou.

Há várias visões sobre o futuro da indústria química num mundo cada vez mais competitivo. Temos na manga as cartas da matriz energética limpa, dos insumos de origem renovável e a aptidão para desenvolver produtos de origem biológica. Mas precisamos vencer obstáculos antigos e sempre criticados, já transformados em sujeito próprio, o tal custo Brasil. Entre o copo meio cheio e meio vazio, talvez seja preciso avaliar o superdimensionamento do copo.

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