Indústria Química

Indústria química se prepara para a retomada pós-covid

Marcelo Fairbanks
2 de julho de 2020
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    O novo coronavírus, causador da Covid-19, também atingiu a indústria química, embora o índice de contaminação dos seus trabalhadores tenha permanecido muito baixo e não tenha havido interrupção de suprimentos, muito menos algum tipo de apagão logístico. O dano causado pelo vírus veio da paralisação das atividades na ponta das cadeias de produção, a mais próxima dos consumidores finais. Sem demanda, foi preciso ajustar a produção, elevando a ociosidade das instalações.

    O engenheiro Ciro Marino, presidente-executivo da Abiquim

    O engenheiro Ciro Marino presidente-executivo da Abiquim, Marino é um profundo conhecedor do setor químico, no qual atua desde 1982.

    “A indústria química brasileira não parou em nenhum momento as suas atividades, mas a ocupação das capacidades instaladas caiu para um número entre 50% e 60%”, comentou Ciro Marino, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). No fim de junho, o setor já traça estratégicas para voltar ao ritmo normal de produção.

    “Precisamos acompanhar a retomada da economia com cuidado, a indústria está rodando com baixa carga e, portanto, com um peso muito grande dos custos fixos, enquanto os componentes dos custos variáveis, como gás, nafta e eletricidade, continuam muito caros, não houve nenhuma melhoria em relação aos anos anteriores”, salientou Marino.

    Ao mesmo tempo, os concorrentes asiáticos e europeus, que foram os primeiros a sofrer com a pandemia, agora são os primeiros a operar normalmente. Porém, como a demanda global segue fraca, eles exportam produtos por um valor suficiente apenas para cobrir os custos variáveis, puxando para baixo as cotações. “Os têxteis fabricados na China chegaram ao Brasil, em junho, com 70% de desconto em relação aos preços de dezembro, é uma concorrência abusiva”, criticou.

    Marino cobra do governo federal uma política mais firme de defesa comercial dos interesses nacionais. “O problema que precisa ser resolvido está no lado dos nossos custos de produção; os preços administrados, por exemplo, são muito mais altos que os praticados no exterior”, apontou. E o imposto de importação tem alíquotas muito baixas (6% nominal, que resulta em 3% de alíquota média efetiva), insuficientes para compensar o famigerado custo Brasil.

    “Temos um bom relacionamento com o governo, especialmente com o Ministério da Fazenda, com reuniões frequentes e produtivas, mas há ainda muita coisa para se resolver”, salientou. Marino comentou que, no início do distanciamento social no país, havia dúvidas sobre a possibilidade de mantar ativas as operações industriais. A Abiquim atuou junto ao governo para incluir a indústria química entre as atividades essenciais, que não poderiam ser paralisadas em nenhuma hipótese.

    Nem poderia ser diferente, pois os insumos químicos são componentes essenciais para a formulação de sanitizantes e produtos de limpeza usados no combate à Covid-19. O álcool em gel, por exemplo, não pode ser feito sem a adição de espessantes. O Ministério da Economia montou um grupo de trabalho para garantir a oferta de produtos sanitizantes e álcool em gel, com bons resultados.

    No campo dos sanitizantes, a Abiquim trava um debate com a Cetesb, a agência ambiental do Estado de São Paulo. “Pedimos a autorização para converter algumas plantas químicas para a produção de sanitizantes e produtos de saúde, mas ainda não tivemos resposta”.

    Desempenho variado – Cada cadeia produtiva obteve resultados diferentes durante a pandemia. O setor automotivo ficou quase 60 dias parado, a indústria têxtil também teve um recesso, assim como a construção civil. “A parada do setor de turismo e hotelaria teve reflexos também na química, pois caiu muito a lavagem de roupas de cama e banho, que consome ingredientes químicos”, explicou Marino. Por sua vez, a venda de embalagem disparou, assim como a de artigos de uso médico e alguns descartáveis, todos eles feitos de materiais plásticos.

    “As resinas sintéticas passaram de vilãs globais a heróis em alguns dias, mas sabemos que a preocupação com economia circular e com o combate à poluição seguirão muito fortes no mundo todo”, salientou. A Abiquim prevê que os segmentos consumidores estejam encontrando problemas para obter crédito, exigindo medidas extraordinárias. “A Abiquim faz parte, ao lado de 14 outras entidades setoriais da indústria, de um grupo que discute com o governo federal medidas para facilitar as operações de financiamento”, disse Marino. O setor espera resultados com a instituição de um fundo garantidor de crédito, pois o governo já destinou verba para isso, mas os operadores financeiros têm evitado assumir riscos e o dinheiro não está chegando a quem dele precisa.

    As grandes empresas desses setores não apresentam problemas de liquidez ou de obtenção de recursos. “As grandes companhias instaladas no Brasil estão financiando seus clientes, seja com dinheiro ou pelo alongamento de prazos de pagamento”, comentou.

    Reformas necessárias – Como explicou o presidente executivo, a indústria química nacional já tinha uma ociosidade elevada antes da pandemia, quando operava 70% da sua capacidade, um nível historicamente muito baixo. “A importação de produtos químicos estava muito alta, já respondia por 45% do mercado total”, avaliou.

    A elevação do dólar frente ao real não ajudou o setor, sendo mais favorável a setores em que as despesas com pessoal são mais significativas. “Somos uma indústria de capital intensivo, e os nossos insumos são todos cotados em dólares, ou seja, não houve vantagem cambial”, comentou. Por sua vez, a queda no preço do petróleo foi positiva, reduziu parcialmente o custo, neutralizando o efeito cambial sobre as matérias-primas. Atualmente, começa a crescer a preocupação com fontes de suprimento estratégicas, capitaneada pelo Ministério da Defesa. Nessa visão, a globalização deslocou a indústria, concentrando-a em uma só região, a
    Ásia. “Com a pandemia, ficou evidente que não fabricamos mais no país insumos básicos e intermediários para a produção de medicamentos, ou seja, ficamos numa posição vulnerável”, comentou.

    No campo da agricultura, no qual o Brasil tem amplo destaque mundial, há uma dependência de fertilizantes e produtos agroquímicos importados. “O país precisa pensar estrategicamente para ter uma base industrial consistente; isso só será feito com investimentos, mas estes dependem muito da concretização das reformas tributária, fiscal e política que precisam ser feitas com urgência”, afirmou Marino.



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