Indústria química: Petróleo barato redesenha setor

A redução dos preços do petróleo e gás natural, em grande parte justificada pelo desenvolvimento de fontes não-convencionais nos Estados Unidos, provocam impactos em toda a cadeia química e petroquímica mundial. Com isso, está sendo redesenhado o mapa-múndi do setor, com deslocamento na direção das matérias-primas mais baratas.

Química e Derivados, Dickson: indústria avança muito pouco em inovação
Dickson: indústria avança muito pouco em inovação

O panorama, porém, é complexo, como adverte Duane Dickson, líder global para a área de indústria química na Deloitte Consulting, braço da Deloitte Touche Tohmatsu (empresa mundial com destacada atuação em auditoria financeira, mas também com forte presença em consultoria empresarial). “A realidade atual privilegia investimentos em shale gas e shale oil nos Estados Unidos, mas verificamos que alguns países do Oriente Médio preferem manter baixo o preço do petróleo, garantindo a oferta”, comentou. Esses países têm interesses geopolíticos para os quais o petróleo barato é conveniente, mas, como ressalta Dickson, eles também estão desenvolvendo seus próprios projetos no setor químico que precisam contar com matéria-prima de baixo custo para ter viabilidade econômica.

“Com o baixo preço do petróleo e derivados, a nafta entre eles, a indústria química europeia recuperou a rentabilidade, pelo menos o suficiente para manter suas capacidades produtivas em operação”, apontou o consultor. Há alguns anos, com a chegada do shale gas, houve um desacoplamento dos preços da nafta e gás natural, este se distanciando muito daquele. Dickson afirma que, recentemente, os preços das duas principais matérias-primas petroquímicas voltaram a apresentar tendências convergentes, mas o gás seguirá sendo mais barato durante um longo tempo.

“Investimentos em novas capacidades produtivas, porém, só aparecem nos Estados Unidos, onde há pelo menos nove crackers de gás natural sendo construídos”. Ele mesmo é um tanto cético quanto à possibilidade de todos esses nove crackers seguirem adiante. Na sua avaliação, a maior parte dos projetos anunciados será concluída e isso levará os EUA a voltar para a posição de exportadores de petroquímicos. Esse fato coloca muito pressão contra projetos semelhantes em outros lugares do mundo, a exemplo da América Latina.

“Como a tendência é de EUA, Oriente Médio e China importarem menores quantidades de produtos químicos e petroquímicos, os produtores latino-americanos não terão muito espaço para colocar seus produtos além da sua região”, avaliou. Com uma exceção: “Os países africanos começaram a crescer e podem ser um mercado complementar para os produtores da América do Sul”, apontou.

Em toda a América Latina, os investimentos petroquímicos sempre tiveram por base os mercados locais, ficando dependentes do avanço do PIB para avançar. Sem o crescimento econômico de cada país, não há como justificar novos projetos no setor. E essa regra continua válida. Por isso, as medidas de proteção de mercado contra importações se tornaram muito populares na região. “Quando as medidas protecionistas ficam grandes demais, elas se voltam contra o próprio país, porque tudo fica muito caro”, comentou. Para Dickson, a taxa de câmbio já constitui uma forma de proteger o mercado local.

Commodities – O panorama atual do setor petroquímico mundial registra a recuperação da atratividade setorial para novos investimentos. Dickson salienta que até as grandes companhias petroleiras voltaram a colocar suas fichas em projetos petroquímicos.

Como explicou, existem no mundo 250 companhias produtoras de químicos – fora outras quase 20 que pertencem aos grupos petroleiros – das quais entre 30 e 40 atuam com commodities e são bem sucedidas. “As demais precisam se diferenciar de alguma forma para poder sobreviver”, disse.

A regra do mercado de commodities consiste em operar com baixo custo, manter um portfólio altamente focado nos mercados e contar com um sistema logístico muito eficiente. “Como decorrência, os produtores precisam ajustar sua produção à demanda, além de manter as plantas em perfeito estado para evitar paradas indesejadas”, disse.

Dickson aponta que algumas poucas companhias ajustarão o foco nos seus negócios, assumindo uma posição de provedoras de soluções, em vez de ser provedoras de insumos. Essa mudança, no entanto, exige alguns investimentos e impõe riscos. “Quem está bem financeiramente vai ficar ainda mais forte no futuro”, comentou.

Estratégia – Na visão do consultor internacional, a situação do momento é favorável para a ampliação do portfólio de produtos, incluindo itens de alta tecnologia. “As indústrias químicas não está indo muito longe em inovação, não estão preparando avanços disruptivos, apenas ganhos incrementais, muito lentos”, criticou Dickson.

Sem avanços fortes de P&D, o setor corre o risco de perder posições de mercado para outros setores industriais, como a indústria metalúrgica e eletrônica. Ele também recomenda ao setor melhorar seu relacionamento com as comunidades próximas, enfatizando os avanços na área ambiental, e atrair novos cérebros para o setor.

Em relação às diferenças de mentalidade entre gerações – começa a entrar no mercado de trabalho a chamada geração Z – Dickson salienta que a indústria química oferece boas oportunidades para os jovens. “Estou no setor há várias décadas e posso garantir que a indústria química é excelente para os jovens, porque desafia a criar coisas novas e interessantes, além de exigir sempre novas competências e habilidades”, afirmou

Segundo Dickson, há 20-25 anos, os investidores globais colocavam o setor químico no seu portfólio por duas razões: era um meio de fazer coisas novas com um custo favorável; e o setor gerava bons lucros, com pagamento de gordos dividendos. Mas o pensamento mudou. “As indústrias passaram a buscar portfólios e estruturas de custos mais lucrativos, levando a desinvestimentos e a deixar o setor com feições mais conservadoras”, disse.

Felizmente, como salienta, “há um novo mundo surgindo, no qual os top performers serão preferidos pelos investidores, enquanto os demais sofrerão para angariar recursos. Racionalização e concentração é o nome do jogo”, afirmou.

O papel da inovação é a peça-chave na formação desse futuro. “Consolidação de negócios e inovação não são mutuamente excludentes, na verdade, inovar está mais ligado à cultura interna do que ao tamanho”, comentou. Ele recomenda às indústrias químicas manter incentivos à inovação, mas com administração adequada dessas iniciativas. “Não se pode perder o foco, nem gastar dinheiro demais com bobagens que não trarão resultados.”

O momento é favorável para as operações de fusões e aquisições no setor, como observou o especialista. Para ele, do lado comprador, o interesse se justifica pelo fortalecimento econômico da companhia, aumento da participação global e melhor equilíbrio da origem das receitas. “Também há quem busque promover mudanças estratégicas, comprando o ingresso a novos mercados, como o de polímeros para a área médica ou para a indústria aeroespacial”, afirmou. Nesse caso, é preciso manter o foco na operação, porque muitas vezes os negócios têm características muito diferentes, com tempos de maturação de projetos incompatíveis. “É necessário ter cuidado com a tirania do core business para não asfixiar algumas iniciativas promissoras”, apontou.

Ameaça biotecnológica – O novo quadro de oferta abundante de hidrocarbonetos coloca em xeque alguns investimentos em processos biotecnológicos. “Usar biotecnologia para substituir commodities petroquímicas ou combustíveis não está fazendo mais sentido”, observou.

Isso não significa abandonar completamente as iniciativas de P&D nessa nova área. Dickson entende que os melhores resultados serão obtidos pelas empresas de biotecnologia que se dedicarem às moléculas mais complexas, cuja obtenção é difícil por meio das sínteses convencionais.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.